- Sérgio? Mas que raio… Que raio estás aqui a fazer? – perguntei, descontrolando-me, quase parecendo ingrata, ou pior, desapontada. Bem, a verdade é que uma parte de mim estava desapontada, porque apesar de a ideia de morrer não ser muito sedutora, a ideia de ter o meu sangue sugado era. Eu sei, doentio, não é?
- Não era suposto estares a esforçar os teus pontos – acusou ele, e parecia genuinamente zangado.
- Os meus… Quê? Como é que sabias que eu estava aqui? – perguntei, desvairada.
- Não sabia, procurei-te por toda a cidade. A ti, ou a ele. Sabia que não o ias deixar andar por aí por si só. E também sabia que, obviamente, não eras capaz de dar conta dele…
- Sou sim – interrompi, com a raiva a faiscar de todos os lados – Estava com o assunto perfeitamente controlado… Não te metas onde não és chamado!
- Ah, agora a gaja que adoro e sem o qual não consigo viver, ainda que a gaja seja uma parva completa, tenta matar-se ao tratar do namoradinho monstro, e não sou chamado ao assunto!
- Ah, obrigada, se isso era suposto soar a elogio ou a declaração romântico, só se foi na tua realidade patética! E estás a ver, és sempre o mesmo! És incapaz de me dar espaço! Nem quando te dou uma tampa digna de se ver tu me largas e deixas em paz!
- Ah, desculpa, para a próxima deixo-te “morrer” em paz… - gritou ele, sarcástico.
Nunca na minha vida discutira assim, tão apaixonadamente com o Sérgio. Também, a verdade era que nunca me tinha sentido com a privacidade tão corrompida como naquele momento… Será que eu não podia correr um perigo que fosse sem aquele idiota aparecer feito cavaleiro andante falhado?
- Já te disse que tinha tudo sobre controlo, presta atenção! – berrei, com o cérebro a esparramar-se contra as têmporas.
- Ai sim? Se não tivesse atirado com um calhau àquele gajo enquanto era tempo, já o teu adesivo bonito tinha saltado e já estavas a caminho do hospital outra vez!
- Podias tê-lo magoado! – acusei, e para ilustrar o que dizia, aproximei-me do Artur e acariciei-lhe a testa, e tentei forçar um ar de preocupação, embora agora, que já tinha passado algum tempo daquele momento hipnotizante antes da mordida, me sentisse já mais grata ao Sérgio por o ter parado naquele instante.
Mas jamais ia admitir isso.
- Oh, sim, estou tão preocupado, ou já te esqueceste da minha adorável nódoa negra? – e apontou com o indicador para a sua própria bochecha, ainda tingida de pretos e amarelos pouco saudáveis.
- A minha preocupação contigo e a tua bochecha estúpida mal dava para encher um dedal – constatei, malevolamente. Depois disto, fiz cara amuada e, ainda ajoelhada junto ao Artur desmaiado, prossegui – Por outro lado, preocupo-me bastante com ele. E estás a ver, o Artur é o único para mim.
- A sério? – perguntou ele, retoricamente. Mas a expressão dele era de tudo menos de ciúme. Caminhou na minha direcção.
Eu não me fiquei. Levantei-me e disse-lhe, com os olhos presos aos dele, com a voz mais calma que consegui arranjar:
- A sério.
E caminhei também na direcção dele, como quem diz “Não tenho medo de ti”.
- Então porque é que ainda hoje foste a minha casa? Porque é que ontem me contaste tudo? Porque é que continuas aqui, a falar comigo, e até te esqueces que ele está ali, caído, possivelmente morto de vez?
- Bem, antes de tudo, querido, fui a tua casa hoje para te dar o teu telemóvel… Segundo, contei-te tudo porque não tinha mais a quem recorrer, eu obviamente não estava a pensar… E estou a falar contigo, porque dás-me cabo dos nervos, porque não paras de interferir nas alturas erradas!
- Alturas erradas? Preferias que interferisse quando estivesses a ser o petisco do teu bicho?!
- Sim, de facto – aquiesci, com o tom mais sarcástico que desencantei em mim – Teria sido o timing perfeito!
- Não, deixa, para a próxima nem interfiro, nem que as tuas entranhas já estejam todas a espalhar-se pelo chão…
- Oh, querido, prometo-te que só ficaria agradecida por teres mantido o teu nariz fora das minhas entranhas…
- Com gosto, boneca, que por mais divina que sejas, as tuas entranhas hão-de cheirar mal, como as de toda a gente!
- Achas mesmo? Então olha, pega nelas e enfia-as…
No momento em que se daria a sílaba seguinte, já ele me beijava.
Só naquele momento me apercebi do quanto eu tinha sentido a falta dos beijos dele. Havia naquele único beijo, que apesar de simples e apenas um beijo, um sentimento de que aquilo era certo que nunca existira nos meus beijos com o Artur. Ainda assim, as minhas ditas entranhas, usadas e abusadas na nossa discussão, revolviam-se como se estivessem com insónias, e eu, eu sentia-me como se estivesse coberta de alcatrão ardente.
Quebrei o beijo.
- Que raio estás a fazer?
O Sérgio sorriu-me, tal como um miúdo traquina, que se desculpa pelas suas travessuras, mas antes de me poder responder, ambos ouvimos um rosnar ao nosso lado.
Olhámos os dois ao mesmo tempo, numa simetria aterrorizadora. Gritámos em uníssono e, sem sequer me aperceber de que o Sérgio me tinha dado a mão, corremos os dois, de mãos dadas.
Eu corro muito, mas o Sérgio corre muito mais. Sentia as minhas pernas a colapsar, só corria porque se não ia acabar a deslizar pelo chão, mas desta vez em vez de ser puxada pela Falbala e o Rockline, seria puxada pelo próprio Sérgio.
Comecei a sentir-me mal, muito mal mesmo, cá dentro, pensando no que fizera.
O Sérgio não, por favor. Já me chegava a incapacidade de lidar com sentimentos por um morto-vivo. O Sérgio não, o Sérgio não…
Por fim, o Sérgio achou que já o tínhamos despistado, quando tínhamos desaparecido por uma dúzia de esquinas diferentes, e parou. Senti nas minhas pernas o quanto tínhamos corrido. Atirei-me ao chão, sentada. Comecei a chorar para as minhas palmas.
O Sérgio sentou-se ao meu lado e fez-me festinhas nos cabelos.
- Mia… Desculpa. Ele não se vai lembrar de nada, seja como for, amanhã.
Abanei a cabeça, ainda com ela enfiada no meio das mãos.
- Não… Ele não se vai lembrar de nada… Mas eu vou. Penso que poderia esquecer se… Se tivesses sido só tu, mas a verdade é que… Sérgio, nós não podemos ter nada um com o outro – decidi, de repente, e levantei-me, só para limpar as lágrimas com as minhas próprias mangas. O frio estava cada vez mais gelado e tive de engolir tudo o que tinha sentido. Ia esquecer, ia esquecer.
Ainda que isso se assemelhasse a uma tarefa impossível, pois quanto mais me esforçava para não recordar o que sucedera, mais pensava no assunto, mais obcecada me via, por dentro e por fora, só via a cara do Sérgio, repetidas infinitas vezes, como se toda a cara dele fosse um conjunto de eternos espelhos, reflectindo-se uns nos outros, enchendo-me a mente como se enche um cesto de cerejas, pesando-me na mente como as cerejas no dito cesto.
E não esquecia.
Quem me dera ter um pouco do veneno do tio Júpiter… Para esquecer.
Ardia-me na alma, saber que ele me vira, ainda sem o perceber, com outro quando era dele: eu era de quem não sabia que me tinha, e não podia ser de quem sabia que me amava e que eu jamais poderia ser sua. Triste, e irónico, se pensarmos nisso. Tremi, encolhendo-me no meu casaco, e quase senti pena do Sérgio, ali, naquele instante, falando, mas eu não o ouvia, porque olhava-lhe para o rosto e via-me ali reflectida.
Era a musa dele, era a estrela, a outra metade. Mas ele não me era nada a mim. Por mais que o quisesse, por mais conveniente que fosse, por melhor que me tivesse sentido no instante em que os lábios dele tocaram os meus, não concebia a ideia de viver sem o Artur para sempre, de nunca mais o sentir comigo, e achar que sim, que ele era meu e só meu, e que ele sabia, ele sentia que sim, que eu era dele.
O que só provava a pessoa horrível que eu era; uma vez que não me cansava de cometer injustiças para com aquele loiro maravilhoso que agora me fitava penetrantemente, como se esperasse uma resposta. Não era adorável?
- Sim? Que disseste? – perguntei, nervosa. Comecei a roer as unhas. Eu nunca roía as unhas. Não era uma das minhas manias.
O Sérgio suspirou, levantou-se também e aproximou-se de mim. Disse-me, baixinho:
- Vamos para casa.
Ainda pensei em protestar, a sério que pensei, mas de forma alguma ia aproximar-me do Artur outra vez naquela noite. Não o podia fazer e continuar viva, era assim que a lógica mo ditava. E assim, em silêncio, comecei a andar, com o Sérgio a escassos passos de mim.
Caminhámos em silêncio. A noite começava a tornar-se baça, com a luz espalhando-se por lugares inóspitos do céu. Não era já de dia, mas não era já de noite. O Artur deveria estar a cair morto, algures, naquele mesmo instante.
Era quinta-feira.
Separei-me do Sérgio à porta de minha casa. Ele continuou a andar, em direcção à sua. Não nos despedimos, separámo-nos, apenas. Era como se aquilo que se passava entre nós fosse demasiado para ser transfigurado em meras palavras… Porque as palavras, ao fim do dia, ou antes, de madrugada, são apenas palavras, e o sentido que tiramos delas é apenas aquele que não nos alcança, não de verdade.
Entrei, e exausta deitei-me debaixo dos cobertores, vestida. Esperei que o despertador tocasse, enquanto dormia. Dormi talvez cinco minutos, não mais.
Isso apenas me fez ganhar ainda mais sono.
Sentia-me incapaz de enfrentar o dia à minha frente. À minha frente estavam aulas sem fim, a ausência do Sérgio, a visita diária à Lilith, as conversas e apostas estúpidas com o André.
Não sabia onde ia arranjar as forças para tais fardos. Duvidava, até, que as achasse, que as tivesse, que as sentisse. Talvez nunca sintamos, de facto, aquilo que julgamos ter. Talvez aquilo que sentimos não seja nada se não a própria vida, vivendo. Talvez sentir seja mais, muito mais que aquilo que temos à nossa frente. Talvez a vida seja apenas uma escassa forma de sentir, e não o sentir absoluto. Talvez haja mais, um mais que apenas alguns encontram; alguns e poucos; talvez eu fosse uma desses alguns e poucos, e talvez aquilo que sentia pelo Artur, em todos os seus dias, em todas as suas vidas, fosse mesmo o sentir: o sentir absoluto que me carcome por dentro e me faz arder como se fosse a raiz de uma grande árvore de fogo, que brota de mim e cujo tronco e ramos crescem em direcção ao sol, o Artur, o Artur era o sol, e eu e o que eu sentia, inabalável, era a árvore que crescia para ele, por ele…
Levantei-me. Arranjei-me. Fui para a escola.
Quase que adormeci em todas as aulas, excepto, talvez, na de Biologia, porque me incomodava tremendamente o barulho de fundo das risadinhas da minha prima e da Loira, que eram incapazes de conter o desprezo que sentiam por mim, ainda por cima agora que ambas tinham perdido os respectivos namorados e tinham muito mais tempo livre para me atormentar. A Lilith continuava longe (e assim iria continuar por, provavelmente, bastante tempo) e não tinha ninguém para me dar uma cotovelada quando estava prestes a cair sobre a mesa. Os meus olhos pareciam ter as pálpebras com o peso do mundo, e o mundo abatia-se sobre a minha lucidez. Não sei com que forças lutei contra o sono naquela manhã, mas consegui não ser apanhada de olhos cerrados, esparramada na carteira e com um pouco de baba a escorregar-me pelo queixo.
Deixei-me dormir logo que vim para casa para o almoço. O meu irmão, que era o único que ia a casa à hora de almoço, perguntou-me, preocupado, se estava doente.
Mesmo com o tom de preocupação nos olhos, todo ele continuava a ser uma máscara de felicidade.
- Não, JP, deixa, só me sinto um pouco cansada. Enxaqueca, talvez – respondi-lhe, mas deitei-me e quando dei por ela, acordei com um cobertor sobre os meus ombros, às seis da tarde. Ele não me tinha acordado e tinha perdido a tarde toda de aulas.
O que só podia querer dizer uma coisa: isto assim não podia continuar. Por mais importante que fosse o Artur, existiam outras prioridades na minha vida. Perder aulas não fazia parte do meu plano. Eu não tencionava descer as notas e perder a minha vida por um vampiro que morre todas as manhãs e que nasce de novo ao sol-pôr.
Por mais que me custasse a mim, por pior resultado que a falta de vigilância dele tivesse… Cada vez mais cria que ele não representava um perigo real para os outros, apenas para mim própria e, aparentemente, também para o Sérgio quando ele se envolvia em assuntos meus. Era cruel que assim fosse, mas o vampirismo dele parecia estranhamente selectivo, e guardava muitos mistérios.
Por exemplo, ninguém que não eu ou o Sérgio encontrava o corpo morto do Artur. O que poderia querer dizer que não o viam, ou que de algum modo ele morria sempre onde não pudesse ser encontrado. A verdade, não podia dizer qual era. Apenas sabia que eu corria perigo junto a ele, e ainda assim, abandoná-lo era abandonar uma parte de mim própria.
A melhor parte de mim própria.
Mas não podia permitir que o meu amor por ele desse cabo da minha vida. Por amor de Deus, porque eu, ao contrário dele, ainda tenho uma vida. Não que ele não a tivesse, mas tinha tantas que nunca se poderia perder em nenhuma. Não podia viver nenhuma.
Eu podia. E ia viver a minha com o máximo de intensidade possível. E foi assim que decidi que ia ter de arranjar outra solução, a seu tempo, e parar de o ver.
Ia doer, ia magoar, mas ele não ia dar por nada. Ainda que neste longo período de tempo durante a tarde eu tivesse sonhado. Sonhei com ele. E ele pediu-me, enternecedoramente (ainda que deva admitir, de uma forma totalmente egoísta):
- Não me deixes.
E eu prometi-lhe:
- Nunca te vou deixar de verdade.
Mas assim que acordei, arrependi-me. Não há nada mais perigoso do que prometer a alguém que o vamos amar para sempre.
Que era, de certo modo, o que fizera. E se dantes o sentia, no peito, ardente e perigoso, agora sentia-o como uma certeza que pode conduzir a todo o tipo de loucuras; eu podia um dia vir a enlouquecer por ele. Senti-lo como a última gota dum copo que transborda e rebenta, em estilhaços cortantes e brilhantes, e todo o líquido é uno com a realidade e os sonhos, os sonhos são a realidade, a realidade são os sonhos; e toda a realidade é um copo despedaçado, e todo o sonho é o líquido respingando tudo o que nos rodeia…
Amar para sempre é uma impossibilidade quando a loucura não está metida no assunto.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...