Acordei, com a luz nos olhos, numa cama de hospital. Na cama do hospital psiquiátrico onde acordara em sonhos, algumas noites atrás. Estaria eu a sonhar de novo?
Foi nesse instante que notei a presença de uma mulher que eu nunca vira, vestida de branco. Uma enfermeira? Médica? Que se estaria a passar comigo? Teria eu vindo parar ao hospital por causa das queimaduras?
Ela sorriu um sorriso resplandecente, como se o facto de eu ter acordado a fizesse genuinamente feliz.
- Oh, que bom, Mia, acordaste! Os teus pais vão ficar tão felizes!
Pestanejei, perturbada. De repente, todo o ardor que sentia já não me doía. Ergui as mãos e constatei, alienada, que estavam intactas e sem marcas: da mesma cor que sempre. Em vez de isto me trazer alívio, trouxe-me medo. Teria sonhado tudo o que se tinha passado? Se sim, porque é que estava naquele hospital?
A senhora do sorriso simpático saiu a correr, e voltou em segundos com os meus pais. O que é que se estava a passar?
As caras deles eram um misto de alegria, comoção e preocupação. Teriam eles sobrevivido às criaturas? Estaria tudo bem?
- Pai, que se passou? O JP e a Lilith estão bem? Conseguiram livrar-se das criaturas todas? – perguntei, com um nó na garganta, porque tinha medo, muito medo.
Os meus pais ficaram em silêncio, durante alguns instantes. As caras de ambos eram a cara de quem lamenta.
- Oh Deus. O que aconteceu? Onde está a Lilith? O meu irmão? Magoaram-se?
Foi a minha mãe que se aproximou e, muito devagarinho, se ajoelhou junto à minha cama. Pegou-me na mão miraculosamente curada e disse-me, baixinho:
- Emília… O teu irmão está muito bem, está na escola…
- Na escola? – como é que alguém podia ir à escola quando toda a cidade tinha sido tomada por vândalos monstruosos? Como, quando o André ainda andava à solta? Talvez o tivessem apanhado… Talvez os tivessem curado a todos… Mas a Lilith, a Lilith… - E a Lilith?
A minha mãe suspirou baixinho e olhou para o meu pai, como que pedindo apoio. Ele aproximou-se também, mas foi novamente a minha mãe quem falou:
- A Liliana… Filha, naquele dia em que vocês as duas foram ao cinema… Ela foi apanhada por um malvado qualquer quando foi à casa de banho, e… A Liliana… Morreu, filha.
Senti nos olhos, a alma, entornada, como o líquido do copo de pé alto que é a lucidez.
Cuidadosamente, quase como quem toca um recém-nascido, ergui o copo, dentro de mim. Tentei recolher a alma para dentro do vidro. Ainda assim, grande parte dela teimou em fugir-me pelos olhos, enquanto me cobria com os cobertores e me revirava na cama.
A minha mãe continuou a falar. As lágrimas dela estavam espelhadas também na voz com que me falava, com que me contava o que tinha sido a minha vida naquela semana e pouco.
- Tu começaste a delirar… Começámos a perceber que alguma coisa estava errada contigo… Estiveste internada desde aí, mas por momentos, pensei que te íamos perder, Emília… Só dizias coisas sem sentido, durante o sono, e mesmo quando estavas acordada tinhas os olhos vidrados como que fixados numa realidade diferente…
Tentava, a todo o custo, tentar absorver os sons de dor da alma no cobertor, enquanto esta lutava para se libertar. Mas eu não a queria deixar… Já tinham chegado estes poucos dias em que ela não parara no próprio corpo que era o meu.
Imagens que não vira assaltavam-me, agora, como se fossem a verdade, imagens do meu pai e da minha mãe, sentados junto à minha cama. Imagens até da Raquel e da Vanessa e de muitas outras pessoas, que me tinham vindo ver na quarta-feira à tarde da tarde que tinham livre. Imagens do André que tinha vindo com os trabalhos de casa debaixo do braço, apenas para os deixar, abandonados e sem esperança sobre a mesa junto à janela do quarto de hospital. Imagens do tio Júpiter, vivo e preocupado, mas uma pessoa boa, a pessoa boa que ele sempre foi. Imagens do meu irmão, triste como mais ninguém, dizendo-me, baixinho, as mesmas palavras que me tinham feito acordar do meu estado de loucura:
- Pára de sonhar, Mia. O Artur não existe.
E foi por ele que perguntei de seguida. Desta vez, o meu pai respondeu-me, e disse-me, como quem não condena, como quem compreende tudo:
- Não há ninguém na tua escola chamado Artur… Nunca houve… Nós perguntámos, porque repetias o nome dele quase incessantemente, por vezes. Mas não há nenhum Artur, ninguém.
- E o Sérgio? – perguntei, desesperada, como se qualquer pedaço de informação fosse a jangada que me trouxesse de volta ao lado racional da vida – O Sérgio veio cá, alguma vez? A Matilde! A Matilde era a namorada do Artur! Ela veio cá?
Os meus pais olhavam-me, quase sem entender, quase como se ainda estivesse doida.
- O Sérgio? O teu ex-namorado? Não, não veio cá. A Matilde veio cá sim, com a tia Daniela e o tio Marco, nós perguntámos-lhe se conhecia algum Artur, porque queríamos saber quem era ele, mas ela disse que não, que nunca conhecera nenhum Artur, e que era um nome estúpido. O teu irmão quase lhe bateu várias vezes nesse dia, com algumas coisas que a rapariga dizia.
Sentia-me como se a cada palavra, a cada segundo, uma pedra me abandonasse os pés, e como se eu ficasse, desamparada, em pleno voo, em plena queda…
- Porquê? – reclamei, baixinho, engolindo as lágrimas – Como é que perdi assim a minha sanidade toda? Como? Como é que a Lilith…? A Lilith morreu, como é que é possível? O Artur é como se tivesse morrido… O Sérgio não quer saber de mim para nada… Porquê? Para quê viver assim, se enquanto era louca era tão mais completa?
A minha mãe abraçou-me, por cima dos cobertores, e adormeci a chorar baixinho, tentando evitar as lágrimas, para as deixar encher de novo o meu copo vazio mas agora de pé – o meu copo da lucidez.
As luzes eram fracas e a música muito alta, mas não era capaz de disfarçar os risos múltiplos que eram os meus e os da Margarida. Cada uma tinha à sua frente uma garrafa de cerveja meio cheia (ou meio vazia) e ríamo-nos descontroladamente por causa de um bêbedo ridículo que tinha pedido descaradamente o número da Margarida. A Margarida era a minha melhor amiga desde há três anos, quando entrara na universidade e a conhecera.
Ela parou de rir, por instantes, e avisou-me, discretamente:
- Não dês muito nas vistas, mas está ali um loiro adorável a tentar ganhar coragem para vir ter contigo. Não pára de olhar para ti.
Discretamente, virei-me na cadeira e tentei ver de quem é que ela estava a falar. Como se um cubo de gelo me deslizasse pela coluna abaixo, reconheci o Sérgio, sentado ao balcão.
Virei-me de rompante.
- Oh Deus. É o Sérgio.
A Margarida abriu a boca com o choque e sibilou, quase como quem não consegue acreditar.
- O quê? Aquele é o gajo que deixaste por um pacote de pipocas no 10º ano? Miúda, não devias estar boa… O gajo não é nada de se deitar fora!
Deixei-me rir, contra vontade. Também contara à Margarida tudo sobre o meu “período negro” em que tivera alucinações. Ela sabia exactamente o papel que o Sérgio tinha tido nas minhas alucinações, mas fiquei grata por apenas encontrar como ponto de referência o pacote de pipocas.
- Tu és tão parva… Ele mereceu. Sabes bem que sim.
- Costumava achar que sim, mas dantes nunca o tinha visto! Caramba, miúda, vai mas é falar com ele.
A sugestão apanhou-me de surpresa. Não tinha pensado nisso. Bem, é claro que já tinha pensado variadíssimas vezes no que aconteceria se visse o Sérgio outra vez… Quem não pensaria? Mas nunca tinha pensado nisso seriamente, apenas como forma de recriação pessoal. Afinal de contas, nunca mais faláramos desde o incidente do pacote de pipocas. Isto porque presumo que o nosso encontro adorável enquanto passeávamos o Rockline e Falbala tenha sido também fruto da minha imaginação hiperactiva (ou da minha sanidade mental em estado decrépito). Mas e daí, era até uma boa ideia voltar a falar com ele. Seria agradável. Tinha sido importante para mim durante tanto tempo… Porque não?
- Sabes que mais? Vou mesmo – disse à Margarida e ela sorriu-me, erguendo a garrafa dela em jeito de brinde. Eu fiz o mesmo com a minha e levei-a depois comigo enquanto me dirigia para o Sérgio. Ele pareceu estar a olhar para mim, mas depois pareceu disfarçar, para apenas olhar para mim quando eu o cumprimentei, com um sorriso simples e uma sensação estranha de que as borboletas no estômago tinham diminuído apenas ligeiramente de tamanho desde a última vez que o vira, na viagem de finalistas. Tinha sido já há bastante tempo.
- Olá, Sérgio.
Ele olhou para mim, e fez-se de surpreendido, e sorriu para mim. Um sorriso fácil, como o meu. Às vezes, parece que dar tempo ao tempo torna tudo muito mais simples, especialmente os sorrisos.
- Olá, Mia. Há tanto tempo… Como estás?
- Bem. Muito bem. Tu? – perguntei, antes de beber um pequeno golo da minha garrafa.
- Bem, também. Não esperava encontrar-te aqui…
- Eu é que não esperava encontrar-te aqui… Eu moro aqui – ri-me, enquanto disse isto, mas nem sabia bem porquê.
Ele riu-se também, e duvido que soubesse porquê.
- A sério? Não sabia. Eu não moro aqui… - constatou, também, e rimo-nos de novo sem motivo. Talvez tivéssemos bebido de mais. Talvez. E de súbito, dei por mim a dizer uma coisa que apenas tinha dito em sonhos (ou uma espécie de) e que há tanto tempo lhe queria dizer:
- Ouve, Sérgio, desculpa ter acabado contigo no 10º ano por causa dum pacote de pipocas. Fui uma idiota. Passei o resto do Secundário a lamentar tê-lo feito.
Ele não riu, mas sorriu de novo. Não parecia chateado. Não parecia chateado de todo.
- Ei, eu também tive culpa, Mia. Fui eu que não te dei a porcaria do pacote de pipocas. Fui eu que não pedi desculpa. Fui eu que nunca mais te falei desde esse dia… E ouve, bem que me arrependi disso. Nunca te disse, tal como nunca te disse muita coisa, mas foste aquela que me escapou. Eles fartam-se de dizer isto nos filmes, mas é a verdade.
Sorri, também, ainda mais, genuinamente. Talvez ele estivesse a inventar, talvez não. Ambos tínhamos mudado bastante e eu estava a gostar imenso desta conversa.
- A sério? – perguntei.
- A sério – confirmou ele.
- Então e a Loira, qualquer que fosse o nome dela? Andaste com ela quase o 12º todo… - perguntei, quase como que o desafiando a dizer-me que fora um parvo por ter andado com ela.
Ele riu-se com a minha pergunta. Eu pensava na Margarida, de olhos fixados em nós os dois, rezando para um desfecho romântico. A Margarida era terrivelmente romântica. Nada como a Lilith, pensava, às vezes. Mas era uma boa amiga. Devia estar a delirar com tantos risos e sorrisos.
- A Loira era isso mesmo: loira. Eu sei que também sou, e talvez seja estúpido admitir isto, mas às vezes penso mesmo que os loiros são mais estúpidos. Caso contrário, não teria andado com aquela avestruz sem cérebro tanto tempo, e não te teria deixado acabar comigo assim do nada. Afinal de contas, que raio de motivo. Admite, foi uma desculpa.
- Eu admito. Foi uma desculpa. Mas não foi uma desculpa para acabar contigo, antes uma desculpa para nos chatearmos e depois fazermos as pazes. Como é que eu ia adivinhar que não ia resultar?
Ele ficou a olhar para mim durante vários segundos seguidos e, depois, sem pensar duas vezes, uniu os lábios dele aos meus, só para depois de novo os separar.
- Desculpa – disse, de imediato – Provavelmente tens namorado, ou assim. Ou, sei lá, talvez me detestes…
Mas dessa vez, fui eu que o agarrei pela camisola com a mão que não segurava a garrafa de cerveja e que uni os meus lábios aos dele. E nenhum de nós os separou durante muito tempo.
Tinha anoitecido mais depressa do que eu esperara. As minha pernas doíam-me e a minha carteira escura parecia feita de chumbo. Mas tinha de continuar, ou ainda me assaltavam, e sabe Deus o que pode uma mulher de oitenta anos com problemas cardíacos contra um assaltante temível. Além disso, a minha casa já não estava assim tão longe. Só tinha de me esforçar um pouco mais.
Desde que o meu Sérgio morrera, há dois anos, com uma pneumonia, tudo o que eu tinha era eu própria. Saíra tarde de casa, esperando ter tempo de ir à farmácia. Mas encontrara-a fechada. Tinha tido de ir a outra farmácia, e agora era já de noite.
Não gostava da noite nem do escuro desde os meus dezassete, dezoito anos, em que durante uns dias tinha estado internada num hospital psiquiátrico por causa de alucinações. As alucinações. Tinha sempre temido que elas voltassem, mas nunca tinham voltado, para minha grande sorte ou desgraça. Tinha sido uma grande perda, naquela altura, ter acordado daquela loucura temporária. Desde aí, tinha tomado comprimidos diariamente, e aparentemente tinham resultado. Mas um dia, talvez por volta dos meus trinta anos, desisti de os tomar, porque tinha saudades da Lilith, porque tinha saudades do Artur. Isso mesmo, apesar de casada com o melhor homem do mundo, eu não era capaz de abandonar por completo o mundo que a minha cabeça criara. Mas as alucinações, mesmo assim, sem os comprimidos, não tinham voltado nunca. Nunca mais os tomei.
Talvez isso explique o que eu estava a ver diante dos meus olhos, e no qual não queria acreditar.
- Senhora, deixe-me levar-lhe a carteira… Eu juro que não a vou roubar, é só que… Há qualquer coisa em si… Isto pode parecer esquisito, minha senhora, mas eu acho que estou apaixonado por si…
- Vai-te embora, Artur – disse-lhe simplesmente, continuando a andar, sem parar, enquanto que ele andava à minha frente, sem esforço, de costas, uma vez que eu andava tão devagar.
A face dele era exactamente a mesma que deixara naquele sábado à noite em que o vira pela última vez. Os olhos dele, igualmente impenetráveis, mas profundos, duma cor escura e extrema que nunca mais vira em olhos nenhuns. Agora que eu minguava, devido à minha idade avançada, ele parecia-me ainda mais alto. Na mão tinha o sempre cigarro, e deu-me vontade de lhe bater por após estes anos todos ainda manter os maus hábitos, não fosse eu uma senhora de respeito.
- Vê, senhora? Estamos destinados… Até conhece o meu nome. Eu tenho um conjunto de cadernos, já com umas décadas… E eles falam-me duma Emília, há já sessenta e tal anos… Não será a senhora? Eu amo essa Emília… E todas as cores que os cadernos descrevem, as cores do sentimento maravilhoso, eu vejo-as todas, minhas senhora… Quando olho para si – e o sorriso dele era quase fatal no meu coração, porque era exactamente o mesmo que lhe vira há tantos anos.
- Deixa-me, Artur… - disse-lhe, apenas. Não me podia dar ao luxo de tombar o copo de novo, não nesta idade. Talvez o copo da lucidez nunca mais se pusesse de pé.
- Posso chamá-la pelo seu nome também? Emília? És tão bonita, mesmo com todos estes anos passados, continuas tão bonita…
- Obrigada e igualmente. Passa bem – dizia-lhe eu, simplesmente, mas as minhas pernas não me deixavam fugir dele como tinha fugido naquele dia no pinhal… Eu tinha gostado tanto de correr… E agora não podia…
- Emília, amo-te. Só desejava poder tocar-te e poder ser teu mesmo depois do sol nascer. Desejava ser eu, mas ser eu contigo. Só contigo vale a pena. Os cadernos contam-me os anos… Mas eu não quero saber dos anos, porque todos esses anos foram dolorosos, porque não te tive, Emília. Eu tive-te há muitos anos atrás, e não nos anos todos que se seguiram, e doeu-me. Não me lembro, mas até agora me dói saber que um dia não existirás mais, e ainda existirá o meu amor por ti. Porque existe sempre… Tu existes sempre… Porque existes comigo, e eu vou sempre existir, para mal do meus pecados.
Por fim, parei, farta, porque estava muito cansada. O Artur tomou-me a carteira com a mão que não segurava o maldito cigarro, e eu não o pude impedir.
- Então reza, Artur, reza pelos teus pecados. Reza porque me abandonaste, assim, sozinha no mundo em que tu não existias, e não voltaste mais. Reza porque és ainda belo e jovem, enquanto que eu envelheci e vou morrer mais ano, menos ano. Reza porque já devias ter morrido há muito tempo com cancro do pulmão, uma vez que não largas esse hábito terrível de fumar, fumar, fumar… E reza, reza porque não existes se não na minha cabeça!
Enterrei a cara de pele em pregas enrugadas nas mãos traçadas e gordas, de unhas velhas, unhas podres. Eu desfazia-me à frente dos meus próprios olhos. A minha vida e os meus anos haviam sido tudo o que sonhara antes dos sonhos, mas não tivera o que sonhara nesses sonhos, pois que me tinha valido a vida, então?
Quando ergui a cabeça das mãos, o Artur tinha desaparecido. Tinha-me abandonado, outra vez. E tinha levado a minha carteira com ele.
Mas de repente, ouço passos atrás de mim. Antes de que tenha tempo para me virar, a pessoa está à minha frente, segurando a minha carteira. E fala:
- Olá, Mia. Tiveste saudades minhas?
E, vendo a Lilith como a última imagem que tenho dela, no cinema, cheia de piercings e de cabelos pintados de negro mal amanhados num penteado duvidoso, sinto o meu coração vacilar com o medo. O copo lúcido entorna-se, na minha cabeça, e estilhaça-se. A Vanessa morta passeia pela rua feita criatura das águas. O meu professor de Matemática do 12º ano é um borrão a duas dimensões, que grita comigo. A D. Palmira e a D. Rosette avançam contra mim com esfregonas em chamas empunhadas. A Loira e a Matilde, também com a aparência de dezassete anos, atravessam a rua com olhares cínicos e cospem no chão. O André está no chão, a tactear, à procura dos óculos. Até o meu falecido marido emerge das sombras, loiro e maravilhoso, e vai ter com a Loira e beija-a apaixonadamente. Ela morde-lhe o dedo e o sangue escorre-lhe pelo queixo.
A Lilith pega-me na mão vincada e calejada, gorda e feia, e sossega-me, sussurrando:
- Não te preocupes, Mia. Em segundos vais poder juntar-te a nós.
E nesse instante, como o copo que é a minha mente, eu própria sinto o coração estilhaçar-me no peito. Caio, no meio da estrada de alcatrão vazia, com a carteira e um uma beata mal apagada ao meu lado, e sinto-me como se todo o líquido que é a minha alma se evaporasse de vez do meu peito ardente.
domingo, 29 de novembro de 2009
A Última Noite - FIM
A 7ª Noite
O André era o único que tinha ficado na mesma divisão connosco. Na sua cor pálida quase transparente, parecia que tinha adoptado uma terrível face negra, e um comportamento verdadeiramente psicótico.
Ria-se muito, sozinho, como se tudo isso fosse normal. Por fim, pareceu aborrecer-se e soltou a minha mordaça, dizendo:
- Olá, Miazinha, minha amiga adorável. Como estás hoje?
- André… Vamos conversar – sugeri, ignorando a pergunta, tentando soar apaziguadora, mas não de uma forma irritante. Queria tirar-nos a todos daquela enorme confusão. Nada era o que parecia, já tinha aprendido essa lição. E agora, tinha de mostrar que também aprendera aquela que seguia pelas linhas de “Nunca ofendas um monstro”.
- “André… Vamos conversar!” – imitou ele, em falsetto, fazendo pouco de mim. Aquele não era o André que eu conhecera, excepto nas feições – Acerca de que é que queres conversar, miúda? Sobre os meus planos diabólicos temíveis? – e nesta altura experimentou uma risada maléfica, mas a verdade é que não resultou.
- Seria um bom ponto para começar, sim, e algures pelo meio os motivos para me teres mandado raptar a mim e à minha família – e de seguida apontei com a cabeça o meu irmão e o meu pai que continuavam atados e silenciosos.
O André riu-se de novo. Parecia estar a ter dos melhores momentos da vida dele.
- És tão parva, não és, Mia?
O insulto magoou-me, mas fiz de conta que não se passara nada. O André suspirou, resignadamente, como se se aborrecesse.
- Então olha: é simples. Talvez seja preferível contar-te primeiro como é que o teu queridinho adorado Artur se transformou num ser fotofóbico.
Os olhares tanto do JP como do meu pai pareceram aumentar de surpresa. Era deprimente pensar no que teria de lhes contar se alguma vez saíssemos dali vivos.
- Seria um bom ponto para começar, sim – concordei, para impedir que ele se perdesse nos seus devaneios e não me relatasse tudo como deve ser.
- O teu tio nunca te quis magoar. Fui eu, com a ajuda dos meus aliados, que consegui que ele te desse aquele “antídoto” que ele esperava que apenas te fizesse bem. Claro que eu não esperava que o desses ao Artur, esperava que o bebesses tu! O Artur foi um erro do início ao fim. Ele era um dos meus aliados, no início, mas depois chegaste tu, e os remorsos estúpidos dele, e o que aconteceu foi que ele se esqueceu de fazer o que eu lhe tinha mandado para fazer aquilo que ele pensava que era melhor… Pois olha, bem vês que eu, sem nada fazer por isso, fui vingado. Se não há karma, não sei o que é isto. Lei do par acção-reacção? Determinismo? Não interessa, eu devia ter sabido que tu ias dar cabo dele. A única coisa que correu mal nisto tudo, foi que saíste incólume, ao contrário da Lilith. Bem vês como a tirei do caminho assim que começou a desconfiar. Ela falou comigo, mas não contigo porque não te queria preocupar. Ela achou que eu compreenderia, porque era um génio, tal como ela. E tu… Desculpa, Mia, mas a verdade é que sempre foste a burrinha do nosso triângulo adorável.
Engoli em seco, mas forcei-me a não responder. Talvez assim ele me contasse as coisas mais depressa, sem se distrair do seu intento.
- Porque bem vês, eu tenho um plano. Não o de conquistar o mundo, não sou assim tão sociopata. O meu objectivo é o de tornar possível a experimentação em humanos. Já imaginaste o quão a Ciência iria evoluir a partir disto?
Esta era de facto uma explicação muito fraca, no fim de tudo isto pelo que passei. Mas não pude contemplar esta realidade por muito tempo, uma vez que após uns instantes escassos a porta se escancarou e o Artur apareceu junto dela.
Entrou, sem hesitações, sobre o olhar perplexo do André, e deu-lhe um murro único que o deitou ao chão. Como o Artur era muito mais alto e forte que o escanzelado do André, este nem sequer tentou resistir. Posteriormente, o Artur soltou-me, o mais rápido que conseguiu, e depois cada um de nós libertou os dois homens da minha família.
- Ah… Pai, JP, este é o Artur. Ele está do nosso lado, suponho eu…
- Sim, supões bem. Já falamos.
O Artur desta noite era muito introspectivo, durante toda a nossa fuga, não disse mais uma palavra, e nem sequer explicou como nos encontrara ou como tinha passado pelos tais “aliados” do André. Não disse absolutamente mais nada.
Nós seguíamo-lo, confusos. O meu pai ainda me fez uma pergunta qualquer, mas como eu não lhe soube responder, limitou-se a caminhar também calado.
Caminhámos pela cidade, em silêncio, eu que era a que tinha as pernas mais curtas quase correndo para os acompanhar. Ao fim de um bocado, chegámos a um beco onde uma figura nos esperava.
A Lilith, que estava de pé, aparentemente sem qualquer mazela.
- Lilith! Tu não podes estar de pé! – reclamou o meu irmão, quando a viu.
- Posso sim, JP. Eu recuperei. Hoje, tive que ir à procura dele, uma vez que era a única forma de vos poder ajudar. Também tentei falar com o Sérgio, mas ele não me atendeu. Eu soube… Eu soube da casa. A vossa mãe está em minha casa, preocupadíssima, talvez devessem ir lá.
- Então e tu, que é que estás aqui a fazer ainda?
- O Artur não sabia onde era a minha casa. Tive de esperar por vocês para vos dizer isto.
Todos estes acontecimentos se desenrolavam à frente dos meus olhos, tal como quem vê um filme a 3D. Mas não estava a ser divertido. De todo.
- Talvez vocês os dois devessem ir ter com a mãe – disse para o JP e para o meu pai – Eu tenho que ir… à polícia – menti.
- À polícia? Mas que raio lhes vais dizer, que um monte de criaturas geneticamente modificadas nos entraram pela casa adentro e que nos aprisionaram? – perguntou, céptico, o meu pai.
- Pai, eu tenho que falar com o Artur. Eu não posso explicar tudo agora, mas depois vou tentar…
O meu pai tentou impedir-me, mas eu já andava na direcção oposta, com o passo mais rápido que consegui arranjar, arrastando o Artur por um braço.
Mal os perdemos de vista, parei no meio do caminho e perguntei-lhe, sem rodeios:
- Que tipo de pessoa és tu hoje? De que te lembras?
- Nada – respondeu ele – Acho que é usual. E sou… Sou eu.
Esta única frase teve o condão de me pôr com a alma de joelhos junto aos olhos, para depois mergulhar e me fazer chorar.
As minhas lágrimas, por sua vez, tiveram o condão de fazer o Artur perder toda a falta de expressividade e de comunicação. A medo, ele ergueu a mão e pousou-ma na face, e com um dedo gelado limpou-me a lágrima fugitiva. E com a voz mais terna e inacreditável, sussurrou baixinho:
- Não chores, Emília… Não chores por mim.
Mas isto só me fez chorar mais e ele abraçou-me para que toda a minha alma vertida o atingisse directamente no coração.
Foi neste momento que, novamente, me vi perseguida por criaturas de pesadelo. Vinham do caminho de onde tínhamos vindo; o meu coração pululou desejando que a minha família e a Lilith estivessem bem e não tivessem sido raptados de novo.
Em pânico crescente, limpei as lágrimas com uma mão e quase me esqueci de que era suposto estar a chorar. Agarrei, sem pensar, na mão do Artur, e corremos os dois, em fuga das temíveis criaturas.
Galgávamos os paralelos do chão quase sem os tocar, de tão rápido corríamos. E eu sentia, feliz, o ar na minha cara. Sentia, feliz, a mão do Artur na minha.
No caminho, via as árvores com as ramadas a serem como que puxadas e empurradas por mãos invisíveis, furiosas. O lixo largado por alguns transeuntes durante o dia voava, agora, de encontro a nós, de encontro à multidão de monstros que nos perseguia, sem vontade própria, mas com apenas o intento de servir o fantasma que eu criara, porque ele não mo dissera, mas de alguma forma sabia: o André tornara-se agressivo e descontente porque me quisera, e eu nunca tinha demonstrado qualquer interesse romântico por ele. Assim, o seu próprio medo tornara-se a sua cara; fora esquecido por mim, ainda que com grande desgosto meu.
Tudo se começava a encaixar, ou pelo menos assim era na minha cabeça. Tudo fazia sentido, os monstros e a tristeza, os acontecimentos impossíveis e a solidão: porque um plano só se cria quando algo nos impulsiona para isso.
Atrás de nós, ouviam-se as palavras mais feias do mundo, algumas delas, ainda nem sequer existiam antes daquele momento, mas naquele momento criavam-se: eram proferidas e cuspidas só para os nossos ouvidos. E ainda que nós fugíssemos, e ainda que nós as ignorássemos, ouvíamo-las, nítidas, repetindo-se incessante e horrorosamente nas nossas cabeças…
E eis que neste instante, o nosso caminho é perturbado por um vulto quieto, de braços cruzados, recortado em traços escuros contra a luz do candeeiro atrás de si. E o seu cabelo é uma auréola doirada de cabelos esvoaçantes e claros.
- Sérgio! Que estás aqui a fazer? – ouvi os meus lábios pronunciarem, dando voz aos meus pensamentos, quase sem pensar que o ia de facto perguntar.
- À vossa espera. Vocês não vão passar.
- O quê? – a minha voz elevou-se uma oitava acima do normal, com o choque daquilo que ele acabava de dizer. Ainda assim, não parei de correr em direcção a ele. Ele não nos podia impedir de passar. O que podia ele contra nós dois? – Porquê?
- Não vão passar – insistiu ele, sem mais explicações.
- Quem é este palhaço? – perguntou, irritado, o Artur.
- O Sérgio. Deves ter referências a ele no caderno…
E não parámos de correr, aproximávamo-nos do Sérgio e ele mantinha-se quieto, imóvel, passivo como uma estátua erguendo-se a muitos metros de alturas de nós, meros mortais. Ainda assim, ele continuava com a sua altura normal, muito inferior à do Artur. Não percebia o que é que ele esperava da sua intervenção, ou porque é que tinha sequer pensado em parar-nos.
E corremos para o lado esquerdo do Sérgio, sem parar. Vamos passá-lo. Deixá-lo, assim, estatuado e, mais importante que tudo, para trás.
Mas no preciso instante em que estamos lado a lado com o Sérgio, algo acontece. Toda a nossa carne parece arder, por momentos, com chamas verdadeiras. Gritamos, os dois, em uníssono, como se ambas as nossas almas se unissem na dor de se libertarem dos corpos. Sinto a pele ceder, como cera que derrete, e sinto-a perder-se numa forma que não existe. E esta não existência cobrava-me toda a dor que eu até ali só podia imaginar; perdia-me nas cinzas dum corpo em chamas. Parecia que era impossível tudo o que me estava a acontecer… E apesar disso, este foi o momento mais real da minha vida.
Por fim, senti uma mão ardente puxar-me do fogo que era eu (toda eu era o fogo) e senti de novo o frio e gelado ar da noite na cara, nas mãos, nas roupas queimadas. Ainda assim, nada mais era já o fogo, assim que o abandonei – toda a minha cara devia ser o meu pior pesadelo: também eu me tinha tornado um monstro, neste momento único. Os monstros, atrás de nós, aproximavam-se, mas eu e o Artur já não temíamos mais. Olhei para ele e vi-o, mas ele não estava desfigurado, não como as minhas mãos sangrentas e vermelhas, não como as minhas roupas que fumegavam, não como estaria a minha cara para a qual eu nunca mais queria olhar. O Artur era… Apenas ele, o Artur, e olhava para mim como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo.
E eu sabia que era, provavelmente, a mais feia, a partir do momento em que as labaredas me tocaram a face.
Os monstros aproximaram-se e eu descobri que estava a chorar, porque as lágrimas começaram a evaporar à frente dos meus olhos devido ao calor ardente da minha pele queimada.
Sem perceber muito bem porquê, senti-me a desfalecer, e caí nos braços rápidos do Artur que me ampararam, mas magoou-me sentir a minha pele contra a dele, ainda que a temperatura fresca da pele dele me aliviasse o ardor ligeiramente.
As criaturas rodeavam-nos, agora, e custou-me observar que a barreira que me pusera fogo não existia para elas. O Sérgio avançava, agora, para nós, e sorria.
Mas nunca chegou a dizer qualquer palavra que fosse, uma vez que de um impulso o Artur ergueu uma faca que não sabia que ele sequer tinha e a enterrou no estômago do Sérgio.
Gritei, e senti a visão enevoada com as dores e as lágrimas que voavam, evaporadas, da minha pele.
Também o Sérgio exprimiu um qualquer som que parecia um grunhido vindo do âmago da alma dele (se ele ainda a tinha) antes de cair com a cara no chão, como uma tábua hirta espatifando-se porque alguém deixou de a segurar.
Aquele era o rapaz que me tinha dado um beijo há umas poucas de horas atrás. Aquele era o rapaz com quem tinha acabado por um pacote de pipocas. Era o rapaz por quem suspirara, em silêncio, durante dois anos inteiros até me apaixonar pelo Artur. E aquele era o rapaz que me tinha desfigurado as feições com um qualquer dom que eu nunca conhecera, a acrescentar ao dom telepático que ele ganhara recentemente.
Ainda assim, não me parecia certo, nada certo mesmo, que ele estivesse morto e silencioso para sempre. Não podia acreditar que ele nunca mais me ia dizer que me amava e que o Artur era um monstro. Nunca mais ia vê-lo sentado nas aulas de Biologia. Nunca mais… Talvez nunca mais houvesse aulas de Biologia. Tudo tinha perdido o senso e a lógica! Quem sabia? Talvez agora a minha vida fosse apenas esta: a de percorrer na noite a Terra com o meu namorado morto durante o dia.
Toda aquela noite era horrores, talvez toda a vida se tornasse um horror único, e não havia nada pior que pudesse acontecer, ou pelo menos, era isso o que me parecia. Mas era muitíssimo possível que estivesse enganada.
Afinal de contas, todo vento que se erguia não podia ser um bom sinal… Nada era um bom sinal, muito menos o olhar profundo e indistinguível do Artur, o meu Artur.
E o instante seguinte foi o instante que ditou para sempre toda a minha vida.
O Artur disse-me, sussurrando:
- Pára de sonhar, Mia. O Artur não existe.
E de repente já não era de noite.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
O Último Momento Pós-Vampírico
- Não podes estar a falar a sério! – foi a minha primeira reacção a tal proposta. Pela primeira vez durante aquela conversa, perdi o controlo de mim mesma e da minha expressão. Tentei esquecer que eu própria já a considerara, antes do meu sonho premonitório, tentei esquecer o quão cansada eu estava sempre de manhã e durante todo o dia, após as noites que passava fora de casa sem os meus pais terem conhecimento disso. Tentei esquecer que a Lilith mo tinha recomendado, que até o Sérgio, apesar de o considerar perigoso neste instante, o tinha recomendado. Tentei esquecer tudo, porque ainda acreditava que o amava.
- Estou, Mia. Desculpa, mas estou. Se ainda por cima dizes que eu me sinto atraído por ti, isso pode querer dizer que sou mais perigoso. Eu não sei se no caderno está tudo. Não sei se me disseste tudo… Ou se eu escrevi tudo. Só sei que o que lá está escrito é suficiente. Só sei que eu sou perigoso para ti, porque não faço ideia se já te vi antes. Olho para ti, mesmo agora, e estou a pensar em como a batida do teu coração e a tua pulsação são tão fortes… O teu sangue é do tipo O. Como sei? Não foi de consultar o teu boletim de vacinas, não. É apenas porque apesar de agora te parecer que sou um homem, dentro de mim ainda está um monstro, à espera. Chamas-me vampiro? Eu rio-me. Eu sou muito pior que um vampiro, porque os vampiros não existem e eu estou aqui agora mesmo, à tua frente, sólido que nem uma rocha. E a única razão porque não te mato? Porque hoje acordei com um resquício de decência. Não preciso de matar… Preciso de comer, é certo, mas não preciso de matar e divertir-me a fazê-lo. Não hoje. Mas eu não me lembro de nada. Não sei que homem fui ontem ou que homem vou ser amanhã. Não sei se vale a pena. Sei que mesmo agora, neste corpo de homem e com esta alma de monstro, sinto por ti. Sinto… Coisas. Por ti. E apesar de todas essas coisas me despedaçarem o coração de cima abaixo num desejo profundo de te degolar (porque te amo tanto), essas coisas também me impõe que te deixe, que me deixes, para que possas viver.
Absolutamente perdida por ele e por aquela declaração, era-me quase ainda mais impossível abandoná-lo para sempre. Sem armas e sem palavras bonitas que formassem grandes discursos, disse, sem ter que acrescentar:
- Mas eu estou apaixonada por ti…
Contudo, ele pareceu rejeitar esta ideia, e nem sequer a ponderou.
- Não interessa, isso é o que pensas agora. Percebo-te. Sou alguém que nunca poderás ter. É compreensível que me aches tão atractivo, e que te aches incapaz de viver sem mim… Sou o fruto proibido – explicou ele, ainda sem expressão no rosto.
- Não! Não, Artur… Tu não percebes nada de nada! Eu estou apaixonada por ti porque és tu! Se fosse outro, nesta situação, não queria saber de nada… Eu apaixonei-me por ti ainda antes de te transformares nisso que és… Tu não sabes, não te lembras…
- Não, eu não me lembro de nada, mas tu fizeste-me um relatório pormenorizado e eu escrevi tudo… Tudo… Hoje até chego a ter medo de tudo o que lá está escrito. E é fácil ver tudo do lado de fora quando não se têm recordações. Tu não estás apaixonada por mim, estás apaixonada pelo rapaz misterioso que desapareceu com a tua melhor amiga e que reapareceu com notícias que nunca pudeste ouvir.
Dentro de mim, muralhas ruíam-se, com rochedos e areias finas colapsando como pó e cinzas. Toda eu era cinzas, na minha cabeça, e toda eu era o ruído dessas paredes múltiplas, edifícios, que ruíam, na minha cabeça.
- Eu não acredito que estás a dizer isso! – gritei, perante a passividade da expressão dele. Toda aquela noite, não tinha havido um único momento em que ele fosse mais que um rosto… E eu, que o tentara imitar, tinha agora o rosto que é uma máscara caída.
- Mia… Sejamos racionais. Nunca sentiste nada de romântico por mim até tudo isto acontecer, diz-me, caso esteja errado.
Calada e em sofrimento, não tive palavras para a mentira. Não tive palavras – nem sequer tive a coragem e a ousadia de ser mais que o silêncio, naquele banco de jardim em que continuava sentada.
- E por isso, apesar de tudo, apesar daquilo que sentimos ou julgamos sentir, este é o melhor caminho para ambos… Vá lá, podemos ser ambos muito felizes se nos deixarmos em paz. O esquecimento é, muitas vezes, uma bênção. Talvez um destes dias decida esquecer tudo e, pura e simplesmente, destrua o caderno. Não é saudável para nenhum de nós alimentar esperanças impossíveis. Era um veneno. Duvido que haja cura.
Não produzi qualquer som, mesmo quando a primeira lágrima me dilacerou os canais lacrimais com a pressão e transbordou depois, vertendo-se para a minha face de porcelana como uma gota deslizando para fora do copo da lucidez. Eu era uma estranha de mim mesma, porque toda a dor me fazia parecer ser uma pessoa recém-apresentada à vida, como se tudo não fosse verdade, como se tudo fosse apenas uma história.
- Amanhã, não me procures, Emília. Adoro-te de muitas formas, mas amanhã não me procures, por favor. Poderei não ser o tipo simpático que sou agora.
E depois destas últimas palavras, levantou-se do banco de jardim e levou com ele metade da minha alma que rebentava pelas costuras com tantos sentimentos contraditórios.
Ao fim de algum tempo, eu própria me ergui, sem dar conta disso, uma vez que continuava emersa no mundo das mágoas. Percorri todo o meu caminho até casa em silêncio e sem dar por ele.
Toda a minha mente era uma sinfonia trágica: a pior sinfonia de todas, a do silêncio.
Quando entrei em casa, passei pela cozinha para beber com um copo de água todas as lágrimas. Ainda assim, mal sabia que colado com um dos ímans do frigorífico estava o meu pior pesadelo: “Amanhã o tio Júpiter vem almoçar connosco. Vê-se pões o despertador para horas decentes.”
Deitei-me na cama como um morto se deita no congelador da morgue; como que esperando um qualquer novo instrumento de tortura para me abrir as chagas e para me humilhar como se não houvesse nada de mais útil para fazer.
O meu despertador não me despertou dos meus sonhos atribulados, uma vez que a noite se passou comigo a acordar de cinco em cinco minutos, sobressaltada, vendo o Artur rindo-se para mim em todas as imagens, mas depois ele dizia “Mantém-te afastada de mim, para sempre.”
Eram palavras que ecoavam e ecoavam como se todo o meu espaço de sonho estivesse vazio, como se toda eu estivesse vazia de tudo o que não era mágoa e desencanto. Tinha medo de acordar. Mas também tinha medo de dormir. Assim, permanecia perdida entre o mundo real e o mundo das ilusões psicológicas, quase como uma semi-viva, quase como alguém que jamais dorme ou jamais acorda.
Toda eu doía, como se nada mais fosse que alma, e como esta estava dorida, esta era a única coisa que sentia, e toda eu doía.
Os lençóis estavam feitos aquilo a que o meu pai chama “ninho de cão”, uma vez que toda a sua ordenação tinha perdido o sentido, e mal me tapava com pontas de lençóis e cobertores a serem a única coisa a cobrirem-me, uns nos pés, outros nas costas, e grandes partes de mim descobertas, como se o frio e eu não existíssemos separadamente.
Assim, quando a luz me caiu sobre a cara já os meus olhos estavam abertos e me doíam, o que se começava a tornar hábito. Desliguei o despertador ainda antes de ele tocar. Ergui-me, tentando espantar as dores pelo movimento, mas não resultou. Era uma manhã de sábado e o meu tio Júpiter vinha almoçar connosco. Ainda assim, o cenário era tudo menos pacífico ou natural. Já nada era natural nesta vida, alguma vez. Quis fugir, naquela manhã, emalar duas ou três mudas de roupa e as bolachas do armário e fugir sem uma nota. Também pratiquei confrontos, na minha mente, entre mim e o tio Júpiter. Pratiquei muito. Pensei muito. E não alcancei qualquer conclusão ou desfecho que me enchesse o peito de segurança ou um pouco de menos dor.
Os meus pais estranharam muito ver-me acordada àquela hora, assim, sem qualquer protesto, ou antes, de própria iniciativa, mas nenhum deles comentou.
De manhã, por mais estranho que seja, com todos os acontecimentos duvidosos da minha vida, estudei Português e fiz os trabalhos de casa. Ainda assim, não me concentrava como deve ser, e assim demorava muito tempo a fazer as coisas.
O meu tio chegou cedo, por volta do meio-dia. Ouvi-o falar alto, com os meus pais, no mesmo tom alegre de sempre. Não desci para o cumprimentar. Não sabia ainda o que esperar.
Algum tempo depois, a minha mãe chamou-me para almoçar. Aí, desci, sem armas, com um arrepio percorrendo-me a espinha a ritmo de batidas cardíacas. Olhei da porta da sala para o meu tio Júpiter. Com o meu maior sorriso (é surpreendente a facilidade com que o conjurei) cumprimentei-o:
- Olá, tio – e após uma pausa em que ele próprio me sorriu e me disse “Olá”, acrescentei ainda, insinuantemente – Andava morta de saudades suas.
No entanto, se ele percebeu a indirecta, não o demonstrou. Limitou-se a rir e a dizer:
- Ai que rica sobrinha esta que eu tenho!
Esse foi o instante em que todas as janelas da sala rebentaram de fora para dentro.
De um momento para o outro, todos nos deitámos no chão, tentando cobrirmo-nos dos fragmentos voadores que provinham de toda a parte. Nesse momento, o JP, que acordara apenas há minutos, emergia na sala com a sua T-Shirt velha dos Slayer só para se deitar também no chão tal como todos nós.
Mas não, nem todos nós. O meu tio Júpiter estava caído no chão, sim, mas numa posição desastrada e impossível. Mais atentamente, consegui ver que ele estava trespassado por um pedaço mais largo de vidro junto ao peito, de onde escorria uma linha fina de líquido encarnado.
Os olhos dele, abertos e baços, eram a face da morte crua e cruel. A alma naqueles olhos não se tinha matado, escorrendo-lhe pela face, mas tinha-lhe secado nas veias e nos olhos, e não havia uma única lágrima naquele olhar.
A minha mãe gritava, mas eu duvidava que já tivesse notado o estado de cadáver do tio Júpiter.
Mas o meu irmão falou o suficiente para ela se dar conta, pronunciando o primeiro palavrão que lhe veio à cabeça para exprimir o seu horror. Toda a sua voz era um buraco negro de atenção. Na sua face estava espelhada a cara morta do meu tio. Ele não tinha ainda entrado em histerismo, mas parecia bem próximo disso.
A minha mãe, vendo o motivo do terror do filho, começou a gritar histericamente, como se lhe estivessem a arrancar os braços e as pernas.
Ainda assim, havia outro motivo igualmente forte para o desespero dela. Das janelas estilhaçadas tinham começado a entrar todas as criaturas que vira na minha alucinação, que já parecia há tanto tempo atrás. Criaturas de cores e formas inumanas, criaturas sem nome e sem descrição possível: não naquele momento de choque em que tudo sucedia em simultâneo.
O meu pai, apesar da sua postura normalmente organizada e composta, pareceu perder todo o tino. Começou a correr através dos vidros múltiplos todos caídos até alcançar o irmão caído. Quando se curvou sobre o tio Júpiter, deixou cair os óculos sobre o vidro, e não os apanhou de novo. Ao invés disso, arrancou o vidro que estava ainda espetado no peito inerte do meu tio e ergueu-o no ar como um gládio empunhado por um romano.
Espetou-o, sem hesitar, na primeira criatura que se aproximou dele, que era um homem enorme semelhante a um urso, com quase mais meio metro que o meu pai. Ainda assim, tombou perante o corte súbito e inesperado.
Isto pareceu servir como incentivo a todos os outros monstros. Não fazia ideia de onde tinha vindo tanta besta junta, e infelizmente, era tudo demasiado real para estar a sonhar. E eu que julgava que almoçar com o meu tio Júpiter era a maior das minhas preocupações. O tio Júpiter, o Artur e até o Sérgio não eram nada comparados com isto que se desenrolava na minha sala, à frente, atrás e até em cima da mesa com os pratos e os talheres.
O meu irmão, à semelhança do meu pai, pegou nos primeiros bibelots que encontrava e tentava atirá-los aos monstros, defrontá-los.
A minha mãe fugiu, escondendo-se atrás da porta da sala por onde entrara o JP segundos antes.
E quanto a mim? Por momentos, parecia-me que estava simplesmente a assistir, muda e queda, sentindo demasiado para poder pôr em acções aquilo que defendia. Após esse momento inicial, agarrei numa cadeira usei-a como objecto de pancada. Sabia que todos aqueles monstros eram pessoas, pessoas que provavelmente conhecia, mas o Artur fizera-me ver, se não outra coisa, que eles nunca mais seriam os mesmos.
Há tanta coisa que esperamos ver acontecer na nossa vida. Normalmente, esses grandes dias são os primeiros em que realizamos algo de novo. Talvez aquele fosse um dia importante. Era o primeiro dia em que não tinha medo de lutar e de não compreender tudo o que se passava à minha volta (monstros? Não os mencionaram em nenhuma disciplina que tenha tido). Era também o primeiro dia em que não tinha medo de o deixar, ao Artur; era o primeiro dia em que via o meu pai pegar numa arma e lutar pela sua própria família, porque assim era necessário. Era o momento em que via todos os medos implodirem na minha sala, e era o momento em que sabia que o meu tio estava morto.
E eu estava a morrer de medo.
Mas tentei lutar contra todos eles. Eu juro que sim. Ainda assim, eles eram muitos mais, e vinham de toda a parte. Continuavam a entrar pelas janelas. Assim, levaram-nos com eles para as trevas que era o dia repleto de nuvens, arrastados, a mim, ao meu irmão e ao meu pai.
No local onde nos largaram, por fim, conhecia apenas uma cara pouco alterada: uma cara translúcida e sem óculos.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
A 6ª Noite
- Mia… Vá lá, não sejas assim… Eu prometo que não mordo. Ups, nenhum trocadilho subentendido. Vá, deixa-me entrar – continuou ele, como se eu lhe devesse alguma coisa. Suprimi a vontade de lhe mostrar um certo dedo e limitei-me a abrir a porta e a entrar. Ele fez tenção de me seguir, mas talvez pelo facto de lhe ter dado com a porta na cara, ele ficou à porta, e não entrou, mas continuou a gritar e a bater à porta.
Ignorei-o e ia para o meu quarto quando o JP me interceptou.
- Quem é aquele à porta? – perguntou, ligeiramente divertido.
- Um rinoceronte de calções aos corações cor-de-rosa. Quem é que achas? O anormal do Sérgio! – gritei, perdendo a noção do que dizia, com a fúria a toldar-me a lógica.
- O Sérgio? Nem sabia que andavas a falar com esse outra vez… - e aqui hesitou, esperando um relato que eu, obviamente, não lhe ia fazer. O meu irmão era muito fixe, mas no que tocava a contar-lhe segredos meus, não era a melhor opção. Não podia sequer imaginar o que ele diria de toda a situação com o tio Júpiter e o meu namorado vampiro. Há certas coisas que uma rapariga não pode dizer a ninguém, especialmente ao irmão mais velho e mais imaturo que ela.
- Não ando a falar com ele! Essa é a questão! Ele não aguenta que eu não lhe fale! Qual é a dele? Anda armado em perseguidor…
Num segundo, a expressão de divertimento na cara do JP perdeu o lugar para uma de preocupação.
- Aquele gajo anda a chatear-te?
Olhei para ele, quase sem acreditar.
- Sim, anda, mas Deus, não dessa maneira! Eu sou bem capaz de lidar com os meus assuntos sem precisar da tua intervenção! – na minha voz estava o choque de ter o meu irmão a pensar coisas daquelas do Sérgio. Estava certo, ele era provavelmente o rapaz mais irritante que já tinha conhecido, mas não era desses, assim, maus e obcecados por natureza.
- Era só… Só para confirmar – assegurou o meu irmão, parecendo mais calmo. Depois, continuou – Mas bem, como é, queres deixá-lo lá fora?
Revirei os olhos.
- O quê, só agora é que chegaste a essa conclusão? Toda esta conversa teve como base essa assumpção.
- Mia, andas tão agressiva, caramba, sempre a atacar tudo e todos… Só queria ter a certeza. É que eu preciso de sair.
- Eu, a atacar tudo e todos? – agora, a mostarda subiu-me ao nariz e desceu pelas vias respiratórias directamente até aos pulmões – E tens de sair? Para onde? Limita-te a deixá-lo lá fora, ele não há-de te defrontar numa batalha campal em guerra pela porta.
Ele ergueu uma sobrancelha enquanto olhava para mim e eu ergui a minha para olhar para ele de volta.
- Ok. Vou ter com a Lilith, queres que lhe diga alguma coisa?
- Não, estive com ela agora. Ela ficou um pouco abatida, por causa da… Vanessa – até dizer o nome dela doía. Dói sempre saber que nunca mais vamos ver uma pessoa.
Também a cara dele se enevoou.
- Ah, está bem. Então vou indo. Até depois… Vê se o rapazinho não nos destrói a porta – acrescentou, quando ambos ouvimos, bastante dissonante, uma nova pancada na porta em conjunto com o grito “Mia, abre a porta, por favor!”.
Nunca tinha tomado o Sérgio como um histérico, mas naquele momento, juro, ele era um.
O meu irmão pegou no casaco dele e dirigiu-se para a porta. Sem resistir, fiquei a assistir, do corredor, escondida pelo bengaleiro.
O JP abre a porta de rompante. O Sérgio dá um salto para trás de meio metro, de susto e, talvez, vergonha. Diz, pacificamente “Oi, JP”, e o meu irmão responde-lhe, como que uma insinuação assustadora “Olá, Sérgio”. Eu sei que por dentro ele se está a conter para não se desmanchar a rir, mas também sei que o Sérgio o está a levar muito a sério.
Na meia hora seguinte, fiquei praticamente descansada, envolvida no mais pleno silêncio. Por momentos, até tive esperança de que o Sérgio se tivesse ido embora.
Mas claro, as minhas esperanças foram totalmente em vão, uma vez que ao fim de uns escassos momentos se ouviram de novo os ruídos da minha pobre porta a ser espancada pelos punhos do Sérgio.
Interiormente, amaldiçoava-o, por dentro, e soltava vocábulos impróprios, em voz alta, porque o nervosismo sob o qual ele me punha me deixava sem controlo. Quem é que ele pensava que era para bater assim na minha porta?
Com a fúria a dançar-me na mente como labaredas acentuadas, corri para a porta. Abri-a de rompante.
Esse foi o meu primeiro erro.
Se o Sérgio pareceu surpreendido por me ver, não o mostrou. Não me admirava. Não era de espantar que eu tivesse ido ali fosse reclamar com ele, uma vez que o que ele me estava a fazer tiraria a seriedade a qualquer um.
- Vais finalmente convidar-me para entrar?
- Não! – respondi-lhe, ainda mais irritada. Como é que ele podia achar uma coisa daquelas quando eu me estava a tentar conter para não lhe bater?...
- Então, para que é que vieste aqui? – perguntou ele, fazendo-se de desentendido.
- Para te mandar embora! – respondi, estupidamente, como que a constatar o óbvio.
Ele riu-se. Isso mesmo. O Sérgio riu-se, na minha cara, tal como se eu tivesse dito a piada mais engraçada do mundo.
- Estás a brincar, certo?... Se tu já sabias que eu não te ia obedecer, para que é que vieste aqui? – e riu-se, mais um bocado, como se não se conseguisse conter.
Eu sabia qual era exactamente o remédio para ele se conter.
De uma assentada, esmurrei-o no estômago com toda a força que a raiva me arranjou. Tal como eu previra, isto calou-o num segundo. Esta foi a minha oportunidade de sorrir, brevemente.
Contudo, este foi o meu segundo erro.
- Ei, porque é que fizeste isso, Mia? – perguntou ele, agarrado à própria zona abdominal.
- Porque mereceste. Agora vai-te! – e neste instante estava pronta para lhe fechar a porta na cara, mas ele colocou o pé no meio da abertura da porta, impedindo-me de a fechar.
Aqui, eu hesitei. Este foi o meu terceiro erro.
Porque de seguida, com o pé, ele aproveitou-se da minha hesitação, em que tinha largado a porta, e abriu-a o suficiente para entrar, o que fez facilmente, uma vez que me empurrou com o próprio corpo contra a parede junto ao bengaleiro.
Com o mesmo pé ainda, fechou a porta, e de seguida, colocou ambas as mãos nas minhas bochechas, delicadamente, no início, como se fossem uma coisa de frágil.
De alguma forma incompreensível, eu permaneci quieta, sem me debater. Talvez ele não tivesse tido a coragem de fazer o que fez a seguir caso eu me tivesse debatido. Mas eu vi-o ao longe, tal como tinha visto na primeira vez em que o Artur me tinha dado um beijo. E tal como nesse dia, já há quase uma semana, não pus entraves, embora, obviamente, aquilo que devesse ter feito era algo completamente diferente.
Porque eu nem queria saber do Sérgio. Acho.
E depois ele beijou-me, suavemente, muito devagar, como que esperando um novo murro ou, talvez, uma joelhada. Mas nenhum chegou, e assim, o momento tornou-se angustiante. Angustiante porque eu só pensava no Artur, em como era ele que eu queria ali, no lugar do Sérgio. Só pensava que desejava ardentemente não ter encontrado o Artur, naquele dia, mas sim o Sérgio. Agora, o Artur estaria aqui comigo, e seria preferível ter o Sérgio como o morto-vivo de quem tenho pena, do que o Artur como o morto-vivo que amo.
Tão subtilmente como tinha começado, foi o Sérgio que parou o beijo. E depois, olhou para mim, horrorizado, tal como se eu fosse um monstro ou uma tremenda decepção, e eu olhei para ele, horrorizada de volta, com medo da expressão dele.
- Tu nem sequer queres saber de mim…
Espantada, decidi atacá-lo antes que ele me atacasse a mim.
- Eu? Mas tu, tu é que me beijaste, outra vez, apesar de eu te ter dito que não quero nada de ti… - e disse-o com mais maldade do que aquela que gostaria, mas há tempos em que não controlamos a nossa boca.
E ele continuava a olhar para mim, cada vez mais… Desesperado, como se eu tivesse pegado em todos os sonhos dele e os tivesse tornado pesadelos, como se tudo o que fizesse fosse fazê-lo infeliz, como se eu fosse um monstro, mas não das bolachas, apenas um monstro, um monstro terrível.
Mas como se veio a revelar dentro de instantes, o monstro era ele.
- Como é que tu és capaz de deixar que eu te beije enquanto pensas no Artur, e que preferias que fosse eu no lugar dele? Como é que…? Argh – e estas palavras gelaram-me. Ele ouvia pensamentos? Por amor de Deus! Desde quando? O que raio é que se estava a passar com esta cidade?
E depois embateu-me, com toda a força, a verdade. Ele… Ouvia pensamentos. E o Sérgio não era a pessoa mais bem formada do mundo. Da mesma forma como ele tinha violado a minha mente, podia (e ia) violar a de outros! Eu não podia deixar isso acontecer… Um leitor de mentes não estava nos meus planos. Muito menos um que, por acaso, era o meu ex-namorado.
Oh Deus.
- Desde quando? – perguntei, quase sem acreditar, numa voz apagada.
- Desde ontem à tarde. Por acaso, toquei no Nêspera, sabes quem é, certo? Toquei nele e ouvi aquilo em que ele estava a pensar. Não perguntes o que era. Não era bonito. Não é bem ouvir, sabes, a sensação é mais de… “sentir”. Tal como se eu fosse essa pessoa por um momento. Mia, porque é que me detestas tanto?
Oh Deus. Ele ouvia aquilo em que as pessoas pensavam, e para isso, bastava tocar nelas. Pior, ele tornava-se elas. Como é que eu podia viver tendo conhecimento disto? Aconteça o que acontecer, Mia, não toques nele. Era nisto em que pensava. Se ele soubesse em que mais pensava, era capaz de ainda ficar mais chocado comigo, mas eu não me importava. Estava de consciência tranquila em relação àquilo em que estava a pensar agora. Mas não podia deixar que me tocasse. Nunca mais. Sob qualquer motivo.
- Porque é que me beijaste? – respondi à pergunta dele com a minha própria pergunta.
- Porque te amo – respondeu, de forma automática. Demasiado automática para ser verdade. Demasiado automática para ele saber caso não se tivesse convencido disso por pensar demasiado em mim. O comportamento dele cada vez se me assemelhava mais obsessivo. E eu comecei a tremer.
- Porque não te amo – respondi.
Notando que eu tremia, ele engoliu a minha resposta sem comentar e perguntou-me, hesitantemente, estendendo a mão dele para o meu ombro:
- Estás com frio?
Automaticamente, retraí-me. Não, não, não. Não me ia tocar nunca mais, e gritei-o com um “não”:
- Não!
- Que é? Porque não queres que te… O quê? Estás com medo que leia os teus pensamentos? Mas só te ia tocar na roupa… - agora parecia ocorrer-lhe, pela primeira vez, o que me ocorrera a mim.
Não lhe respondi. Ao invés, apontei para a porta, assertivamente, e gritei:
- Sai da minha casa.
- Mia! Eu não tenho culpa!
Ainda assim, não cedi e insisti de novo para que ele saísse. Desta vez, não houve qualquer hesitação. Por fim, como que ele se mantivesse especado no hall, mandei um enorme murro no bengaleiro, fazendo com que este caísse ao chão, fazendo um enorme estrondo, e eu gritei, novamente, mas desta vez com um som distorcido, quase como um dos guturais de que a Lilith tanto gostava:
- SAI!
Desta vez, ele obedeceu-me, e fechou a porta silenciosamente atrás dele.
Não, o Sérgio não era um vampiro que me precisava de ser convidado a entrar. Também não era apenas um ex-namorado irritante e sem vida própria. Agora, ele era um telepata. Espectacular, não? Esta minha vida estava mesmo a adoptar contornos interessantes. Deveria começar a fazer contagem decrescente para saber quando o João Marques da minha turma ia começar a uivar à lua cheia? É que já seria de esperar. Afinal de contas, na minha alucinação, ele era um lobo.
E o André, o meu amigo de longa data, agora um amigo quase perdido pelas sequências paranormais que se davam na nossa estreita cidade, um fantasma. Ou ninguém. Era verdade, de certa forma, que para mim, ele se tinha desvanecido.
Era já escuro. Deixei um post-it no frigorífico que dizia “Saí, volto tarde”. Talvez mais tarde viesse a ter problemas, mas já nem me importava. Tinha de ir ter com o Artur. Tinha de ir ter com o Artur, porque ele era o meu monstro preferido de todos os que por ali andavam. E não sei que faça. Porque quero tanto salvá-lo, e não o posso fazer.
Corri, pela noite, mas ainda não era tarde o suficiente para que ele já tivesse acordado. Não sabia o que esperar daquela noite. Nunca sabia o que esperar.
Mas talvez não pudesse, de facto, esperar nada dele ou daquela noite. Talvez ele destruísse o caderno, talvez ele o comesse. Não sabia. Não queria saber, porque tinha medo da resposta. Tinha tanto, tanto medo de tudo.
E em todas as noites em que me dirigi para perto dele, durante aquela quase semana, havia sempre um misto de esperança e de medo dentro de mim.
Sexta-feira à noite. Costumava ser o dia em que eu, o André e a Lilith saíamos e falávamos de coisas parvas. Não a noite em que a Lilith estava de cama, em que o André estava sabe-se lá onde, e em que eu ia embrenhar-me nas trevas profundas à procura do meu amado vampiro, se é que ele podia ser chamado vampiro. Tecnicamente, aquilo que ele era não era um vampiro, mas uma criatura sugadora de sangue que sofria de Alzheimer todas as noites e que durante o dia aparentava estar morta. O que era ainda pior.
Por fim, perdi noção do tempo, e sentei-me num banco de jardim próximo do Vendredi, sozinha. Não fazia ideia de onde ele pudesse estar hoje. Não podia saber… Mas ele vinha ter comigo. Eu sabia. Porque, de alguma forma, ele era atraído por mim. Essa era a única explicação para noite após noite se darem explosões tão apaixonadas e violentas entre nós os dois. Já tinha quase desfalecido nos braços dele e ele nos meus; e no entanto eram inegáveis os meus sentimentos por ele. Queria protegê-lo, enquanto que tinha medo do Sérgio. Há mais a temer num leitor de mentes do que numa sanguessuga.
Vi passar pessoas que iam para a agitação de sexta-feira à noite, mas apesar de olharem para mim e me reconhecerem, ninguém falou comigo. Eu não falei com eles. Não me compreendiam. Excluíam-me do que eram eles porque pura e simplesmente não me compreendiam, não sabiam como tabelar, especialmente agora que a Lilith estava em casa e o André me tinha semi-abandonado. E ninguém me falou. Como se não fosse ninguém, ou pior, como se fosse alguém de quem eles não gostavam.
Baixei, assim, o olhar, para os desobrigar de me notarem sequer para terem de tomar a difícil decisão de se hão de me falar ou ignorar. Ou talvez fosse simples, não sei. Talvez fosse eu que não os quisesse encarar, nunca mais.
Assim, foi apenas algum tempo depois que vi aparecer um par de sapatos pretos empoeirados debaixo no meu olhar tombado no chão.
Ergui o olhar. O Artur olhava para mim, das suas alturas quase divinas, com ares de dúvida, entalando nos dedos da mão direita um cigarro consumido até metade. Os olhos escuros adoptavam aquela expressão sem expressão, e fitavam-me com o que quase podia ser desdém.
Nunca em todas as noites que o vira até ali desde o incidente infernal do “antídoto” o vira tão semelhante àquilo que ele era antes de se tornar uma criatura da noite. Quase poderia achar que tinha tudo sido um sonho e que ele estava ali apenas como em qualquer outra sexta-feira à noite. Talvez ele ainda andasse com a minha prima. Talvez o próprio Sérgio ainda andasse com a Loira. Mas ainda assim, o que ele me disse não foi o de quem me conhecia, nem sequer o de quem me desprezava. Disse:
- Deixaram-te pendurada, miúda?
Suspirei. Sorri, tristemente.
- Sim, mais ou menos isso.
- Deixa, perda deles, ou dele, ganho meu. Como te chamas, miúda?
- Emília. Podes-me chamar Mia, se quiseres.
Dum momento para o outro, a face do Artur pareceu modificar-se ligeiramente. Mas como era costume do verdadeiro Artur, conseguiu manter a expressão facial neutra.
- Emília… É um nome muito comum?
- Não, nem por isso, era comum há uns anos atrás, penso, mas agora é bastante invulgar entre raparigas da minha idade.
Aqui, o ar pensativo do Artur intensificou-se.
- Conhecemo-nos? – perguntou, hesitantemente, como se não fosse importante.
Sorri, interiormente, mas o sorriso quase não me chegou aos lábios.
- Depende. Leste alguma coisa interessante, ultimamente?
Ele também sorriu, minimamente. Ainda assim, não deixou a face alterar-se.
- Não acredito que meti conversa logo contigo, que pontaria. E eu que só ia tentar encontrar alguém que te conhecesse.
Também eu, pacífica, respondi-lhe sem alterações emocionais a revelarem-se na minha voz. Quem nos visse, pensaria que podíamos estar a falar de qualquer coisa mundana, mas nunca sobre o assunto terrível que era o verdadeiro.
As pessoas continuavam a passar por nós, mas nenhuma nos falava. Nem os que tinham sido, há uma semana, os grandes amigos do Artur pareciam reparar nele, tal como se ele fosse invisível. Aparentemente, apenas eu e o Sérgio o víamos, mas eu não percebia porquê.
- Acho que tu tens algum tipo de atracção por mim. Todos os dias desde a semana passada que vamos sempre directos um ao outro, sem motivo algum. Mesmo quando tu estás… Bem, quando não estás em ti.
- Quando sou um monstro, diz antes. A história do caderno é um pouco inacreditável. Não faço ideia do que é que possa fazer a este caderno precioso no dia em que acordar um monstro tremendo… - constatava estas preocupação com descontracção, tal como um condenado que já se habituou à ideia de ter de morrer.
Fiquei em silêncio, por uns instantes. Também eu não tinha ideia do que poderia acontecer. Ele não esperou pela minha resposta:
- Sabes, Mia, acho que hoje estou num dos meus dias racionais. E portanto vou-te dizer apenas uma coisa, que me parece ser o melhor para ambos: mantém-te afastada de mim, para sempre.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
O 5º Momento Pós-Vampirismo
Esperançosamente, com um caderno de argolas a seu lado.
Levantei-me e senti-me pesada, como se algo de muito horrível estivesse prestes a acontecer, a qualquer instante. Não era nada de extraordinário, no entanto, uma vez que esse sentimento era já bastante usual desde o dia infame em que vira o dedo do Sérgio a ser mordido em frente aos meus próprios olhos. Todos esses acontecimentos estranhos dos primeiros tempos permaneciam sem qualquer explicação, e não pareciam vir a ter nos tempos próximos. Havia gente a tentar converter a população toda em monstros? Estava certo. Mas agora, com que motivo? Queriam fazer um filme de terror com de baixo orçamento, ou quê?
Esmiuçar as ideias para as tornar algo que se visse e compreendesse não estava a resultar. Apesar de ter dormido naquela noite, continuava dorida, como se fosse a princesa da ervilha debaixo do colchão, e todo aquele pesadelo diurno me estivesse a torturar ininterruptamente.
Era horrível, abria uma gaveta e ficava um minuto a fitar o vazio, para depois dar conta de mim e pegar na primeira camisola quente que estava à vista. Vestia-me sem a noção do que fazia, porque as dúvidas e os medos tomavam todo o meu tempo. Caminhei para a escola, sozinha, lentamente. Cheguei atrasada quinze minutos, mas mal dei por isso. Sentei-me na minha carteira, onde estava sozinha. Assisti a todas as aulas com tão passiva como uma morta. Mas eu não estava morta. O Artur estava.
E, vim a saber no segundo intervalo, também a Vanessa, que estava a faltar desde de manhã, mas que pela ausência eu não tinha dado conta.
Foi uma colega minha, a Raquel, que começou aos berros e a chorar de forma quase automática, ao telemóvel, estava eu ao lado, assim como muitas das minhas outras colegas. Tínhamos estado a falar, como num dia normal. Não me lembro de qual era o assunto, mas este empalidecia com certeza ao pé daquilo que se começou a passar assim que a Raquel atendeu o telemóvel.
Alucinada, esquecendo-se de tudo o que fazia sentido, começou a gritar, como se todos tivessem de saber, como se toda a escola tivesse de saber, como se não suportasse que ficasse alguém sem reconhecer aquela dor tão forte, e dizia:
- Ela está morta! Ela está morta! Morreu! Ela está morta!
- Quem é que morreu? – foi o que lábios de muitas caras perguntaram, todos adoptando uma face de cera, como se morressem de medo, como se todo o seu mundo de cristal pudesse cair ao chão com a resposta que urgentemente, queriam e não queriam ouvir.
Uma das minhas colegas aproximou-se da Raquel e tentou abraçá-la, para que ela parasse de gritar. Neste ponto, o histerismo corrompeu-se e ela parou de gritar para soluçar como se não houvesse amanhã.
- Quem foi, Raquel? Quem morreu? – perguntou a medo, a minha tal colega.
E, entre soluços que vinham às sílabas, ela sussurrou:
- A Vanessa.
A partir daí, foi o pânico geral. Agora, ouviam-se muitas mais vozes a gritar “Não!”, “Ela morreu!” e “Não, a Vanessa não!”, caíram muitas lágrimas naquele corredor, e o tempo pareceu congelar.
Havia, no entanto, outras pessoas como eu, incapazes de reagir, que apenas assistiam com o diabo pespegado na cara.
Por fim, consegui pronunciar, a medo, as palavras “Oh meu Deus”, e também eu comecei a chorar, porque a Vanessa era parte do meu mundo, e a Vanessa tinha sido uma pessoa espectacular.
Todas nós chorávamos, também alguns rapazes. As pessoas chegavam e perguntavam o que se passava, inutilmente, porque se continuavam a ouvir os gritos de “Ela morreu”, “Ela morreu”…
Por fim, o namorado da Vanessa, o Jorge, perguntou, recusando-se a acreditar:
- Como? Como é que ela morreu?
A Raquel tentou engolir os soluços, mas não conseguiu, e a frase seguinte saiu como se quase não existisse:
- Caiu num poço… Morreu… Afogada!
Eu tinha visto a Vanessa como uma criatura das águas, na minha alucinação, tal como vira a Lilith magoada como um quase cadáver.
Olhei para o André, que estava também parado no corredor, em choque, e sem pensar no que fazia, abracei-o com força, quase atirando os óculos dele ao chão, pois sabia que em breve já não o poderia fazer.
Ninguém foi à última aula. A stôra não pressionou ninguém para ir. Também ela estava abalada. Toda a gente estava abalada. Nada fazia sentido, porque a morte não faz sentido. Especialmente quando se é jovem e se tem todos os momentos cheios de significado à nossa frente: a universidade, o casamento, os filhos, o primeiro emprego; tudo isto estava perdido para a Vanessa. Para sempre.
Também o meu vampiro estava longe de alcançar qualquer um desses momentos: mas ainda assim, eu não desistia, por ele, não podia desistir. Acreditava, ainda, que um dia, ele podia vir a ser gente de novo. Ele podia: nós podíamos vir a ser felizes juntos. Os momentos futuros dele podiam ser os meus e os meus os dele. Podíamos… Se ao menos eu tivesse sabido do dito “antídoto”. Se ao menos… Começava a ser altura de confrontar o meu tio Júpiter. O meu tio ia ter de me arranjar uma explicação muito boa para me impedir de destruir os laços familiares.
Mas ainda assim, não era capaz de deixar de ter medo do que ele pudesse fazer. Ele tinha destruído a vida daquele que eu amava sem sequer o intentar. Aquele veneno era para mim, aquele destino era o meu; e eu entregara-o àquele que amava como se fosse a salvação. Tinha-lhe querido tanto, naquela noite em que ele morrera pela primeira vez. Queria-lhe tanto, ainda agora, e afinal, nada disso importava. Se não lhe quisesse tanto, ele não estaria assim…
E nunca tinha descoberto fosse o que fosse sobre a família dele. Teria ele família, sequer?... Não sabia nada dele. Não sabia nada, e era esse mistério que me consumia o peito, era essa ignorância que me ardia no coração. Mas não só… Podia ter sido feliz com ele.
Mas o mundo parecia feito uma realidade irreal. Quem haveria de pensar que as minhas meras desconfianças de que alguma coisa não estava bem iam resultar naquele desfecho temível? Um rapaz, que eu amava, que morria todas as noites; a minha melhor amiga desaparecida, regressada em péssimo estado; e agora: uma colega minha de turma, morta, afogada, após eu própria ter tido a alucinação de que ela era uma criatura aquática.
Poderia tudo isto ter uma explicação plausível, apoiada pela ciência? Não me parecia. E isso custava-me. Tinha-me habituado a confiar na ciência. Tinha-me habituado a acreditar no que podia compreender, mas eu não podia compreender isto! Não havia qualquer lógica em tudo o que sucedia, o único fio condutor era que todos estes acontecimentos me doíam, e doíam muito!
Toda esta história não era senão um filme de terror dos baratos. Mas era real. Era tudo real, para mim, a toda a hora. Era como se tivesse entrado na cabeça doente de alguém e estivesse agora à luta com a imaginação dessa pessoa doente.
Nesse dia, estivera perto do Sérgio, mas nem tinha dado por isso, tão absorvida como estava nos meus problemas prementes (ao contrário do Sérgio). E portanto, surpreendeu-me encontrar na minha mochila um envelope fechado que dizia apenas: Emília.
Abri-o, sem me preocupar muito com não rasgar o papel. Tirei uma folha A4 dobrada de dentro deste e comecei a ler.
Mia:
Penso que me estás a tentar ignorar. Não te censuro. Sei que não me queres envolvido neste assunto nunca mais, mas eu sei, e não consigo dormir a pensar que podes estar a ser mordida por aquela besta (e sim, sei que ele já foi meu amigo, não quero saber). Assim, quero que me mandes uma SMS a dizer se vais sair à procura dele esta noite, e se fores, quero ir contigo. Prometo que não te pressiono para nada que não queiras. Apenas estou preocupado contigo. Não me morras. Manda-me a tal SMS.
Fico à espera.
Beijos,
Sérgio
A minha primeira reacção foi fazer uma bola daquela carta e atirá-la à parede do outro lado do quarto. Quem é que ele se achava para me dizer aquilo? O Super-Homem? Ele não era nenhum super herói ou cavaleiro andante, para estar à espera para salvar a dama em apuros quando fosse preciso! Eu era bem capaz de tomar conta de mim. E depois, era o Artur, não um monstro! E tudo bem, o Sérgio já tinha tido duas oportunidades de me salvar de morte certa por causa dele, mas ele não tinha culpa e o Sérgio…
Bem, talvez fosse afinal ingrato da minha parte não reconhecer que se não fosse pelo Sérgio já estaria tão morta como a Vanessa. O Sérgio tinha-me salvo a vida de muitas mais formas do que as que estava preparada para admitir. O facto de ele ser o meu ex-namorado não ajudava nada ao facto de lhe estar grata. Como é que uma rapariga pode ter sentimentos de vulnerabilidade em relação a um ex-namorado? Não se pode ter. Uma rapariga tem de parecer sempre forte. Porque se eu não parecer forte, se ele achar que sou frágil, vai parar de pensar em mim como um espírito livre, vai pensar que eu estou a sentir falta dele, quando na realidade, a única coisa de que preciso é paz!
O Sérgio era um símbolo mais do que não queria ser, do que aquilo que poderia vir a ser. E assim, não era capaz de pensar com coerência acerca dele.
Depois, comecei a pensar no quão simpático, querido até, da parte dele era que ele se tivesse oferecido para vir comigo. Ele não tinha visto o Artur nos seus melhores dias, só quando ele estava num estado semelhante ao dum animal selvagem. Assim, pensei que talvez lhe fosse mandar uma SMS. Mas não era para ele vir comigo. Era para lhe dizer que se deixasse de preocupar. Não fosse eu estar grata com a atitude dele, ainda que apenas em certa medida, nem lhe teria dito mais nada. Assim, disse-lhe “Não necessito de escolta/guarda-costas. Obrigada na mesma.”.
Mas ele, claro, não se ficou. Passados cinco minutos, se tanto, recebi uma mensagem que dizia “Ainda bem que nos entendemos. Vou buscar-te às dez.”.
Toda a condescendência que eu podia ter por ele desapareceu naquele instante.
- Quê?! Mas este gajo anda a gozar-me? – reclamei, em voz alta, demasiado zangada para me dar conta que tinha falado.
Mandei-lhe uma SMS de volta. Dizia: “Mas tu és estúpido?! Disse-te que não preciso de ti!”. Mas, novamente, ao cabo de poucos minutos, recebi uma nova SMS dele que dizia “Está certo. Nove e meia, então.”.
Foi nessa altura que atirei o telemóvel para a cama, com um só movimento brusco, e não quis mais saber dele. Decidi nesse mesmo instante que ia sair de casa às oito, para que quando ele viesse cá ter batesse com o nariz na porta. Ia-me dar gozo saber disto. Claro que ele era estúpido, se não pensasse nessa possibilidade. Mas ele era mesmo assim: estúpido.
Reconciliei-me depressa com o meu telemóvel e mandei uma SMS à Lilith a dizer que ia passar por casa dela dentro de meia horas.
E assim foi, dentro de meia hora estava defronte da porta dela. Subi no elevador e, em segundos, batia à porta. Desta vez, foi a avó da Lilith que me abriu a porta. Tinha ido para casa da filha para tratar da neta, e parecia estar a adorar o serviço.
- Entra, querida, entra… A minha Liliana esteve a tarde toda a dormir, agora vai-lhe fazer bem um pouco de companhia.
Aquele “a tarde toda” fez-me uma ligeira confusão, uma vez que ainda mal eram quatro da tarde e a Lilith tinha-me respondido à minha SMS, meia hora atrás.
Entrei, devagarinho, como se tivesse medo de a acordar. Ela parecia estática, na cama, como se estivesse imersa num sono profundo.
Sussurrei, baixinho:
- Lilith, estás a dormir?
De imediato, ela virou-se, na cama e encarou-me.
- Ah, és tu. Como esperavas que te respondesse? Sim, Mia, estou, vai-te embora?
Mas eu estava demasiado chocada para responder.
- Tu estiveste a fingir que estavas a dormir?
- Bem… Um bocado. Sabes como é… As avós são pérolas, mas no que toca a doenças e sopinhas… - e fez uma careta.
- Lilith! Só podes estar a brincar!
- Não te preocupes, Mia. Foi só a seguir ao almoço. Já não podia comer mais caldinhos e coisas do género. Toda a gente continua a fazer um grande escândalo acerca disto, mas eu estou bem. Estou mesmo muito bem. Às vezes, de noite, quando ninguém me pode impedir, levanto-me e ando um bocadinho. Já nem me dói. Estou mesmo muito bem.
A rapariga estava cada vez a deixar-me mais irritada.
- Mas tu não tens cérebro? Estás magoada, não podes andar aí a cirandar dum lado para o outro! E estás a ver, arriscas-te a atrasar muito mais a tua recuperação!
- Não, assim estou a adiantá-la. Fisioterapia é algo extremamente recomendável. Passar aqui o dia todo enfiada sem poder mexer as pernas não é! Não interessa. Novidades?
E o lembrar-me das novidades fez-me cair na cama ao lado dos pés da Lilith. Não me tinha esquecido. Como podia? Mas estava a tentar evitar pensar nisso a todo o custo.
- Lilith, a Vanessa… A Vanessa morreu.
- O quê? - toda a Lilith deu um salto na cama. Pareceu estar em choque, por instantes – Como é que isso aconteceu?
- Afogou-se. Num poço…
Por mais uns instantes, a Lilith permaneceu calada. Depois, começou a chorar baixinho. Não era próprio dela mostrar tristeza, mas a morte de uma colega era muito. Mais tarde, também ela fez a mesma associação que eu.
- Espera… Tu alucinaste com a Vanessa também, não foi?
- Sim.
Ficámos as duas em silêncio por mais um bocado.
- Pode ter sido uma coincidência – atalhou a Lilith. Não muito convencida, disse-lhe:
- Sim.
Mas nenhuma de nós acreditava nisto. E parecia que no meio de nós tinha caído uma pedra de gelo. A morte de uma colega, ainda que não muito chegada, é sempre um acontecimento triste.
Não ajudava o facto de eu ter tido uma alucinação em que ela se tornava numa criatura do elemento em que tinha morrido.
Não falámos de muito mais, nessa tarde. Nenhuma de nós se sentia com disposição para animar a outra. Só queríamos estar sós, acho.
Assim, saí e dirigi-me a casa. Encostado ao lado da minha porta, com um pé apoiado na parede, estava o Sérgio.
Sem sorrir, embora tenha tentado, perguntou-me:
- Então, Mia, vais convidar-me a entrar?
domingo, 22 de novembro de 2009
Boas Notícias
Agora, só falta acabar a história, e não se preocupem, acho que vou manter o ritmo!
Champagne virtual para todos por minha conta xD E para quem não gostar de champagne, é só pedir outras coisas... Desde que seja tudo virtual, estou a sentir-me muito generosa!!
Para festejar, vou deixar aqui uma Playlist que usei (e vou continuar a usar), muitas vezes, na história "O Vampiro no Armário". E não se preocupem, é tudo muito soft.
1. Faraway V. 2, Apocalyptica (Emília & Artur theme song)
2. The Power of Love, Agua de Annique (Emília & Sérgio theme song)
3. Damned and Divine, Tarja Turunen (Main Theme)
4. Love is Suicide, Katy Rose (Lilith Theme)
5. My Mind's Eye, Sirenia
6. Heretica, WitchBreed
7. Astronaut (A Story of Nearly Nothing), Amanda Palmer
8. Violent Poetry, Jonna Enckell
9. The Haunting (Somewhere in Time), Kamelot
10. My Goodbye, Automatic Loveletter
11. Vandring, The 3rd and the Mortal
12. Hate, Tystnaden (bonus track xD)
sábado, 21 de novembro de 2009
A Verdadeira 5ª Noite
Tentei ignorar o terrível pressentimento que tudo aquilo me fazia ressoar pela espinha abaixo e acima, alternadamente. Levantei-me. Não conseguia encontrar posição. Toda a minha preocupação e reflexão durou apenas alguns segundos, e nada mais.
Decidi cumprir o meu sonho, pelo menos na primeira parte, e decidi ir a casa da Lilith ver como ela estava. Talvez ela conseguisse tirar algum sentido de tudo o que se passava comigo e com a minha cabeça… Talvez ela pudesse explicar-me o que me acontecera, talvez…
Fui até lá, correndo, porque estava frio na rua. Quando lá cheguei, senti-me surpreendida quando o meu irmão me abriu a porta. Não porque ele lá estivesse, não, até no meu sonho isso não me tinha surpreendido. Surpreendeu-me, sim, o que ele disse:
- Então, já estás aqui? Eu vim… Ver a Lilith… Sabes como é… Estás melhor? Deixei-te a dormir porque parecias de facto muito cansada. Espero ter feito bem.
Tudo o que ele tinha dito era um decalque do que me tinha dito no meu sonho.
Tentei ignorar isto, uma vez que a verdade era que eu já conhecia o meu irmão muito bem. Não era de estranhar que previsse o que ele dizia, contei a mim própria, não tendo a certeza de que acreditava no que pensava.
- Sim, foi bom, obrigada – disse, distanciadamente. Eu não dizia o mesmo que no meu sonho. Eu estava diferente. Aquilo não era o meu sonho.
Dirigimo-nos os dois para o quarto da Lilith e ela parecia estar muito bem. Novamente, tal como no que sonhara.
Quase resignada, e tentando exprimir facilidade, disse-lhes o quão feliz estava por eles os dois terem reatado:
- Eu sabia que esta era a cura perfeita para vocês os dois!
O meu irmão fez-se desentendido e virou a cara. Outra vez. E a Lilith sugeriu:
- Sim, eu disse-te, Mia, eu disse-te que não era nada… Vês, toda a gente aí a ser condescendente, e em menos duma semana já quase me ponho de pé. Queres ver? – Outra vez. Com tenções de se levantar.
Desta vez, apenas o meu irmão tentou impor respeito e mandou a Lilith ficar quieta, porque eu estava toldada com o choque.
- Deixa-te estar deitada, Lilith!
E aproximou-se dela para a impedir de se levantar pela força.
De súbito, ocorreu-me o que sucederia dentro de talvez vinte minutos, no caminho para casa. Despedi-me à pressa, usando a desculpa do “devem querer estar sozinhos”.
Corri todo o caminho. Não podia ficar doida no caminho para casa de novo. Porque eu sabia a onde isso me levaria.
E portanto corri contra o tempo e contra as vozes. Por fim, cheguei a casa, e descansei. Fechei-me no meu quarto. Deitei-me na cama, ainda vestida, e tentei adormecer.
Mas elas chegaram antes de Morfeu. E levaram-me com elas para terras de agonia, de novo. Agora, reconheci-lhes logo desde o início o discurso, as palavras nojentas, as palavras que magoam, que apesar de palavras eram também a mágoa: há poucas palavras que magoem por si só, mas a forma como as articulamos dita o seu sentido, o sentimento por detrás destas. E aquelas vozes articulavam-nas em forma de instrumentos afiados, em forma de chicote ardentes e agonias crescentes.
Mordi a minha almofada para não gritar. Mordi-a tanto, que o tecido se desfiou.
Novamente, senti os líquidos infernais derramando-se em toda a minha extensão, toda a pessoa doente que sou eu… Se aquilo eram alucinações de novo, não sabia o que fazer. Começava-me já eu própria, lentamente, a transformar em monstro?
Eles, os maus da fita, estavam a ganhar-me, e eu, derrotada, agonizava na minha cama.
Por fim, como uma libertação, perdi os sentidos de novo. Na minha inconsciência dei graças a tudo o que me era querido por tudo aquilo ter terminado.
Acordei, mais tarde, com o JP a pronunciar o meu nome, preocupado.
- Emília… Então? A dormir outra vez? Estás mesmo doente…
- Não, JP, não… Eu estou bem. Só me deitei porque… Estava só um pouco cansada, ainda. Que horas são?
- Nove e meia. Só te acordei porque pensei que quisesses jantar. Os pais ainda não chegaram. Acho que vão trabalhar até tarde.
- Sim, eu vou jantar – e disse-o com gosto, porque as vozes também já não me atormentavam a mente. Pelo menos para já. Mas esperava que se tivessem ido embora de vez.
Por favor, que elas se tivessem ido embora de vez!
Jantei com o meu irmão, com tabuleiros, sentados no sofá da sala a ver o último episódio de Bones. Até o Rockline estava esparramado no tapete a ver a série. Foi um serão agradável, sem vampiros e alucinações. Quase me senti como antes de toda esta confusão ter começado.
Sentia-me mal só por pensar que teria de sair daquele local quente para ir procurar o Artur, daqui a umas horas.
Ou antes, não teria de o procurar. Lembrava-me de onde ele estaria. Era talvez uma má ideia querer estar com um vampiro, e dançar com ele a céu aberto… Mas desta vez, estaria bem vestida, com um casaco quente, e seria feliz. Não me conseguia impedir de desejar isto, de respirar por isto, unicamente isto, e nada mais, e seria feliz. Não haveria mais nenhum ponto do sonho que valesse a pena reviver, mas este, e aquele só, e seria feliz. Ia ter com o Artur, e ia de certeza, e seria feliz.
Disse ao meu irmão que ia sair, que me encobrisse para os nossos pais quando eles chegassem, e ele, estranhamente, pareceu motivado para isso.
- Mas não voltes tarde, está? Leva a chave, miúda.
Na rua, estava tanto frio como no dia anterior, mas desta vez, estava protegida pelo meu casaco de penas e pelo, e trazia as mãos nos bolsos. Caminhei devagar, porque não devemos correr para os momentos de grande felicidade, mas sim aproveitar cada segundo em que caminhamos, lentamente, em direcção a eles, tendo consciência de que nunca nos vamos sentir melhor na nossa vida do que naquele momento (que quem me dera que fosse para sempre) de antecipação. Aquele momento era melhor em muitos aspectos que o próprio momento em que viesse a estar frente a frente com o Artur, porque nesse momento estaria demasiado ocupada a viver o momento para o sentir, de facto, como ele merecia ser vivido.
Queria vivê-lo duzentas mil vezes, e fazer dele desenhos, poemas e cores. Queria pintar numa tela todos os detalhes da face dele, do vulto dele, do sentimento lindo e maravilhoso que ele me fazia nascer e crescer no peito, como uma enorme orquídea sendo bela, bela e apenas mais bela, ao fim do dia, ao fim da estação, ao fim do mundo…
Podia sorrir e ser feliz, mas nunca feliz como naquele instante fui, naquele instante em que, esquecida de que quando o visse ele não se lembraria de mim, naquele instante em que, esquecida de que ele estaria morto ao sol-pôr, naquele instante em que, esquecida das partes más do meu sonho tornado realidade, feliz.
Sentia animais esvoaçantes brotarem-me da alma, do interior da minha dilatada alma, que apenas se dilatava mais, a cada passada, a cada instante fino da ampulheta, a cada sombra que se abatia sobre mim, à medida que avançava para as sombras onde o poderia encontrar.
Não tardou, ainda assim. Mas pareceu durar as eternidades que a felicidade cobra, sempre que vem. Mas ainda assim, não tardou. Vi o vulto dele desenhar-se como uma sombra nos nevoeiros inventados só para nós, só para o nosso momento. Vi-o olhar-me, mais próximo, com as feições traçadas a sombra, e vi-o próximo de mim. Vi o sentimento nos olhos dele, vi a afeição à primeira vista nos olhos dele, que já tantas vezes haviam olhado para mim. E tive medo… Tive muito medo que ele não me dissesse, de seguida, aquilo que me tinha dito em sonhos.
Tive até a tentação de correr para longe, de fugir dali, de ser uma alma intocável, jamais magoada, como se nunca ninguém lhe tivesse posto mão, como se eu pudesse ser para sempre uma criança que espera o que nunca poderá chegar.
Mas não corri, não fugi. Porque estava na altura de enfrentar a verdade… Estava na hora de ser quem eu queria ser, pelo menos por aquela noite.
Portanto, esperei as palavras que já ouvira, enquanto ele me tocava ao de leve na face:
- Quem és tu, bela dama? – mas desta vez não comentou a minha indumentária.
E eu fui feliz, enquanto lhe estendi a mão e lhe disse, como num guião exacto:
- Senhor. Oh, meu senhor… Sou quem tu quiseres que eu te seja.
Fui eu quem exprimiu primeiro a intenção de dançar. E bailámos, ali, de novo, tal como no meu sonho. Há quem diga que os sonhos não se tornam realidade? Pois, quem diz isso tem razão. Não era sonho meu apaixonar-me por quem nunca poderia ter, não de verdade, mas se os meus não sonhos são sonhados e, depois, concretizados, quem se importa? Não eu, de facto. Não naquele instante. Não compreendia. Não podia compreender. E apesar de tudo, não queria compreender. Tinha medo, talvez, que a compreensão assassinasse a minha orquídea com uma labareda de fogo, de uma só vez.
E assim, dançava, dançava e nada mais, porque dançar era a única coisa que merecia a minha vontade.
E pensava no Artur. Pelos céus, como pensava nele, ainda que o tivesse e ao coração dele, nas minhas mãos, nas minhas próprias mãos.
Contei-lhe tudo. Enquanto dançávamos, expliquei-lhe tudo o que acontecera, ele ouviu, silencioso. Nem por um só momento me disse uma única palavra. Mas ouviu-me, e eu contei-lhe tudo, do início, contei-lhe como o amava, contei-lhe porque é que não se recordava de nada, contei-lhe tudo para lhe preencher o vazio no coração dele…
E quando terminei, parámos, os dois, sobre a calçada. Separámo-nos, silenciosamente. A felicidade morria um pouco, no meu peito. Olhámo-nos, fixamente. Por fim, ele disse-me:
- Eu acredito em ti. Tens um caderno, por favor?
Esta pergunta baralhou-me profundamente, de todas as coisas que ele podia ter dito, e de todas as formas que ele podia ter reagido, nunca esperei um mísero “Tens um caderno, por favor?”.
- Para quê? – perguntei-lhe. Talvez ele não tivesse, afinal, ouvido nada do que lhe dissera.
- Para não esquecer, outra vez. Para não esquecer, Emília.
E a compreensão apoderou-se de mim. Ele não me queria esquecer. Ele não se queria esquecer. Ele ia escrever, e ia-se recordar. Para sempre. Talvez não aceitasse, mas ele estava disposto a tentar.
Não reconhecia o Artur desta noite, após a noite anterior.
Na noite anterior, o Artur fora, em todas as medidas, um animal. Esta noite, no entanto, acordava como um príncipe encantado. Se ao menos ele acordasse assim todas as noites!
Ou se ao menos eu encontrasse o antídoto para o “antídoto”. Faria qualquer coisa… Daria a vida, talvez, para salvar a dele, embora não desse as minhas tardes de aulas por ele. Não sabia o que se passava hoje, mas ele não parecia interessado no meu sangue, não parecia revoltado, apenas parecia… Um rapaz bastante educado. Parecia até que era incapaz de tocar num cigarro, e isto baralhou-me. Não mostrava qualquer tipo de consistência em relação ao que fora nas noites anteriores, excepto, talvez, na noite em que me esperara à porta.
- Eu não… Não tenho nenhum aqui, mas posso ir buscar a casa…
Vi as horas. Ainda não era meia-noite.
- Eu vou contigo – ele ofereceu e, sem pedir, enlaçou a minha mão na sua. Como se fôssemos namorados. Como se fôssemos alguma coisa um ao outro.
Caminhámos, em silêncio. Estávamos já a meio do caminho quando ele perguntou, hesitante:
- A que horas é que.. A que horas é que costumo… Morrer?
A voz dele estava tingida de uma mágoa disfarçada. Obviamente, ele acreditava em mim.
- Não tenho a certeza. Logo que comece a amanhecer.
Chegámos, em poucos minutos, a minha casa. Eu entrei e ele ficou à porta à espera. Os meus pais não deram por nada, e saí de novo, com um caderno simples de argolas debaixo do braço, sem problemas.
- Tens aqui um caderno. Desculpa que algumas páginas já estejam preenchidas, mas era o meu caderno de TIC, do 9º ano, e ainda usei umas poucas de páginas. Toma, trouxe-te também uma caneta.
- Não há mal. Talvez seja bom para mim lembrar-me também do que é a humanidade, e de quem és tu.
Não sorria, enquanto dizia estas coisas, mas era adorável, era adorável de tantas formas.
- Talvez devesses ir para casa, Emília, vou precisar de algum tempo para escrever, e tu tens aulas amanhã… - sugeriu ele, ainda que a sua expressão não revelasse a vontade de me ver pelas costas. Mas ele tinha razão. Era uma solução apropriada.
- Tudo bem. Vemo-nos amanhã à noite, então, Artur? – perguntei, tentando forçar um sorriso, pois não tinha a certeza de como o ia encontrar na noite seguinte, não tinha a certeza de que ele, sequer, não rasgasse tudo o que tivesse escrito hoje, na noite seguinte.
- Com certeza, minha dama – respondeu-me ele, e forçou também um sorriso.
Virei-me de costas e dei o primeiro passo em direcção à porta. Mas virei-me no mesmo tempo em que ele me rodeou a cintura com as mãos a apertar efusivamente e nos beijámos num desespero triste. Só esperava que os meus pais não viessem espreitar à janela neste momento, ou teria muito que lhes explicar.
Senti uma lágrima na minha cara, e por momentos não sabia quem a tinha chorado. Era só uma lágrima. Limpei-a, na cara, e descobri que era minha. Tive pena, por ela. Era uma lágrima muito sozinha.
Em muitos aspectos, aquele tinha sido um beijo muito humano. Respirava humanidade e expirava humanidade. Era como se fôssemos ambos humanos, como se ambos vivêssemos e sonhássemos, de noite, enquanto dormíamos.
Mas naquela noite, eu era a única de nós dois que ia dormir e sonhar. Embora, claro, não fosse muito comum sonhar e, mais tarde, ver os sonhos concretizados.
Nenhum de nós era muito normal, nos dias que corriam, e talvez isso nos fizesse tão perfeitos um para o outro. Eu queria amá-lo com uma intensidade que se quebrava de doer tanto, de o amar tanto, de o desejar comigo para sempre e eternamente.
Largámo-nos, por fim. Só desejava poder ficar ali com ele, enquanto podia. Mas eu não podia. Caso contrário, amanhã ia, de facto, cair adormecida numa das minhas aulas.
Mas de alguma forma, não conseguia partir, não conseguia virar-me e entrar dentro de casa.
Ele prometeu-me, num murmúrio:
- Prometo-te que te vou escrever no meu caderno. Prometo-te que te vou desenhar. Prometo que vou escrever, exaustivamente, tudo o que foste para mim esta noite e nas anteriores. Amo-te, Emília. Mesmo que amanhã isso não seja o que eu te diga.
Depois de estas palavras tão bonitas e tão tristes, colocou-me a mão sobre o cabelo e beijou-me a testa e, depois, afastou-se, hesitantemente, tentando forçar-me a fazer o mesmo.
Não foi senão quando ele já tinha desaparecido por detrás de um qualquer edifício que eu me virei e caminhei para casa. Fui para o meu quarto, discretamente. Ninguém deu por mim.
Já no meu quarto, desenhei-o, e sabia que ele era parte de mim. Desenhei-lhe os traços da cara, e desenhei-lhe os olhos profundos que só às vezes conseguia ler, e esta noite lera-lhos a noite toda. Desenhei-lhe o vulto, alto e fino, e desenhei-lhe o cigarro nos dedos, alto e fino. Fui ele, enquanto me sorria no sorriso que era o dele.
Mais tarde, lembrei-me de que era suposto eu estar a dormir, e deitei-me, com os desenhos na mesinha de cabeceira, à distância duma mirada. Não desliguei a luz porque queria continuar a olhar para eles noite fora.
E adormeci, assim, a ler-lhe os olhos, a noite toda; naquela noite, tinha-lhe lido os olhos, a noite toda.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
A 5ª Noite
Foi ele que me abriu a porta e perguntou-me, corado, mas também muito feliz:
- Então, já estás aqui? Eu vim… Ver a Lilith… Sabes como é… Estás melhor? Deixei-te a dormir porque parecias de facto muito cansada. Espero ter feito bem.
- Obrigada, maninho – agradeci-lhe, porque de facto precisara daquelas horas, embora uma parte de mim se revoltasse comigo própria por ter necessidades de sono. Não dão jeito nenhum. Na verdade, vivemos apenas metade da nossa vida, uma vez que passamos metade desta na cama, a ressonar.
Fomos os dois até ao quarto da Lilith, que me parecia hoje muito melhor que no dia anterior. Porque seria(!)… Sorria, agora, sem quaisquer tipo de problemas. Parecia estar a sarar à frente dos nossos olhos, como um pequeno milagre de cura praticamente instantânea. Até já se conseguia sentar, embora, obviamente, não fosse recomendável que o fizesse.
Ajeitei o meu cachecol que me embrulhava o pescoço com o curativo e disse-lhe:
- Olá! Deus, estás mesmo melhor! Que bom! Eu sabia que esta era a cura certa – e revirei os olhos para o meu irmão, que virou a cara, como quem não está nada metido no assunto.
- Sim, eu disse-te, Mia, eu disse-te que não era nada… Vês, toda a gente aí a ser condescendente, e em menos duma semana já quase me ponho de pé. Queres ver? – perguntou ela, fazendo tenções de se levantar.
- Não, nem pensar!
- Deixa-te estar deitada, Lilith!
Quer eu, quer o meu irmão nos revoltámos perante esta ideia da Lilith, que não nos parecia mesmo nada brilhante. O JP chegou ao ponto de se aproximar da cama e de levantar uma mão, como se a fosse impedir de se mexer pela força. Não o censurei. A Lilith era demasiado irrequieta.
Para a distrair, comecei a contar-lhe das aulas que tinha tido. Ela não se mostrou minimamente interessada, mas falei-lhe de tudo na mesma. Talvez assim parasse com as ideias de se levantar da cama.
Ao fim de um bocado, percebi que estava a mais. Eles tinham reatado no dia anterior… Era compreensível. Desculpei-me e deixei-os a sós.
Desci o prédio e caminhei na rua. Pensava, vejam só, em probabilidades, em Matemática, e nada mais, quando de súbito uma dor de cabeça me fez vergar no meio do caminho.
E comecei a ouvir vozes na minha cabeça.
Inicialmente, pareciam vozes de pessoas atrás de mim, pensei que alguém caminhasse atrás de mim, e não liguei muita importância. Ainda assim, ao fim de um bocado, virei de costas, por mera curiosidade de saber que tipo de pessoa andava tão junto a mim, falando.
Não havia ninguém.
As vozes começaram a tornar-se mais intensas, sobrepondo-se, como se tivessem demasiado para dizer, demasiado para contar para esperarem umas pelas outras para falar.
Contudo, ao fim de instantes, gritavam, diziam mal umas das outras, tinham vocabulários impróprios despejados no meu cérebro, como água suja por um ralo.
Dei por mim doida, e comecei a correr.
Realizar a actividade que amava, aquilo que me fazia sentir, de certo modo, humana, nunca foi como naquele instante. Por mais que corresse, as vozes perseguiam-me, porque moravam dentro de mim. Por mais que corresse, ouvia os meus passos muito distantes, porque as vozes se sobrepunham a tudo, aos pensamentos e aos passos, a tudo.
O copo entornava-se, mas eu não dava pela humidade do líquido caindo sobre as minhas células cerebrais, sobre os meus ombros, sobre os meus membros, sobre o meu corpo. Só ouvia música, a música agressiva e desprovida de sentido que eram os desvarios de muitas vozes de vários timbres, e comecei a chorar. Num momento de agonia como aquele, agarrei-me à cabeça e, estupidamente, coloquei as mãos nos ouvidos, mas o ruído vinha de dentro e não se calou, antes pelo contrário, pareceu ficar estagnado dentro do meu próprio mundo.
Eu própria comecei a gritar, no meio da rua, perdendo a noção de espaço ou tempo. Só queria que o som parasse, que as carpideiras da minha mente se emudecessem, e que os meus pensamentos fossem meus de novo.
Por vezes, reconhecia palavras, e nessas alturas era ainda pior. Ouvia nomes, os nomes de aqueles que amava… “JP”, “Lilith”, “Ana Maria”, “Zé Luís”, “André”, “Artur”, “Sérgio… Era como que uma ladainha sussurrada nos píncaros turvos da minha mente. Não se calava. Não mudava o tom, o ritmo, apenas os gritos ressoavam, imprevisíveis e impossíveis de ignorar. E a ladainha não era um cântico de glória, mas uma ameaça, uma terrível ameaça invisível que me largava jamais.
Por fim, senti duas mãos agarrarem-me pelos pulsos, e vi que pertenciam a uma senhora de idade que me olhava preocupada, com múltiplas rugas formando-se mesmo à frente dos meus olhos… Mas eu não a focava… Via-a, mas não a ouvia… Elas, as vozes, não me deixavam…
Caí, desamparada, ou assim me pareceu. As vozes deram um último grito vitorioso e os meus olhos rolaram nas órbitas, como se quisessem fitar o céu e perderem-se nele.
Acordei, mas desta vez no hospital psiquiátrico e desta vez com a minha mãe e o meu pai sentados numa cadeira à espera de me ver acordar. Notei com agrado o silêncio, dentro e fora. Aquele era um alívio inesgotável.
Quando viu os meus olhos abrirem-se, a minha mãe pareceu saltar da cadeira como que impelida por uma mola invisível. O meu pai levantou-se também e aproximou-se com urgência. Foi ele o primeiro a falar:
- Então, Emília, como te sentes?
A minha resposta foi lenta, sentia que o mundo estava sobre mim, e desconfiava que me tinham drogado, motivo pelo qual toda eu me sentia entorpecida, como se fosse uma nuvem a cair do céu, em líquidos múltiplos.
- Sinto-me… Estou bem… - até o meu tom de voz era hesitante, não porque não soubesse como me sentia, mas porque os pensamentos se perdiam algures pelo caminho até à boca e me esquecia do que pensava, eu não me lembrava do que desenhava no meu cérebro apenas instantes antes, tal como se estivesse bêbeda, ou muito, muito cansada.
No dia anterior eu estivera muito, muito cansada.
A minha mãe foi quem falou a seguir:
- Vá, querida, não nos queres contar o que se passou?
A voz dela era a de quem compreendia, da mãe perfeita que perdoa tudo, mas isso pareceu aborrecer o meu pai que atalhou logo, de raspão, como se o que ela tivesse dito uma coisa muito má. Eu não compreendia…
- Ana Maria, não sejas assim, não a pressiones. Sabes que não o devemos fazer!
- Ora – a voz dela parecia a simplicidade em traços de simpatia – A minha filha não é nenhuma louca, pois não, querida?
Esta frase assustou-me, ainda que não tenha, na altura, apreendido o seu verdadeiro significado. Aquela medicação… Toldava-me muito mais que os sentidos.
Ainda assim, agi como se nada se tivesse passado, como se nada se tivesse dito.
- Que horas são? – perguntei, estupidamente. Não ia ver o Artur naquela noite, de certeza, mesmo que não tivesse tomado a decisão de que não o podia ver todas as noites.
- Onze e meia, querida – respondeu a minha mãe. Colocou-me os dedos finos com as unhas pintadas cor de amora escura sobre a testa e passou-os pelos mesmos sítios onde, anos depois, viriam a aparecer as minhas primeiras rugas.
- Pregaste-nos um susto e tanto, sabes, Emília? – gracejou o meu pai. Tentava animar-me. Mas até eu, coberta até às orelhas de drogas e confusões, percebia que ele estava nervoso. Como se estivesse… Cheio de medo.
- O que me aconteceu? – perguntei, esperando algo que não a verdade, algo que não a inevitável alucinação que me sucedera de novo, naquela mesma noite, torturando-me tanto como a primeira o tinha feito.
O meu pai olhou, sem as palavras, para a minha mãe. Não, talvez ele até as tivesse. Ele tinha-as. Todas as palavras. Apenas não eram as palavras que ele desejava ter. Procurava, talvez, uma escapatória, uma mentira na boca da minha mãe. Mas se a esperou, enganou-se e desapontou-se, uma vez que a seguir à minha pergunta ela se ajoelhou junto da cama e me disse baixinho:
- Filha, tu disseste… Coisas. Estavas a delirar sozinha, no meio da rua, quando uma senhora te encontrou e ligou para o 112.
O meu pai pareceu olhar furioso para a minha mãe, mas não disse nada. Tudo o que ele pudesse dizer ia parecer pior.
E assim, ocupava-me tentando dar um significado aos gestos dos meus pais, tentando interpretar as suas expressões, só porque não era capaz de me concentrar no que a minha mãe dissera.
Até que por fim o que ela disse me deitou ao chão. Mas a verdade era, eu já estava deitada numa cama dum hospital psiquiátrico. Quão mais podia descer?
- Eu não estou doida – sussurrei, pensando furiosamente em como todos pensavam que não existiam vampiros. Um dia dir-lhes-ia, e todos reconheceriam que eu tinha razão. Um dia veriam que não estou louca. Era tudo um esquema infernal para nos converter a todos em monstros… Assim o dizia a Lilith, também. Não estava sozinha. Eu não estava louca.
O meu copo estava até bastante equilibrado. Qualquer um na minha situação perderia o tino, e ainda assim, eu mantinha-o, mesmo tendo conhecimento de um vampiro, mesmo tendo conhecimento dos monstros, mesmo tendo conhecimento dos venenos do meu tio Júpiter.
Mas não podia falar destas coisas aos meus pais, e portanto, limitei-me a repetir:
- Eu não estou doida – repeti esta frase cinco vezes, todas com algum espaçamento pelo meio, como se os meus pais não falassem, como se os meus pais não se rissem e dissessem “Ora, que ideia, Emília… Claro que não está doida, estes médicos é que andam doidos para cobrarem tanto!”.
Mas nada disso aconteceu.
E portanto, feita rapariga caída em insanidade, comecei a chorar.
- Porque é que não acreditam em mim? – resmungava, por entre lágrimas quentes e faces ardentes.
- Emília… - sussurrou, simplesmente, a minha mãe. O meu pai não disse nada.
Como uma criança amuada, disse-lhes:
- Estou com sono. Vou dormir, boa noite.
Eles, tentando mostrar compreensão, não me lembraram de que tinha acabado de acordar. Apenas se limitaram a sair e a desligar as luzes.
Nunca na minha vida me tinha sentido tão só. O JP não me tinha vindo ver. Os meus pais achavam que estava louca. A Lilith, a única pessoa que podia acreditar em mim, estava doente e imobilizada em casa. O André, aos poucos, ficara afastado de mim, como um amigo distante daqueles que se perdem e cuja pena lamentamos, posteriormente, de forma amarga. Mas não há forma de recuperar amizades perdidas pelo tempo e afastamento: chega-se ao ponto onde não há desculpa para estarmos mais juntos, para falarmos do calor de coisas que, dantes, nos costumavam fazer felizes.
Também o Sérgio ia ter de ficar no passado, mais tarde ou mais cedo, por mais que nos custasse a ambos. Se eu acabei com ele por um pacote de pipocas, era bem possível que o navio fosse ao fundo antes de desembarcar.
E o Artur. O meu Artur. Que andava por aí, sozinho, de noite.
Como eu.
Se alguma vez já tentaram escapar dum hospital psiquiátrico, sabem que é muito mais difícil sair dum destes do que dos normais. Há guardas, barras nas janelas, e muita desconfiança.
Ainda assim, levantei-me. Deambulei pelos corredores como se procurasse um motivo para quebrar a insónia. À saída, tive de aproveitar um momento de distracção do guarda para passar por detrás deste.
Se da última vez que tentara uma proeza daquelas tinha saído vestida de forma algo ortodoxa, agora estava vestida para matar. Não trocara a minha camisa de dormir do hospital e agora, cá fora juntamente com Novembro, tremia. Os chinelos, pesadões e quentes, eram o meu único conforto enquanto caminhava na noite, para a noite, em busca dele.
Artur…
Aos poucos, fui perdendo a sensibilidade. Tremia, ainda, e o meu nariz parecia molhado de tão gelado, mas a mente foi-se libertando de tais tragédias para me concentrar apenas nas feições adoráveis do meu vampiro que ia ver em poucos momentos… Eu ia encontrá-lo…
E assim, nesse instante gelado vi um vulto alto contra o nevoeiro da noite.
Ele aproximou-se. Olhei-lhe para a cara. A cara tornou-se a dele. A minha cara tornou-se a da mulher mais feliz da Terra.
Ele pousou-me uma mão na cara e sussurrou, baixinho, talvez consciente do quão ainda me doía a cabeça de todo o som, de todo o ruído aterrorizante.
- Quem és tu, bela dama, e porque andas pelas ruas assim – deverei dizer despida?
- Senhor – disse, dum sopro, como se fosse uma daquelas damas de séculos antigos, com o peito repuxado por suspiros e corpetes – Sou quem tu quiseres que eu te seja.
Ele estendeu-me a mão, galanteador, que eu tomei na minha. De seguida, dançámos, ali mesmo, no meio da calçada, eu de chinelos e camisa de dormir e ele com as roupas desfeitas e poeirentas. E na minha cabeça ouvi apenas ligeiros acordes de uma qualquer música perfeita que ele trauteava só para mim.
Mas eis que o som se corrompe a si próprio pelo acto de ser copiado pelos meus lábios… E, com o som da minha própria voz, do meu próprio momento, acordei, suada, na minha cama.
Eram seis horas da tarde de quinta-feira.




Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...