sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O 2º Momento

A campainha naquela escola não tocava como as restantes. Aquele som vibrante, combinado com o nevoeiro e a noite lá fora, ainda que fossem apenas seis horas, gelava uma alma no instante terrível em que tocava. E eu, ainda não liberta daquele antro para o resto do dia, ainda tinha de subir as escadas em caracol desertas e sombrias (não há lâmpadas nas escadas) até ao topo da escola para entregar um livro na biblioteca.
Subia, assim, rapidamente, sentindo cada passada ecoar como um mundo em destruição. Após alguns círculos de escadas, cheguei finalmente ao céu, isto é, vi a um tecto de distância a janela do topo e, lá fora, o céu nocturno. Aqui já existia luz, que passava pelos vidros da porta da biblioteca. Assim, este ambiente estranho corrompia-se no preciso instante em que um estrondo faz ressaltar vidros para todo o lado – a minha roupa, o meu cabelo, o chão e a minha cara – para todo o lado, e eu só pude ver um rapaz emergir da janela para o patamar final das escadas. De pé.
Gritei. Senti o sangue e o ardor dos cortes pelo vidro nas bochechas. O rapaz olhou para mim e fugiu pelas escadas abaixo. Não o persegui.
Senti as faces a queimar. Tentei livrar-me do máximo de vidros possível. Um funcionário saiu da biblioteca e encontrou-me ali, cheia de vidros.
- Porra, o que é que aconteceu à janela?
Eu hesitei. Como era suposto dizer-lhe que um rapaz tinha acabado de entrar por ali?
- Um… Rapaz. Saltou pela janela. E fugiu pelas escadas.
O funcionário coçou a orelha, em choque. Via-se que não sabia se havia de correr na direcção em que indicava ou dizer-me que tal não era possível.
- Eu sei, é difícil de acreditar. Eu também não consigo aceitar.
- Enganaste-te, com certeza. Não terá sido o vento a arrastar qualquer coisa que partiu o vidro?
- Não. Foi um rapaz. Porque não vai à procura dele?
O funcionário continuava baralhado.
- Mas… Como é que ele ia lá para acima?
- Indo. Não tenho culpa!
- Amanhã vais dizer isso ao Conselho Executivo.
Senti-me invadir pela injustiça.
- Mas… Eu não tenho culpa!
- Ainda assim, têm que se averiguar as responsabilidades. Como sei que não foste tu a mandar uma pedra ao vidro?
- O que é que eu ganhava por o fazer?
- E como é que um miúdo ia lá para a cima?
Suspirei.
- Tudo bem, amanhã vou ao Conselho Executivo. Só vinha entregar um livro – estendi-lhe O Jogador de Dostoievski e saí.
Cá fora era de noite e a lua nada não era senão uma pequena nódoa redonda, branca e gordurosa no céu azul acetinado. O vento estava frio e forte. Foi encolhida no meu casaco que caminhei para casa nessa noite. Reflectia no que se tinha passado. Mais uma vez, as minhas suspeitas confirmavam-se. Algo estava errado. Muito errado mesmo.
Todos os acontecimentos suspeitos que tinham origem desde há semanas se interligavam num ponto comum: a improbabilidade de acontecerem em circunstâncias normais. E todos eles eram, a maior ou menor grau, assustadores. Esfreguei, quase sem dar por isso, a minha bochecha magoada e tentei esquecer-me disso. Mas os trabalhos de casa que me aguardavam em casa não eram uma perspectiva muito mais animadora.
Telefonei à Lilith, com quem tinha estado ainda apenas há minutos. Dez, quinze? Já parecia uma eternidade. Ainda não tinha comparado os meus pensamentos com os dela para poder saber se ela reparara no mesmo. Afinal de contas, ela era a conspiradora do grupo. A revolucionária, aquela que pensava que o David Hume era um idiota tremendo e que o William Shakespeare, se não fosse homossexual, teria sido o seu ideal de marido. Se a Lilith não tinha dado conta, ou eu me estava a tornar paranóica ou ela estava doente. Seriamente doente.
Mas ainda há instantes ela fizera um comentário sarcástico sobre a importância do Triângulo de Pascal nas nossas vidas quando eu for uma ilustradora de guias científicos e ela uma jornalista científica na Super Interessante.
Claro que isto são os nossos planos estúpidos. Os nossos verdadeiros planos são abrirmos uma banca de limonada e construirmos a nossa vida a partir daí. Deve dar para comprar muitos lollipops. Em todo o caso, estou a brincar. E a divagar.
Ela atendeu, após o toque personalizado que era de sustos. Ela diz que é uma obra-prima, mas aos meus ouvidos, soa agressão.
- Oi, Ema. Diz.
- Olá. Olha, precisamos de falar. Já chegaste a casa?
- Já. Mas se quiseres podemos ir beber um café juntas num instante.
- Deixa. Amanhã falamos, então. É só que… Há algo que não está bem.
- Também achas isso? Eu sabia. Toda a gente diz que eu tenho a mania da conspiração, mas no fim de contas, a minha sã amiga Emília pensa exactamente o mesmo. Eles andam a pôr alguma cena esquisita nos paniques de chocolate da escola, não andam?
Esta frase deu-me logo a perceber que a Lilith, a conspiradora, não fazia ideia do que eu estava a falar. Porque, de facto, o que é um panique de chocolate ao pé duma rapariga que anda às dentadas ao namorado? Sim, tudo bem, para alguns isso pode parecer normal, mas não para mim. Talvez seja eu, que sou demasiado pudica, mas isso parece-me pura e simplesmente nojento. Nem consigo suprimir os saltos estomacais.
E a Lilith não deu por ela.
- Sim – disse, nem sei porquê – Tens razão. Os paniques este ano são um crime.
E desliguei, depois dos habituais “adeus” e “beijinhos”. E não lhe disse nada.
Bem, podemos falar amanhã, for aquilo que eu pensei. Em todo o caso, apenas me parecia estranho que eu não fosse capaz sequer de falar daquele assunto à minha melhor amiga doida. Parecia de gritos, mas se alguém iria compreender, essa pessoa era a Lilith. Quer dizer, ela tem o cabelo pintado de preto, sempre amanhado em penteados estranhos. Tem três piercings, um na sobrancelha, outro na orelha e um pequenino diamante incrustado no nariz. Ela ouvia o tipo de música a que a maioria das pessoas consideraria um crime. Um atentado auditivo. Doom metal, black metal, e outros metais pesados que nem me atrevo a descrever. Só putos reguilas aos grunhidos como se fossem uns leões. Pobres gatinhos. Mas isso é o que eu penso. A Lilith fica sempre irritada quando eu digo isto. Diz: quem és tu para falar, tu que só ouves The Corrs e música céltica de bandas que se vestem como se vivessem numa pocilga há seiscentos anos atrás.
Nessas alturas, sou eu que me irrito. Mas nada disto interessa, porque a verdade é que a Lilith é uma mente aberta. Não no que respeita o Hume, com certeza, mas de resto, aceita as opiniões de todos acerca de tudo. Ela acreditava na existência do sobrenatural. E ainda assim, eu, a realista, a científica, a racional: tinha visto esta série em cadeia de acontecimentos dúbios antes dela poder sequer largar as suas desconfianças a respeito dos paniques.
Mas tinha de começar a perceber o que de facto estava a suceder naquela escola e naquela cidade.
Porque começava a tornar-se muito perigoso.
No dia seguinte, dirigi-me para o Conselho Executivo, tal como me tinham ordenado. O director mandou-me sentar e esperar um pouco, com um mero gesto, enquanto ele próprio falava ao telefone, tentando soar educado com quem quer que fosse que estivesse ao telefone.
Fiquei ali sentada durante, pelo menos, quinze minutos. Durante esse tempo, aproveitei para me entreter olhando para os múltiplos dossiers amontoados em armários, as resmas de papel em torre, os ocasionais bibelots e suportes de canetas e outro material de escrita.
Não estava praticamente a prestar atenção à conversa do director ao telefone. Presumi que era resultado de alguma nova burocracia e, por conseguinte, abstraí-me, tentando relembrar-me do dia anterior, de como um miúdo qualquer tinha rebentado com a janela, e o estrondo, e os vidros por toda a parte, e o meu sangue nas faces.
Instintivamente, levei a mão à cara e senti a cicatriz mínima. Não me doía, mãe era bastante evidente ao toque o sangue coagulado amontoado em linhas curtas.
E foi nesse instante que me apercebi duma palavra. Uma mera palavra. De súbito, endireitei-me na cadeira e dei toda a minha atenção àquilo que o director dizia, em tom alegre de tagarelice cordial, ao telefone.
A palavra era: Fantasmas.
Não pude evitá-lo. Engasguei-me de espanto. Tossi desalmadamente.
- E, portanto, são sei o que hei-de fazer com eles. O Margaraça disse-me que ninguém dava conta, mas os acontecimentos começam a tornar-se demasiado estranhos, demasiado evidentes. A D. Palmira e a D. Rosette andarem à bulha com esfregonas feitas tochas gigantescas e ridículas deu ligeiramente nas vistas, sabes. Eu nem acreditava em nada disto, nem nestas coisas, nem que estes acontecimentos fosse possíveis, e agora…
Seria possível que fosse, de facto, verdade? Seria possível que a escola estivesse infestada de monstros e fantasmas? Seria possível que a escola estivesse… Assombrada, tal como o director parecia crer? Uma parte de mim sentia-se tentada a concordar. Contudo, outra parte de mim, a maior parte de mim, a racional, a científica, não podia aceitar tal facto. Fantasmas? Está certo, posso acreditar que há mais que a carne e os ossos no nosso corpo. O que é um ser humano? Não um amontoado de órgãos, certamente. Mas espíritos dos mortos? Fantasmas? Não, não podia aceitar isto.
No entanto, essa não parecia ser a opinião do director. Pergunto-me de que disciplina seria ele professor. Não de ciências exactas, com certeza.
Por fim, após se despedir, o director colocou o auscultador no descanso e olhou para mim, juntando as pontas dos dedos, expectante.
- Diz lá, então. Como te chamas?
- Emília. Vim aqui porque o funcionário da biblioteca me disse para o fazer. Uma janela caiu-me literalmente em cima.
O director abriu ligeiramente os lábios e soltou uma risadinha.
- Caiu-te a janela em cima? Ah, então podes dizer-me o que aconteceu. Ando doido para saber a quem vou cobrar aquela janela.
Sorri, educadamente. Tentava não cair no erro de parecer ofendida. Muitos alunos ficariam livres de problemas se se inteirassem desta pequena regra. Nunca parecer ofendido. Ou então, os senhores professores vão achar que o aluno o está a fazer por uma questão de defesa pessoal. O que, naturalmente, nunca é verdade.
E assim, limitei-me a sorrir. Sorri, educadamente.
- Bem. Houve um rapaz que saltou de lá para dentro da escola. Não me lembro bem dele. Sei que é moreno e baixinho. Oitavo, nono ano, talvez? Enfim. Eu sei que é estranho, mas é certo que ele não devia ter entrado por ali. E eu não tenho qualquer culpa no cartório porque, como vê, até me magoei com os vidros enquanto eles caiam.
- Hm. Hm – repetiu o director, franzindo a testa. Pensei que talvez ele se inteirasse de todos os problemas assim. Hm para duas funcionárias à bulha com esfregonas em chamas. Hm para miúdos a saltar por janelas do tecto. Hm para os fantasmas. Algo mais que isso? Hm. Estranho.
- Bem, talvez fosse melhor se tentasses ver se o encontras novamente. Informa-te. Uma escola tão pequena. Mal ou pior, vocês conhecem-se todos.
“Fugiu-lhe a boca para a verdade. É mesmo assim. Mal e muito mal”, pensei, e perguntei-me novamente se devia contar alguma coisa sobre as minhas suspeitas à Lilith. Ou talvez ao André. Ainda assim, não me parecia certo, de alguma forma, dizer-lhes fosse o que fosse acerca do assunto.
- Em todo o caso, podes sair – disse, por fim, o director. Isto fez-me logo à partida muito feliz. Estar liberta daquelas paredes e do bonacheirão do director era algo que, definitivamente, me agradava.
- Obrigada – disse, saindo. Contudo, mal eu sabia que o Conselho Executivo era o menor dos meus problemas.
Mal saí, fui praticamente contra a minha adorável prima Matilde, de braço dado com o seu intragável guarda-costas. Alto, como sempre, não teve porém dificuldades em baixar o olhar para encontrar o meu. Para me ameaçar e esmiuçar, interiormente, enquanto que a namorado o fazia utilizando a sua terrível grande boca:
- Priminha… Este fim-de-semana faltaram de novo ao almoço de Domingo. O que é que se passa? Problemas familiares? Lembra-te, somos sempre uma família.
- Priminha – disse, imitando-a – Os únicos problemas familiares que tenho são contigo. Faltámos porque o meu pai tinha de fazer uma reportagem longe de casa, sabes como é. Como está o tio Júpiter?
- Bem. No Domingo estava excepcionalmente feliz. Sabes como gosta da minha companhia.
Ri-me, interiormente. Apesar de ser tio de ambas, o meu tio Júpiter mal era capaz de manter cara serena quando a minha prima Matilde estava na mesma divisão. Se tentava não se rir das baboseiras dela, era para não ofender a mãe dela, irmã dele, minha tia, que é um amor de pessoa, ao contrário da filha que sofreu, com certeza, uma mutação génica tal que se viu convertida numa criatura semelhante a uma tartaruga maléfica, ao invés dum ser humano digno de fazer parte da nossa família.
- Sim, sei – disse, contendo o riso só para mim – É hoje que temos aula juntas, priminha? Biologia, não é?
Algo que me supera é como é que alguém tão burro quanto a minha prima é capaz de nunca ter chumbado ano nenhum e de não ter deixado qualquer disciplina para trás. O pobre do JP que o diga, que tem aulas de Matemática com ela.
- Pois, parece que sim. Desculpa que não tenha podido ficar contigo na tua carteira, minha querida prima, mas sabes como tenho dificuldades em ficar longe do meu Artur…
E neste momento, pareceu-me ver um terrível trejeito de desprezo na cara do referenciado “Artur dela”. Não sabia o que significava aquilo, mas sabia, no entanto, que obviamente não era só a mim que as intervenções da Matilde enjoavam.
Pior que a Matilde era, certamente, a Loira, que com a sua falta de oportunidade apareceu no preciso momento, também ela de braço dado ao seu próprio namorado. Aquilo parecia, sem dúvida, uma exposição canina, só que sem os cães, e com rapazes no lugar deles. Eu sentir-me-ia ofendida se estivesse no lugar deles. Ainda assim, parecia normal quer para o Sérgio quer para o Artur que estivessem assim dependentes de duas miúdas burras que nem portas encostadas, de braço dado como um mero acessório de moda (como um relógio caro, ou uns brincos de diamante) e nada mais que isso.
- Oh… Cátia. Estava apenas aqui a falar com a minha priminha querida – e nestas palavras revelou o quão querida ela pensava que eu era.
- Oh… Matilde. A sério? És tão caridosa.
- Caridosa? Caridosa sou eu por ainda não me ter ido embora.
- Oh, coitada, não está ainda preparada para assumir que precisa da nossa ajuda – continuou, sibilando, a Loira – E a propósito, como está a tua amiguinha Liliana? Continua com os ferrinhos enfiados nos sítios certos?
Neste momento, resumi-me fazendo-lhes um gesto feio e virando costas em direcção à sala onde os cinco íamos ter aulas.
E no entanto, ia com lágrimas nos olhos, porque em toda aquela cena, o Sérgio estivera a assistir, e não fora capaz de proferir uma só palavra ou de intervir uma única vez, nem para me dizer “olá” ou fazer qualquer gesto de reconhecimento. Naquele momento, ele pareceu-me apenas uma marioneta de mão, guiada por uma miúda perfeita, sem qualquer pelo e de cabelo loiro, sem acne e sem marcas de tal, sem óculos ou lentes, sem falta de amigos e rapazes atrás dela, mas a quem faltava o mais importante: a integridade.
Mas engoli em seco e fingi que não me importava, porque a verdade é que já nem me importava. Podemos fingir que conhecemos as pessoas que costumávamos conhecer, podemos fingir que as pessoas não mudam nem nos desiludem, mas a verdade é que as pessoas estão em permanente mutação: uma mutação aterradora. As pessoas mudam e dois anos são muito tempo. Dois anos são, quanto se tem dezassete anos, uma semi-vida. Ele já não era o Sérgio, mas sim outro Sérgio, um inventado assim à pressão (desde há dois anos para cá) e irreversivelmente modificado, alguém que eu nunca conhecera e, que de facto, talvez não conheça mesmo.
Cheguei à porta da sala antes de dar por isso, e dei por mim com a Lilith à minha frente, agitando os cabelos negros penteados duma forma duvidosa. Mas, agora que reparava, não era apenas o cabelo dela que estavam penteados de forma duvidosa, também ela exibia um ar hesitante.
- Então, Mia? Onde andaste? Queria contar-te uma cena… - foi o que ela me disse.
- Nenhum sítio especial. Então o que é? Podes contar-me…
Mas nesse instante, chegou a stôra de Biologia.
- Conto-te depois, está bem? – e, estranhamente, a Lilith parecia, até, aliviada por não ter de, afinal, me dizer nada. Senti-me desconfiada com isto, mas entrei na sala sem dizer palavra.
Sentei-me no meu lugar junto da Lilith, na fila de trás. O André não tinha Biologia. Assim, abri o caderno e concentrei-me na aula. Ignorei a minha prima e a Loira assim que entraram na sala, atravessando o corredor atrás da minha carteira, atrasadas, seguidas pelos dois namorados/escravos.
Mas elas não o fizeram. A Loira deu-me um pontapé na cadeira e a minha adorada prima pousou-me a mão na cabeça para se apoiar.
Suspirei fundo, e tentei ignorar a impertinência daquelas duas. A Lilith não fez o mesmo.
- Ouçam lá, vocês, que pertencem à família Bovidae, não querem levar com um murro na zona ventral? Cabras de – a palavra seguinte foi censurada neste registo.
E claro, a nossa stôra de Biologia ouviu perfeitamente tudo o que ela diz. Para além disso, estou certa de que ela, ao contrário da Loira e da Matilde estava familiarizada com a família Bovidae.
- Liliana! Mas que raio é isto agora? Saia imediatamente!
- Mas stôra, aquelas duas andam a meter-se com a Emília sem ela fazer o que quer que fosse! – defendeu-se ela.
- Eu não quero saber! Isto não é linguagem para ter na sala de aula. Rua!
- Mas stôra, é verdade! A Lilith… A Liliana, quero dizer, só estava a defender-me. Ela só reagiu de forma algo… Explosiva. Nada de mais. Não a mande embora!
- É mentira, nós não fizemos nada, stôra. Essa miúda é que anda passada, com ciúmes ou assim, e depois chama-nos estes nomes e inventas estas coisas.
A stôra olhava de par de raparigas para par de raparigas, obviamente tendo dificuldades em discernir quem dizia a verdade.
- Foi assim, stôra: a Loi… a Cátia deu um pontapé na cadeira da Emília e a Matilde esfregou-lhe a mão no cabelo – argumentava a Lilith, de pé, e a cometer o pior erro de todos: ela estava a mostrar-se ofendida.
- Não posso acreditar nisso! – decidiu, por fim – A Matilde é prima da Emília, porque é que havia de fazer uma coisa dessas?
- Exactamente, stôra! Não fizemos nada! – corroborou a Matilde, nas pontas dos dedos de felicidade.
- Portanto, Liliana, faça o favor de sair. O que disse foi completamente impróprio.
E este foi o instante que mudou tudo. Talvez na altura me tenha parecido apenas um acaso curioso e dúbio de uma réstia de bom senso numa alma má. Contudo, esse foi o momento que ditou o resto da minha vida, de certo modo.
- A Cátia e a Matilde estão a mentir. A Liliana fez a coisa certa ao defender a Emília. Eu próprio devia ter feito o mesmo.
E estas palavras foram ditas pelo rapaz alto e de olhos sombrios que, por acaso, era o namorado da minha prima. O Artur.
A Matilde parecia que, por momentos, ia entrar em combustão e desfazer-se em milhões de células inflamadas, dilatadas.
A Loira estava com a cara mais estúpida e ridícula que se possa imaginar. Nunca vira aquela rapariga adoptar qualquer tipo de expressão facial que não fosse a do desprezo e a do aborrecimento. Agora, contudo, a cara dela revolvia-se em máscaras desfeitas e incríveis de espanto e raiva.
Até o Sérgio pareceu levemente espantado com a ousadia do companheiro de emprego. Isto é, companheiro de escravidão. Parecia pensar, lá dentro “O que é ele a ela?”.
E Deus, eu sabia que eu própria estava a pensar o mesmo.
Parecia-me que estava a vê-lo pela primeira vez. Um ser humano. Com vontades próprias. Seria possível?
Era, de facto, muito alto. A altura dele incomodava-me mais do que qualquer traço que ele tivesse, ainda que os olhos dele, escuros como uma noite gelada, me deixassem também amedrontada, de certo modo, uma vez que nunca conseguia saber em que é que ele estava a pensar. Era como se a melanina dos olhos dele fosse uma grande venda, não para ele, mas para os demais, uma grande venda que lhe tapa a alma.
Talvez por todos os traços dele estarem contidos por e naquela cor, aquele momento foi o primeiro em que considerei que ele talvez não fosse unicamente uma pessoa inteligente, mas encostada aos confortos da sociedade. Talvez ele fosse… Apenas uma pessoa inteligente?
- Porque me mentem, meninas? – perguntou a stôra, mas desta vez apenas para a Loira e a Matilde. Obviamente, o testemunho do Artur tinha um significado especial para ela. Ela tinha, agora, adoptado uma posição e acreditado a nosso favor.
A Loira e a Matilde fitaram cada uma os seus sapatos. A stôra decidiu não mandar a Lilith para a rua, ainda que lhe tenha dado uma boa reprimenda. Durante a aula, penso que ouvi uns sussurros furiosos na mesa da minha prima e do Artur e, depois desses mesmos sussurros furiosos, um silêncio que estendeu até ao fim da aula.
No dia seguinte, já corriam por toda a escola as notícias de que o Artur e a Matilde já não estavam juntos. Ela, inclusive, tinha já sido vista com um tal João Peres que eu não conhecia mas que a Lilith me disse que era daqueles que come tabaco com os cereais do pequeno-almoço e que se deita com uma garrafa de rum em vez dum ursinho de peluche.
A única pergunta que me assaltava após aquele acontecimento na aula de Biologia era: Será que aquilo era suposto acontecer? Isto é, será que a honestidade do Artur era apenas mais um dos acontecimentos estranhos que tinham vindo a acontecer nos últimos tempos?

O 1º Momento

O momento em que me apercebi de que algo não estava como suposto foi aquele em que vi, em frente aos meus próprios olhos, uma rapariga a tentar arrancar o dedo de um rapaz à dentada.
Estava no Vendredi, um dos bares da cidade, sentada, como habitualmente, apenas com a Lilith e o André, os meus dois (praticamente únicos) amigos. A Lilith debruçava-se sobre a sua própria cadeira, inclinando-se para trás, para falar com alguns dos seus muitos conhecidos. Neste caso, eram um par de bêbedos que eu não conhecia. Eu e o André tínhamos conversas parvas um com o outro, tais como:
- Preferes então o intelecto à beleza num namorado?
- Precisamente.
- Nesse caso preferirias aquele anão dos óculos da Branca de Neve ao príncipe?
- Mestre, é como ele se chama. Doc, em inglês. E sim, preferia esse, ao menos talvez me limpasse a casa.
À nossa volta, ninguém tinha conversas similares. Apenas se discutiam assuntos da ordem do dia relacionados com mexericos. Fumava-se, também, muito. E bebiam-se copos e garrafas, ouviam-se vozes e risos. Ao longe, alguém chorava.
E contudo, mesmo na mesa à minha frente, erguia-se o único casal de cabelos claros da escola. A rapariga chamava-se Cátia, mas eu sempre lhe chamei Loira, e sabia que não era só eu que a tratava assim. O cabelo dela mostrava-se como uma mancha invejável de luz do sol, mesmo num bar de chão peganhento cheio de adolescentes cheios de suores. Para meu grande desgosto, o namorado dela era o rapaz com quem eu própria namorara dois anos atrás e com quem acabara por, literalmente, um pacote de pipocas.
Nestes termos, tentava evitar olhar para aquela mesa, mas era quase impossível porque eles estavam mesmo atrás do André, devorando-se vivos, segundo me parecia, e segundo se viria a confirmar minutos mais tarde.
Tentei concentrar-me nos olhos do André, minúsculos atrás das lentes de aquário que trazia nos óculos, para evitar focar a imagem gigantesca do meu ex-namorado curvado sobre a imagem da Loira. Mas claro, como normalmente acontece, quando nos tentamos abstrair de alguma coisa, apenas acabamos mais atraídos. Assim, observei nitidamente a Loira pegar-lhe na mão. Vi também uma determinada luz do bar girar sobre o olhar dela, como se este faiscasse. E após tudo isto, via-a enfiar o dedo dele na boca.
Após isto, atarantada, tentei concentrar-me novamente nas palavras do André. Ouvi-o, ao longe, falar de Newton, mas não houve nada que me prendesse aos olhos dele enquanto eu olhei de novo para os loiros e, aí, sim, vi a mesma luz girar sobre os olhos fechados da Loira. E vi o sangue tombar dos lábios dela exactamente no mesmo segundo em que todas as mesas próximas ouviram o meu ex-namorado gritar e praguejar.
- Que raio se passa contigo, miúda?
A Lilith quebrou a sua conversa com a mesa atrás de si e olhou para a mesa à minha frente. O André abandonou as suas divagações sobre Física e virou-se 90º na cadeira para poder ver o que acontecera nas suas costas. E conforme eles os dois o fizeram, muitos outros se viraram para ver o que acontecera. Algo que apenas eu e eles havíamos presenciado.
A Loira colocou, discretamente, um lenço em frente da boca ensanguentada e posteriormente bebeu mais uns goles da sua pissanga.
O meu ex-namorado colocou um guardanapo em volta do dedo e gritou para todos em volta:
- Cortei-me! Que têm com o assunto? Cortei-me!
O André virou-se de volta para a nossa mesa e sussurrou baixinho:
- O Sérgio não joga com certeza com o baralho todo. Ainda bem que puseste aquele anormal a mexer.
A Lilith olhou, também, para mim e elaborou:
- Sim, a desculpa das pipocas foi muito porreira. O gajo é um imbecil, não é capaz de juntar dois mais três.
Ergui uma mão para me livrar do cabelo, puxando-o para trás. Suspirei, também, já tínhamos tido várias vezes aquela discussão.
- Não foi desculpa. Chateei-me mesmo com a cena das pipocas, e estás a ver, ele não foi capaz de pedir desculpa. Ele nunca pensou sequer em… Pedir desculpa!
- Não estás seriamente a achar que vou acreditar que acabaste com ele por um pacote de pipocas, certo? Ninguém faz isso.
Encolhi os ombros e calei-me. Havia muitos momentos em que me arrependia da minha fúria com o pacote de pipocas. Quando o via com a Loira, por exemplo.
Porém, não sabia o que pensar de momento. Acabara de o ver ser mordido por uma rapariga sem dizer mais que algum vocabulário colorido. Acabara de ver uma rapariga mordê-lo e gostar, como se fosse vampirófila ou coisa que o valha. Isto, aliado aos acontecimentos dos dias anteriores, apenas adoptava contornos mais estapafúrdios.
Duas semanas antes, uma tarde, eu e o André estávamos sentados no pátio da escola, apenas a conversar, não me lembro sobre quê, quando uns cinco miúdos que estavam a jogar futebol pacificamente (se é que isso é possível) entraram num grande alvoroço e decidiram abandonar o jogo por uma competição para ver qual de dois deles era capaz de engolir mais terra.
Claro que automaticamente, eu e o André apostámos qual dos dois ganharia. Eu apostei no mais baixinho. Observámos com atenção o desespero dos rapazes a tentar engolir a terra. Após um bocado, o mais alto desistiu e eu ganhei.
Isto por si só já pode representar um momento estranho. Mas se agora disser o que aconteceu a seguir, talvez isto ainda surja como motivo de maior espanto.
Entrámos num dos átrios das salas e, ao entrarmos, notámos desde já o cheiro irrevogável a fumo. Seguimos o cheiro e chegámos a um corredor. Neste corredor, batiam-se duas funcionárias, cada uma com a sua esfregona em chamas. Todo o corredor se encontrava apinhado de gente que aplaudiam uma ou outra. Nesta ocasião, eu e o André já não pensámos em qualquer tipo de aposta. Era simplesmente estranho e irreal o que estava a suceder ali. No público havia bastantes adultos, também, e nenhum desses tentava impedir o sucedido.
A dona Palmira, a funcionária que envergava um vestido às flores, era bastante rápida com o seu enorme archote. Contudo, a dona Rosette, a outra combatente que trazia o cabelo penteado em tranças, não hesitava em acertar em cada um dos botões florais no padrão do tecido da dona Palmira.
Que se saiba, nenhuma das duas saiu ferida do incidente, mas não foi convenientemente explicado aos alunos o motivo da situação.
Apesar de desde este dia terem ocorridos outros eventos estranhos até à data presente em que observara o meu ex-namorado ser praticamente comido de forma literal, todos eles pareciam camuflados pela exaustão das aulas, que mais do que nunca, pareciam uma terrível doença sem diagnóstico possível e sem medicação.
Ergui-me da cadeira, não dando conta de que a Lilith continuava a falar, desta vez da arte de Monet, o meu pintor preferido.
- Emília! – gritou ela, atrás de mim, perplexa.
Saí do bar, sentindo-me irresistivelmente claustrofóbica, e respirei fundo assim que consegui o ar fresco da noite. Afastei-me ligeiramente das imediações, local preferido dos bêbedos com vontade de vomitar as entranhas, e caminhei até a um banco de rua. Sentei-me, apenas.
Não estava a tentar pensar, mas antes a dar espaço à minha mente para não ter de o fazer. Era sexta-feira e estava exausta. Continha a custo um bocejo e pensei em tirar o meu MP3 para ouvir um pouco. Ainda assim, preferi ficar em silêncio, apenas um minuto, antes de voltar para ir ter com a Lilith e o André.
- Um cigarro?
Uma imagem apareceu na minha mente associada à voz que me sobressaltara. Levantei os olhos e constatei as minhas suspeitas terríveis. Quem me encontrara aqui fora o Artur, o namorado da minha prima Matilde.
Não há pessoa que deteste mais no mundo que a minha prima Matilde. Excepto, claro, a Loira e, já agora, o Sérgio, com quem acabara por um pacote de pipocas.
O Artur é alto, mesmo muito alto. A minha prima é baixa. Baixa do género metro e sessenta. Não percebo porque gosta ele da minha prima, uma vez que ele é até bastante inteligente e ela não passa duma menina mimada.
Em todo o caso, não considero o Artur uma pessoa exemplar. Longe disso. Ele é como um grande pingente de gelo muito pontiagudo e muito gelado. Ou, pelo menos, tem dois no lugar dos olhos, que parecem ter sempre a mesma expressão indecifrável.
- Não, obrigada – respondi, encolhendo-me com frio no casaco.
Ele sentou-se ao meu lado, ainda que conservando uma distância confortável entre nós. Acendeu o cigarro. Fê-lo depressa. Tem muita prática.
- Pois. Tu não fumas.
- Tu também não devias.
Os lábios dele torceram-se e ele pareceu rir baixinho.
- Mesmo. Mas o que é o pior que me pode acontecer? Morrer mais depressa? – e depois de dizer estas palavras riu-se de novo baixinho.
- Isso mesmo. Bem, eu também não sou ninguém para te dizer o que fazer.
- Acertaste nessa. A propósito, a Matilde andou a contar-me umas histórias tuas de infância.
- A sério? Que bom que nenhum de vocês tenha algo minimamente interessante para fazer para além de falar de mim.
Tinha gelado. Sem querer, sem sequer dar conta, senti-me ficar sólida na cadeira. Encolhi-me um pouco mais.
- Incomoda-te que falem de ti? – perguntou ele, com a sua voz mais glaciar. Por um momento, olhei para ele e ele olhou para mim e senti-me humilhada por aquele olhar. Assim, desviei os olhos.
Levantei-me, olhei para ele apenas mais uma vez e dirigi-me para o interior do Vendredi. Senti-me automaticamente a arder como uma vela.
Fui ter à minha mesa original e fiquei satisfeita por ver que tanto o Sérgio como a Loira tinham desaparecido, sendo substituídos por cinco raparigas amontoadas e terrivelmente felizes.
A Lilith olhou para mim, sentida, e eu presumi que ela me estava a pedir uma explicação.
- Odeio bares apinhados de gente. E estás a ver, este em particular. Devíamos passar a ter mais noites de cinema em casa para substituir esta seca.
O André concordou comigo. A conversa fluiu de novo até que de repente vi a Loira e o Sérgio a devorarem-se novamente, desta vez na pista de dança. A minha fúria agravou-se quando a minha prima Matilde entrou, nos seus saltos altos esplêndidos, de braço dado com um rapaz alto, de olhos gelados, e com um meio cigarro na mão.
Assim, despedi-me dos meus dois amigos e fui para casa. Ainda assim, não estava à espera de lá encontrar o JP, o meu irmão, ainda para mais na cozinha com um copo de leite e com um pijama com vaquinhas vestido.
- Miúda, onde estiveste até tão tarde? Que horas são?
Respondi-lhe num suspiro quase como que um bocejo:
- Estive no Vendredi. Caso não saibas ler as horas, tal como eu suspeitava, querido maninho, o relógio ali da cozinha diz que são duas horas. Vês? O ponteiro pequenino está no dois… Do-ois. E estás a ver, são duas – disse, antes de levantar dois dedos.
- Que engraçadinha que estás hoje. É estupidamente tarde. Que estiveste a fazer e com quem estiveste?
Irritei-me. Lá por os nossos pais passarem tanto tempo fora de casa, não quer dizer que ele tenha de assumir as responsabilidades de me perguntar onde estou.
- Estive com o André e com a tua querida ex-namorada. E estás a ver, diz-me que não deixaste a Matemática por fazer para me andares a controlar a vidinha toda.
O plano de o distrair lembrando-o da sua relação passada com a Lilith pareceu resultar, uma vez que a partir desse momento ele parou de fazer perguntas.
- O teu hábito irritante do “e estás a ver” está-me a fazer passar dos carretos, não tarda. E já disse que não quero que te refiras à Lilith assim. Somos amigos, apesar de tudo.
- Eu sei – e sorri – mas parece que lembrar-te disso te deixa furioso.
- Já foi há muito tempo. Tal como tu e o gajo das pipocas.
- O Sérgio – corrigi.
- Isso. Não estou muito interessado. Leite? – ofereceu ele, enquanto eu agarrava numa caneca do armário.
- Se faz favor.
Vi-o esvaziar o pacote e depois deitá-lo fora. Bebemos leite em silêncio durante uns instantes. Depois fui também buscar bolachas.
- Vais comer bolachas? A esta hora? E que tal se fores para a cama? Não é nada cedo.
Ignorei-o.
- A Matilde estava lá.
- Também, onde é que essa ave rara não está… Trazia o guarda-costas pelo braço?
- Sim – mas não lhe contei que falara com ele. Que ele me oferecera um cigarro. Que se sentara lado a lado comigo e que me humilhara. Há coisas que não se contam aos irmãos. E essas coisas são mais do que as que se contam, de facto, aos irmãos.
- Espero que ela tome juízo, um dia destes. Bem, vou-me deitar. Faz o mesmo.
Esperei enquanto ele se afastou. Ouvi o silêncio.
No dia seguinte acordei por volta das onze. O JP ainda estava a dormir. O único sinal dos meus pais era um post-it no frigorífico a dizer “Comprar leite. Passear o cão. Beijinhos.”
Saí com o Rockline (nem queiram saber como arranjou o nome), o meu venerável pequeno cão que detesta que o chamem pequeno, e também rafeiro. Após o cumprimentar dirigimo-nos pelo nosso trajecto habitual, seguindo pela passeio da minha até ao parque mais próximo.
Contudo, estávamos apenas a meio da rua quando passámos pelo prédio onde habitava o meu adorável ex-namorado, o Sérgio, e este saía de casa com a Falbala, a sua própria cadela.
Os nossos olhares cruzaram-se, indecisos. Acabaram por se decidir por um breve brilho de reconhecimento e foi ele o primeiro a dizer-me “olá”.
- Olá – respondi-lhe. E estava a este ponto preparada para fingir que não o conhecia e continuar a andar. Contudo, as coisas complicavam-se, uma vez que ele próprio ia levar a Falbala para o mesmo parque.
- Como vai o Rockline? – perguntou ele, tentando fazer conversa de circunstância.
- Bem. Como está a Falbala? – perguntei, tentando ser educada.
- Bem, também.
Neste ponto ambos ficámos sem nada para dizer durante uns poucos de segundos até percebermos o quão felizes estavam os nossos cães de se voltarem a ver após dois anos. Quando dei por ela, o Rockline tinha já enrolado a trela dele na trela da Falbala, estando, assim, os dois presos um no outro, e eu irreversivelmente presa ao Sérgio.
- Falbala, porque não paras quieta? – perguntou ele, visivelmente incomodado.
- E estás a ver, temos os cães mais irrequietos do mundo – disse eu, também incomodada.
Ele olhou para mim, de repente, e esquecendo-se dos cães por um instante, disse:
- Ainda não largaste essa mania irritante do “e estás a ver”! Será possível?
Senti as bochechas colorarem-se de vermelho e tentei olhar para qualquer outro lado.
- Acontece. Seria de esperar que me tivesse passado ao fim dum ano, ou dois, mas a verdade é que nem por isso.
- Sabes, é uma pena termos deixado de falar quando acabámos. A verdade é que tu sempre fostes uma companhia decente, ainda que irritantemente chata.
- Ah, isso era um elogio?
- Completamente. Em todo o caso, rica desculpa que arranjaste para acabar comigo… É natural que ficasse tão chateado que nunca mais te quisesse pôr a vista em cima.
Olhei para ele, também de repente, e senti a testa enrugar de raiva.
- Não foi uma desculpa! Tu devias ter-me passado aquele pacote de pipocas! Em todo o caso, aquilo foi apenas um exemplo daquilo que estava sempre a acontecer!
- Ai sim? E o que era que, exactamente, estava sempre a acontecer? É que sabes, parece-me que o tempo em que andámos juntos foi um grande monte de nada. Nada, vês? Nunca acontecia nada!
- Nada? Acontecia o suficiente para tu andares sempre a chatear-me com mensagens!
- Eu, chatear-te? Estava apenas aborrecido. Como disse, naquela altura, era bastante frequente.
- Ah sim? E então e agora, deves divertir-te à brava com aquela loira que tanto comes e que tanto te come ela, ao ponto de te deixar o dedo a sangrar! Aposto que foi… - e este foi o momento em o Rockline e a Falbala decidiram começar a correr, arrastando-nos aos dois, desprevenidos. O Sérgio largou a trela, e agarrou-se ao dedo, que sangrava de novo, como se o lugar onde tinha sangrado se tivesse aberto de novo, enquanto que eu, firme aos meus objectivos, permaneci com a mão a agarrar na trela, só para ser atirada ao chão pelo impacto e ser depois arrastada como um grande trenó humano.
Digo-vos, há muitos momentos embaraçosos na vida.
Lembro-me de quando o meu tio Júpiter, que é médico e um pouco maluco, me veio buscar à escola há uns anos e trouxe um cartaz a dizer “Emília do 9ºA” para gozar comigo. Foi a piada da turma durante um mês.
Lembro-me também do dia em que o JP me pôs coca-cola no banco da cantina e eu tinha levado calças claras. O que me valeu foi que uma colega minha tinha um casaco que pude pôr à cintura. Mas era a única que tinha um casaco, o que foi de facto uma sorte. Afinal de contas, era Junho.
Mas nenhum desses momentos se pode comparar com o momento em que fui arrastada pelo Rockline e a Falbala três metros pelo chão, sujando todo o meu fantástico casaco preto, enquanto o meu ex-namorado assistia e os tentava fazer parar.
Quando finalmente os cães pararam e os meus berros e tortura física e psicológica cessaram, encontrei uma mão, suspendida no ar, oferecendo-me ajuda.
- Obrigada – disse, com as faces em chamas.
- Isso é que é determinação em segurar o Rockline. O pobre não pode dar um passo. Estás bem?
- Sim – respondi, tentando evitar olhar para ele.
- Ainda bem. Olha, toma o Rocky – disse, estendendo-me a ponta da trela que ele agarrara após o meu esqui algo desastroso. O sangue do dedo dele ainda não tinha secado. Fiquei com a mão esfolada de se ter agarrado à trela manchada com o sangue dele e, por momentos, senti-me enjoada com isso. Limpei as mãos às calças, algo desastrosamente – Eu acho que já chegou para a Falbala. E quanto a isso da Cátia me ter mordido… Não o repitas. É mentira.
E assim, afastou-se, lutando para afastar a Falbala do meu querido Rockline. Por dentro, sentia o coração dilatar e contrair, e sentia as pulsações individualmente em cada fibra do corpo. Mas claro, podia ser apenas da minha queda vergonhosa.
Porque é que os cães tinham começado a correr assim? É impossível saber. Mas uma coisa era já ponto assente. Alguma coisa estava a acontecer naquela cidade.