- Mordeu-te? Como é que tu sabes que a Cátia me mordeu? Espera aí, desde quando tens namorado? E como é que ele te mordeu? Ele mordeu-te? Ele é um vampiro, ou algo do género? – em todas as palavras e gestos do Sérgio, a sanidade mental parecia estar em eminente destruição. Mais um pensamento, menos um pensamento… E estaria perdida para sempre.
Mas que tinha eu a perder, em contar-lhe? Ele era, ironicamente, talvez a única pessoa que compreenderia. Ele conhecia o Artur. Talvez me pudesse ajudar a vigiá-lo, se lhe contasse. Talvez lhe pudesse falar também do meu tio Júpiter. Assim, ele compreenderia. E nunca mais teríamos de discutir.
- Sérgio, talvez fosse mesmo melhor eu contar-te tudo. Senta-te.
- Eu já não tenho a certeza de querer saber tudo… - mas ele sentou-se, de forma expectante, o que me incitou a continuar. Contei-lhe, então, tudo, à semelhança deste relato aqui escrito. Contei-lhe até de como lhe pensara dar o tal antídoto que se provou posteriormente um veneno que tinha transformado o Artur num sugador de sangue. Apenas omitira os beijos entre mim e o Artur, contando-lhe apenas que ele se confessara atraído por mim. Ele não precisava de saber os detalhes.
No fim de lhe ter dito tudo isto, ele permaneceu em silêncio uns poucos de instantes.
- Contaste isto a mais alguém? – foi o que me perguntou, por fim. Disse-lhe que não, e que também o proibia de o fazer. Ele encolheu os ombros. Parecia ainda estar a assimilar o que lhe tinha dito. Tinha já escurecido, durante o tempo em que lhe estivera a fazer o relato. Não fazia ideias de que a que horas saíra do hospital, ou de que horas eram agora. Era como se o dia inteiro tivesse sido um segundo.
- Não – disse-lhe – És o primeiro a saber de tudo, assim como to estou a contar agora. E preciso da tua ajuda, Sérgio. Não estou a brincar. Talvez aches que estou louca, mas a verdade é que esta é a minha vida desde o dia em que vi a Loira a ter tendências canibais contigo.
Ele continuava em silêncio. Talvez uma parte dele ainda não se apercebesse do que lhe dissera. Talvez nenhuma parte dele estivesse preparada para ouvir aquilo. Não o censurava. Eu própria não acreditaria se mo contassem. Se mo tivessem contado, eu provavelmente estaria a rir-me, e a dizer “boa piada” ou, quem sabe, a marcar o 112 no telefone mais próximo.
Mas não aquilo. O Sérgio parecia estar a digerir, mas era uma digestão muito, muito lenta. Presumi que era mesmo assim, que as pessoas poderiam ter dificuldade em aceitar que o seu mundo tinha mudado e que o mundo como o imaginavam não era se não uma grande mentira. Eu própria tinha tido imensas dificuldades em assimilar o que me acontecia à medida que o via com os meus próprios olhos. O Sérgio pareceu estar pronto para falar, o que, considerando as circunstâncias, pensava eu, era até de espantar:
- Tudo bem, vou ajudar-te, Emília. A Lilith está mal, não é assim? É pois a nossa prioridade. Vou dar-te um telefone e quero que fales com a tua mãe para a sossegar, porque o teu tio, muito provavelmente, já a preveniu do teu desaparecimento.
Fiquei espantada com a capacidade de compreensão que ele estava a demonstrar. Fiquei ainda mais espantada comigo própria, por não ter ainda pensado em nada daquilo durante o tempo todo desde que fugira do hospital enfiada numas roupas de idosa.
- Obrigada – foi a única coisa que lhe pude dizer, antes de levantar a mão para pegar no telefone portátil que ele me estendia. Marquei de novo número, e novamente, a voz da minha mãe fez-se ouvir num “Estou”. Apenas agora, ela não conseguia conter o nervosismo.
- Estou, mãe? É a Emília.
- Emília? Onde é que tu estás? O tio Júpiter não te viu em lado nenhum. Eu própria já estou a caminho do hospital, para ir à tua procura! Nem fazes ideia do quanto nos preocupaste a todos! Ainda por cima nesta altura, com a Liliana naquele estado… Mas que raio se passou?... – a voz dela era um misto de raiva e preocupação. Gritava mais que o necessário, e tive afastar várias vezes o auscultador do ouvido para evitar ficar surda. Naquele momento, apercebia-me da minha irresponsabilidade, mas noutra parte de mim sabia, tinha agido correctamente. O meu tio Júpiter não era de confiança.
- Mãe… Desculpa, mas eu fugi do hospital, porque precisava de ir ter com a Lilith. Onde é que estão?
- Essa é a pergunta que te faço a ti, minha menina… Fugir do hospital? Mas tu enlouqueceste? – berrava ela. O Sérgio, do outro lado da sala, estava sentado no sofá, fingindo não prestar atenção, mas de segundo a segundo, descaía-se, e o riso fugia-lhe da boca aos solavancos múltiplos.
Devia ter-me mostrado arrependida. Devia, sei lá, ter inventado uma mentira decente. Contudo, isso não me pareceu que fosse resultar, pelo que mudei de tom:
- Mãe, a minha melhor amiga está internada, depois de ter desaparecido debaixo do meu nariz! Achas mesmo que não me culpo pelo que aconteceu? Achas mesmo que era capaz de ficar com uns fiozinhos de plástico a olhar para a cara vermelha do tio Júpiter sem… - e este foi o meu erro, insultar o cunhado, o divertidíssimo senhor cunhado da minha mãe.
- Emília! – gritou ela, com cada sílaba inflamada por sangues e hemorragias auditivas. Não sabia que fazer. Largar o telefone? Fugir da galáxia onde aquela mulher estava? Não cheguei a nenhuma conclusão a tempo de evitar a explosão.
- O teu tio Júpiter gosta muito de ti, não tens o direito de o insultar dessa maneira, não tens o direito de o usares como álibi da tua fúria! É compreensível que estejas chateada pelo que aconteceu à Liliana, Deus, é extremamente compreensível, mas não posso tolerar que fales assim do teu tio, ou que hajas assim comigo e com ele! Não podes fugir do hospital, para o qual foste, devo-te lembrar, devido a teres sido mordida por um cão, numa altura em que eu julgava que estavas a dormir no quarto ao lado! Não podes mentir-me! Não podes usar a Liliana como desculpa para tudo o que fazes!
Afinal, era aquilo que ela julgava. Ela achava que eu usava a minha melhor amiga desaparecida e, agora, mentalmente instável, para fazer todos os disparates que me viessem à cabeça. Ela achava que eu era o tipo de adolescente estúpida e, Deus, delinquente! Ela achava que eu era daquelas miúdas desesperadas para terem atenção, fazendo para isso, as piores coisas, com os piores meios e com os motivos mais levianos!
- Achas mesmo que eu sou assim? Achas mesmo que o que faço é para usar a minha melhor amiga, repito, a minha melhor amiga? E estás a ver, se achas, parece que afinal, não sabes quem é que educaste, no final de contas. Nunca te dei problemas, até agora, e de repente, achas que sabes toda a psicologia sobre adolescentes em risco? É isso? Mãe, aprende, eu sou, em demasiados parâmetros, a adolescente perfeita e ponderada!
- Não, filha. Tu não és perfeita. Não há nada que seja uma “adolescente perfeita”. Todos vocês são pessoas cheias de vontade de ter segredos, e armados em crescidos, quando na verdade, tudo o que vocês sentem, são um imenso toldar dos sentidos, e uma grande euforia. Vocês embebedam-se, vocês andam aí com namoricos uns com os outros, e sim, tu também, que eu bem sei.
- Eu, namoricos? Bebedeiras? Mas tu estás a ouvir-te a falar? Não estás a fazer qualquer tipo de sentido.
- Vais dizer que ontem à noite não fugiste de casa às escondidas para ir ter com um namorado? Vais? Não me parece.
- Fui ter com o André – menti. Por esta altura, já nem me recordava de que estava na sala de estar do Sérgio, com ele a ouvir tudo. Parecia que um rio se enchia até ao cimo, como se chovesse muito, na minha cabeça. Não conseguia ouvir nada. Não conseguia ver fosse o que fosse.
- Namoras com o André? – perguntou a minha mãe, em brasa, pelo que se ouvia.
- Não! Não, mãe – apressei-me a dizer.
- Então porque é que fugiste para ires ter com ele a meio da noite?
- Porque… É complicado. E estás a ver, porque há coisas que preciso de fazer, que tu não compreendes!
- Como, não compreendo? E tu estás a achar que eu não tenho qualquer tipo de capacidades, porventura? Achas que sou tão velha e estúpida que não sou capaz de compreender aquilo pela qual a minha filha mais nova está a passar? – se ela soubesse. Deus, se ela soubesse, que o problema não era a compreensão cognitiva. Era a compreensão que é necessária para se aceitar, uma compreensão de algo que nem eu própria, que estava metido nisto até às sobrancelhas, compreendia.
- Mãe… Tu já foste adolescente. Tenta compreender… - pedi-lhe, tentando ficar calma de novo.
- O que eu compreendo é que tu me dizes que eu não podia compreender. Já fui adolescente, sim, o que, mais uma vez, me dá razão. Tenho a experiência, e sei que tu ontem saíste para ir ter com um namorado. Se é o André ou não, não quero saber, mas é certo que fugiste de casa para ir ter com ele!
- Mãe, e se fosse, qual era o problema?
- Mentiste! Fugiste de casa! Agora foges do hospital! E ainda dizes que te preocupas com a Liliana!
O tom acusatório na voz da minha mãe ecoou por toda a minha alma, que se alojou junto ao canais lacrimais, outra vez.
- Tu não fazes ideia do quanto eu me preocupo com ela! Foi por ela que fugi do hospital! Preciso de saber onde ela está, porque preciso de saber como é que ela está… Mãe… Diz-me só, onde é que ela está…
Ouvi um suspiro resignado da minha mãe do outro lado da linha. Soube desde logo que ela me ia dizer onde estava a Lilith.
- Ela está… Levaram-na para casa. Vou telefonar para a mãe dela, a avisar que vais aí passar. Eu também vou para lá. Mas promete-me que depois de a veres voltas para o hospital.
- Prometo – prometi, quase instantaneamente, tal era o meu desejo de fazer com que aquela discussão desaparecesse para sempre. Discutir feria-me a alma duma forma que, digo, qualquer um ficaria espantado, uma vez que eu sou tão prática, e no entanto, discutir perturba-me desta maneira irracional. Passei a mão pelo cabelo, despedi-me, e desliguei. Felizmente, ela não me perguntou onde estava. Não as vezes suficientes, pelo menos, para eu ter de lhe responder mesmo.
Se ela achava que eu tinha um namorado, quem sabe o que pensaria acerca do facto de eu estar em casa do Sérgio. Era melhor nem descobrir. O JP, por exemplo, sempre detestara o Sérgio. A minha mãe costumava ser, normalmente, ainda mais conservadora.
Sentei-me, derrotada, por apenas alguns segundos, no sofá, junto do Sérgio. Ele permanecia em silêncio. Já passava algum tempo desde os momentos em que ele tentava disfarçar o riso em solavancos. Agora, parecia ter perdido a vontade de rir. Pegou-me na mão e eu não a removi da dele. Com a outra mão, fez-me festas sobre as costas da mão. Passados apenas cinco ou seis segundos, largou-a e levantou-se. Pouco tempo depois, aparecia com um casaco na mão e a minha carteira desaparecida que ele, afinal, guardara o tempo todo.
- Vamos? – perguntava.
- Onde?
Não via, de facto, o que ele queria dizer.
- Alô. Ver a Lilith.
Não sabia se a ideia de ele ir comigo me agradava ou nem por isso. Sabia apenas que não me estava a sentir bem. De todo. Talvez precisasse mesmo de alguém para me amparar emocionalmente. Podia dizer à minha mãe que o encontrara na rua.
Portanto, levantei-me e saí com ele do prédio.
Tentei esquecer-me, no caminho, de que estava vestida indecorosamente para ver a minha melhor amiga outra após ela ter estado desaparecida.
No caminho, o Sérgio foi-me fazendo perguntas sobre tudo o que lhe contara, às quais respondia de forma muito sucinta. Não estava na disposição de me alongar.
Chegámos lá muito depressa, uma vez que os meus passos pareciam abarcar seis metros de extensão, porque para além de largos, eram também muito rápidos.
Toquei à campainha. Ouvi a voz da mãe da Lilith dizer:
- Quem é?
Engolindo em seco e respirando fundo, identifiquei-me:
- É a Emília.
- Sobe – disse ela, apenas.
Ouvi o som característico da porta a abrir-se e segurei nela. Esperei que o Sérgio entrasse, mas ele não deu sinais de querer entrar.
- Não, Emília. Isto é daquelas coisas que tens de fazer sozinha. Não precisas de ir procurar o Artur sozinha, prometo-te isso. Mas nisto, não te posso ajudar.
E após esta curta declaração, foi-se embora, deixando-me sozinha a segurar a porta do prédio da Lilith.
Após uns instantes sem história que contar, entrei. Subi no elevador. A porta abriu-se.
Foi a mãe da Lilith que me abriu a porta. A cara dela parecia cavada muito fundo, e estava muito, muito branca, tanto que a sua pele tinha perdido o tom saudável de alguns dias atrás. Só o vê-la, a ela, assim, transtornou-me. Em que estado estaria a Lilith, para deixar a mãe dela neste estado?
Não demorei muito a descobrir. A mãe da Lilith levou-me pelo corredor até ao quarto da minha melhor amiga. Antes de entrar, a mãe dela pediu-me que não lhe perguntasse nada acerca do que lhe tinha acontecido. Entrei. Descobri-a deitada na cama.
Parecia dormir. Na verdade, se não soubesse, diria que parecia estar morta.
A Lilith que via à minha frente era a mesma que vira na minha alucinação.
Não estou a brincar. Todas as escoriações eram uma só. Tinha a certeza que se pegasse na Lilith da minha alucinação e a comparasse com a Lilith que via à minha frente, elas seriam uma só. Uma só sombra escura e magra, ensanguentada, e praticamente morta. Um borrão de pessoa.
Contudo, esta Lilith estava estável. As feridas na cara dela não pareciam chorar sangue, como as da Lilith que vira na minha alucinação. O cabelo desta Lilith mantinha-se limpo e não continham qualquer tipo de substância pastosa.
Ainda assim, não podia evitar reparar que nenhum dos piercings da Lilith estavam postos, o que me fez confusão. Há anos que não a via sem pedaços de metal do nariz, sobrancelha e orelha. Vê-la assim, cabelo solto, e preta como se a tivessem espancado até às súplicas, quase que me incomodava mais que a alucinação de alguns dias atrás.
Não podia suportar ver a Lilith ali, e apesar de ela parecer dormir, a voz dela fez-se notar, quase tão grave e tão segura de si como antes:
- Emília, pára com isso. Já me chegou o teu irmão para aí a lacrimejar para me fazer ficar entediada para o resto da vida. Proíbo-te de dizeres algo de condescendente.
Sorri. Evidentemente, a Lilith não estava tão perturbada quanto o que me tinham dito.
- Como estás, Lilith?
Os lábios dela continuavam a mexer-se e a voz saía. Mas ela mal se movia:
- Bem. Bastante bem, aliás. Desculpa lá ter-te deixado a ver o filme sozinha, mas temos que admitir que aquilo estava a ser uma seca.
Apesar de estar a tentar contar piadas, a Lilith não se mexia, ainda, mais do que o necessário.
- Lilith, descansa. Não te canses a dizer parvoíces, como de costume – disse-lhe, tentando manter um tom neutro que não denunciasse a minha preocupação.
- Mas descansar o quê? Disse-te para não seres condescendente.
- Não estou a ser condescendente, estou a ser sensata – defendi-me. Seria assim tão difícil manter uma rapariga sossegada?
- É o mesmo – barafustou a Lilith – Desde quando é que és sensata?
- Desde quando é que achas que sensatez e condescendência são o mesmo?
Pareceu-me ver os lábios da Lilith tentarem mexer-se, tentarem sorrir. Mas, de alguma forma, não resultou. Esta imagem, de a ver, assim, incapaz de sorrir, foi a que mais me marcou de toda esta altura conturbada da minha vida. Senti os meus próprios lábios a tremer, mas não deixei de sorrir, trémula. Especialmente porque ela, agora, abria os olhos, encarava-me de baixo para cima, e esforçava-se para tentar agir como eu poderia esperar que ela agisse num dia qualquer.
- Como está o André? – perguntou, num tom normal, quase como se perguntasse pelo tempo.
- Está bem. Não falo com ele desde ontem…
- Ouvi-os falar que estavas no hospital… Que aconteceu?
Senti-me gelar só de pensar em dizer-lhe o que se passara.
- Magoei-me. Um cão estúpido. Nada de mais.
- É por isso que tens esse penso no pescoço? O parvo do cão abocanhou-te? Eu sempre te disse que os gatos são muito mais confiáveis. Um dia destes vais ver, o Rockline vai atacar-te durante o sono, e quando deres por isso já foste comida.
Tentei rir, um bocado, por debaixo dos músculos que de tanto forçar o riso me doíam.
- O Rockline é de confiança. Muito mais que a Pandora – a Pandora era a gata da Lilith. Não fazia ideia donde ela podia estar, neste momento. Esperava que não muito perto de mim, ou eu ia fugir dela, acontecesse o que acontecesse. É assim, quando se tem fobia de gatos.
- A Pandora é uma criatura sensível e inofensiva. Excepto, claro, para gajos manhosos. Nesse caso, atiço-a num segundo.
- Não ma atices a mim, não é preciso. Já tenho medo suficiente dela.
Ela pareceu rir-se, outra vez, sem mexer a boca:
- Afinal de contas, ainda bem que recuperaste depressa. Agora – a voz dela tornou-se séria. Eu temi – diz-me, porque mais ninguém o faz. Onde está o Artur?
Senti-me a bloquear. Não sabia o que lhe dizer. Não lhe podia dizer a verdade, evidentemente. E de qualquer forma, mentir-lhe, como a toda a gente, não me parecia simples.
- O Artur… Ninguém sabe dele – o que não era exactamente mentira. Ninguém sabia. Excepto eu e, agora, o Sérgio.
A Lilith não se ia tornar a terceira pessoa. Até ao momento seguinte.
- Emília, fecha a porta. Há coisas que preciso de te contar, que ainda não contei a ninguém.
Obedeci-lhe, trémula e sem saber se a devia ouvir ou mandar calar. Não era bom para ela cansar-se, mas eu não podia negar-lhe o direito de me contar coisas.
- Ora bem, senta-te aí. Isto pode demorar.
- Lilith, tens a certeza… - mas ela interrompeu-me.
- Tenho. Agora cala-te e ouve. Eu comecei a notar que as coisas estavam… Estranhas, assombradas se preferires, lá na escola. E tenho a certeza que tu também notaste. A única diferença é que tu és capaz de ser discreta a perceberes as coisas. Eu não. Não te disse nada, porque tu nunca acreditas em nada do que te digo, e também porque eu estava verdadeiramente assustada – pausou um pouco e retomou o fôlego. Os lábios gretados permaneceram abertos – Comecei a ser seguida. Era isso que te queria dizer, antes daquela aula de Biologia ridícula.
Relembrei-me. Nunca mais me tinha lembrado de que a Lilith tinha algo para me dizer. Nunca mais tinha sequer pensado que podia ser importante. Ignorara-o, pura e simplesmente. Que raio de amiga que eu era.
- Fui seguida – retomou ela – mas nunca pensei que tivessem a coragem de me raptar estando eu contigo. Raptaram-me. O Artur, mais propriamente dito, raptou-me. Levou-me dali sem tu dares conta, usando clorofórmio que me pôs a dormir. Claro que foi um pouco estranho da tua parte nem teres dado conta de que a tua amiga, que estava na cadeira ao lado, tinha desaparecido. Mas é compreensível, o filme estava no clímax.
Pausou de novo. Parecia cansada, mas a voz, de alguma forma, não vacilava.
- Eles… Fecharam-me. Perguntaram-me o que sabia, ou o que julgava que sabia. Bateram-me, como vês. Mas eu pouco sabia. Ou pouco “julgava que sabia”. Em todo o caso, iam começar a usar-me para cobaia. Iam-me dar injecções, e assim… Mas consegui convencer um deles, o mais velho, assim um homem bolachudo, a deixar-me sair. Mal conseguia andar, mas fugi dali. Corri para uma sapataria, ali perto. Pedi que me deixassem telefonar. Não fizeram grandes perguntas. Suponho que não quisessem sangue na carpete, porque me vieram logo limpar a cara e o sangue. Não posso contar à polícia o que te disse, Emília, porque aquilo que eu ouvia não era normal. Continuo sem saber muito, sabes, mas o que sei chega-me. Aquela gente não é gente. Aquela gente quer transformar-nos a todos em monstros.
- Monstros? Sim já desconfiava – deixei escapar. Ponderava seriamente. Devia contar tudo à Lilith? Não estaria ela demasiado fraca para saber? Desisti. Tinha sido suficientemente forte para me contar tudo o que sabia. Era agora minha obrigação fazer o mesmo. Contei-lhe tudo, tal como ao Sérgio, e até incluí os detalhes que não dera ao Sérgio.
- Emília! – disse-me ela, às tantas – Como foste capaz de andar aí enrolada com o Artur? Ele não é bom… Não é mesmo nada bom… Raptou-me! Como é que podias esperar alguma coisa de bom dele?
- Ele não teve culpa… - defendi-o – Ele foi apanhado no meio disto tudo, tal como nós. Ele… Não estava consciente. E agora… A esta hora está morto. Mais umas horas e está prestes a acordar…
- Como vai fazer? – quis ela saber – Para poderes “tomar conta” do bichinho? Tens noção que mesmo com a ajuda do paspalho do Sérgio, a tua mãe não te vai deixar sair de casa hoje à noite.
- Eu sei. Vou ter de fugir de novo – concluí, meditativa. Talvez a minha mãe tivesse razão. Talvez me estivesse mesmo a tornar uma delinquente juvenil, quase adulta.
- Mas tu estás louca? Não podes sair. A tua mãe vai verificar. O melhor mesmo era lixares-te para o Artur hoje e ficares em casa. Emília, estou-te a dizer isto para teu bem.
- Mas eu não posso! E se ele magoa alguém? E se ele… E se ele come alguém? Tal como ontem me tentou devorar a mim? – quem me ouvisse e não estivesse dentro do assunto, com certeza acharia tudo isto muito cómico. Pois, não eu.
- Não queiras saber! A culpa não é tua! Porque é que tens de acabar sempre tu a ser perseguida por essa besta? Porque é que tens de te sacrificar pela comunidade? – perguntava-me a Lilith, quase em brasa, ainda que ainda deitada e imóvel sobre a cama.
- Lilith! Não ouviste nada do que te disse? Eu não posso, repito, não posso, deixar que alguém morra ou fique ferido por minha culpa! Ou por culpa do meu tio, se achas que a culpa não é minha. De qualquer das formas, a culpa fica no seio da família. Sei lá, talvez a parva da Matilde tenha a culpa!
- Emília, concentra-te. Estás a perder a sanidade. Não me parece nada teu. E então o Artur é um vampiro… E depois? Temos de encontrar uma maneira de inverter o processo ou, no pior cenário, de acabar com ele de vez. Mas entretanto… Não te podes pôr em risco por causa dele. Não podes, estás a ouvir-me? Vais esperar que eu recupere, porque como vês, enquanto não tiver melhor aspecto, não me parece que a minha mãe me deixe sair de casa.
No estado em que ela estava, era surpreendente que conseguisse abrir a boca para falar. Mas não lho fiz notar.
- E agora, Emília, explica-me uma coisa que não percebi bem – Neste momento ela tentou erguer-se para se sentar, mas essa tentativa não passou disso mesmo: uma tentativa, e fracassada, por sinal. Adverti-a para não se cansar. Ela ignorou-me – Nessa alucinação que tiveste, viste-me magoada… Como agora?
Não lhe tinha contado acerca disso. Não lhe tinha falado de como ela agora parecia uma gémea apenas ligeiramente mais recuperada da Lilith da minha alucinação. Não escapava mesmo nada àquela rapariga, pois não?
- Como soubeste?
- Pressentimento – concluiu – O que pode querer dizer que as coisas não são tão simples como o que o teu tio queria fazer parecer. Durante o tempo em que estive presa, eles… Havia muitas coisas que não faziam sentido. Não segundo os padrões da ciência. Mia, acho que encontrámos a prova da sobrenaturalidade. De alguma forma, todos os monstros que viste na tua alucinação podiam ser uma profecia ou uma visão, ou coisa do género.
Um arrepio percorreu-me a espinha só de pensar no que se seria se as palavras da Lilith fossem verdadeiras.
- Lilith, tu não fazes ideia. Não era uma profecia. Era demasiado devastador.
- Já olhaste bem para mim? Eu estou devastadora. Alguém me fez isso. Se me fizeram isto, acredita, pode muito bem acontecer que todos os outros se tornem monstros como os que viste na alucinação.
Suspirei.
- Lilith, o André era um fantasma. Não era capaz de segurar os óculos no nariz. Agora que penso nisso, não percebo como é que ele segurava a roupa.
- E então? O Artur tornou-se um vampiro. Não é possível que o André perca a consistência e se torne numa criatura pouco densa? Deus, só de imaginar, estou-me a sentir com sorte por só ter ficado magoada na tua alucinação. E diz-me, viste o Artur nesse dia? Se o viste, ele devia estar como um vampiro, não?
- Eu não o vi. Não o vi mesmo. O que, obviamente, teria sido agora bom para podermos chegar a uma conclusão. Parece que vamos ter de esperar que a Vanessa se torne uma criatura do mar…
- A Vanessa era uma criatura do mar? Tipo, selkie?
- Celqui? Que é isso?
- Um selkie é uma criatura do mar.
- Talvez, é possível. E o stôr era um enorme borrão. Do género, um borrão a duas dimensões…
A Lilith ficou calada um bocado, considerando o que lhe dizia, medindo as possibilidades.
- Talvez tenhas razão. Talvez seja impossível. Esperemos que sim.
Por fim, apercebi-me que ela estava… Exausta. Tinha de a deixar, por muito que me custasse.
- Vou deixar-te, agora, Lilith. Precisas de dormir.
- Dormir? O raio – mas apesar disto, vi-a fechar as pálpebras.
- Em todo o caso, tenho de ir. Amanhã volto, está bem?
- Claro que sim, miúda. A loja não fecha e eu aparentemente não vou a lado nenhum nos próximos dias. Aparece – disse ela, já mal abrindo a boca.
Saí do quarto e perguntei-me se ela já tinha adormecido, de um momento para o outro. Ao menos, tinha o consolo de que ela não estava tão perturbada como me tinham dito. Não só se lembrava de tudo, como continuava teimosa como sempre.
Mal cheguei à sala, percebi que a minha mãe já lá estava à minha espera. Não estava com o sorriso mais bem-humorado de sempre, mas não parecia ter grandes vontades de me esganar ou prender em casa por duzentos anos.
Despedimo-nos e saímos. A minha mãe deu-me um sermão controlado. Fiquei proibida, de forma subentendida, de sair naquela noite.
O que, somado com o conselho da Lilith, dava duas proibições. Não fazia ideia do que fazer. Mandei uma mensagem ao Sérgio a perguntar o que devia fazer.
Ele respondeu-me em segundos:
“Eu trato disso.”
Passei uma grande parte da noite às mensagens com o Sérgio. Já que ele estava a fazer o meu trabalho, o mínimo que podia fazer era verificar que ele continuava vivo.
A situação não deixava de ser caricata na sua bizarria. Isto é, o meu ex-namorado a vigiar o meu actual interesse amoroso que, por acaso, era um vampiro. Ainda para mais se se considerasse que tanto eu como o meu ex-namorado tínhamos sido mordidos pelos nossos actuais interesses românticos, ainda que eu duvidasse que a Loira fosse uma vampira, e o Sérgio tivesse deixado claro que não estava já interessado nela.
Nem eu própria sabia se queria andar com o Artur. Quer dizer… É difícil namorar, ou sequer curtir, com uma pessoa a quem não podemos confiar o nosso pescoço. Por uma vez, perseguira-me, por outra vez, enganara-me deliberadamente para me poder usar como snack da meia-noite… Mórbido, diga-se de passagem. E tão anti-romântico, que até a relação do Romeu e da Julieta seria posta à prova. Porque seria difícil que se suicidassem um pelo outro, se um deles morresse e voltasse a ressuscitar sem se lembrar do outro.
O que quer dizer: isto era mesmo uma péssima ideia. Por mais que me custasse, e por mais certo que me pudesse parecer, a relação não tinha qualquer tipo de futuro. Nunca.
Mas quando visse o Artur outra vez, ia mudar de ideias num instante.
Para alguém que nunca tinha tido uma relação a sério com ele, estava bastante apanhada. O que, quando se pensa nisso, é bastante triste. Talvez seja por isto que os homens dizem que as mulheres são terrivelmente sentimentais. Não podia falar pelas outras, mas eu, eu tinha caído de cabeça no lago que eram os sentimentos que podia ter pelo Artur. De certo modo, até o facto de ele se tornar um monstro diante dos meus olhos me fez venerá-lo mais, como se… Quase como se assim o pudesse compreender, o suficiente para me apaixonar perdidamente por ele.
Eu não me sinto uma monstra completa, não, a minha auto-estima não andava a rastejar tão agarrada ao chão. Mas… Senti-me apaixonada pela infinidade da incompreensão. Tenho a teoria de que só nos podemos apaixonar por aqueles que permanecem um mistério para nós, que quando quer que conheçamos uma pessoa em toda a sua extensão ela nos deixe de fascinar. O Artur era um poço de mistérios, presentemente, até para ele próprio.
Nunca ia conhecê-lo de alto a baixo. Nunca ia saber e conhecer toda a essência do que ele é. E por isso, sabia, a chama nunca se poderia extinguir.
Porque a paixão é como uma chama que enquanto fascina se consome e arde tudo o que pode, mas quanto mais intensamente se consome essa chama, quanto mais arder, quando mais deleitar e doer, menos dura, mas deixa muitas mais cicatrizes.
Talvez eu quisesse ter essas cicatrizes e senti-las a queimar noite após noite, sem nunca poderem esbater e sem nunca aprender a viver com ou sem elas.
O Artur jamais me ia ser indiferente. Seria, talvez, uma parte adormecida, para apenas brotar chamas se alguma vez o visse de novo, mas como a chama nunca ia poder ser consumida, a chama ia permanecer lá para sempre.
O que, em parte, justifica o facto do amor estar a morrer mundialmente. Já não há relações impossíveis. Todos são livres para consumir a chama e arder juntos até que já não haja mais nada para queimar.
Contudo, eu tinha uma relação impossível. E podia confiar, a chama ia ficar.
E enquanto alcançava esta conclusão, a noite estava prestes a aclarar. Era talvez uma questão de minutos.
Por isso, não me chocou a mensagem seguinte do Sérgio:
“A noite acabou. Estou à tua porta.”
Levantei-me em silêncio. A minha família tinha o sono pesado, mas não queria correr riscos. Abri a porta com cuidado.
O grito que me carcomeu a garganta foi abafado pela mão que atravessou a porta (o resto do corpo não podia) e que me agarrou pela boca e me puxou para a escuridão quase finda.
domingo, 15 de novembro de 2009
O 1º Momento Pós-Vampirismo
Acordei no hospital, para minha grande surpresa. Não sabia o que poderia ter acontecido a seguir a eu ter desmaiado nos braços do Artur. Nem sequer sabia que era possível sobreviver depois daquilo. Não sabia quem me tinha encontrado. Por momentos os meus pensamentos mostravam-se terrivelmente confusos. Só me recordava que o Artur me mordera num momento de distracção e que, apesar da dor, eu gostara o suficiente para não me impor em contrário da decisão dele de me matar ou, quem sabe, tornar-me uma vampira.
O pior de tudo era, quem me garantia a mim que ele não o fizera? Podia estar a acordar, como ele, de noite, tanto quanto sabia. As persianas estavam corridas e apenas a luz estava acesa. Não havia ninguém no meu quarto.
Tinha uma data de fiozinhos vermelhos ligados aos meus braços. Sangue, com que então. Gostava de saber qual era a explicação que eles, os obtusos, tinham encontrado para aquilo? Garfo de churrasco, como na Buffy? Animais selvagens? Nada de muito criativo, isso de certeza.
Presumi que não fosse hora de visita, e que portanto estivesse sozinha. Contudo, não pude evitar sentir-me ligeiramente ofendida com a falta de presença e de apoio dos meus ou, sei lá, de um médico, uma enfermeira…
Tentei levantar-me, para procurar alguma coisa, ver se alguém tinha tido a decência de me deixar um telemóvel ou, quem sabe, um livro, para me entreter.
Arrastei o suporte do sangue comigo, e tentei ignorar o pijama de hospital que me tinham vestido. Só o pensamento de um estranho (ou provavelmente uma estranha) me ver na minha roupa interior da Hello Kitty, que detesto, dava-me a volta ao estômago.
Procurei nas gavetas. Encontrei um livro de banda desenhada do Tio Patinhas, mas era possível que o paciente anterior o lá tivesse deixado. Fui, portanto, ao armário. Contudo, não havia ali mais nada se não meia dúzia de cabides mal postos.
Olhei de forma inquisidora para a janela. Devia abri-la, para ver, pelo menos, em que parte do hospital estava. Tentei não admitir para mim própria que estava com medo de a abrir por ter medo de confirmar que o Artur me tinha transformado em vampira e que a luz solar me desfaria em chamas. Mas depois recordei-me de que o Artur não era o padrão comum de vampiro e que ele, pura e simplesmente, não existia na luz do sol, porque estava sempre fisicamente morto nesta altura do dia. De futuro, teria de tomar precauções em relação ao sítio onde ele adormecia/morria. Em relação a isso e também em relação às mordidelas à socapa, porque isso não me parecia bem, não me parecia mesmo nada bem. Eu sei que na altura me parecera uma excelente ideia, mas agora, claro que não. Não voltaria a deixar que o acontecimento sucedesse. Nem que para isso tivesse de me manter a cem metros dele. Embora assim fosse difícil verificar que ele não magoava ninguém. Isto é, ele tinha-me magoado a mim. Só esperava que eu tivesse sido snack suficiente para a noite toda.
O que me lembrava, não fazia ideia de como ele não me matara e fora ali parar. Uma parte de mim, inundou-se de esperança. Teria ele recuperado e teria, assim, ido ele mesmo pôr-me ao hospital? Isso explicaria o porquê de ninguém ter ido lá ver-me ou deixar-me um pijama em condições. Ou, por Deus, um mísero telemóvel.
Abri a janela e a luz inundou o quarto. As minhas dúvidas dissiparam-se e respirei fundo de alívio. Sabia que na noite anterior tinha fantasiado acerca de eu própria me tornar uma vampira, mas não me parecia que isso fosse o melhor para os dois, eu e o Artur, de momento.
Ia agora apenas certificar-me de que ele e os pobres potenciais peões de rua se mantinham vivos. Isso teria de ser suficiente. E, de preferência, sem que eu própria morresse no processo.
O que me lembrava da minha carteira, onde teria ela ficado? Nenhuma resposta para tantas perguntas. Restava-me esperar que alguém aparecesse para pôr cobro às minhas misérias e ignorância.
E foi o que fiz. Esperei, simplesmente, quieta, na minha cama. Esperei durante imenso tempo até que o saco de sangue estava já quase vazio. Nessa altura, um tímido enfermeiro entrou no meu quarto. Não devia ter mais de trinta anos, e tinha uns olhos quase tão azuis como os meus. O que de certa forma torna o facto de se estar num hospital, um acontecimento muito mais feliz.
Mas não dei muito tempo a este pensamento, uma vez que muitas outras questões me espremiam a mente: tantas que, por momentos, fiquei calada, tentando decidir o que perguntar primeiro.
Por fim, perdi a oportunidade, porque o enfermeiro me colocou, ele próprio, uma pergunta antes que eu pudesse decidir-me quanto ao que devia perguntar:
- Então, Emília, que te aconteceu?
Parecia sorridente, ao perguntar isto, mas via-se que era só uma tentativa de disfarçar o seu próprio nervosismo. Deviam ter ficado confusos acerca de como eu ficara assim, deviam ter ficado mesmo muito baralhados por aquelas marcas (que descobri mais tarde que era, afinal apenas uma só grande marca, e nada como as duas feridas minúsculas e limpas mostradas na televisão).
Não era todos os dias que entrava uma miúda no hospital mordida por um vampiro. E agora, na era Twilight, era quase impossível não pensar em vampiros quando se via alguém com uma ferida no pescoço. Malditos cineastas que aproveitam sempre as obras para filmes nos piores momentos possíveis.
Como se hesitasse, ele franziu as sobrancelhas e aproximou-se cautelosamente de mim.
- Consegues falar? A ferida externa na tua garganta não devia ter afectado as tuas cordas vocais ou a tua comunicação de nenhuma forma.
- Sim, consigo falar – respondi, depressa, não querendo que ele começasse a pensar em coisas indevidas ou, pior, verdadeiras e secretas - Consigo falar. Não sei o que me aconteceu ao certo. Um bicharoco qualquer. Um cão, talvez? Quem sabe. Perdi os sentidos muito depressa.
Graças aos céus e às terras profundas, isso não era verdade. Mantinha a minha opinião firme de que aquele tinha sido o melhor momento da minha vida. De sempre.
Não que eu fosse deixar que ele se repetisse. Não sou masoquista. Não queria morrer. Tinha muito mais que fazer antes disso acontecer. Tinha de encontrar a Lilith, cuja mãe continuava inconsolável. Tinha de descobrir porque motivo tinha o meu tio dito que o que me dera era um antídoto, quando obviamente era mais uma espécie de licor-para-se-tornar-um-vampiro. O que de certa forma, era um antídoto. Contra a morte, certo? Imortalidade? Mas a verdade era, o facto de se morrer sempre que o sol nascia era, de facto, uma terrível contra-indicação. Eu não teria trocado a minha juventude por isso. Acho eu. Desde a noite anterior, em que o Artur me tinha mordido e sugado a maior parte do sangue, já não tinha a certeza de muito. Naquele momento, tinha, de facto, querido tornar-me o que quer que fosse que ele fosse. Na verdade, até antes disso eu já tinha o desejo de me tornar o que quer que fosse que ele fosse. Um vampiro, era o que ele era? Pois que fosse. Estaríamos juntos, então, até ao fim do sempre. Pelo menos, era aquilo em que tinha pensado na altura. Agora sentia-me envergonhada destes pensamentos incautos e estupidamente inocentes.
- Quem me encontrou? – perguntei, finalmente decidindo-me pela pergunta mais premente. Como é que eu não tinha morrido? Não podia perguntar isso ao enfermeiro. Mas podia, definitivamente, perguntar-lhe quem me salvara.
- Vi-a chegar trazida por um rapaz, mais ou menos da sua idade. Estava alguém consigo quando perdeu os sentidos?
Um rapaz? Seria o Artur? Não, ele não teria parado a tempo. Não o conseguia imaginar a parar. Ele era… Em todas as medidas, não o Artur. Não que o Artur fosse algum santo em verdadeira vida, mas tinha continuado sempre longe daquela insanidade que era a criatura em que ele se tornara. E agora, parecia ter conservado apenas os maus hábitos, e parecia ter perdido os bons.
Não sabia ele que nunca se mordia uma rapariga no primeiro encontro? Não que fosse um primeiro encontro para mim, mas para ele, definitivamente. Ele estava destinado a não se lembrar de mim, ou do que quer que fosse, até todo o sempre. Que destino estúpido, este. Termos de conhecer alguém todos os dias da nossa vida, sem nunca a fixarmos na mente.
Como é que eu podia mesmo querer tornar-me no mesmo que ele? Mesmo que me tornasse no que ele era, não me lembraria dele nunca mais. E assim, nenhum de nós poderia ter as forças para se lembrar do outro, e para fazermos com que o outro se lembre de nós e que nos conheça, dia após dia, ou antes, noite após noite.
- Estava sozinha. Os meus pais sabem que aqui estou?
- Sim, estiveram cá durante a noite. Pediram desculpa por não terem trazido nada, e também por terem de se ir embora, mas tinham de ir.
Ir. De certeza para trabalhar. Teriam eles sempre de trabalhar? Mesmo quando a vida da filha ficara por uma mísera sugadela? E o JP? Eu conhecia-o, ele não teria querido ir às aulas. Teria faltado por mim. Afinal de contas, ele só estava a repetir Matemática. O que lhe interessava uma ou outra aula ao lado da irmã a esvair-se em sangue durante a noite? Não, algo não estava certo, tinha de haver uma razão para nenhum deles ali estar, comigo, quando eu precisava.
- Tem um… Um telefone? – inquiri, porque me preocupava mesmo por eles não ali estarem, sabendo do sucedido. Para além do mais, precisava de respostas. Como é que raio eu tinha ali chegado, ao hospital? Quem me trouxera? Quem ligara aos meus pais?
- Claro que sim – e depois, o dito enfermeiro foi buscar o telefone. Marquei o número de pressa, e fiquei contente por verificar que o enfermeiro se ia embora e encostava a porta para me dar a privacidade de que precisava.
Pela altura em que ele saiu, o telemóvel da minha mãe já tocava alegremente, algures onde quer que ela estivesse, que não ao pé de mim. Talvez fosse egoísta da minha parte pensar que os meus progenitores e irmão deviam estar ao meu lado o dia todo só porque quase morrera, mas não sei muito bem porquê, parecia-me correcto sentir-me assim. Acho que é… Normal!
Ao fim de algum tempo, ouvi um “estou” seco do outro lado. A minha mãe tinha atendido:
- Mãe, onde estás? Porque é que nem sequer me deixaste um telemóvel?
- Emília, estás bem? – perguntou, com ansiedade, como se estivesse de facto preocupada.
- Sim, estou. E porque é que…
- O que é que se passou, filha? – indagou, de novo, e finalmente começava a convencer-me da sua honestidade e da sua genuína preocupação.
- Mãe… Não sei, um cão, talvez, não sei, desmaiei logo…
- Um cão? Como é que ele não te degolou logo de uma dentada? – na voz da minha mãe ouvia-se o timbre de todas as inquietações. Sentia-me mal, agora, por ter pensado que não se tinha importado o suficiente para ficar. Mas ainda assim, eu ainda não tinha resposta para o porquê de ter ficado ali, sozinha, sem nenhum membro da minha família pela minha cabeceira.
- Eu… Eu não sei. Mãe, onde estás? Porque é que não estás aqui? – perguntei, não conseguindo inibir um ligeiro tom de desapontamento na minha voz. Não queria que se notasse, a sério que não queria, mas foi audível.
Neste ponto, a minha mãe hesitou. Não sabia o que pensar da hesitação dela. Envergonhava-se do motivo? Era o motivo mau?
- Emília… A Liliana… Encontraram-na.
Após uma centena de pensamentos em branco, como folhas de papel queimadas e feitas barcos de papel, feitas pó de nuvem, pó de folha de papel, senti-me deslizar estando já deitada. É assim que vejo aquele momento.
Senti também o coração tornar-se um piano pesado e voar depois com a composição de melodias jamais terrenas.
Não conseguia impedir-me de me sentir eufórica e felicíssima com a esperança de a voltar a ver. Não conseguia, no entanto, simultaneamente, impedir-me de me sentir afundar ao ouvir o tom de luto na voz da minha mãe.
Tinham-na encontrado… Estaria viva?
Como se a minha mãe não falasse, reuni a força para formular a pergunta:
- Como é que… Como é que a encontraram?
Ouvi o suspiro da minha mãe, ainda que ela o tenha tentado afastar do bocal do telemóvel.
- Encontraram-na… Mal, muito mal, Emília. Tens de ser forte. Ela está… perturbada – Estava, portanto viva, o que era melhor que muitos destinos que ela poderia ter tido – Ela está muito magoada. Estou agora no Hospital Psiquiátrico de X, com a mãe dele. O teu pai também aqui está. O João Pedro está… Muito mal. Ele já a viu. Tentou falar com ela… Ela fugiu dele em gritos histéricos. Não sabemos o que ela tem, ou pelo que é que passou. E, Emília, talvez seja melhor saberes… Ela não está em bom estado.
Permaneci em silêncio. Não respondi. Não quis responder. Não pude encontrar as palavras para exprimir a dor e o medo que estava a sentir. Senti a minha alma acumular-se nos meus olhos, como se tentasse fugir. Senti-os doer, com a pressão da minha alma, que na sua frustrante tentativa de suicidar, me escorreu pelas bochechas.
Lilith. A minha amiga, a minha Lilith.
“Lilith, Lilith, que é que te aconteceu?”, cantava ela, como uma banshee, pela morte de si própria, pela vontade da morte de si própria.
- Emília, estás bem? Emília? Emília?
Mas eu não lhe podia responder. Continuava a segurar o telemóvel mais por reflexo que por vontade de a ouvir. Não queria saber. Não podia saber.
Queria afogar-me na minha alma. Se ela não se podia suicidar, poderia ela ao menos matar o corpo, e pôr cobro à sua prisão, para voar e ser feliz, para voar e ser livre, outra vez?
- Eu não te devia ter contado nada. Não te preocupes, daqui a nada já vou para aí. O teu tio Júpiter ficou de ir aí ver de ti. Vai ficar tudo bem, vais ver, vai ficar tudo bem.
E desligou. E de súbito, eu sabia. Tinha de fugir dali, o mais depressa possível.
Arranquei, com fúria, os fios encarnados do meu braço. Queria lá saber que sangrasse, que morresse, quem sabe, talvez tivesse sido melhor que morresse.
Mas não podia ter morrido. A Lilith precisava de mim.
E esse era talvez o único motivo pelo qual eu ainda me importava com a minha vida. O tio Júpiter não era de confiança. Não depois do antídoto. E, portanto, pela Lilith, tinha de fugir dele.
Procurei, em vão, nos armários, uma roupa qualquer que pudesse vestir. Não encontrei nenhuma. Talvez a minha roupa tivesse ido para lavar. Saí, à socapa, tentando evitar os enfermeiros no corredor, e entrei no quarto seguinte. Estava ocupado por uma senhora idosa que dormia. Vasculhei os armários e encontrei, tal como esperava, roupa de velha. Não me importei. Voltei ao meu próprio quarto e vesti a roupa. Tentei parecer despercebida.
Estava já a passar pelos seguranças quando vi o meu tio Júpiter. Escondi-me junto à família mais próxima que passava. Tinha sido por um triz.
Saí do hospital. Mal acreditava na facilidade com que saíra.
Corri pelo parque de estacionamento. Não havia forma de não repararem nas roupas estranhamente desproporcionais que trazia e como pareciam erradas na minha pessoa. Não podia, assim, correr riscos. Tinha de me manter longe do meu tio. Pelo menos, até encontrar os meus pais. Não havia forma de eu voltar a estar sozinha com o meu tio. Nunca mais na minha vida.
Ele tinha transformado o homem da minha vida num morto permanente.
Isso é suposto ser daquelas coisas que marcam e que destroem laços familiares, certo? É que se não estiver nessa lista, sugiro que se inclua.
Corri, sem ter grande destino, em direcção a casa. Deambulava pelas ruas, e toda a gente que passava por mim olhava com estranheza. Felizmente, não encontrei ninguém conhecido, ou teria morrido de vergonha.
Estava a passar junto à casa do Sérgio, quando algo me fez parar.
Teria sido ele?
Após o pensamento me ocorrer, não consegui evitar tocar na campainha. Ainda pensei em fugir, afinal a minha vestimenta não era a indicada para ir tocar à campainha do ex-namorado.
Mas afinal de contas, porque é que havia de ter sido ele? Claro que não tinha sido ele… Mas ainda assim, era-me impossível correr dali e prosseguir em direcção a casa. Talvez fosse o facto de nem sequer ter chave. E nós não guardávamos chave debaixo do tapete, ou no canteiro, ou junto a uma telha especial.
Presumo que podia ter ido para casa do André, mas até isso me parecia despropositado. Ele era tão racional… Jamais poderia explicar-lhe tudo o que vinha a acontecer e a forma curiosa como todos os acontecimentos se interligavam (ou não).
Assim, de alguma forma, vi-me ali, à espera de ouvir a voz do Sérgio.
- Sim? – disse, a voz dele, por fim.
- É a… É a Emília. Posso entrar? Eu prometo que te explico tudo depressa.
Muito provavelmente, esta não é a forma indicada de se falar com um ex-namorado, ainda para mais, um ex-namorado com que se acabou por causa de um pacote de pipocas e que, ainda por cima, tinha namorada no momento actual.
- Entra – disse ele, apenas, e em cada palavra ouvia-se um retinir de surpresa. Não me perguntou o que ali estava a fazer, o que por si só, já era de espantar. E apesar de ele parecer surpreendido, não se podia dizer que tinha parecido que ele pensasse que era estranho eu ir, assim, bater-lhe à porta.
Subi no elevador antigo, sem espelho e botões brancos com os números quase tão translúcidos como o André da minha alucinação.
Cheguei lá acima mais depressa do que esperava, ou desejava.
Mas ele já lá estava, à porta, à minha espera.
No passado, ia àquele prédio todos os dias depois das aulas. Era quase como uma segunda casa. Contudo, após o incidente do pacote de pipocas, nunca mais lá voltara, e só agora me apercebia do quão eu sentia a falta de ali ir. Aquele era um local, que por si só, gritava alegria. Era-me impossível estar ali, sem imaginar os dias em que ali entrara com a mão do Sérgio na minha. Mas era-me também impossível não imaginar o Sérgio a entrar ali de mão dada com a Loira, todos os dias depois das aulas.
A lembrança da cara e cabeleira dela fizeram-me logo desanimar e senti-me, então, esvaziada de pensamentos e explicações. Porque é que eu ali estava? Já nem sabia muito bem.
- Emília, que se passa? Como é que já saíste do hospital? E que roupas são essas?
Afinal, sempre tinha sido ele. Como é que ele me tinha encontrado? Com que forças é que ele me tinha arrancado a um vampiro e me carregara para o hospital mais próximo?
- Ah, foste tu. Muito obrigada, Sérgio. Como é que tu… Me encontraste? – inquiri, trémula, mas simultaneamente agradecida.
- Não sabias, ainda? – agora ele parecia embaraçado.
- Não. A minha mãe… Encontraram a Lilith. Tem sido um dia complicado para todos – expliquei, baralhada e confusa, como se não soubesse por onde começar.
- Encontraram-na? – senti o choque na voz dele, profundo e trágico – E o Artur, encontraram-no?
Isto eliminava as minhas dúvidas acerca do facto de ele me ter arrancado às garras do animal vampírico que me tinha atacado, para grande prazer meu. Tinha-me, então, o Artur abandonado esvaída em sangue antes de ele ter tido oportunidade de fazer o melhor do lanchinho da meia-noite que eu tinha sido para ele? Idiota. Os vampiros são todos os mesmos. Tal como os homens.
- Não, não o encontraram – se ele soubesse.
- Como está a Lilith?
- Muito mal, segundo consta. Perturbada. Ainda não tive oportunidade para a ver. É por isso que preciso da tua ajuda.
- Precisas da minha ajuda para ir ver a Lilith? Mas… Como? Não estás à espera que te leve a algum sítio longínquo, espero. Sabes que ainda não tenho carta e que não sei conduzir.
- Sim, eu sei – ou talvez não soubesse. O que é que eu estava ali a fazer, afinal? – A questão é, eu fugi do hospital.
- Tu fugiste do hospital? – repetiu ele, estupidamente, devo dizer, com o tom mais negativo e mais “Oh meu Deus, esta está completamente louca” possível.
- Sim. Ouve… A minha mãe mandou o meu tio ir ter comigo – não sabia porque raio lhe estava a contar estas coisas, mas alguma coisa tinha de dizer – e o meu tio… Não é a melhor das pessoas. Não agora, pelo menos. Não confio nele.
- Não confias nele? Poças, eu também não confio em toda a gente, e não fujo delas… Achas que o teu tio ia fazer o quê? Matar-te e usar a perda de sangue como desculpa? – Sim, na verdade era mesmo aquilo que eu pensava que podia acontecer. Ou algo pior, como eu tornar-me uma vampira à semelhança do nosso querido conterrâneo, amigo ou o que quer que ele me fosse Artur – Tu fugiste do hospital para fugir ao teu tio? Raios, já percebo onde arranjaste as roupas de circo.
- Eu não podia ficar com ele… Eu sei coisas… Ouve, Sérgio, há coisas que não te posso contar agora, coisas horríveis, sobre o meu tio, que me impedem de poder estar na mesma sala que ele, sozinha, por agora. Tenta compreender…
- Ninguém pode compreender o que não conhece, Emília. – Os olhos dele iluminaram-se e ele virou-se de costas para mim, fingindo prestar atenção a uma laranja de plástica numa taça decorativa - Ontem, por exemplo, vi-te caída no chão. Eu não sabia o que te tinha acontecido. Ainda não sei. Mas foi… - e aqui ele disse uma obscenidade para ilustrar o que sentia – Foi um dos piores momentos da minha vida. Até pior que o dia em que percebi, alguns dias depois de teres acabado comigo por causa da – outra obscenidade – do pacote de pipocas, que de facto não ias voltar atrás na tua decisão, e que não íamos voltar a estar juntos. Por amor de Deus, quem é que acaba com alguém por um pacote de pipocas?
- Eu, aparentemente – respondi, silenciosamente. Doía-me a minha ferida no pescoço, mas só agora me começava a aperceber disso.
- Exacto. Tu. Só tu. E isso não é exactamente uma coisa boa. Como vês, nem isso eu compreendi. E agora esperas que compreenda algo que nem me contas? Admite, Emília, admite que não acabaste comigo pelo pacote de pipocas, mas porque foi a primeira desculpa que arranjaste para me dizeres que já não querias estar comigo nunca mais.
Apesar de todos os acontecimentos aterrorizadores dos últimos tempos, não me parecia que estivesse a ficar menos sensível a outros tipos de dor. E neste momento, doeu-me de novo. Apesar de tudo… Da Lilith, do Artur, das alucinações e do meu tio, o Sérgio ainda tinha a capacidade de me pôr a alma a bailar nos olhos de novo.
Um dia, ela havia de se suicidar toda.
- Nunca foi uma desculpa. Queria sentir-me menos desprezada, porque andar contigo era como andar com ninguém, nalguns dos dias, mas só foi pior. Tudo o que eu queria era que me pedisses desculpa. Em vez disso, ao fim dum mês e meio começaste a andar com aquela Loira que mais parece falsa do que verdadeira… E nunca mais falaste comigo! Nunca mais te lembraste da miúda com quem tinhas gasto uns míseros meses da tua vida.
O Sérgio virou-se. Eu virei-me. Ficámos a olhar um para o outro durante alguns momentos, em silêncio, porque finalmente falávamos, porque finalmente confrontávamos os nossos motivos sem segundas intenções. Toda a ferida rebentava com a sua própria crosta para poder agora cicatrizar sem marcas e sem mais dores.
Ou pelo menos, assim esperava.
- Sabes – foi o que ele disse, ao fim dum bocado – Acabei ontem com a Cátia. Um pouco antes de te encontrar caída e ensanguentada, no chão. Se comecei a andar com ela, foi porque era a melhor forma de esconder que estava, de facto, irritado.
- Ah sim? Isso é muito bonito de se dizer agora, que acabaste com ela. Não o dirias uns meses atrás.
- Dir-to-ia sim, mas tu nunca quiseste saber!
- Achas mesmo que eu não queria saber? Eu só pensava em ti, tipo anormal, Sérgio, Sérgio, Sérgio, a martelar na minha cabeça o dia todo! Não eras capaz de me deixar em paz e de parar de me atormentar?
Nenhum de nós parecia triste agora, apenas zangados. Estávamos muito, muito, zangados um com o outro. Quase que se podiam ver, individualizadas, duas mil faíscas em ambiente aéreo entre nós.
- Achas mesmo que eu não te deixava em paz? Cada vez que te via, só me dava vontade de te agarrar e trazer comigo para casa! E quando não te via, ficava doente, como se não tivesse comido, ou respirado, quanto devia. Aos poucos, parecia que a sensação ficava mais suportável, mas a verdade é que ainda hoje, quando ouvi a tua voz, senti o meu coração começar a dançar kizomba, embora eu sempre o tenha desencorajado a tentar aulas de dança!
Ter-me-ia rido, mas não ri, porque sabia que a Lilith estava mal, internada num Hospital Psiquiátrico longe de mim, e porque o Artur estava morto algures, e porque o Artur, apesar de morto, continuava a ser uma parte indispensável da minha vida, como nenhuma outra, e porque o caminho para onde isto me estava a levar era para bem longe dele e muito mais para próximo do Sérgio. Queria eu mesmo voltar para junto do Sérgio? Queria eu mesmo deixar o Artur por si só e esquecer que ele existira, um dia, e que me amara? Que eu própria o amara? Que sonhara com ele várias noites?
- Sérgio… Eu sei o que estás a tentar fazer. O tempo não vai voltar atrás, sabes? Não vai mesmo.
Se o sorriso fosse algo que se pudesse arrancar duma cara, garanto, era o que eu tinha feito. Ele não estava a sorrir, inicialmente, mas o estado em que ele ficou depois de eu pronunciar estas palavras era semelhante ao estado em que uma paisagem fica, atrás dum vidro em dia de chuva, e em que esta escorre pelo vidro, e em que as imagens se desfazem e escorrem monstruosamente. O Sérgio parecia… Despedaçado.
Genuinamente.
E o mais estranho era, eu também. Porque um pacote de pipocas pode, afinal, ser a causa de muita infelicidade.
- Nem eu queria que voltasse – disse ele, e eu senti-me pisada e esmagada no chão. Muito esmagada. Muito pisada. De seguida, ele perguntou, como quem não tem já nada a perder – O que é que te aconteceu ontem, afinal, para teres ficado naquele rico estado?
Hesitei antes de responder. Pensei em várias respostas. Pensei em várias mentiras. Por fim, encolhi os ombros e disse-lhe:
- O meu namorado mordeu-me. Talvez devêssemos marcar um double date para apresentarmos a tua ex ao meu (acho que também lhe posso chamar assim) ex. Parecem ter muito em comum.
O pior de tudo era, quem me garantia a mim que ele não o fizera? Podia estar a acordar, como ele, de noite, tanto quanto sabia. As persianas estavam corridas e apenas a luz estava acesa. Não havia ninguém no meu quarto.
Tinha uma data de fiozinhos vermelhos ligados aos meus braços. Sangue, com que então. Gostava de saber qual era a explicação que eles, os obtusos, tinham encontrado para aquilo? Garfo de churrasco, como na Buffy? Animais selvagens? Nada de muito criativo, isso de certeza.
Presumi que não fosse hora de visita, e que portanto estivesse sozinha. Contudo, não pude evitar sentir-me ligeiramente ofendida com a falta de presença e de apoio dos meus ou, sei lá, de um médico, uma enfermeira…
Tentei levantar-me, para procurar alguma coisa, ver se alguém tinha tido a decência de me deixar um telemóvel ou, quem sabe, um livro, para me entreter.
Arrastei o suporte do sangue comigo, e tentei ignorar o pijama de hospital que me tinham vestido. Só o pensamento de um estranho (ou provavelmente uma estranha) me ver na minha roupa interior da Hello Kitty, que detesto, dava-me a volta ao estômago.
Procurei nas gavetas. Encontrei um livro de banda desenhada do Tio Patinhas, mas era possível que o paciente anterior o lá tivesse deixado. Fui, portanto, ao armário. Contudo, não havia ali mais nada se não meia dúzia de cabides mal postos.
Olhei de forma inquisidora para a janela. Devia abri-la, para ver, pelo menos, em que parte do hospital estava. Tentei não admitir para mim própria que estava com medo de a abrir por ter medo de confirmar que o Artur me tinha transformado em vampira e que a luz solar me desfaria em chamas. Mas depois recordei-me de que o Artur não era o padrão comum de vampiro e que ele, pura e simplesmente, não existia na luz do sol, porque estava sempre fisicamente morto nesta altura do dia. De futuro, teria de tomar precauções em relação ao sítio onde ele adormecia/morria. Em relação a isso e também em relação às mordidelas à socapa, porque isso não me parecia bem, não me parecia mesmo nada bem. Eu sei que na altura me parecera uma excelente ideia, mas agora, claro que não. Não voltaria a deixar que o acontecimento sucedesse. Nem que para isso tivesse de me manter a cem metros dele. Embora assim fosse difícil verificar que ele não magoava ninguém. Isto é, ele tinha-me magoado a mim. Só esperava que eu tivesse sido snack suficiente para a noite toda.
O que me lembrava, não fazia ideia de como ele não me matara e fora ali parar. Uma parte de mim, inundou-se de esperança. Teria ele recuperado e teria, assim, ido ele mesmo pôr-me ao hospital? Isso explicaria o porquê de ninguém ter ido lá ver-me ou deixar-me um pijama em condições. Ou, por Deus, um mísero telemóvel.
Abri a janela e a luz inundou o quarto. As minhas dúvidas dissiparam-se e respirei fundo de alívio. Sabia que na noite anterior tinha fantasiado acerca de eu própria me tornar uma vampira, mas não me parecia que isso fosse o melhor para os dois, eu e o Artur, de momento.
Ia agora apenas certificar-me de que ele e os pobres potenciais peões de rua se mantinham vivos. Isso teria de ser suficiente. E, de preferência, sem que eu própria morresse no processo.
O que me lembrava da minha carteira, onde teria ela ficado? Nenhuma resposta para tantas perguntas. Restava-me esperar que alguém aparecesse para pôr cobro às minhas misérias e ignorância.
E foi o que fiz. Esperei, simplesmente, quieta, na minha cama. Esperei durante imenso tempo até que o saco de sangue estava já quase vazio. Nessa altura, um tímido enfermeiro entrou no meu quarto. Não devia ter mais de trinta anos, e tinha uns olhos quase tão azuis como os meus. O que de certa forma torna o facto de se estar num hospital, um acontecimento muito mais feliz.
Mas não dei muito tempo a este pensamento, uma vez que muitas outras questões me espremiam a mente: tantas que, por momentos, fiquei calada, tentando decidir o que perguntar primeiro.
Por fim, perdi a oportunidade, porque o enfermeiro me colocou, ele próprio, uma pergunta antes que eu pudesse decidir-me quanto ao que devia perguntar:
- Então, Emília, que te aconteceu?
Parecia sorridente, ao perguntar isto, mas via-se que era só uma tentativa de disfarçar o seu próprio nervosismo. Deviam ter ficado confusos acerca de como eu ficara assim, deviam ter ficado mesmo muito baralhados por aquelas marcas (que descobri mais tarde que era, afinal apenas uma só grande marca, e nada como as duas feridas minúsculas e limpas mostradas na televisão).
Não era todos os dias que entrava uma miúda no hospital mordida por um vampiro. E agora, na era Twilight, era quase impossível não pensar em vampiros quando se via alguém com uma ferida no pescoço. Malditos cineastas que aproveitam sempre as obras para filmes nos piores momentos possíveis.
Como se hesitasse, ele franziu as sobrancelhas e aproximou-se cautelosamente de mim.
- Consegues falar? A ferida externa na tua garganta não devia ter afectado as tuas cordas vocais ou a tua comunicação de nenhuma forma.
- Sim, consigo falar – respondi, depressa, não querendo que ele começasse a pensar em coisas indevidas ou, pior, verdadeiras e secretas - Consigo falar. Não sei o que me aconteceu ao certo. Um bicharoco qualquer. Um cão, talvez? Quem sabe. Perdi os sentidos muito depressa.
Graças aos céus e às terras profundas, isso não era verdade. Mantinha a minha opinião firme de que aquele tinha sido o melhor momento da minha vida. De sempre.
Não que eu fosse deixar que ele se repetisse. Não sou masoquista. Não queria morrer. Tinha muito mais que fazer antes disso acontecer. Tinha de encontrar a Lilith, cuja mãe continuava inconsolável. Tinha de descobrir porque motivo tinha o meu tio dito que o que me dera era um antídoto, quando obviamente era mais uma espécie de licor-para-se-tornar-um-vampiro. O que de certa forma, era um antídoto. Contra a morte, certo? Imortalidade? Mas a verdade era, o facto de se morrer sempre que o sol nascia era, de facto, uma terrível contra-indicação. Eu não teria trocado a minha juventude por isso. Acho eu. Desde a noite anterior, em que o Artur me tinha mordido e sugado a maior parte do sangue, já não tinha a certeza de muito. Naquele momento, tinha, de facto, querido tornar-me o que quer que fosse que ele fosse. Na verdade, até antes disso eu já tinha o desejo de me tornar o que quer que fosse que ele fosse. Um vampiro, era o que ele era? Pois que fosse. Estaríamos juntos, então, até ao fim do sempre. Pelo menos, era aquilo em que tinha pensado na altura. Agora sentia-me envergonhada destes pensamentos incautos e estupidamente inocentes.
- Quem me encontrou? – perguntei, finalmente decidindo-me pela pergunta mais premente. Como é que eu não tinha morrido? Não podia perguntar isso ao enfermeiro. Mas podia, definitivamente, perguntar-lhe quem me salvara.
- Vi-a chegar trazida por um rapaz, mais ou menos da sua idade. Estava alguém consigo quando perdeu os sentidos?
Um rapaz? Seria o Artur? Não, ele não teria parado a tempo. Não o conseguia imaginar a parar. Ele era… Em todas as medidas, não o Artur. Não que o Artur fosse algum santo em verdadeira vida, mas tinha continuado sempre longe daquela insanidade que era a criatura em que ele se tornara. E agora, parecia ter conservado apenas os maus hábitos, e parecia ter perdido os bons.
Não sabia ele que nunca se mordia uma rapariga no primeiro encontro? Não que fosse um primeiro encontro para mim, mas para ele, definitivamente. Ele estava destinado a não se lembrar de mim, ou do que quer que fosse, até todo o sempre. Que destino estúpido, este. Termos de conhecer alguém todos os dias da nossa vida, sem nunca a fixarmos na mente.
Como é que eu podia mesmo querer tornar-me no mesmo que ele? Mesmo que me tornasse no que ele era, não me lembraria dele nunca mais. E assim, nenhum de nós poderia ter as forças para se lembrar do outro, e para fazermos com que o outro se lembre de nós e que nos conheça, dia após dia, ou antes, noite após noite.
- Estava sozinha. Os meus pais sabem que aqui estou?
- Sim, estiveram cá durante a noite. Pediram desculpa por não terem trazido nada, e também por terem de se ir embora, mas tinham de ir.
Ir. De certeza para trabalhar. Teriam eles sempre de trabalhar? Mesmo quando a vida da filha ficara por uma mísera sugadela? E o JP? Eu conhecia-o, ele não teria querido ir às aulas. Teria faltado por mim. Afinal de contas, ele só estava a repetir Matemática. O que lhe interessava uma ou outra aula ao lado da irmã a esvair-se em sangue durante a noite? Não, algo não estava certo, tinha de haver uma razão para nenhum deles ali estar, comigo, quando eu precisava.
- Tem um… Um telefone? – inquiri, porque me preocupava mesmo por eles não ali estarem, sabendo do sucedido. Para além do mais, precisava de respostas. Como é que raio eu tinha ali chegado, ao hospital? Quem me trouxera? Quem ligara aos meus pais?
- Claro que sim – e depois, o dito enfermeiro foi buscar o telefone. Marquei o número de pressa, e fiquei contente por verificar que o enfermeiro se ia embora e encostava a porta para me dar a privacidade de que precisava.
Pela altura em que ele saiu, o telemóvel da minha mãe já tocava alegremente, algures onde quer que ela estivesse, que não ao pé de mim. Talvez fosse egoísta da minha parte pensar que os meus progenitores e irmão deviam estar ao meu lado o dia todo só porque quase morrera, mas não sei muito bem porquê, parecia-me correcto sentir-me assim. Acho que é… Normal!
Ao fim de algum tempo, ouvi um “estou” seco do outro lado. A minha mãe tinha atendido:
- Mãe, onde estás? Porque é que nem sequer me deixaste um telemóvel?
- Emília, estás bem? – perguntou, com ansiedade, como se estivesse de facto preocupada.
- Sim, estou. E porque é que…
- O que é que se passou, filha? – indagou, de novo, e finalmente começava a convencer-me da sua honestidade e da sua genuína preocupação.
- Mãe… Não sei, um cão, talvez, não sei, desmaiei logo…
- Um cão? Como é que ele não te degolou logo de uma dentada? – na voz da minha mãe ouvia-se o timbre de todas as inquietações. Sentia-me mal, agora, por ter pensado que não se tinha importado o suficiente para ficar. Mas ainda assim, eu ainda não tinha resposta para o porquê de ter ficado ali, sozinha, sem nenhum membro da minha família pela minha cabeceira.
- Eu… Eu não sei. Mãe, onde estás? Porque é que não estás aqui? – perguntei, não conseguindo inibir um ligeiro tom de desapontamento na minha voz. Não queria que se notasse, a sério que não queria, mas foi audível.
Neste ponto, a minha mãe hesitou. Não sabia o que pensar da hesitação dela. Envergonhava-se do motivo? Era o motivo mau?
- Emília… A Liliana… Encontraram-na.
Após uma centena de pensamentos em branco, como folhas de papel queimadas e feitas barcos de papel, feitas pó de nuvem, pó de folha de papel, senti-me deslizar estando já deitada. É assim que vejo aquele momento.
Senti também o coração tornar-se um piano pesado e voar depois com a composição de melodias jamais terrenas.
Não conseguia impedir-me de me sentir eufórica e felicíssima com a esperança de a voltar a ver. Não conseguia, no entanto, simultaneamente, impedir-me de me sentir afundar ao ouvir o tom de luto na voz da minha mãe.
Tinham-na encontrado… Estaria viva?
Como se a minha mãe não falasse, reuni a força para formular a pergunta:
- Como é que… Como é que a encontraram?
Ouvi o suspiro da minha mãe, ainda que ela o tenha tentado afastar do bocal do telemóvel.
- Encontraram-na… Mal, muito mal, Emília. Tens de ser forte. Ela está… perturbada – Estava, portanto viva, o que era melhor que muitos destinos que ela poderia ter tido – Ela está muito magoada. Estou agora no Hospital Psiquiátrico de X, com a mãe dele. O teu pai também aqui está. O João Pedro está… Muito mal. Ele já a viu. Tentou falar com ela… Ela fugiu dele em gritos histéricos. Não sabemos o que ela tem, ou pelo que é que passou. E, Emília, talvez seja melhor saberes… Ela não está em bom estado.
Permaneci em silêncio. Não respondi. Não quis responder. Não pude encontrar as palavras para exprimir a dor e o medo que estava a sentir. Senti a minha alma acumular-se nos meus olhos, como se tentasse fugir. Senti-os doer, com a pressão da minha alma, que na sua frustrante tentativa de suicidar, me escorreu pelas bochechas.
Lilith. A minha amiga, a minha Lilith.
“Lilith, Lilith, que é que te aconteceu?”, cantava ela, como uma banshee, pela morte de si própria, pela vontade da morte de si própria.
- Emília, estás bem? Emília? Emília?
Mas eu não lhe podia responder. Continuava a segurar o telemóvel mais por reflexo que por vontade de a ouvir. Não queria saber. Não podia saber.
Queria afogar-me na minha alma. Se ela não se podia suicidar, poderia ela ao menos matar o corpo, e pôr cobro à sua prisão, para voar e ser feliz, para voar e ser livre, outra vez?
- Eu não te devia ter contado nada. Não te preocupes, daqui a nada já vou para aí. O teu tio Júpiter ficou de ir aí ver de ti. Vai ficar tudo bem, vais ver, vai ficar tudo bem.
E desligou. E de súbito, eu sabia. Tinha de fugir dali, o mais depressa possível.
Arranquei, com fúria, os fios encarnados do meu braço. Queria lá saber que sangrasse, que morresse, quem sabe, talvez tivesse sido melhor que morresse.
Mas não podia ter morrido. A Lilith precisava de mim.
E esse era talvez o único motivo pelo qual eu ainda me importava com a minha vida. O tio Júpiter não era de confiança. Não depois do antídoto. E, portanto, pela Lilith, tinha de fugir dele.
Procurei, em vão, nos armários, uma roupa qualquer que pudesse vestir. Não encontrei nenhuma. Talvez a minha roupa tivesse ido para lavar. Saí, à socapa, tentando evitar os enfermeiros no corredor, e entrei no quarto seguinte. Estava ocupado por uma senhora idosa que dormia. Vasculhei os armários e encontrei, tal como esperava, roupa de velha. Não me importei. Voltei ao meu próprio quarto e vesti a roupa. Tentei parecer despercebida.
Estava já a passar pelos seguranças quando vi o meu tio Júpiter. Escondi-me junto à família mais próxima que passava. Tinha sido por um triz.
Saí do hospital. Mal acreditava na facilidade com que saíra.
Corri pelo parque de estacionamento. Não havia forma de não repararem nas roupas estranhamente desproporcionais que trazia e como pareciam erradas na minha pessoa. Não podia, assim, correr riscos. Tinha de me manter longe do meu tio. Pelo menos, até encontrar os meus pais. Não havia forma de eu voltar a estar sozinha com o meu tio. Nunca mais na minha vida.
Ele tinha transformado o homem da minha vida num morto permanente.
Isso é suposto ser daquelas coisas que marcam e que destroem laços familiares, certo? É que se não estiver nessa lista, sugiro que se inclua.
Corri, sem ter grande destino, em direcção a casa. Deambulava pelas ruas, e toda a gente que passava por mim olhava com estranheza. Felizmente, não encontrei ninguém conhecido, ou teria morrido de vergonha.
Estava a passar junto à casa do Sérgio, quando algo me fez parar.
Teria sido ele?
Após o pensamento me ocorrer, não consegui evitar tocar na campainha. Ainda pensei em fugir, afinal a minha vestimenta não era a indicada para ir tocar à campainha do ex-namorado.
Mas afinal de contas, porque é que havia de ter sido ele? Claro que não tinha sido ele… Mas ainda assim, era-me impossível correr dali e prosseguir em direcção a casa. Talvez fosse o facto de nem sequer ter chave. E nós não guardávamos chave debaixo do tapete, ou no canteiro, ou junto a uma telha especial.
Presumo que podia ter ido para casa do André, mas até isso me parecia despropositado. Ele era tão racional… Jamais poderia explicar-lhe tudo o que vinha a acontecer e a forma curiosa como todos os acontecimentos se interligavam (ou não).
Assim, de alguma forma, vi-me ali, à espera de ouvir a voz do Sérgio.
- Sim? – disse, a voz dele, por fim.
- É a… É a Emília. Posso entrar? Eu prometo que te explico tudo depressa.
Muito provavelmente, esta não é a forma indicada de se falar com um ex-namorado, ainda para mais, um ex-namorado com que se acabou por causa de um pacote de pipocas e que, ainda por cima, tinha namorada no momento actual.
- Entra – disse ele, apenas, e em cada palavra ouvia-se um retinir de surpresa. Não me perguntou o que ali estava a fazer, o que por si só, já era de espantar. E apesar de ele parecer surpreendido, não se podia dizer que tinha parecido que ele pensasse que era estranho eu ir, assim, bater-lhe à porta.
Subi no elevador antigo, sem espelho e botões brancos com os números quase tão translúcidos como o André da minha alucinação.
Cheguei lá acima mais depressa do que esperava, ou desejava.
Mas ele já lá estava, à porta, à minha espera.
No passado, ia àquele prédio todos os dias depois das aulas. Era quase como uma segunda casa. Contudo, após o incidente do pacote de pipocas, nunca mais lá voltara, e só agora me apercebia do quão eu sentia a falta de ali ir. Aquele era um local, que por si só, gritava alegria. Era-me impossível estar ali, sem imaginar os dias em que ali entrara com a mão do Sérgio na minha. Mas era-me também impossível não imaginar o Sérgio a entrar ali de mão dada com a Loira, todos os dias depois das aulas.
A lembrança da cara e cabeleira dela fizeram-me logo desanimar e senti-me, então, esvaziada de pensamentos e explicações. Porque é que eu ali estava? Já nem sabia muito bem.
- Emília, que se passa? Como é que já saíste do hospital? E que roupas são essas?
Afinal, sempre tinha sido ele. Como é que ele me tinha encontrado? Com que forças é que ele me tinha arrancado a um vampiro e me carregara para o hospital mais próximo?
- Ah, foste tu. Muito obrigada, Sérgio. Como é que tu… Me encontraste? – inquiri, trémula, mas simultaneamente agradecida.
- Não sabias, ainda? – agora ele parecia embaraçado.
- Não. A minha mãe… Encontraram a Lilith. Tem sido um dia complicado para todos – expliquei, baralhada e confusa, como se não soubesse por onde começar.
- Encontraram-na? – senti o choque na voz dele, profundo e trágico – E o Artur, encontraram-no?
Isto eliminava as minhas dúvidas acerca do facto de ele me ter arrancado às garras do animal vampírico que me tinha atacado, para grande prazer meu. Tinha-me, então, o Artur abandonado esvaída em sangue antes de ele ter tido oportunidade de fazer o melhor do lanchinho da meia-noite que eu tinha sido para ele? Idiota. Os vampiros são todos os mesmos. Tal como os homens.
- Não, não o encontraram – se ele soubesse.
- Como está a Lilith?
- Muito mal, segundo consta. Perturbada. Ainda não tive oportunidade para a ver. É por isso que preciso da tua ajuda.
- Precisas da minha ajuda para ir ver a Lilith? Mas… Como? Não estás à espera que te leve a algum sítio longínquo, espero. Sabes que ainda não tenho carta e que não sei conduzir.
- Sim, eu sei – ou talvez não soubesse. O que é que eu estava ali a fazer, afinal? – A questão é, eu fugi do hospital.
- Tu fugiste do hospital? – repetiu ele, estupidamente, devo dizer, com o tom mais negativo e mais “Oh meu Deus, esta está completamente louca” possível.
- Sim. Ouve… A minha mãe mandou o meu tio ir ter comigo – não sabia porque raio lhe estava a contar estas coisas, mas alguma coisa tinha de dizer – e o meu tio… Não é a melhor das pessoas. Não agora, pelo menos. Não confio nele.
- Não confias nele? Poças, eu também não confio em toda a gente, e não fujo delas… Achas que o teu tio ia fazer o quê? Matar-te e usar a perda de sangue como desculpa? – Sim, na verdade era mesmo aquilo que eu pensava que podia acontecer. Ou algo pior, como eu tornar-me uma vampira à semelhança do nosso querido conterrâneo, amigo ou o que quer que ele me fosse Artur – Tu fugiste do hospital para fugir ao teu tio? Raios, já percebo onde arranjaste as roupas de circo.
- Eu não podia ficar com ele… Eu sei coisas… Ouve, Sérgio, há coisas que não te posso contar agora, coisas horríveis, sobre o meu tio, que me impedem de poder estar na mesma sala que ele, sozinha, por agora. Tenta compreender…
- Ninguém pode compreender o que não conhece, Emília. – Os olhos dele iluminaram-se e ele virou-se de costas para mim, fingindo prestar atenção a uma laranja de plástica numa taça decorativa - Ontem, por exemplo, vi-te caída no chão. Eu não sabia o que te tinha acontecido. Ainda não sei. Mas foi… - e aqui ele disse uma obscenidade para ilustrar o que sentia – Foi um dos piores momentos da minha vida. Até pior que o dia em que percebi, alguns dias depois de teres acabado comigo por causa da – outra obscenidade – do pacote de pipocas, que de facto não ias voltar atrás na tua decisão, e que não íamos voltar a estar juntos. Por amor de Deus, quem é que acaba com alguém por um pacote de pipocas?
- Eu, aparentemente – respondi, silenciosamente. Doía-me a minha ferida no pescoço, mas só agora me começava a aperceber disso.
- Exacto. Tu. Só tu. E isso não é exactamente uma coisa boa. Como vês, nem isso eu compreendi. E agora esperas que compreenda algo que nem me contas? Admite, Emília, admite que não acabaste comigo pelo pacote de pipocas, mas porque foi a primeira desculpa que arranjaste para me dizeres que já não querias estar comigo nunca mais.
Apesar de todos os acontecimentos aterrorizadores dos últimos tempos, não me parecia que estivesse a ficar menos sensível a outros tipos de dor. E neste momento, doeu-me de novo. Apesar de tudo… Da Lilith, do Artur, das alucinações e do meu tio, o Sérgio ainda tinha a capacidade de me pôr a alma a bailar nos olhos de novo.
Um dia, ela havia de se suicidar toda.
- Nunca foi uma desculpa. Queria sentir-me menos desprezada, porque andar contigo era como andar com ninguém, nalguns dos dias, mas só foi pior. Tudo o que eu queria era que me pedisses desculpa. Em vez disso, ao fim dum mês e meio começaste a andar com aquela Loira que mais parece falsa do que verdadeira… E nunca mais falaste comigo! Nunca mais te lembraste da miúda com quem tinhas gasto uns míseros meses da tua vida.
O Sérgio virou-se. Eu virei-me. Ficámos a olhar um para o outro durante alguns momentos, em silêncio, porque finalmente falávamos, porque finalmente confrontávamos os nossos motivos sem segundas intenções. Toda a ferida rebentava com a sua própria crosta para poder agora cicatrizar sem marcas e sem mais dores.
Ou pelo menos, assim esperava.
- Sabes – foi o que ele disse, ao fim dum bocado – Acabei ontem com a Cátia. Um pouco antes de te encontrar caída e ensanguentada, no chão. Se comecei a andar com ela, foi porque era a melhor forma de esconder que estava, de facto, irritado.
- Ah sim? Isso é muito bonito de se dizer agora, que acabaste com ela. Não o dirias uns meses atrás.
- Dir-to-ia sim, mas tu nunca quiseste saber!
- Achas mesmo que eu não queria saber? Eu só pensava em ti, tipo anormal, Sérgio, Sérgio, Sérgio, a martelar na minha cabeça o dia todo! Não eras capaz de me deixar em paz e de parar de me atormentar?
Nenhum de nós parecia triste agora, apenas zangados. Estávamos muito, muito, zangados um com o outro. Quase que se podiam ver, individualizadas, duas mil faíscas em ambiente aéreo entre nós.
- Achas mesmo que eu não te deixava em paz? Cada vez que te via, só me dava vontade de te agarrar e trazer comigo para casa! E quando não te via, ficava doente, como se não tivesse comido, ou respirado, quanto devia. Aos poucos, parecia que a sensação ficava mais suportável, mas a verdade é que ainda hoje, quando ouvi a tua voz, senti o meu coração começar a dançar kizomba, embora eu sempre o tenha desencorajado a tentar aulas de dança!
Ter-me-ia rido, mas não ri, porque sabia que a Lilith estava mal, internada num Hospital Psiquiátrico longe de mim, e porque o Artur estava morto algures, e porque o Artur, apesar de morto, continuava a ser uma parte indispensável da minha vida, como nenhuma outra, e porque o caminho para onde isto me estava a levar era para bem longe dele e muito mais para próximo do Sérgio. Queria eu mesmo voltar para junto do Sérgio? Queria eu mesmo deixar o Artur por si só e esquecer que ele existira, um dia, e que me amara? Que eu própria o amara? Que sonhara com ele várias noites?
- Sérgio… Eu sei o que estás a tentar fazer. O tempo não vai voltar atrás, sabes? Não vai mesmo.
Se o sorriso fosse algo que se pudesse arrancar duma cara, garanto, era o que eu tinha feito. Ele não estava a sorrir, inicialmente, mas o estado em que ele ficou depois de eu pronunciar estas palavras era semelhante ao estado em que uma paisagem fica, atrás dum vidro em dia de chuva, e em que esta escorre pelo vidro, e em que as imagens se desfazem e escorrem monstruosamente. O Sérgio parecia… Despedaçado.
Genuinamente.
E o mais estranho era, eu também. Porque um pacote de pipocas pode, afinal, ser a causa de muita infelicidade.
- Nem eu queria que voltasse – disse ele, e eu senti-me pisada e esmagada no chão. Muito esmagada. Muito pisada. De seguida, ele perguntou, como quem não tem já nada a perder – O que é que te aconteceu ontem, afinal, para teres ficado naquele rico estado?
Hesitei antes de responder. Pensei em várias respostas. Pensei em várias mentiras. Por fim, encolhi os ombros e disse-lhe:
- O meu namorado mordeu-me. Talvez devêssemos marcar um double date para apresentarmos a tua ex ao meu (acho que também lhe posso chamar assim) ex. Parecem ter muito em comum.
A 2ª Noite
No dia seguinte deixei-me dormir e só acordei com o JP a gritar porque eu estava atrasada. Levantei-me, tentei fazer a minha vida o mais normalmente possível.
Mas nada era natural. Nada era normal.
Como a Lilith continuava desaparecida, sentava-me sozinha nas aulas, excepto a Inglês, disciplina em que me sentava com o André.
Não sabia ainda hoje porque tinha escolhido Inglês. Era uma disciplina que detestava. O André, por seu lado, adorava-a. Apenas a escolha entre Inglês e Química ou Física não era muito complicada. E de qualquer das formas, não há que negar a importância do Inglês.
- Good morning – cumprimentou a stôra. Respondi-lhe com um “bom dia” pouco concentrado. Tinha imensos motivos para me sentir com falta de atenção. Mas claro, ela não sabia. Assim, tentei adoptar um comportamento linguístico activo.
O Sérgio também tinha Inglês. Nem a Loira nem a minha prima aguentavam com aquilo, como é evidente, mas o Sérgio estava ali. Não sabia se isso se devia à devoção à língua ou a devoção ao ócio, uma vez que ele tinha sido sempre muito bom a Inglês e fazia questão de dizer a toda a gente que nunca na vida tinha estudado para tal disciplina.
Sentava-se na fila de trás, na segunda fila a contar da porta. Eu, doutro modo, sentava-me com o André junto à parede. Distância suficiente? Nunca se sabia.
E pensei naquele momento: o Sérgio não estaria ali se lhe tivesse chegado a dar o dito antídoto.
Aquele antídoto que era, afinal, um veneno.
Não sabia se preferia que o acontecimento tivesse sucedido com o Artur, que me beijara, ou com o Sérgio, que não lutara por mim quando eu acabei com ele, dois anos atrás, por um pacote de pipocas.
Porque a verdade, por mais que me custasse, é que continuava a sentir comichões e borboletas nos sítios mais improváveis só de pensar nele. Não podia dizer que fosse o amor da minha vida, nem pouco mais ou menos.
Talvez o Artur fosse o amor da minha vida.
Mas não se podia dizer que ele tinha sido como o Pedro Amora, com quem andara no 7º ano até a minha prima decidir que gostava dele e ele me trocar por ela; ao fim do mês o pobre do rapaz só me dava dores de estômago, só de pensar que tinha gostado tanto dele; também não tinha sido como o David Jerónimo, por quem senti uns devaneios no 9º ano, e com quem sou capaz de ter andado durante duas ou três semanas até ele ter acabado comigo acusando-me de ser demasiado controladora. Eu, controladora, que até passava dias e dias sem lhe telefonar ou mandar mensagens. Mas pouco me importou, porque após a raiva instantânea, nada mais ficara dele. Ambos os dois rapazes eram-me agora tão indiferentes como uma nuvem no meio dum céu tempestuoso. Já não éramos nada uns aos outros, nem nos falávamos, apesar de nos vermos praticamente todos os dias. O próprio David Jerónimo estava sentado duas carteiras atrás de mim, naquele preciso instante, na aula de Inglês, e eu não queria saber dele.
Porque no ano a seguir a andar com ele, tinha conhecido o Sérgio. Fôramos felizes durante, o quê, sete meses? E depois tinha acontecido o incidente do pacote de pipocas. E passámos a evitar-nos com toda a urgência, como se o facto de sequer nos vermos fosse demasiado doloroso para acontecer.
Admito que o momento em que acabei com ele tenha sido um dos maiores erros da minha vida, na verdade, logo a seguir na lista ao acontecimento da noite anterior em que dera o “antídoto” ao Artur.
Mas também era verdade, não me imaginava com o Sérgio para sempre. Não me imaginava a casar, ter os filhos dele. Quem sabe, divorciar-me dele.
Não imaginava o Sérgio fora do contexto que era a minha vida até aquele momento. E sabia que era provável que após sairmos daquela escola nunca mais nos voltássemos a ver ou a falar um com o outro.
Era pena, no entanto, que tivesse terminado assim.
E depois, havia o Artur, que nem sabia que amava até lhe ter descoberto o caminho para os olhos dele e para o seu significado.
Às vezes, obcecamos com paixões platónicas que nunca se consumam, ou obcecamos com uma pessoa ainda antes de a conhecermos, que sonhamos com pessoas que mal vimos, que sonhamos por sonhar, que gostamos porque temos de gostar de alguém para termos com que nos ocupar. Estar apaixonado é bonito, nem que seja só para darmos tinta à nossa vida.
Mas há outras vezes em que estamos tão cegos com o passado que nem nos apercebemos do que temos à nossa frente, até que isso que está à nossa frente nos beije na boca e morra de seguida. Admitam, isto dá um novo significado à expressão “não ver até ser demasiado tarde”. Agora, dava por mim apaixonada por um vampiro que me queria comer viva. Que fazia agora? Temperar-me, literalmente, em condições antes de ir ter com ele de noite?
Porque era o que eu tinha de fazer. Era responsabilidade minha o que lhe acontecera. Agora tinha de verificar que ele não se magoava nem a ele, nem a outros.
Porque aquele era o monstro que me tinha libertado da fascinação, feitiço, até, lançado pelo Sérgio. Não o podia perder. Ainda que o Sérgio fosse mais jeitosinho que o Artur. Sarcasmo.
Suspirei, e tentei concentrar-me na aula. Virei-me para o André e começámos os dois a falar duma nova série na televisão. Era uma série sobre vampiros e lobisomens.
- Lady and gentleman, are you talking about anything related to the class? – perguntou a stôra, e quase que podia jurar que lhe estava a sair um fumo de cor estranha do cabelo. Acontecimento estranho? Fantasmas? Nem por isso, era algo que parecia acontecer todas as aulas.
E o meu tio, teria mentido? Ter-se-ia enganado? Teria sido de propósito? Raios, porque não tinha eu bebido aquela mistela? Ao menos o Artur teria hipóteses de estar bem naquele momento, e não morto, como eu desconfiava que ele estivesse.
E se o meu tio tinha mentido, seria aquilo tudo, de facto, um vírus? Ou seria um veneno dado a determinadas pessoas para que sofressem de alucinações? Esta era a explicação que me parecia mais razoável. Ou existiria mesmo paranormal e tudo aquilo em que acreditara até à data eram nada senão linhas de orientação muito, mas mesmo muito, erradas?
- No, we’re sorry. – respondeu o André. O meu inglês era tão básico que provavelmente nem seria capaz de responder a algo tão simples sem um erro gramatical de alto grau.
Durante o dia não sucedeu nada que merecesse registo. Um observador menos atento até poderia constatar que parecia tudo de volta ao normal. Nenhuma funcionária com nenhuma esfregona em chamas nos corredores, nenhum miúdo a saltar por janelas no telhado, ninguém a morder ninguém… Ou pelo menos na minha presença. Também era possível que se estivessem a guardar para os momentos em que eu virava costas. Ou talvez nem por isso.
Nessa noite, fingi que me fui deitar cedo. Sabia que agora ia ter de sair todas as noites às escondidas, custasse o que custasse. Não podia deixá-lo sozinho, nem que isso comprometesse a minha vida. Afinal de contas, a culpa do que acontecera era minha e das minhas grandes e maravilhosas ideias! Porque é que não fora capaz de apenas tomar aquilo? Porquê?
E na minha cabeça surgiu, nítida, a acusação do Artur antes de morrer: “Mataste-me”. “Mataste-me”. “Mataste-me”. E repetia-se ainda mais. Seria possível que o tivesse feito? Tinha-o morto, assim? Tinha-me ele culpado, naquele instante derradeiro.
Uma palavra destas, uma afirmação assim, pode traumatizar uma pessoa até à morte.
Eu sabia que eu estaria, não fosse o sonho que tive em que ele me falava como me tinha falado antes de lhe dar o maldito antídoto.
Saí sem ninguém dar conta, sem me esquecer das chaves. Corri para o Vendredi e depois para o espaço escuro e isolado para onde o Artur me tinha levado na noite anterior. Por via das dúvidas, tinha trazido um desodorizante (como não tinha spray de pimenta) e um terço da minha mãe. Era provável que ele nem sequer fosse vampiro, mas por via das dúvidas, nunca se sabe. Há que jogar pelo seguro. E eu não ia ajudá-lo de certeza se estivesse caída no chão, morta e lívida e, quem sabe, a cheirar muito mal.
Portanto, mal me aproximei do local, parei de correr e avancei de forma bastante cautelosa. Passo por passo. Expiração, inspiração. Olhos atentos a qualquer movimento sob a lua. O dia estava nublado, logo a luz da lua era mais difusa que normalmente.
Mas todas as minhas preocupações eram em vão. O Artur estava deitado no chão, caído, como se tivesse morrido de novo. Aproximei-me dele, quase com medo que fosse uma armadilha. Trazia o meu desodorizante em posição de ataque.
O peito dele não se movia. Sem largar as precauções, aproximei-me e peguei-lhe no pulso, e percebi que não tinha qualquer movimento sanguíneo.
De súbito, tal como na noite anterior, pareceu ganhar vida, e no preciso instante em que lhe ia largar o pulso, o sangue começou a correr, primeiro muito devagar, e depois mais ritmadamente. Pus-lhe a mão sobre o peito e senti o coração a mover-se. Também o seu peito dava sinais de começar a respirar.
Foi como se me queimasse, num instante. Larguei-o e afastei-me vários passos.
E esperei, com medo, que ele renascesse.
Os olhos dele abriram-se, não tão de súbito como na noite anterior, mas antes como se fosse um garoto algo travesso, a acordar preguiçosamente.
Espreguiçou-se. Fez menção de se levantar. Nesse momento apercebeu-se da minha presença.
- Olá, boneca. Conhecemo-nos?
A abordagem era certamente menos assustadora que a da noite anterior. Contudo, a mesma realidade se voltava a restabelecer. Ele não se lembrava de mim. Outra vez.
Estaria ele destinado a conhecer-me todos os dias da sua vida, e eu a ter de me apresentar todos os dias.
- Conhecemo-nos agora – respondi, guardando para mim os meus medos e desapontamentos. – O meu nome é Emília. O teu?
- Artur – respondeu ele. Depois pareceu confuso por uns instantes, e acrescentou – Embora não tenha a certeza de que me lembre de muito mais.
Ele está com amnésia. É como se vivesse o mesmo dia múltiplas e múltiplas vezes. Ou, pelo menos, era isso que me parecia.
Mas talvez não fosse boa ideia confrontá-lo com isso. O meu objectivo por estar ali era protegê-lo a ele e a outros, não tentar provocá-lo.
- Não te preocupes. Daqui a nada lembras-te. Deves estar de ressaca… - e tentei-me rir descontraidamente.
Ele riu-se comigo, embora ainda muito confuso.
- Ei, queres vir dar uma volta? – perguntei, como quem não se interessa muito.
Ele encolheu os ombros e disse, sem grandes hesitações:
- OK. E se por volta queres dizer… Tu sabes, algo mais… Interessante, por mim tudo bem – piscou-me o olho.
Esta era uma grande diferença em relação ao dia anterior. Era quase como se fosse o verdadeiro Artur que ali estivesse, à minha frente. Não que o verdadeiro Artur tivesse tido muitas oportunidades para namoriscar comigo ou sequer para mandar a mais ligeira das indirectas, mas este Artur era muito mais saudável e muito mais normal que o Artur do dia anterior.
Este Artur fazia-me… Sorrir.
- Não te incomoda fazeres esses comentários a uma rapariga que acabaste de conhecer? – disse, rindo-me, porque me sentia mesmo bem. Muito melhor. Quase nem me lembrava da Lilith e do meu tio e que o Artur que ali estava morria todos os dias.
- Incomodar? Claro que não. Parece-me correcto. Provavelmente vais achar estranho, mas parece-me que te conheço!
Se ele soubesse o quanto esta frase me iluminava de esperança e me fazia esperar que ele voltasse, tal como naqueles curtos instantes – porquê, porque é que fui tão parva e quis fazer a escolha certa? Porquê?!
- Aposto que dizes isso a todas as raparigas… - disse, contrariada.
- Apanhaste-me. A verdade é que sei que nunca te vi, caso contrário jamais me teria esquecido desse ar tão fofo que tu tens…
Não só a minha esperança se esvaiu como água pelos canos, como também comecei a suspeitar que ele estava bêbedo, ou pior. O que tinha acontecido à fome dele? Ele ontem tinha acordado com tanta, tanta fome…
Não sabia como a tinha saciado. Até tinha medo de pensar nisso. E hoje nada mais fazia que elogiar-me e dizer despropósitos. Seria aquilo mesmo uma coisa boa? Não devia fugir? Talvez, mas eu não podia fazê-lo. Tinha vindo ter com ele por um motivo.
Tinha de obedecer às minhas responsabilidades.
- Olha, tens um cigarro? Estou mesmo a precisar dum.
Pelos vistos, os vícios não se anulavam com a morte.
- Não, não tenho nenhum.
E assim, passávamos do momento que ele me oferecia um cigarro num banco de jardim, para o momento em que me pedia um cigarro algures em lado nenhum.
As coisas mudam mesmo muito. Ou talvez não tanto.
- É pena. Não queres ir comprar? Já que estás mesmo numa de dar voltas… - sugeriu ele, agora parecendo aborrecido. Parecia que era o pior que lhe podia acontecer, estar ali só a andar. Parecia ficar irritado, lentamente. Como se um stress enervante o comesse de dentro para fora. Aquiesci.
- Sim, vamos então. Mas sabes que no instante em que meteres um na boca, perdes todas as hipóteses de te divertires comigo. Não suporto tabaco – adverti-o. Ele não parecia chateado. Antes pelo contrário, riu-se, como se tivesse contado uma piada espectacular.
- Temos mais dias para isso, então. Temos muito tempo para passar à próxima fase, boneca – Se ele soubesse, não conseguia evitar pensar - Mas se insistes mesmo…
E assim, ali mesmo, agarrou-me. Beijou-me, ainda com mais vontade com que o tinha feito anteriormente. Tal como se, no fundo, soubesse a verdade. Tal como se, na verdade, ele soubesse que daí a horas já não ali estaria.
Apesar de ser errado, apesar de saber que isto talvez só lhe pudesse estimular o apetite, e apesar de saber que ele tinha morrido, e que ia morrer de novo dentro de algumas horas, não quis saber de nada. Beijei-o de volta.
Talvez não interessasse quem nascia ou morria. Talvez apenas interesse que estejamos vivos. Respirei-o para os meus pulmões e enregelei-me por dentro, senti o peito estalar como se o frio queimasse. E nem quis saber.
Era Novembro, estava um gelo de morte, e não queria saber. Se piorasse, antes melhor. Porque eu estava perdida para o mundo nos braços de um vampiro, ou o que quer que fosse que o Artur fosse. Já nada me surpreendia na terra debaixo do sol, debaixo da lua. A minha vida era naquele instante um filme de terror, estava certo, que interessava que os canibais se erguessem das sepulturas, que interessava que as casas ardessem e se desfizessem em cinzas e que as pessoas fugissem, cheias de medo?
A minha vida parecia quase perfeita, debaixo da lua desbotada, a grande nódoa que vira no dia em que telefonara à Lilith, pensando em contar-lhe acerca do que pensava. Não lhe tinha contado nada, mas que mais interessava agora? Ela tinha desaparecido. Não tinha forma de saber o que lhe acontecera porque a única pessoa que me podia ajudar tinha morrido e se tinha tornado em sabe Deus o quê, pela minha própria mão.
Portanto, que mais interessava? Deixai a vida ser complicada. Não há mágoa que não venha sem a chamarmos. Esperemos, então, por ela, e gozemos a vida, debaixo da lua, como pudermos.
O único motivo pelo qual as pessoas não são felizes é porque elas não querem ser felizes, as pessoas não querem estar livres de problemas. Para se ser feliz, é preciso ter-se um objectivo, e ser-se corajoso o suficiente para lutar por ele. Ninguém quer ser feliz, porque para eles, ser feliz é atingir os objectivos e não ter problemas. Eu sempre fui assim, mas naquele momento, no meio de nada, com o Artur, o homem morto, eu percebi, que não interessava o que fizesse, a vida ia continuar a doer. E ainda bem que doía, ou momentos como aquele não teriam qualquer tipo de significado.
Recusava-me a deixar as pegadas que tínhamos traçado antes interporem-se entre nós e a felicidade. Talvez ele fosse assim todas as noites. Talvez pudéssemos ser felizes juntos, para sempre. Talvez eu conseguisse obter do meu tio o que quer que fosse que ele me tinha dado para o Artur e me pudesse tornar no que quer que fosse que ele fosse. Não podia ser assim tão mau… Ele parecia feliz. Parecia saudável… Ele parecia… Alguém capaz de ser, sem se magoar e sem doer. Ele parecia… Feliz. Ignorante, mas ainda assim, feliz.
Era nisto que pensava quando a boca dele desceu da minha, dando pequenos e gentis beijos em todo o meu queixo até chegar ao meu pescoço. Ainda aqui, ele me dava beijos e eu sorria. Sentia-me feliz, também. Esquecia-me de tudo o que era mau. Senti-me tão… Vulnerável e inocente, naquele momento.
No momento seguinte, doeu. Senti os caninos dele cravarem-se como agulhas finas na minha pele tenra e doeu. Mal senti o calor do sangue a escorrer pela minha pele, pelas roupas… Senti-o sugar, senti-o alimentar-se de mim.
O pior de tudo? Apesar da dor, apesar da mágoa, adorei que ele se alimentasse de mim. Isso mesmo, adorar é a palavra. Não conseguia dizer-lhe para parar, não conseguia fugir dali, porque sentia os meus olhos rebolarem sobre eles mesmos e eu estava a adorar aquilo. Pensei que podia ficar assim para sempre, com o Artur a alimentar-se de mim, o Artur ali, colado a mim, com as mãos firmes cravadas na minha cintura. Também eu me agarrava a ele, como se ele fosse o centro da Terra e eu a gravidade. E quanto mais ele bebia, com mais força me segurava. E mais feliz eu me sentia, menos doía, de certa forma. E eu sentia-me incapaz de dizer palavra ou de mover um milímetro que fosse. A certa altura, perdi a força nos braços e larguei-o, ficando os meus braços a pender. Contudo, ele não me deixou cair, mesmo quando senti os meus tornozelos a vaguear algures, caídos. Aos poucos, a cor da noite era tudo o que via e a lua era cada vez menos nítida, como uma nódoa a ser terrivelmente esfregada, sem misericórdia, sem piedade.
Nos filmes, quando um vampiro suga o sangue de alguém, é extremamente rápido. Na vida real, não é assim. É longo, é doloroso, mas também extremamente maravilhoso. Lembro-me de pensar que aquilo era… A melhor sensação da minha vida. Claro que eu não tinha ainda grande experiência romântica, mas parecia-me impossível algo melhor que aquilo.
Lembro-me também de pensar, no meu último momento de consciência:
“Vou morrer”.
E desmaiei a sorrir com o estranho sabor a erotismo presente naquele último pensamento, naquele último momento.
Mas nada era natural. Nada era normal.
Como a Lilith continuava desaparecida, sentava-me sozinha nas aulas, excepto a Inglês, disciplina em que me sentava com o André.
Não sabia ainda hoje porque tinha escolhido Inglês. Era uma disciplina que detestava. O André, por seu lado, adorava-a. Apenas a escolha entre Inglês e Química ou Física não era muito complicada. E de qualquer das formas, não há que negar a importância do Inglês.
- Good morning – cumprimentou a stôra. Respondi-lhe com um “bom dia” pouco concentrado. Tinha imensos motivos para me sentir com falta de atenção. Mas claro, ela não sabia. Assim, tentei adoptar um comportamento linguístico activo.
O Sérgio também tinha Inglês. Nem a Loira nem a minha prima aguentavam com aquilo, como é evidente, mas o Sérgio estava ali. Não sabia se isso se devia à devoção à língua ou a devoção ao ócio, uma vez que ele tinha sido sempre muito bom a Inglês e fazia questão de dizer a toda a gente que nunca na vida tinha estudado para tal disciplina.
Sentava-se na fila de trás, na segunda fila a contar da porta. Eu, doutro modo, sentava-me com o André junto à parede. Distância suficiente? Nunca se sabia.
E pensei naquele momento: o Sérgio não estaria ali se lhe tivesse chegado a dar o dito antídoto.
Aquele antídoto que era, afinal, um veneno.
Não sabia se preferia que o acontecimento tivesse sucedido com o Artur, que me beijara, ou com o Sérgio, que não lutara por mim quando eu acabei com ele, dois anos atrás, por um pacote de pipocas.
Porque a verdade, por mais que me custasse, é que continuava a sentir comichões e borboletas nos sítios mais improváveis só de pensar nele. Não podia dizer que fosse o amor da minha vida, nem pouco mais ou menos.
Talvez o Artur fosse o amor da minha vida.
Mas não se podia dizer que ele tinha sido como o Pedro Amora, com quem andara no 7º ano até a minha prima decidir que gostava dele e ele me trocar por ela; ao fim do mês o pobre do rapaz só me dava dores de estômago, só de pensar que tinha gostado tanto dele; também não tinha sido como o David Jerónimo, por quem senti uns devaneios no 9º ano, e com quem sou capaz de ter andado durante duas ou três semanas até ele ter acabado comigo acusando-me de ser demasiado controladora. Eu, controladora, que até passava dias e dias sem lhe telefonar ou mandar mensagens. Mas pouco me importou, porque após a raiva instantânea, nada mais ficara dele. Ambos os dois rapazes eram-me agora tão indiferentes como uma nuvem no meio dum céu tempestuoso. Já não éramos nada uns aos outros, nem nos falávamos, apesar de nos vermos praticamente todos os dias. O próprio David Jerónimo estava sentado duas carteiras atrás de mim, naquele preciso instante, na aula de Inglês, e eu não queria saber dele.
Porque no ano a seguir a andar com ele, tinha conhecido o Sérgio. Fôramos felizes durante, o quê, sete meses? E depois tinha acontecido o incidente do pacote de pipocas. E passámos a evitar-nos com toda a urgência, como se o facto de sequer nos vermos fosse demasiado doloroso para acontecer.
Admito que o momento em que acabei com ele tenha sido um dos maiores erros da minha vida, na verdade, logo a seguir na lista ao acontecimento da noite anterior em que dera o “antídoto” ao Artur.
Mas também era verdade, não me imaginava com o Sérgio para sempre. Não me imaginava a casar, ter os filhos dele. Quem sabe, divorciar-me dele.
Não imaginava o Sérgio fora do contexto que era a minha vida até aquele momento. E sabia que era provável que após sairmos daquela escola nunca mais nos voltássemos a ver ou a falar um com o outro.
Era pena, no entanto, que tivesse terminado assim.
E depois, havia o Artur, que nem sabia que amava até lhe ter descoberto o caminho para os olhos dele e para o seu significado.
Às vezes, obcecamos com paixões platónicas que nunca se consumam, ou obcecamos com uma pessoa ainda antes de a conhecermos, que sonhamos com pessoas que mal vimos, que sonhamos por sonhar, que gostamos porque temos de gostar de alguém para termos com que nos ocupar. Estar apaixonado é bonito, nem que seja só para darmos tinta à nossa vida.
Mas há outras vezes em que estamos tão cegos com o passado que nem nos apercebemos do que temos à nossa frente, até que isso que está à nossa frente nos beije na boca e morra de seguida. Admitam, isto dá um novo significado à expressão “não ver até ser demasiado tarde”. Agora, dava por mim apaixonada por um vampiro que me queria comer viva. Que fazia agora? Temperar-me, literalmente, em condições antes de ir ter com ele de noite?
Porque era o que eu tinha de fazer. Era responsabilidade minha o que lhe acontecera. Agora tinha de verificar que ele não se magoava nem a ele, nem a outros.
Porque aquele era o monstro que me tinha libertado da fascinação, feitiço, até, lançado pelo Sérgio. Não o podia perder. Ainda que o Sérgio fosse mais jeitosinho que o Artur. Sarcasmo.
Suspirei, e tentei concentrar-me na aula. Virei-me para o André e começámos os dois a falar duma nova série na televisão. Era uma série sobre vampiros e lobisomens.
- Lady and gentleman, are you talking about anything related to the class? – perguntou a stôra, e quase que podia jurar que lhe estava a sair um fumo de cor estranha do cabelo. Acontecimento estranho? Fantasmas? Nem por isso, era algo que parecia acontecer todas as aulas.
E o meu tio, teria mentido? Ter-se-ia enganado? Teria sido de propósito? Raios, porque não tinha eu bebido aquela mistela? Ao menos o Artur teria hipóteses de estar bem naquele momento, e não morto, como eu desconfiava que ele estivesse.
E se o meu tio tinha mentido, seria aquilo tudo, de facto, um vírus? Ou seria um veneno dado a determinadas pessoas para que sofressem de alucinações? Esta era a explicação que me parecia mais razoável. Ou existiria mesmo paranormal e tudo aquilo em que acreditara até à data eram nada senão linhas de orientação muito, mas mesmo muito, erradas?
- No, we’re sorry. – respondeu o André. O meu inglês era tão básico que provavelmente nem seria capaz de responder a algo tão simples sem um erro gramatical de alto grau.
Durante o dia não sucedeu nada que merecesse registo. Um observador menos atento até poderia constatar que parecia tudo de volta ao normal. Nenhuma funcionária com nenhuma esfregona em chamas nos corredores, nenhum miúdo a saltar por janelas no telhado, ninguém a morder ninguém… Ou pelo menos na minha presença. Também era possível que se estivessem a guardar para os momentos em que eu virava costas. Ou talvez nem por isso.
Nessa noite, fingi que me fui deitar cedo. Sabia que agora ia ter de sair todas as noites às escondidas, custasse o que custasse. Não podia deixá-lo sozinho, nem que isso comprometesse a minha vida. Afinal de contas, a culpa do que acontecera era minha e das minhas grandes e maravilhosas ideias! Porque é que não fora capaz de apenas tomar aquilo? Porquê?
E na minha cabeça surgiu, nítida, a acusação do Artur antes de morrer: “Mataste-me”. “Mataste-me”. “Mataste-me”. E repetia-se ainda mais. Seria possível que o tivesse feito? Tinha-o morto, assim? Tinha-me ele culpado, naquele instante derradeiro.
Uma palavra destas, uma afirmação assim, pode traumatizar uma pessoa até à morte.
Eu sabia que eu estaria, não fosse o sonho que tive em que ele me falava como me tinha falado antes de lhe dar o maldito antídoto.
Saí sem ninguém dar conta, sem me esquecer das chaves. Corri para o Vendredi e depois para o espaço escuro e isolado para onde o Artur me tinha levado na noite anterior. Por via das dúvidas, tinha trazido um desodorizante (como não tinha spray de pimenta) e um terço da minha mãe. Era provável que ele nem sequer fosse vampiro, mas por via das dúvidas, nunca se sabe. Há que jogar pelo seguro. E eu não ia ajudá-lo de certeza se estivesse caída no chão, morta e lívida e, quem sabe, a cheirar muito mal.
Portanto, mal me aproximei do local, parei de correr e avancei de forma bastante cautelosa. Passo por passo. Expiração, inspiração. Olhos atentos a qualquer movimento sob a lua. O dia estava nublado, logo a luz da lua era mais difusa que normalmente.
Mas todas as minhas preocupações eram em vão. O Artur estava deitado no chão, caído, como se tivesse morrido de novo. Aproximei-me dele, quase com medo que fosse uma armadilha. Trazia o meu desodorizante em posição de ataque.
O peito dele não se movia. Sem largar as precauções, aproximei-me e peguei-lhe no pulso, e percebi que não tinha qualquer movimento sanguíneo.
De súbito, tal como na noite anterior, pareceu ganhar vida, e no preciso instante em que lhe ia largar o pulso, o sangue começou a correr, primeiro muito devagar, e depois mais ritmadamente. Pus-lhe a mão sobre o peito e senti o coração a mover-se. Também o seu peito dava sinais de começar a respirar.
Foi como se me queimasse, num instante. Larguei-o e afastei-me vários passos.
E esperei, com medo, que ele renascesse.
Os olhos dele abriram-se, não tão de súbito como na noite anterior, mas antes como se fosse um garoto algo travesso, a acordar preguiçosamente.
Espreguiçou-se. Fez menção de se levantar. Nesse momento apercebeu-se da minha presença.
- Olá, boneca. Conhecemo-nos?
A abordagem era certamente menos assustadora que a da noite anterior. Contudo, a mesma realidade se voltava a restabelecer. Ele não se lembrava de mim. Outra vez.
Estaria ele destinado a conhecer-me todos os dias da sua vida, e eu a ter de me apresentar todos os dias.
- Conhecemo-nos agora – respondi, guardando para mim os meus medos e desapontamentos. – O meu nome é Emília. O teu?
- Artur – respondeu ele. Depois pareceu confuso por uns instantes, e acrescentou – Embora não tenha a certeza de que me lembre de muito mais.
Ele está com amnésia. É como se vivesse o mesmo dia múltiplas e múltiplas vezes. Ou, pelo menos, era isso que me parecia.
Mas talvez não fosse boa ideia confrontá-lo com isso. O meu objectivo por estar ali era protegê-lo a ele e a outros, não tentar provocá-lo.
- Não te preocupes. Daqui a nada lembras-te. Deves estar de ressaca… - e tentei-me rir descontraidamente.
Ele riu-se comigo, embora ainda muito confuso.
- Ei, queres vir dar uma volta? – perguntei, como quem não se interessa muito.
Ele encolheu os ombros e disse, sem grandes hesitações:
- OK. E se por volta queres dizer… Tu sabes, algo mais… Interessante, por mim tudo bem – piscou-me o olho.
Esta era uma grande diferença em relação ao dia anterior. Era quase como se fosse o verdadeiro Artur que ali estivesse, à minha frente. Não que o verdadeiro Artur tivesse tido muitas oportunidades para namoriscar comigo ou sequer para mandar a mais ligeira das indirectas, mas este Artur era muito mais saudável e muito mais normal que o Artur do dia anterior.
Este Artur fazia-me… Sorrir.
- Não te incomoda fazeres esses comentários a uma rapariga que acabaste de conhecer? – disse, rindo-me, porque me sentia mesmo bem. Muito melhor. Quase nem me lembrava da Lilith e do meu tio e que o Artur que ali estava morria todos os dias.
- Incomodar? Claro que não. Parece-me correcto. Provavelmente vais achar estranho, mas parece-me que te conheço!
Se ele soubesse o quanto esta frase me iluminava de esperança e me fazia esperar que ele voltasse, tal como naqueles curtos instantes – porquê, porque é que fui tão parva e quis fazer a escolha certa? Porquê?!
- Aposto que dizes isso a todas as raparigas… - disse, contrariada.
- Apanhaste-me. A verdade é que sei que nunca te vi, caso contrário jamais me teria esquecido desse ar tão fofo que tu tens…
Não só a minha esperança se esvaiu como água pelos canos, como também comecei a suspeitar que ele estava bêbedo, ou pior. O que tinha acontecido à fome dele? Ele ontem tinha acordado com tanta, tanta fome…
Não sabia como a tinha saciado. Até tinha medo de pensar nisso. E hoje nada mais fazia que elogiar-me e dizer despropósitos. Seria aquilo mesmo uma coisa boa? Não devia fugir? Talvez, mas eu não podia fazê-lo. Tinha vindo ter com ele por um motivo.
Tinha de obedecer às minhas responsabilidades.
- Olha, tens um cigarro? Estou mesmo a precisar dum.
Pelos vistos, os vícios não se anulavam com a morte.
- Não, não tenho nenhum.
E assim, passávamos do momento que ele me oferecia um cigarro num banco de jardim, para o momento em que me pedia um cigarro algures em lado nenhum.
As coisas mudam mesmo muito. Ou talvez não tanto.
- É pena. Não queres ir comprar? Já que estás mesmo numa de dar voltas… - sugeriu ele, agora parecendo aborrecido. Parecia que era o pior que lhe podia acontecer, estar ali só a andar. Parecia ficar irritado, lentamente. Como se um stress enervante o comesse de dentro para fora. Aquiesci.
- Sim, vamos então. Mas sabes que no instante em que meteres um na boca, perdes todas as hipóteses de te divertires comigo. Não suporto tabaco – adverti-o. Ele não parecia chateado. Antes pelo contrário, riu-se, como se tivesse contado uma piada espectacular.
- Temos mais dias para isso, então. Temos muito tempo para passar à próxima fase, boneca – Se ele soubesse, não conseguia evitar pensar - Mas se insistes mesmo…
E assim, ali mesmo, agarrou-me. Beijou-me, ainda com mais vontade com que o tinha feito anteriormente. Tal como se, no fundo, soubesse a verdade. Tal como se, na verdade, ele soubesse que daí a horas já não ali estaria.
Apesar de ser errado, apesar de saber que isto talvez só lhe pudesse estimular o apetite, e apesar de saber que ele tinha morrido, e que ia morrer de novo dentro de algumas horas, não quis saber de nada. Beijei-o de volta.
Talvez não interessasse quem nascia ou morria. Talvez apenas interesse que estejamos vivos. Respirei-o para os meus pulmões e enregelei-me por dentro, senti o peito estalar como se o frio queimasse. E nem quis saber.
Era Novembro, estava um gelo de morte, e não queria saber. Se piorasse, antes melhor. Porque eu estava perdida para o mundo nos braços de um vampiro, ou o que quer que fosse que o Artur fosse. Já nada me surpreendia na terra debaixo do sol, debaixo da lua. A minha vida era naquele instante um filme de terror, estava certo, que interessava que os canibais se erguessem das sepulturas, que interessava que as casas ardessem e se desfizessem em cinzas e que as pessoas fugissem, cheias de medo?
A minha vida parecia quase perfeita, debaixo da lua desbotada, a grande nódoa que vira no dia em que telefonara à Lilith, pensando em contar-lhe acerca do que pensava. Não lhe tinha contado nada, mas que mais interessava agora? Ela tinha desaparecido. Não tinha forma de saber o que lhe acontecera porque a única pessoa que me podia ajudar tinha morrido e se tinha tornado em sabe Deus o quê, pela minha própria mão.
Portanto, que mais interessava? Deixai a vida ser complicada. Não há mágoa que não venha sem a chamarmos. Esperemos, então, por ela, e gozemos a vida, debaixo da lua, como pudermos.
O único motivo pelo qual as pessoas não são felizes é porque elas não querem ser felizes, as pessoas não querem estar livres de problemas. Para se ser feliz, é preciso ter-se um objectivo, e ser-se corajoso o suficiente para lutar por ele. Ninguém quer ser feliz, porque para eles, ser feliz é atingir os objectivos e não ter problemas. Eu sempre fui assim, mas naquele momento, no meio de nada, com o Artur, o homem morto, eu percebi, que não interessava o que fizesse, a vida ia continuar a doer. E ainda bem que doía, ou momentos como aquele não teriam qualquer tipo de significado.
Recusava-me a deixar as pegadas que tínhamos traçado antes interporem-se entre nós e a felicidade. Talvez ele fosse assim todas as noites. Talvez pudéssemos ser felizes juntos, para sempre. Talvez eu conseguisse obter do meu tio o que quer que fosse que ele me tinha dado para o Artur e me pudesse tornar no que quer que fosse que ele fosse. Não podia ser assim tão mau… Ele parecia feliz. Parecia saudável… Ele parecia… Alguém capaz de ser, sem se magoar e sem doer. Ele parecia… Feliz. Ignorante, mas ainda assim, feliz.
Era nisto que pensava quando a boca dele desceu da minha, dando pequenos e gentis beijos em todo o meu queixo até chegar ao meu pescoço. Ainda aqui, ele me dava beijos e eu sorria. Sentia-me feliz, também. Esquecia-me de tudo o que era mau. Senti-me tão… Vulnerável e inocente, naquele momento.
No momento seguinte, doeu. Senti os caninos dele cravarem-se como agulhas finas na minha pele tenra e doeu. Mal senti o calor do sangue a escorrer pela minha pele, pelas roupas… Senti-o sugar, senti-o alimentar-se de mim.
O pior de tudo? Apesar da dor, apesar da mágoa, adorei que ele se alimentasse de mim. Isso mesmo, adorar é a palavra. Não conseguia dizer-lhe para parar, não conseguia fugir dali, porque sentia os meus olhos rebolarem sobre eles mesmos e eu estava a adorar aquilo. Pensei que podia ficar assim para sempre, com o Artur a alimentar-se de mim, o Artur ali, colado a mim, com as mãos firmes cravadas na minha cintura. Também eu me agarrava a ele, como se ele fosse o centro da Terra e eu a gravidade. E quanto mais ele bebia, com mais força me segurava. E mais feliz eu me sentia, menos doía, de certa forma. E eu sentia-me incapaz de dizer palavra ou de mover um milímetro que fosse. A certa altura, perdi a força nos braços e larguei-o, ficando os meus braços a pender. Contudo, ele não me deixou cair, mesmo quando senti os meus tornozelos a vaguear algures, caídos. Aos poucos, a cor da noite era tudo o que via e a lua era cada vez menos nítida, como uma nódoa a ser terrivelmente esfregada, sem misericórdia, sem piedade.
Nos filmes, quando um vampiro suga o sangue de alguém, é extremamente rápido. Na vida real, não é assim. É longo, é doloroso, mas também extremamente maravilhoso. Lembro-me de pensar que aquilo era… A melhor sensação da minha vida. Claro que eu não tinha ainda grande experiência romântica, mas parecia-me impossível algo melhor que aquilo.
Lembro-me também de pensar, no meu último momento de consciência:
“Vou morrer”.
E desmaiei a sorrir com o estranho sabor a erotismo presente naquele último pensamento, naquele último momento.
A 1ª Noite
Por alguns momentos, fiquei ali, estática, como se pudesse fazer rewind ao que acabara de ver e nada tivesse acontecido.
Depois, recuperei o controlo do meu corpo e da minha mente e gritei… Muito alto, mais alto até do que na quarta-feira durante o teste de Matemática. Gritei tanto que o meu grito ecoou por toda a paisagem deserta e escura. Gritei até que a minha garganta doía tanto que já nem era capaz de gritar mais. E ainda assim, gritava. Apenas não saía qualquer som.
Ajoelhei-me ao pé do Artur. Tinha-o detestado por tanto tempo… Nunca imaginara que, na verdade, tinha sentimentos por ele. Não sabia que ele sofria.
E agora tinha morrido. Por minha culpa. Puxei-o para o colo e beijei-lhe os lábios. Não sei quanto tempo estive assim, com ele. Podiam ter passado horas, mas suponho que nem uma única tenha passado.
Porque no momento seguinte, senti-o começar a respirar de novo contra a minha face. Senti o coração alegrar-se e aliviar-se dum fardo tamanho. Tinha pensado coisas do meu tio… Tantas coisas más… Mas de facto ele tinha referido dormência. Esquecera-se de falar da aparência morta.
Mas nada disso interessava, porque o Artur estava a ressuscitar. Ou antes, a acordar, porque ele nunca estivera morto de verdade.
Ele abriu os olhos escuros.
Mas eles não tinham expressão. Tal como durante todos aqueles dias em que fora indelicado comigo.
- Mas quem raio és tu? – foram as palavras que me disse, ainda deitado no meu colo.
Esta pergunta gelou-me de alto a baixo e baixo acima dez vezes antes de poder responder devidamente, ainda com a voz trémula de tanto gritar:
- A Emília, não te lembras de mim?
- Emília? Não. Porquê? Devia?
E após estas palavras, levantou-se, como que furioso, como se tivesse acordado em brasa, e sacudiu as roupas, impaciente.
- Não me lembro de como vim aqui parar.
- Não te lembras? Não te lembras como? – perguntei. Não estava a gostar nada daquilo. Deus sabe o que teria acontecido comigo se tivesse bebido aquilo, ou ao Sérgio. O meu tio ia ter tanto que explicar da próxima vez que o visse… Mas estava com um pressentimento tão terrível, que começava a desconfiar de que alguma vez o voltasse a ver, a ele ou a qualquer pessoa.
- Não me lembro. Mas olha para isto, como eu me sinto! Parece que nasci outra vez! – dizia isto com um entusiasmo que me assustava. Quem quer que fosse aquela personagem, não era o Artur consciente que eu vira há apenas minutos (ou horas?) atrás. E aquele Artur estava a deixar-me quase tão aterrorizada quanto o antídoto tinha deixado o Artur inicial. Mas eu estava-me a esforçar para esconder os meus receios. Porque pressentia que desse fingimento dependia a minha vida.
- E como qualquer recém-nascido, adivinha só, estou a morrer de fome!
Este foi o instante em que comecei a correr pela minha vida. Se o Artur me ia comer viva não era exactamente algo que ia tentar descobrir.
Uma coisa boa era que, tivesse-se o Artur transformado em o que quer que fosse, corria ao mesmo ritmo que de costume. Corria atrás de mim, tão rápido quanto um rapaz da altura dele pode correr.
Mas eu era boa a correr. Há coisas a que sou muito má. Tal como por exemplo, falar em inglês ou resolver equações de Física. Mas depois, há outras que faço muito bem. Desenhar plantas e correr são duas das minhas aptidões.
Assim, corri o mais que pude. A vida era um incentivo mais que suficiente.
Nem sei como corri tanto, mas num minuto estava de volta ao Vendredi e o Artur não estava por perto.
Parecia que tinha desaparecido outra vez.
E eu não tinha conseguido arrancar dele as respostas todas que tinha querido. Ao invés, podia-se dizer que tinha:
a) Descoberto que gostava imenso dele;
b) Descoberto que ele também gostava de mim;
c) Visto o Artur morrer;
d) Visto o Artur renascer e tornar-se um vampiro.
Ponto global da situação? Não muito bom.
Escondi-me na casa de banho e telefonei ao JP para me vir buscar. Não queria ir sozinha para casa, e parecia-me que o Artur estava bastante motivado para me comer pela ceia. Não expliquei ao JP o que acontecera. Pedi-lhe para trazer a mota.
Ele cumpriu. Ninguém nos perseguiu. Quando chegámos a casa, exigiu uma explicação. Menti-lhe, dizendo que tinha começado a pensar no que acontecera à Lilith e ficara com medo de andar sozinha. Ele pareceu ficar convencido. Deitei-me, mas não dormi. No dia seguinte havia aulas. Não sabia como as ia aguentar. Afinal de contas, agora sabia muito mais, e de alguma forma, sabia também muito menos.
Penso que peguei no sono várias vezes durante essa noite. Sonhei que o Artur me dava beijos de boa noite. Sonhei que o meu tio Júpiter era um grande rinoceronte disfarçado todos estes anos. E sonhei também que o Artur falava comigo, dizendo-me:
- Emília, acredita no que quiseres, mas eu amo-te. Apesar de tudo o que possa acontecer, de tudo o que aquela besta com o meu corpo possa querer fazer de ti, a verdade é que te amo e que houve tempo na minha vida para me aperceber disso. Esses últimos instantes contigo, de certa forma, salvaram-me a existência. Tu foste a minha vida, por uns segundos.
E eu respondia-lhe coisas bonitas. Dizia-lhe muitas coisas bonitas. Dizia-lhe para não se preocupar, que também o amava e que o ia trazer de volta. Mas ele não as aceitava e respondia-me:
- Não, Emília, não me podes salvar. Estou destinado a morrer todos os nasceres do sol e a nascer de novo ao pôr-do-sol. É como vai ser. Não lutes contra isso. Impede-me apenas de te magoar a ti e aos teus. Desculpa não te ter dito tudo o que querias saber. Não houve tempo.
E esse sonho pareceu-me, por momentos, um corolário sangrento que se viria a repetir muitas noites depois.
Depois, recuperei o controlo do meu corpo e da minha mente e gritei… Muito alto, mais alto até do que na quarta-feira durante o teste de Matemática. Gritei tanto que o meu grito ecoou por toda a paisagem deserta e escura. Gritei até que a minha garganta doía tanto que já nem era capaz de gritar mais. E ainda assim, gritava. Apenas não saía qualquer som.
Ajoelhei-me ao pé do Artur. Tinha-o detestado por tanto tempo… Nunca imaginara que, na verdade, tinha sentimentos por ele. Não sabia que ele sofria.
E agora tinha morrido. Por minha culpa. Puxei-o para o colo e beijei-lhe os lábios. Não sei quanto tempo estive assim, com ele. Podiam ter passado horas, mas suponho que nem uma única tenha passado.
Porque no momento seguinte, senti-o começar a respirar de novo contra a minha face. Senti o coração alegrar-se e aliviar-se dum fardo tamanho. Tinha pensado coisas do meu tio… Tantas coisas más… Mas de facto ele tinha referido dormência. Esquecera-se de falar da aparência morta.
Mas nada disso interessava, porque o Artur estava a ressuscitar. Ou antes, a acordar, porque ele nunca estivera morto de verdade.
Ele abriu os olhos escuros.
Mas eles não tinham expressão. Tal como durante todos aqueles dias em que fora indelicado comigo.
- Mas quem raio és tu? – foram as palavras que me disse, ainda deitado no meu colo.
Esta pergunta gelou-me de alto a baixo e baixo acima dez vezes antes de poder responder devidamente, ainda com a voz trémula de tanto gritar:
- A Emília, não te lembras de mim?
- Emília? Não. Porquê? Devia?
E após estas palavras, levantou-se, como que furioso, como se tivesse acordado em brasa, e sacudiu as roupas, impaciente.
- Não me lembro de como vim aqui parar.
- Não te lembras? Não te lembras como? – perguntei. Não estava a gostar nada daquilo. Deus sabe o que teria acontecido comigo se tivesse bebido aquilo, ou ao Sérgio. O meu tio ia ter tanto que explicar da próxima vez que o visse… Mas estava com um pressentimento tão terrível, que começava a desconfiar de que alguma vez o voltasse a ver, a ele ou a qualquer pessoa.
- Não me lembro. Mas olha para isto, como eu me sinto! Parece que nasci outra vez! – dizia isto com um entusiasmo que me assustava. Quem quer que fosse aquela personagem, não era o Artur consciente que eu vira há apenas minutos (ou horas?) atrás. E aquele Artur estava a deixar-me quase tão aterrorizada quanto o antídoto tinha deixado o Artur inicial. Mas eu estava-me a esforçar para esconder os meus receios. Porque pressentia que desse fingimento dependia a minha vida.
- E como qualquer recém-nascido, adivinha só, estou a morrer de fome!
Este foi o instante em que comecei a correr pela minha vida. Se o Artur me ia comer viva não era exactamente algo que ia tentar descobrir.
Uma coisa boa era que, tivesse-se o Artur transformado em o que quer que fosse, corria ao mesmo ritmo que de costume. Corria atrás de mim, tão rápido quanto um rapaz da altura dele pode correr.
Mas eu era boa a correr. Há coisas a que sou muito má. Tal como por exemplo, falar em inglês ou resolver equações de Física. Mas depois, há outras que faço muito bem. Desenhar plantas e correr são duas das minhas aptidões.
Assim, corri o mais que pude. A vida era um incentivo mais que suficiente.
Nem sei como corri tanto, mas num minuto estava de volta ao Vendredi e o Artur não estava por perto.
Parecia que tinha desaparecido outra vez.
E eu não tinha conseguido arrancar dele as respostas todas que tinha querido. Ao invés, podia-se dizer que tinha:
a) Descoberto que gostava imenso dele;
b) Descoberto que ele também gostava de mim;
c) Visto o Artur morrer;
d) Visto o Artur renascer e tornar-se um vampiro.
Ponto global da situação? Não muito bom.
Escondi-me na casa de banho e telefonei ao JP para me vir buscar. Não queria ir sozinha para casa, e parecia-me que o Artur estava bastante motivado para me comer pela ceia. Não expliquei ao JP o que acontecera. Pedi-lhe para trazer a mota.
Ele cumpriu. Ninguém nos perseguiu. Quando chegámos a casa, exigiu uma explicação. Menti-lhe, dizendo que tinha começado a pensar no que acontecera à Lilith e ficara com medo de andar sozinha. Ele pareceu ficar convencido. Deitei-me, mas não dormi. No dia seguinte havia aulas. Não sabia como as ia aguentar. Afinal de contas, agora sabia muito mais, e de alguma forma, sabia também muito menos.
Penso que peguei no sono várias vezes durante essa noite. Sonhei que o Artur me dava beijos de boa noite. Sonhei que o meu tio Júpiter era um grande rinoceronte disfarçado todos estes anos. E sonhei também que o Artur falava comigo, dizendo-me:
- Emília, acredita no que quiseres, mas eu amo-te. Apesar de tudo o que possa acontecer, de tudo o que aquela besta com o meu corpo possa querer fazer de ti, a verdade é que te amo e que houve tempo na minha vida para me aperceber disso. Esses últimos instantes contigo, de certa forma, salvaram-me a existência. Tu foste a minha vida, por uns segundos.
E eu respondia-lhe coisas bonitas. Dizia-lhe muitas coisas bonitas. Dizia-lhe para não se preocupar, que também o amava e que o ia trazer de volta. Mas ele não as aceitava e respondia-me:
- Não, Emília, não me podes salvar. Estou destinado a morrer todos os nasceres do sol e a nascer de novo ao pôr-do-sol. É como vai ser. Não lutes contra isso. Impede-me apenas de te magoar a ti e aos teus. Desculpa não te ter dito tudo o que querias saber. Não houve tempo.
E esse sonho pareceu-me, por momentos, um corolário sangrento que se viria a repetir muitas noites depois.
O Último Momento
Por um instante, fiquei petrificada, na cadeira, enquanto os créditos passavam e as luzes da sala se voltavam a acender. Contudo, após uns instantes retomei o controlo da minha pessoa e saí da sala. Perguntei se alguém tinha saído, se era possível sair sem eu dar por isso (como é que a Lilith podia ter saído sem eu dar conta?).
Ninguém me dava respostas satisfatórias. Podiam ter saído ou não, ninguém controlava as saídas, só as entradas. Foi então que tive uma ideia brilhante (ou não): lembrei-me de telefonar à Lilith. Telefonei-lhe, então, conseguindo marcar o número apenas à terceira tentativa, porque a pressa me traía os movimentos.
Ouvi, com familiaridade, o aterrorizador tom de espera da Lilith, que naquela situação encaixava ainda mais perfeitamente que de costume.
Tocou, várias vezes. Mas ela não atendeu.
Voltei a ligar. E, de novo, o tom personalizado da Lilith era tudo o que se ouvia. Nem um só atender.
Mas eis que, por um momento, ouço o som inconfundível do verdadeiro toque da Lilith. O telemóvel, pelo menos, não estava longe. E à medida que escutava, mais próximo me parecia o som. Até que aparece um dos funcionários do cinema com ele na mão, obviamente à procura do responsável.
- Desculpe, sou eu que estou a telefonar para esse telemóvel. Onde estava?
O funcionário pareceu confuso, um momento, antes de explicar:
- O telemóvel estava no chão, numa das filas de trás.
Um sentimento vertiginoso percorreu-me a espinha e, com urgência, marquei o número do Sérgio, que apesar de ter apagado dois anos atrás, ainda sabia de cor.
Ele atendeu ao terceiro toque.
- Sérgio, olá, é a Emília. Isto pode parecer estranho, e eu sei que é estranho, mas podes dar-me o número do Artur?
- Emília – e um tom de hesitação revelou-me que ele estava tão surpreendido como era de esperar – Sim, tenho o número dele. Espera só um instante… - e depois deu-me o número.
- Obrigada – disse, quase que numa só sílaba, antes de desligar e clicar na tecla de chamada desesperadamente. Novamente, dava sinal de chamada, mas ele não atendia. Desta vez, o telemóvel não estava na sala de cinema.
Se tivesse sido só o Artur, eu não me teria importado, mas quando a minha melhor amiga desaparece com ele, eis que o meu interesse por ele sobe a pique.
Porque aquilo não podia ser uma partida. Não era o tipo de humor da Lilith.
Foi por isso que, de seguida, corri para a casa da Lilith. A Lilith vive num segundo andar junto ao tribunal. Quando toquei à campainha, foi o pai dela que me atendeu. Parecia ensonado e vagamente irritado.
- Quem é? É meia-noite.
- Boa noite. É a Emília. A Liliana está em casa? É que estávamos no cinema e ela… de repente já lá não estava.
Uma leve pausa pareceu-me eternidades. Foi nesta altura que confirmei a minha suspeita de que ela não estava em casa.
- Não, ela ainda não veio para casa. Como dizes, ela desapareceu do cinema? Espera aí um bocado, que eu vou descer.
Aqueles três minutos em que estive à espera, cá em baixo ao frio, pensando o que teria acontecido à Lilith, foram os mais longos da minha vida. Após a ter recuperado, depois da minha alucinação, tal como ela era, e depois do alívio extremo, eis que a perdia outra vez, de debaixo do meu nariz, ou antes, do banco do lado.
Às vezes penso que não há nada que a escuridão não leve. Leva o sol, aquele sol que me tinha feito tão feliz na tarde anterior, leva os dias, os dias em que vivemos, porque tudo o que existe é o que vivemos e, agora, levava-me a Lilith, que era a única amiga minha em quem confiaria qualquer coisa. Arrependia-me de não lhe ter dito das minhas suspeitas, das assombrações, por Deus, até das alucinações.
Agora, estava sozinha, porque ela tinha desaparecido, inexplicavelmente, com o Artur, o idiota a quem tinha chamado parvo e antipático horas antes, e que de quem agora não havia uma única pista.
Como é que duas pessoas desaparecem duma sala de cinema tão pequena? A Lilith riu-se comigo o filme todo… Até… Não sei bem quando deixámos de nos rir, mas provavelmente a partir de metade, quando começámos a ficar devidamente concentradas.
Passados os tais três minutos, estavam ambos os pais da Lilith cá em baixo, vestidos ainda que despenteados, no caso da mãe da Lilith, e com um ar visivelmente preocupado. Seria de esperar que os pais de uma rapariga como a Lilith, cheia de piercings, cabelo pintado de preto sempre penteado de forma estranha e roupas na sua grande maioria negras, fossem pais pouco interessados, e que a aparência da filha apenas reflectisse o seu comportamento. Não é, de todo, o caso. Os pais da Lilith são provavelmente os pais mais presentes imagináveis, ainda que bastante permissivos na maior parte dos casos. Ainda na semana anterior tinham posto a Lilith de castigo, mas tinham-no feito por justa causa, como, de resto, faziam sempre.
- Olá, Emília – cumprimentou-me a mãe da Lilith, lívida, como se já soubesse aquilo que eu sabia – Diz-me o que aconteceu…
- A Lilith… Desapareceu. Estava no cinema e… no fim, ela já lá não estava. Ela e outro rapaz, o Artur, que estava na fila de trás…
- Artur? Quem é esse… Artur? – perguntou o pai da Lilith, visivelmente desconfiado – Achas que ela pode ter saído com esse… Artur?
- Não, não acho. Ela nem sequer gostava dele. Nós as duas tínhamos… Discutido com ele antes do filme.
- Achas que ele é, então, o responsável pelo desaparecimento da Liliana?
Por um momento, este pensamento atingiu-me como um tiro. Um tiro que não se vê de onde veio, mas que apenas nos apercebemos da dor… Por um instante, não sabemos o que aconteceu, e mais tarde, pensamos que talvez tenhamos levado um tiro.
Poderia o Artur ter feito alguma coisa à Lilith? Ele nunca tinha sido muito simpático, e já tinha provado como ele só fazia o que queria. Mas raptar a Lilith? Fazer-lhe mal? Não conseguia acreditar. Mas quais eram as alternativas?...
- Eu… Eu não sei! Só sei que desapareceram, e o telemóvel dela estava caído no chão na sala de cinema, ele também não atende… Não sei! Só sei que alguma coisa de errado se passou, e não percebo o quê!
Foi neste momento que comecei a chorar. Tentava não o fazer, mas a minha melhor amiga tinha desaparecido, e eu não sabia o que tinha acontecido com ela. Pensar que podia… Ter feito alguma coisa, salvá-la, talvez. Ter uma resposta. Precisava de uma resposta, mas provavelmente, a única pessoa que tinha uma era eu própria… E eu não a conseguia encontrar. Estaria eu novamente num momento de alucinação? A sonhar?
Não, não podia estar a sonhar. Havia muito mais pelo que sonhar que aquilo.
E nada fazia sentido! Como é que de a Loira morder o dedo do meu ex-namorado tínhamos chegado ao ponto em que a Lilith e o Artur tinham, simplesmente, desaparecido? Senti-me com tonturas, e chorava desalmadamente. A mãe da Lilith tocou-me ao de leve no ombro e disse, calmamente:
- Não te preocupes, vamos encontrá-la. A culpa não é tua.
E de algum modo, estas palavras fizeram-me ficar mais calma. Sossegaram-me em parte porque a mãe da Lilith não me tomava como culpada do desaparecimento da sua filha, o que até poderia ser compreensível. Mas em vez de me culpar, ela tentava aliviar a minha dor embora estivesse, obviamente, também ocupada a acalmar a sua.
Fomos depois, os três, para o cinema de novo. Talvez não adiantasse de nada, mas alguma coisa tinha de ser feita. Além disso, o telemóvel da Lilith ainda estava com o funcionário do cinema.
Entretanto, a minha mãe telefonou-me, preocupada, porque ainda não chegara a casa. Expliquei-lhe o que tinha acontecido, e também ela veio, com o meu pai e o JP, para ajudar a procurar a Lilith.
Pela altura em que eles chegaram, até a mãe da Lilith, calma, aparentemente, desde o início, tinha chegado ao estado em que não conseguia conter as lágrimas. Chamou-se a polícia.
Alguém se lembrou que seria uma boa ideia tentar contactar, também, os pais do Artur. Contudo, ninguém atendeu em casa.
Naquela noite, fui para casa apenas às cinco da manhã, mas não dormi nada. Não havia qualquer rasto da Lilith ou do Artur e eu não fui capaz de desfazer o nó que tinha no meu peito, embrulhado por remorsos e arrependimentos.
Às sete da manhã, o JP veio ao meu quarto e descobriu-me sentada na cama, de olhos vidrados.
- Presumi que também não tivesses conseguido dormir.
Não lhe respondi, e assim ele só disse mais uma frase antes voltar a sair do meu quarto:
- Sabes… Nunca lhe cheguei a pedir para sair comigo outra vez.
No dia seguinte, na escola, parecia que já todos sabiam do que tinha acontecido. O André veio ter comigo e perguntou-me, a medo, o que acontecera, se eram rumores ou se era verdade que a Lilith sumira.
Disse-lhe, com vontade de chorar, mas segurando as lágrimas, que era verdade.
Todos se mostraram solidários. Até o Sérgio veio ter comigo para me dizer para contar com ele para o que fosse preciso. Disse-lhe o mesmo em relação ao Artur, porque sabia que eram amigos. “Não tão próximos quanto isso”, foi o que me respondeu. Quem ouvisse tudo o que me disseram naquela manhã, pensaria que a Lilith tinha morrido, e não desaparecido.
A minha mãe telefonava à mãe da Lilith todos os dias para saber se havia novidades, e também para a apoiar. Contudo, nada se sabia. Quanto ao Artur, ainda ninguém tinha conseguido avisar os pais dele, uma vez que continuam sem atender o telefone e não se encontravam em casa.
No fim-de-semana seguinte, voltámos a ir a casa do tio Júpiter. Nessa semana não tive tanta sorte, uma vez que a minha adorável prima Matilde decidiu aparecer com a minha tia Daniela e o meu tio Marco. Não tenho nada contra os meus tios, daí que seja surpreendente que aquele casal tenha dado origem a um rebento tão demoníaco.
O meu tio Júpiter cumprimentou-nos efusivamente, tal como de costume. Almoçámos, desta vez empadão. Após o almoço, a minha mãe sentou-se à conversa com a tia Daniela e a minha prima Matilde, enquanto que o JP conversava com o meu tio Marco, sendo ambos mediados pelo meu pai.
Eu estava originalmente sentada ao lado do meu pai, do meu irmão e do meu tio Marco, mas o meu tio Júpiter chamou-me à parte, discretamente, dizendo:
- Vem, Emília, quero mostrar-te uma coisa. Era tão normal que ele me chamasse para me mostrar coisas, ou a mim ou ao JP, que nem liguei muito, excepto para notar no brilho malicioso dos olhos da minha prima Matilde que estava, obviamente, com inveja.
Segui-o para o escritório dele. Quando chegámos, ele fechou a porta e pediu-me para me sentar numa das duas cadeiras que havia na divisão.
O escritório do meu tio Júpiter é provavelmente a divisão mais caótica que se possa imaginar. Eu praticamente não conseguia passar até junto de uma das cadeiras sem pisar algum monte de papéis ou derrubar alguma coluna de livros empilhados.
Ainda assim, pisei as folhas de papel espalhadas pelo chão e sentei-me na cadeira. O meu tio não se pareceu importar com isso.
E de súbito, lembrei-me da nossa conversa da semana anterior.
- Tio, e isto é sobre a doença, certo?
- Sim, Emília, é sobre a doença. O teu pai contou-me por telefone que tu estiveste ligeiramente adoentada na quarta-feira. O que se passou?
A assumpção do meu tio atingiu-me, de repente, como um trovão. Teria eu contraído a tal doença misteriosa? Teria sido essa a causa das alucinações? Estaria o desaparecimento da Lilith e do Artur secretamente relacionado com isso?
Raios, a ciência funciona mesmo de formas misteriosas!
- Tive alucinações. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Estou infectada!
- Calma, Emília – disse o meu tio – Não sabemos se isso é verdade. Mas por via das dúvidas… Eu tenho um pré-antídoto. Toma-o hoje à noite, mas não deixes que ninguém saiba do assunto.
- Um pré-antídoto? Como? – estava confusa, muito confusa, diria até. O meu tio disse-me que estava a trabalhar no assunto. Mas dum momento para o outro ele arranjou um antídoto? Como era isso possível?
- Eu disse-te que estava a trabalhar no assunto… Agora cheguei finalmente a algumas conclusões. Verifica apenas que ninguém sabe disto.
- Sim, tio. Mas é seguro?
- Claro que sim, Emília. Achas mesmo que te daria alguma coisa que te pusesse em perigo?
Havia um brilho nos olhos do meu tio Júpiter, um brilho estranhíssimo, que eu nunca tinha visto. Não era o brilho que ele tinha nos olhos quando se ria ou contava uma piada. Eram os olhos de quem falava a sério, de quem tinha feito uma enorme descoberta que podia pôr em risco muita gente.
Seria possível? Tudo conectado por um vírus? Onde é que encaixava o desaparecimento da Lilith? Tinha ela também sido infectada? Tinha o vírus feito com que ela agisse daquela forma?
- Tio, uma pergunta. Como é que o vírus se propaga?
- Pelo sangue. Lembras-te de alguém se ter cortado ao pé de ti? Pode ser importante, para descobrirmos quem está infectado.
Por vários momentos, nada. Não me lembrava de alguém se ter cortado. Não me lembrava de ter tocado no sangue de quem quer que fosse.
- Eu… Eu não me lembro.
- Deixa estar, também é possível que tu não estejas infectada. Em todo o caso, leva o antídoto. Toma-o esta noite. Funciona melhor se for administrado antes dum período de sono, porque te pode deixar algo dormente.
Estendeu-me uma pequena garrafa com uma rolha de cortiça e um líquido turvo lá dentro. Não eram mais de dez centilitros, com certeza.
- Não sabe muito bem, mas vai fazer-te bem – garantiu o meu tio.
- Obrigada – disse, antes de irmos os dois para a sala. Consegui evitar a Matilde durante o tempo todo que durou a visita e ainda consegui perceber que ela se estava nas tintas para o desaparecimento do ex-namorado. Inclusive, ela não me dirigiu a palavra o tempo todo, limitando-se a sorrir para os meus pais e o tio Júpiter. Também não prestou qualquer atenção ao JP, e ele obviamente não se importou com isso.
Passadas umas horas, fomos para casa. Não voltei a pensar no antídoto até já serem nove da noite e estar sozinha no meu quarto, deitada na cama. Apenas nessa altura pensei verdadeiramente no significado de eu ter contraído aquele vírus. Dei voltas e voltas a todos os meus pensamentos, procurando uma forma de ter sido contaminada. Não me lembrava de ter sangrado, ou de alguém ter sangrado ao pé de mim, excepto a Lilith, na minha alucinação. Podia acreditar que não tinha sido uma alucinação ou continuar a tentar lembrar-me de qualquer outro momento em que eu tivesse entrado em contacto com o sangue de outra pessoa.
Mas não me lembrava.
Contudo, não podia simplesmente acreditar que os meus colegas tinham sido todos, por umas horas, monstros saídos numa novela de ficção científica, ou pior, saídos de A Luz Intermitente. Não tinha qualquer lógica. A menos que…
Tinha havido outro momento em que tocara o sangue de outra pessoa. Eu tinha tocado no sangue do Sérgio, naquela manhã em que nos tínhamos encontrado e em que a trela da Falbala lhe tinha reaberto a ferida que a própria namorada lhe tinha provocado na noite anterior.
E eu tinha tocado o sangue dele. Com as minhas próprias mãos esfoladas.
Agarrei na pequena garrafa e pu-la numa carteira ao acaso, que trouxe comigo para a sala. Passei pelos meus pais, que naquele dia estavam em casa cedo, uma vez que era Domingo. Disse-lhes que ia sair. Eles não protestaram, porque sabiam que eu ainda estava perturbada com o desaparecimento da Lilith. Devem ter deduzido que ia ter com o André para apoio moral, ou assim. Não fizeram muitas perguntas.
Caminhei depressa, e em cinco minutos estava no Vendredi. Não era sexta-feira, mas o bar estava apinhado como se o nome nada significasse.
Caminhei entre a multidão, procurando o Sérgio. Não havia forma de ele não estar ali. Ele saía sempre que possível, porque era quase fisicamente incapaz de passar um dia sem ali ir. O que é que lhe ia dizer? Não sabia. Mas penso que provavelmente ia simplesmente forçá-lo a beber parte do antídoto. Afinal de contas, havia mais probabilidades da doença se propagar menos depressa sendo que eu estivesse contaminada, mas com a consciência do facto que ser o Sérgio o contaminado sem de nada saber. Esse era o motivo que dava a mim própria para o que ia fazer.
Contudo, havia outro motivo que não desistia de se interpor na minha mente como uma terrível maldição.
E no momento em que reprimia esse motivo, vi o Sérgio, sem a Loira (graças aos céus), junto ao balcão.
Dirigi-me para lá, mas ao passar junto a uma reentrância escura na parede, uma mão saiu da sombra e impediu-me de prosseguir agarrando-me pelo pulso.
O meu impulso imediato foi tentar-me libertar do aberto e gritar ao imbecil que me tivesse agarrado que me largasse. Contudo, todos os gritos morreram-me na garganta quando a cara pertencente ao mesmo conjunto corporal que a mão saiu também das sombras.
- Artur.
- Emília – respondeu ele, com um deleite tremendo. Os olhos dele continuavam impenetráveis, mas os lábios curvavam-se num sorriso completo.
Ele estava a gozar comigo com todos os traços da cara.
- O que estás a fazer aqui? Onde está a Lilith? – a raiva notava-se em todo o timbre da minha voz, mas eu não queria saber. A minha melhor amiga tinha desaparecido com este mesmo rapaz que agora não me largava o pulso, mesmo quando o objectivo inicial do gesto já tinha sido cumprido. Assim, acrescentei – Larga-me o pulso.
Mas ele não obedeceu, agarrando-o ainda mais, como se me quisesse fazer parar a circulação simplesmente por premir os meus vasos sanguíneos do pulso com toda a força.
- Tudo a seu tempo. E se fôssemos até lá fora? – sugeriu, com o mesmo tom com que sugeriria “E se hoje comêssemos comida vegetariana, para variar?”.
Esqueci-me, por instantes, do Sérgio e da doença, e saí com o Artur. Tudo o que podia pensar era que só queria destruir-lhe as feições e fazê-lo sofrer, porque provavelmente ele não fazia ideia do que se estava a passar desde o desaparecimento dele e da Lilith, ou não estaria no Vendredi com todo o pacifismo, como se nada se passasse.
Porque a verdade era, algo se passava, e era algo muito, muito errado.
Mas quando chegámos cá fora, ele não parou de andar.
- Onde vamos?
- Para longe daqui e de todos.
- Para quê? Vais-me assassinar? – indaguei, com o meu tom mais sarcástico. Ele não estava a ser nada esclarecedor, e eu jamais o seguiria para lado algum, se não fosse pela Lilith. Mas ela continuava desaparecida, e eu tinha de fazer alguma coisa por ela. Assim, segui-o para o escuro e para longe de toda a gente que me pudesse salvar em caso da coisa se tornar feia. E eu sabia, a coisa ia tornar-se feia. Eu não confiava naquele Artur mais do que na minha prima ou na Loira. Na verdade, com elas eu sabia o que esperar. Do Artur, só podia esperar surpresa. Que o provassem os olhos dele que se mantinham sempre iguais, fosse qual fosse o momento.
- Não te vou assassinar, embora quando te pões com esses comentários irritantes me dê muita vontade de o fazer.
- A sério? Sentimento recíproco. E estás a ver, esses teus olhos escuros com todo o style possível, como se fosses incapaz de ter emoções e, sei lá, ser uma pessoa… São provavelmente o traço mais irritante em ti.
Ele riu-se, o que me surpreendeu. Depois de se rir, parou. Estávamos muito longe. Estava muito escuro, mas o brilho da lua era o suficiente para vermos. Os nossos olhos já se tinham adaptado à escuridão. E, assim, ele olhou directamente para mim.
- Achas mesmo que não tenho emoções? Nem agora, enquanto estou a olhar directamente para os teus olhos? Não imaginas aquilo em que estou a pensar?
E o mais curioso foi que, naquele momento, consegui ver. Consegui imaginar aquilo em que ele estava a pensar. O que vi não me assustou. Não como dantes assustava. Ele nunca fora capaz de olhar para mim ou falar comigo sem fazer notar que me desprezava. Porém, naquele instante, não era desprezo que via. Antes pelo contrário.
Vi o beijo ainda antes de ele acontecer. Contudo, não muito antes. Apenas no instante que precede qualquer tomada de decisão impetuosa, brusca, não premeditada. Porque quando os nossos olhos se conectaram, assim, foi como se ele se tornasse uma canção que bastava escutar para ouvir. Eu olhava para ele, ele olhava para mim. E eu via o que ele via. E eu vi nos olhos dele a decisão quase nem decidida no mesmo instante em que ele pensou nisso. Ou talvez estivesse apenas a ler a minha própria decisão brusca espelhada nos olhos dele. Não sei em que olhos brilhou primeiro a vontade. Sei que o beijei exactamente no mesmo instante em que ele me beijou.
Não sei porque o fiz. A verdade é que beijar o possível raptor da nossa melhor amiga, beijar um rapaz que nunca foi nada para nós que não alguém que nunca nos ligou por um instante, a não ser para ser ofensivo.
Ainda assim, havia o momento em que ele tinha contado a verdade na aula de Biologia. Havia o momento em que me oferecera um cigarro e se sentara no banco junto a mim. E depois, bem, depois haviam os sonhos.
Não foi um beijo lento e longo. Foi um beijo súbito, rápido, como se tivéssemos os dois medo de que o momento passasse sem darmos por isso, e que o momento passasse. E não durou muito. Durou apenas o suficiente para os nossos braços se agarrarem a um e a outro e, para depois, se separarem também muito depressa.
Dir-se-ia até que a quebra do beijo fora como um enorme choque eléctrico que prosseguia enquanto nos tocássemos. Então, parámos de nos tocar. Afastamo-nos pelo menos três passos um do outro.
E olhámos de novo um para o outro. Contudo, desta vez, não houve qualquer decisão em nenhum par de olhos, mas apenas uma expectativa, uma alienação assustadora. Por amor de Deus, eu vi-o olhar para mim com medo de mim! Ele, que fora sempre aquela pessoa extremamente forte, incapaz de expressar emoções…
Fui eu que quebrei aquele instante, ainda que me tenha custado imenso. Não deixei que isso notasse na minha voz.
- Onde está a Lilith?
Ele pareceu hesitante. Avançou ligeiramente na minha direcção, como que chegando à conclusão de que era seguro. Contudo, não respondeu de imediato.
- Não sei ao certo. Emília… Há alguém por detrás de tudo isto. Eu sei que tu deste conta de todos os acontecimentos estranhos que têm acontecido ultimamente.
- Sim, eu sei. Por amor de Deus, nem sei como é que a Lilith não deu por eles.
- Essa é a questão. Ela deu. Apenas não te quis preocupar, porque achava que tu também estavas a ser vítima do que quer que fosse que estivesse a acontecer, e que não tinhas percebido.
Esta informação tomou-me de surpresa. A Lilith sabia? E eu não tinha sabido que ela sabia? Teríamos, de facto, passado este tempo todo a conspirar nas costas uma da outra?
- Ela sabia?
- Ela sabia – confirmou ele – Portanto, fizeram-na desaparecer.
- Fizeram-na desaparecer? Quem? – perguntei, em chamas, como se todas as minhas perguntas tivesse, afinal, respostas.
- Não te posso dizer. Infelizmente, eu tive responsabilidade no desaparecimento da Lilith, mas se soubesse na altura o que sei agora, não o teria feito – soltou um palavrão, para ilustrar a raiva que sentia contra si mesmo – Jamais o teria feito! Eu sei que pareço um gajo parvo o tempo todo, mas eu não sou assim, Emília… Não sou… Prometo-te que eu sou um gajo decente, ainda que fume e que ande para aí a falar torto com gajas porreiras como tu e a Lilith… Meti-me nesta porcaria e nem sei como sair.
Estava a olhar para ele como se o estivesse a ver pela primeira vez. Alto, olhos escuros, cabelos castanhos pendendo-lhe para todos os lados à volta da cabeça. Um sorriso lindíssimo.
Mas agora via que ele era tão mais que isso… Naquele momento, já chorava. Ao vê-lo assim, os meus olhos começaram a gotejar também. Mas ele continuava a falar.
- E tu és tão linda… Emília, não sei como é que o anormal do Sérgio não te perseguiu como um maníaco depois de teres acabado com ele por causa de um pacote de pipocas! – nesta altura, quase pareceu rir, por entre as lágrimas – E quando me vieste agradecer por aquilo… Eu fui um anormal. Acho que estou doente. Eles chegaram-me ao cérebro…
E foi naquele momento que percebi que também ele estava infectado com o tal vírus que apenas o tio Júpiter conhecia. Apenas nele os efeitos não eram tão evidentes. A não ser que o facto de me ter beijado fosse um sintoma, o que, sinceramente, esperava que não fosse.
Não sabia quais os meus sentimentos por ele. Naquele momento, quase parecia que nem o conhecia.
Ainda assim, acendeu-se na minha mente uma lâmpada que me disse: “Não, não vais dar o antídoto ao Sérgio. Vais dá-lo ao Artur. Ele está obviamente em maior sofrimento”.
E a decisão estava tomada. Chorávamos ainda os dois quando tirei a pequena garrafa da carteira e a estendi ao Artur. Disse-lhe:
- Bebe.
Ele olhou para mim com desconfiança, por breves instantes. Via-se que ainda estava com medo.
- O que é?
- Bebe, vai fazer-te bem. Deram-mo para mim, mas penso que precisas mais dele.
Após olhar um pouco mais para a garrafa, como que tentando tomar uma decisão, ele ergueu-a. O líquido esvaziou-se lentamente, sugerindo uma consistência muito densa.
Pela careta do Artur, o antídoto devia saber mesmo muito mal.
- Agora espera que faça efeito – disse – Não sei quanto tempo é que o antídoto demora a fazer efeito…
Naquele momento, a expressão facial dele tornou-se pedra. Nunca a vira tão vívida e tão emocional. Se dantes tivera medo, agora parecia aterrorizado.
- Antídoto? Antídoto para quê? Quem te deu isto?
- O meu tio… Ele diz que todos estes acontecimentos se devem a uma doença qualquer… Ele deu-me esse remédio, disse que ia impedir que voltasse a ter alucinações.
- Tu tiveste alucinações? Emília… Estou com um sentimento muito mau acerca disto… Não me estou a sentir…
Após estas tentativas de encetar frases, ele afastou-se um pouco e tentou, em vão, deitar o líquido cá para fora.
Dentro de mim, qualquer coisa se começava a partir. E fosse o que fosse, era tão cortante como os pequenos vidros da janela que se partira sobre mim.
- Oh, Deus – disse o Artur. Depois disto, estendeu a mão para mim, como se me quisesse enlaçar, e quem sabe, beijar de novo. Mas nasceu o choque mais profundo nos olhos escuros dele e ele disse – Mataste-me.
Erguia, ainda assim a mão para a minha cara. Mas as forças não deixaram que a mão completasse o seu desígnio e ele caiu de joelhos no chão.
E depois caiu para o lado, imóvel, como se tivesse morrido.
Ninguém me dava respostas satisfatórias. Podiam ter saído ou não, ninguém controlava as saídas, só as entradas. Foi então que tive uma ideia brilhante (ou não): lembrei-me de telefonar à Lilith. Telefonei-lhe, então, conseguindo marcar o número apenas à terceira tentativa, porque a pressa me traía os movimentos.
Ouvi, com familiaridade, o aterrorizador tom de espera da Lilith, que naquela situação encaixava ainda mais perfeitamente que de costume.
Tocou, várias vezes. Mas ela não atendeu.
Voltei a ligar. E, de novo, o tom personalizado da Lilith era tudo o que se ouvia. Nem um só atender.
Mas eis que, por um momento, ouço o som inconfundível do verdadeiro toque da Lilith. O telemóvel, pelo menos, não estava longe. E à medida que escutava, mais próximo me parecia o som. Até que aparece um dos funcionários do cinema com ele na mão, obviamente à procura do responsável.
- Desculpe, sou eu que estou a telefonar para esse telemóvel. Onde estava?
O funcionário pareceu confuso, um momento, antes de explicar:
- O telemóvel estava no chão, numa das filas de trás.
Um sentimento vertiginoso percorreu-me a espinha e, com urgência, marquei o número do Sérgio, que apesar de ter apagado dois anos atrás, ainda sabia de cor.
Ele atendeu ao terceiro toque.
- Sérgio, olá, é a Emília. Isto pode parecer estranho, e eu sei que é estranho, mas podes dar-me o número do Artur?
- Emília – e um tom de hesitação revelou-me que ele estava tão surpreendido como era de esperar – Sim, tenho o número dele. Espera só um instante… - e depois deu-me o número.
- Obrigada – disse, quase que numa só sílaba, antes de desligar e clicar na tecla de chamada desesperadamente. Novamente, dava sinal de chamada, mas ele não atendia. Desta vez, o telemóvel não estava na sala de cinema.
Se tivesse sido só o Artur, eu não me teria importado, mas quando a minha melhor amiga desaparece com ele, eis que o meu interesse por ele sobe a pique.
Porque aquilo não podia ser uma partida. Não era o tipo de humor da Lilith.
Foi por isso que, de seguida, corri para a casa da Lilith. A Lilith vive num segundo andar junto ao tribunal. Quando toquei à campainha, foi o pai dela que me atendeu. Parecia ensonado e vagamente irritado.
- Quem é? É meia-noite.
- Boa noite. É a Emília. A Liliana está em casa? É que estávamos no cinema e ela… de repente já lá não estava.
Uma leve pausa pareceu-me eternidades. Foi nesta altura que confirmei a minha suspeita de que ela não estava em casa.
- Não, ela ainda não veio para casa. Como dizes, ela desapareceu do cinema? Espera aí um bocado, que eu vou descer.
Aqueles três minutos em que estive à espera, cá em baixo ao frio, pensando o que teria acontecido à Lilith, foram os mais longos da minha vida. Após a ter recuperado, depois da minha alucinação, tal como ela era, e depois do alívio extremo, eis que a perdia outra vez, de debaixo do meu nariz, ou antes, do banco do lado.
Às vezes penso que não há nada que a escuridão não leve. Leva o sol, aquele sol que me tinha feito tão feliz na tarde anterior, leva os dias, os dias em que vivemos, porque tudo o que existe é o que vivemos e, agora, levava-me a Lilith, que era a única amiga minha em quem confiaria qualquer coisa. Arrependia-me de não lhe ter dito das minhas suspeitas, das assombrações, por Deus, até das alucinações.
Agora, estava sozinha, porque ela tinha desaparecido, inexplicavelmente, com o Artur, o idiota a quem tinha chamado parvo e antipático horas antes, e que de quem agora não havia uma única pista.
Como é que duas pessoas desaparecem duma sala de cinema tão pequena? A Lilith riu-se comigo o filme todo… Até… Não sei bem quando deixámos de nos rir, mas provavelmente a partir de metade, quando começámos a ficar devidamente concentradas.
Passados os tais três minutos, estavam ambos os pais da Lilith cá em baixo, vestidos ainda que despenteados, no caso da mãe da Lilith, e com um ar visivelmente preocupado. Seria de esperar que os pais de uma rapariga como a Lilith, cheia de piercings, cabelo pintado de preto sempre penteado de forma estranha e roupas na sua grande maioria negras, fossem pais pouco interessados, e que a aparência da filha apenas reflectisse o seu comportamento. Não é, de todo, o caso. Os pais da Lilith são provavelmente os pais mais presentes imagináveis, ainda que bastante permissivos na maior parte dos casos. Ainda na semana anterior tinham posto a Lilith de castigo, mas tinham-no feito por justa causa, como, de resto, faziam sempre.
- Olá, Emília – cumprimentou-me a mãe da Lilith, lívida, como se já soubesse aquilo que eu sabia – Diz-me o que aconteceu…
- A Lilith… Desapareceu. Estava no cinema e… no fim, ela já lá não estava. Ela e outro rapaz, o Artur, que estava na fila de trás…
- Artur? Quem é esse… Artur? – perguntou o pai da Lilith, visivelmente desconfiado – Achas que ela pode ter saído com esse… Artur?
- Não, não acho. Ela nem sequer gostava dele. Nós as duas tínhamos… Discutido com ele antes do filme.
- Achas que ele é, então, o responsável pelo desaparecimento da Liliana?
Por um momento, este pensamento atingiu-me como um tiro. Um tiro que não se vê de onde veio, mas que apenas nos apercebemos da dor… Por um instante, não sabemos o que aconteceu, e mais tarde, pensamos que talvez tenhamos levado um tiro.
Poderia o Artur ter feito alguma coisa à Lilith? Ele nunca tinha sido muito simpático, e já tinha provado como ele só fazia o que queria. Mas raptar a Lilith? Fazer-lhe mal? Não conseguia acreditar. Mas quais eram as alternativas?...
- Eu… Eu não sei! Só sei que desapareceram, e o telemóvel dela estava caído no chão na sala de cinema, ele também não atende… Não sei! Só sei que alguma coisa de errado se passou, e não percebo o quê!
Foi neste momento que comecei a chorar. Tentava não o fazer, mas a minha melhor amiga tinha desaparecido, e eu não sabia o que tinha acontecido com ela. Pensar que podia… Ter feito alguma coisa, salvá-la, talvez. Ter uma resposta. Precisava de uma resposta, mas provavelmente, a única pessoa que tinha uma era eu própria… E eu não a conseguia encontrar. Estaria eu novamente num momento de alucinação? A sonhar?
Não, não podia estar a sonhar. Havia muito mais pelo que sonhar que aquilo.
E nada fazia sentido! Como é que de a Loira morder o dedo do meu ex-namorado tínhamos chegado ao ponto em que a Lilith e o Artur tinham, simplesmente, desaparecido? Senti-me com tonturas, e chorava desalmadamente. A mãe da Lilith tocou-me ao de leve no ombro e disse, calmamente:
- Não te preocupes, vamos encontrá-la. A culpa não é tua.
E de algum modo, estas palavras fizeram-me ficar mais calma. Sossegaram-me em parte porque a mãe da Lilith não me tomava como culpada do desaparecimento da sua filha, o que até poderia ser compreensível. Mas em vez de me culpar, ela tentava aliviar a minha dor embora estivesse, obviamente, também ocupada a acalmar a sua.
Fomos depois, os três, para o cinema de novo. Talvez não adiantasse de nada, mas alguma coisa tinha de ser feita. Além disso, o telemóvel da Lilith ainda estava com o funcionário do cinema.
Entretanto, a minha mãe telefonou-me, preocupada, porque ainda não chegara a casa. Expliquei-lhe o que tinha acontecido, e também ela veio, com o meu pai e o JP, para ajudar a procurar a Lilith.
Pela altura em que eles chegaram, até a mãe da Lilith, calma, aparentemente, desde o início, tinha chegado ao estado em que não conseguia conter as lágrimas. Chamou-se a polícia.
Alguém se lembrou que seria uma boa ideia tentar contactar, também, os pais do Artur. Contudo, ninguém atendeu em casa.
Naquela noite, fui para casa apenas às cinco da manhã, mas não dormi nada. Não havia qualquer rasto da Lilith ou do Artur e eu não fui capaz de desfazer o nó que tinha no meu peito, embrulhado por remorsos e arrependimentos.
Às sete da manhã, o JP veio ao meu quarto e descobriu-me sentada na cama, de olhos vidrados.
- Presumi que também não tivesses conseguido dormir.
Não lhe respondi, e assim ele só disse mais uma frase antes voltar a sair do meu quarto:
- Sabes… Nunca lhe cheguei a pedir para sair comigo outra vez.
No dia seguinte, na escola, parecia que já todos sabiam do que tinha acontecido. O André veio ter comigo e perguntou-me, a medo, o que acontecera, se eram rumores ou se era verdade que a Lilith sumira.
Disse-lhe, com vontade de chorar, mas segurando as lágrimas, que era verdade.
Todos se mostraram solidários. Até o Sérgio veio ter comigo para me dizer para contar com ele para o que fosse preciso. Disse-lhe o mesmo em relação ao Artur, porque sabia que eram amigos. “Não tão próximos quanto isso”, foi o que me respondeu. Quem ouvisse tudo o que me disseram naquela manhã, pensaria que a Lilith tinha morrido, e não desaparecido.
A minha mãe telefonava à mãe da Lilith todos os dias para saber se havia novidades, e também para a apoiar. Contudo, nada se sabia. Quanto ao Artur, ainda ninguém tinha conseguido avisar os pais dele, uma vez que continuam sem atender o telefone e não se encontravam em casa.
No fim-de-semana seguinte, voltámos a ir a casa do tio Júpiter. Nessa semana não tive tanta sorte, uma vez que a minha adorável prima Matilde decidiu aparecer com a minha tia Daniela e o meu tio Marco. Não tenho nada contra os meus tios, daí que seja surpreendente que aquele casal tenha dado origem a um rebento tão demoníaco.
O meu tio Júpiter cumprimentou-nos efusivamente, tal como de costume. Almoçámos, desta vez empadão. Após o almoço, a minha mãe sentou-se à conversa com a tia Daniela e a minha prima Matilde, enquanto que o JP conversava com o meu tio Marco, sendo ambos mediados pelo meu pai.
Eu estava originalmente sentada ao lado do meu pai, do meu irmão e do meu tio Marco, mas o meu tio Júpiter chamou-me à parte, discretamente, dizendo:
- Vem, Emília, quero mostrar-te uma coisa. Era tão normal que ele me chamasse para me mostrar coisas, ou a mim ou ao JP, que nem liguei muito, excepto para notar no brilho malicioso dos olhos da minha prima Matilde que estava, obviamente, com inveja.
Segui-o para o escritório dele. Quando chegámos, ele fechou a porta e pediu-me para me sentar numa das duas cadeiras que havia na divisão.
O escritório do meu tio Júpiter é provavelmente a divisão mais caótica que se possa imaginar. Eu praticamente não conseguia passar até junto de uma das cadeiras sem pisar algum monte de papéis ou derrubar alguma coluna de livros empilhados.
Ainda assim, pisei as folhas de papel espalhadas pelo chão e sentei-me na cadeira. O meu tio não se pareceu importar com isso.
E de súbito, lembrei-me da nossa conversa da semana anterior.
- Tio, e isto é sobre a doença, certo?
- Sim, Emília, é sobre a doença. O teu pai contou-me por telefone que tu estiveste ligeiramente adoentada na quarta-feira. O que se passou?
A assumpção do meu tio atingiu-me, de repente, como um trovão. Teria eu contraído a tal doença misteriosa? Teria sido essa a causa das alucinações? Estaria o desaparecimento da Lilith e do Artur secretamente relacionado com isso?
Raios, a ciência funciona mesmo de formas misteriosas!
- Tive alucinações. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Estou infectada!
- Calma, Emília – disse o meu tio – Não sabemos se isso é verdade. Mas por via das dúvidas… Eu tenho um pré-antídoto. Toma-o hoje à noite, mas não deixes que ninguém saiba do assunto.
- Um pré-antídoto? Como? – estava confusa, muito confusa, diria até. O meu tio disse-me que estava a trabalhar no assunto. Mas dum momento para o outro ele arranjou um antídoto? Como era isso possível?
- Eu disse-te que estava a trabalhar no assunto… Agora cheguei finalmente a algumas conclusões. Verifica apenas que ninguém sabe disto.
- Sim, tio. Mas é seguro?
- Claro que sim, Emília. Achas mesmo que te daria alguma coisa que te pusesse em perigo?
Havia um brilho nos olhos do meu tio Júpiter, um brilho estranhíssimo, que eu nunca tinha visto. Não era o brilho que ele tinha nos olhos quando se ria ou contava uma piada. Eram os olhos de quem falava a sério, de quem tinha feito uma enorme descoberta que podia pôr em risco muita gente.
Seria possível? Tudo conectado por um vírus? Onde é que encaixava o desaparecimento da Lilith? Tinha ela também sido infectada? Tinha o vírus feito com que ela agisse daquela forma?
- Tio, uma pergunta. Como é que o vírus se propaga?
- Pelo sangue. Lembras-te de alguém se ter cortado ao pé de ti? Pode ser importante, para descobrirmos quem está infectado.
Por vários momentos, nada. Não me lembrava de alguém se ter cortado. Não me lembrava de ter tocado no sangue de quem quer que fosse.
- Eu… Eu não me lembro.
- Deixa estar, também é possível que tu não estejas infectada. Em todo o caso, leva o antídoto. Toma-o esta noite. Funciona melhor se for administrado antes dum período de sono, porque te pode deixar algo dormente.
Estendeu-me uma pequena garrafa com uma rolha de cortiça e um líquido turvo lá dentro. Não eram mais de dez centilitros, com certeza.
- Não sabe muito bem, mas vai fazer-te bem – garantiu o meu tio.
- Obrigada – disse, antes de irmos os dois para a sala. Consegui evitar a Matilde durante o tempo todo que durou a visita e ainda consegui perceber que ela se estava nas tintas para o desaparecimento do ex-namorado. Inclusive, ela não me dirigiu a palavra o tempo todo, limitando-se a sorrir para os meus pais e o tio Júpiter. Também não prestou qualquer atenção ao JP, e ele obviamente não se importou com isso.
Passadas umas horas, fomos para casa. Não voltei a pensar no antídoto até já serem nove da noite e estar sozinha no meu quarto, deitada na cama. Apenas nessa altura pensei verdadeiramente no significado de eu ter contraído aquele vírus. Dei voltas e voltas a todos os meus pensamentos, procurando uma forma de ter sido contaminada. Não me lembrava de ter sangrado, ou de alguém ter sangrado ao pé de mim, excepto a Lilith, na minha alucinação. Podia acreditar que não tinha sido uma alucinação ou continuar a tentar lembrar-me de qualquer outro momento em que eu tivesse entrado em contacto com o sangue de outra pessoa.
Mas não me lembrava.
Contudo, não podia simplesmente acreditar que os meus colegas tinham sido todos, por umas horas, monstros saídos numa novela de ficção científica, ou pior, saídos de A Luz Intermitente. Não tinha qualquer lógica. A menos que…
Tinha havido outro momento em que tocara o sangue de outra pessoa. Eu tinha tocado no sangue do Sérgio, naquela manhã em que nos tínhamos encontrado e em que a trela da Falbala lhe tinha reaberto a ferida que a própria namorada lhe tinha provocado na noite anterior.
E eu tinha tocado o sangue dele. Com as minhas próprias mãos esfoladas.
Agarrei na pequena garrafa e pu-la numa carteira ao acaso, que trouxe comigo para a sala. Passei pelos meus pais, que naquele dia estavam em casa cedo, uma vez que era Domingo. Disse-lhes que ia sair. Eles não protestaram, porque sabiam que eu ainda estava perturbada com o desaparecimento da Lilith. Devem ter deduzido que ia ter com o André para apoio moral, ou assim. Não fizeram muitas perguntas.
Caminhei depressa, e em cinco minutos estava no Vendredi. Não era sexta-feira, mas o bar estava apinhado como se o nome nada significasse.
Caminhei entre a multidão, procurando o Sérgio. Não havia forma de ele não estar ali. Ele saía sempre que possível, porque era quase fisicamente incapaz de passar um dia sem ali ir. O que é que lhe ia dizer? Não sabia. Mas penso que provavelmente ia simplesmente forçá-lo a beber parte do antídoto. Afinal de contas, havia mais probabilidades da doença se propagar menos depressa sendo que eu estivesse contaminada, mas com a consciência do facto que ser o Sérgio o contaminado sem de nada saber. Esse era o motivo que dava a mim própria para o que ia fazer.
Contudo, havia outro motivo que não desistia de se interpor na minha mente como uma terrível maldição.
E no momento em que reprimia esse motivo, vi o Sérgio, sem a Loira (graças aos céus), junto ao balcão.
Dirigi-me para lá, mas ao passar junto a uma reentrância escura na parede, uma mão saiu da sombra e impediu-me de prosseguir agarrando-me pelo pulso.
O meu impulso imediato foi tentar-me libertar do aberto e gritar ao imbecil que me tivesse agarrado que me largasse. Contudo, todos os gritos morreram-me na garganta quando a cara pertencente ao mesmo conjunto corporal que a mão saiu também das sombras.
- Artur.
- Emília – respondeu ele, com um deleite tremendo. Os olhos dele continuavam impenetráveis, mas os lábios curvavam-se num sorriso completo.
Ele estava a gozar comigo com todos os traços da cara.
- O que estás a fazer aqui? Onde está a Lilith? – a raiva notava-se em todo o timbre da minha voz, mas eu não queria saber. A minha melhor amiga tinha desaparecido com este mesmo rapaz que agora não me largava o pulso, mesmo quando o objectivo inicial do gesto já tinha sido cumprido. Assim, acrescentei – Larga-me o pulso.
Mas ele não obedeceu, agarrando-o ainda mais, como se me quisesse fazer parar a circulação simplesmente por premir os meus vasos sanguíneos do pulso com toda a força.
- Tudo a seu tempo. E se fôssemos até lá fora? – sugeriu, com o mesmo tom com que sugeriria “E se hoje comêssemos comida vegetariana, para variar?”.
Esqueci-me, por instantes, do Sérgio e da doença, e saí com o Artur. Tudo o que podia pensar era que só queria destruir-lhe as feições e fazê-lo sofrer, porque provavelmente ele não fazia ideia do que se estava a passar desde o desaparecimento dele e da Lilith, ou não estaria no Vendredi com todo o pacifismo, como se nada se passasse.
Porque a verdade era, algo se passava, e era algo muito, muito errado.
Mas quando chegámos cá fora, ele não parou de andar.
- Onde vamos?
- Para longe daqui e de todos.
- Para quê? Vais-me assassinar? – indaguei, com o meu tom mais sarcástico. Ele não estava a ser nada esclarecedor, e eu jamais o seguiria para lado algum, se não fosse pela Lilith. Mas ela continuava desaparecida, e eu tinha de fazer alguma coisa por ela. Assim, segui-o para o escuro e para longe de toda a gente que me pudesse salvar em caso da coisa se tornar feia. E eu sabia, a coisa ia tornar-se feia. Eu não confiava naquele Artur mais do que na minha prima ou na Loira. Na verdade, com elas eu sabia o que esperar. Do Artur, só podia esperar surpresa. Que o provassem os olhos dele que se mantinham sempre iguais, fosse qual fosse o momento.
- Não te vou assassinar, embora quando te pões com esses comentários irritantes me dê muita vontade de o fazer.
- A sério? Sentimento recíproco. E estás a ver, esses teus olhos escuros com todo o style possível, como se fosses incapaz de ter emoções e, sei lá, ser uma pessoa… São provavelmente o traço mais irritante em ti.
Ele riu-se, o que me surpreendeu. Depois de se rir, parou. Estávamos muito longe. Estava muito escuro, mas o brilho da lua era o suficiente para vermos. Os nossos olhos já se tinham adaptado à escuridão. E, assim, ele olhou directamente para mim.
- Achas mesmo que não tenho emoções? Nem agora, enquanto estou a olhar directamente para os teus olhos? Não imaginas aquilo em que estou a pensar?
E o mais curioso foi que, naquele momento, consegui ver. Consegui imaginar aquilo em que ele estava a pensar. O que vi não me assustou. Não como dantes assustava. Ele nunca fora capaz de olhar para mim ou falar comigo sem fazer notar que me desprezava. Porém, naquele instante, não era desprezo que via. Antes pelo contrário.
Vi o beijo ainda antes de ele acontecer. Contudo, não muito antes. Apenas no instante que precede qualquer tomada de decisão impetuosa, brusca, não premeditada. Porque quando os nossos olhos se conectaram, assim, foi como se ele se tornasse uma canção que bastava escutar para ouvir. Eu olhava para ele, ele olhava para mim. E eu via o que ele via. E eu vi nos olhos dele a decisão quase nem decidida no mesmo instante em que ele pensou nisso. Ou talvez estivesse apenas a ler a minha própria decisão brusca espelhada nos olhos dele. Não sei em que olhos brilhou primeiro a vontade. Sei que o beijei exactamente no mesmo instante em que ele me beijou.
Não sei porque o fiz. A verdade é que beijar o possível raptor da nossa melhor amiga, beijar um rapaz que nunca foi nada para nós que não alguém que nunca nos ligou por um instante, a não ser para ser ofensivo.
Ainda assim, havia o momento em que ele tinha contado a verdade na aula de Biologia. Havia o momento em que me oferecera um cigarro e se sentara no banco junto a mim. E depois, bem, depois haviam os sonhos.
Não foi um beijo lento e longo. Foi um beijo súbito, rápido, como se tivéssemos os dois medo de que o momento passasse sem darmos por isso, e que o momento passasse. E não durou muito. Durou apenas o suficiente para os nossos braços se agarrarem a um e a outro e, para depois, se separarem também muito depressa.
Dir-se-ia até que a quebra do beijo fora como um enorme choque eléctrico que prosseguia enquanto nos tocássemos. Então, parámos de nos tocar. Afastamo-nos pelo menos três passos um do outro.
E olhámos de novo um para o outro. Contudo, desta vez, não houve qualquer decisão em nenhum par de olhos, mas apenas uma expectativa, uma alienação assustadora. Por amor de Deus, eu vi-o olhar para mim com medo de mim! Ele, que fora sempre aquela pessoa extremamente forte, incapaz de expressar emoções…
Fui eu que quebrei aquele instante, ainda que me tenha custado imenso. Não deixei que isso notasse na minha voz.
- Onde está a Lilith?
Ele pareceu hesitante. Avançou ligeiramente na minha direcção, como que chegando à conclusão de que era seguro. Contudo, não respondeu de imediato.
- Não sei ao certo. Emília… Há alguém por detrás de tudo isto. Eu sei que tu deste conta de todos os acontecimentos estranhos que têm acontecido ultimamente.
- Sim, eu sei. Por amor de Deus, nem sei como é que a Lilith não deu por eles.
- Essa é a questão. Ela deu. Apenas não te quis preocupar, porque achava que tu também estavas a ser vítima do que quer que fosse que estivesse a acontecer, e que não tinhas percebido.
Esta informação tomou-me de surpresa. A Lilith sabia? E eu não tinha sabido que ela sabia? Teríamos, de facto, passado este tempo todo a conspirar nas costas uma da outra?
- Ela sabia?
- Ela sabia – confirmou ele – Portanto, fizeram-na desaparecer.
- Fizeram-na desaparecer? Quem? – perguntei, em chamas, como se todas as minhas perguntas tivesse, afinal, respostas.
- Não te posso dizer. Infelizmente, eu tive responsabilidade no desaparecimento da Lilith, mas se soubesse na altura o que sei agora, não o teria feito – soltou um palavrão, para ilustrar a raiva que sentia contra si mesmo – Jamais o teria feito! Eu sei que pareço um gajo parvo o tempo todo, mas eu não sou assim, Emília… Não sou… Prometo-te que eu sou um gajo decente, ainda que fume e que ande para aí a falar torto com gajas porreiras como tu e a Lilith… Meti-me nesta porcaria e nem sei como sair.
Estava a olhar para ele como se o estivesse a ver pela primeira vez. Alto, olhos escuros, cabelos castanhos pendendo-lhe para todos os lados à volta da cabeça. Um sorriso lindíssimo.
Mas agora via que ele era tão mais que isso… Naquele momento, já chorava. Ao vê-lo assim, os meus olhos começaram a gotejar também. Mas ele continuava a falar.
- E tu és tão linda… Emília, não sei como é que o anormal do Sérgio não te perseguiu como um maníaco depois de teres acabado com ele por causa de um pacote de pipocas! – nesta altura, quase pareceu rir, por entre as lágrimas – E quando me vieste agradecer por aquilo… Eu fui um anormal. Acho que estou doente. Eles chegaram-me ao cérebro…
E foi naquele momento que percebi que também ele estava infectado com o tal vírus que apenas o tio Júpiter conhecia. Apenas nele os efeitos não eram tão evidentes. A não ser que o facto de me ter beijado fosse um sintoma, o que, sinceramente, esperava que não fosse.
Não sabia quais os meus sentimentos por ele. Naquele momento, quase parecia que nem o conhecia.
Ainda assim, acendeu-se na minha mente uma lâmpada que me disse: “Não, não vais dar o antídoto ao Sérgio. Vais dá-lo ao Artur. Ele está obviamente em maior sofrimento”.
E a decisão estava tomada. Chorávamos ainda os dois quando tirei a pequena garrafa da carteira e a estendi ao Artur. Disse-lhe:
- Bebe.
Ele olhou para mim com desconfiança, por breves instantes. Via-se que ainda estava com medo.
- O que é?
- Bebe, vai fazer-te bem. Deram-mo para mim, mas penso que precisas mais dele.
Após olhar um pouco mais para a garrafa, como que tentando tomar uma decisão, ele ergueu-a. O líquido esvaziou-se lentamente, sugerindo uma consistência muito densa.
Pela careta do Artur, o antídoto devia saber mesmo muito mal.
- Agora espera que faça efeito – disse – Não sei quanto tempo é que o antídoto demora a fazer efeito…
Naquele momento, a expressão facial dele tornou-se pedra. Nunca a vira tão vívida e tão emocional. Se dantes tivera medo, agora parecia aterrorizado.
- Antídoto? Antídoto para quê? Quem te deu isto?
- O meu tio… Ele diz que todos estes acontecimentos se devem a uma doença qualquer… Ele deu-me esse remédio, disse que ia impedir que voltasse a ter alucinações.
- Tu tiveste alucinações? Emília… Estou com um sentimento muito mau acerca disto… Não me estou a sentir…
Após estas tentativas de encetar frases, ele afastou-se um pouco e tentou, em vão, deitar o líquido cá para fora.
Dentro de mim, qualquer coisa se começava a partir. E fosse o que fosse, era tão cortante como os pequenos vidros da janela que se partira sobre mim.
- Oh, Deus – disse o Artur. Depois disto, estendeu a mão para mim, como se me quisesse enlaçar, e quem sabe, beijar de novo. Mas nasceu o choque mais profundo nos olhos escuros dele e ele disse – Mataste-me.
Erguia, ainda assim a mão para a minha cara. Mas as forças não deixaram que a mão completasse o seu desígnio e ele caiu de joelhos no chão.
E depois caiu para o lado, imóvel, como se tivesse morrido.
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...