Acordei, com a luz nos olhos, numa cama de hospital. Na cama do hospital psiquiátrico onde acordara em sonhos, algumas noites atrás. Estaria eu a sonhar de novo?
Foi nesse instante que notei a presença de uma mulher que eu nunca vira, vestida de branco. Uma enfermeira? Médica? Que se estaria a passar comigo? Teria eu vindo parar ao hospital por causa das queimaduras?
Ela sorriu um sorriso resplandecente, como se o facto de eu ter acordado a fizesse genuinamente feliz.
- Oh, que bom, Mia, acordaste! Os teus pais vão ficar tão felizes!
Pestanejei, perturbada. De repente, todo o ardor que sentia já não me doía. Ergui as mãos e constatei, alienada, que estavam intactas e sem marcas: da mesma cor que sempre. Em vez de isto me trazer alívio, trouxe-me medo. Teria sonhado tudo o que se tinha passado? Se sim, porque é que estava naquele hospital?
A senhora do sorriso simpático saiu a correr, e voltou em segundos com os meus pais. O que é que se estava a passar?
As caras deles eram um misto de alegria, comoção e preocupação. Teriam eles sobrevivido às criaturas? Estaria tudo bem?
- Pai, que se passou? O JP e a Lilith estão bem? Conseguiram livrar-se das criaturas todas? – perguntei, com um nó na garganta, porque tinha medo, muito medo.
Os meus pais ficaram em silêncio, durante alguns instantes. As caras de ambos eram a cara de quem lamenta.
- Oh Deus. O que aconteceu? Onde está a Lilith? O meu irmão? Magoaram-se?
Foi a minha mãe que se aproximou e, muito devagarinho, se ajoelhou junto à minha cama. Pegou-me na mão miraculosamente curada e disse-me, baixinho:
- Emília… O teu irmão está muito bem, está na escola…
- Na escola? – como é que alguém podia ir à escola quando toda a cidade tinha sido tomada por vândalos monstruosos? Como, quando o André ainda andava à solta? Talvez o tivessem apanhado… Talvez os tivessem curado a todos… Mas a Lilith, a Lilith… - E a Lilith?
A minha mãe suspirou baixinho e olhou para o meu pai, como que pedindo apoio. Ele aproximou-se também, mas foi novamente a minha mãe quem falou:
- A Liliana… Filha, naquele dia em que vocês as duas foram ao cinema… Ela foi apanhada por um malvado qualquer quando foi à casa de banho, e… A Liliana… Morreu, filha.
Senti nos olhos, a alma, entornada, como o líquido do copo de pé alto que é a lucidez.
Cuidadosamente, quase como quem toca um recém-nascido, ergui o copo, dentro de mim. Tentei recolher a alma para dentro do vidro. Ainda assim, grande parte dela teimou em fugir-me pelos olhos, enquanto me cobria com os cobertores e me revirava na cama.
A minha mãe continuou a falar. As lágrimas dela estavam espelhadas também na voz com que me falava, com que me contava o que tinha sido a minha vida naquela semana e pouco.
- Tu começaste a delirar… Começámos a perceber que alguma coisa estava errada contigo… Estiveste internada desde aí, mas por momentos, pensei que te íamos perder, Emília… Só dizias coisas sem sentido, durante o sono, e mesmo quando estavas acordada tinhas os olhos vidrados como que fixados numa realidade diferente…
Tentava, a todo o custo, tentar absorver os sons de dor da alma no cobertor, enquanto esta lutava para se libertar. Mas eu não a queria deixar… Já tinham chegado estes poucos dias em que ela não parara no próprio corpo que era o meu.
Imagens que não vira assaltavam-me, agora, como se fossem a verdade, imagens do meu pai e da minha mãe, sentados junto à minha cama. Imagens até da Raquel e da Vanessa e de muitas outras pessoas, que me tinham vindo ver na quarta-feira à tarde da tarde que tinham livre. Imagens do André que tinha vindo com os trabalhos de casa debaixo do braço, apenas para os deixar, abandonados e sem esperança sobre a mesa junto à janela do quarto de hospital. Imagens do tio Júpiter, vivo e preocupado, mas uma pessoa boa, a pessoa boa que ele sempre foi. Imagens do meu irmão, triste como mais ninguém, dizendo-me, baixinho, as mesmas palavras que me tinham feito acordar do meu estado de loucura:
- Pára de sonhar, Mia. O Artur não existe.
E foi por ele que perguntei de seguida. Desta vez, o meu pai respondeu-me, e disse-me, como quem não condena, como quem compreende tudo:
- Não há ninguém na tua escola chamado Artur… Nunca houve… Nós perguntámos, porque repetias o nome dele quase incessantemente, por vezes. Mas não há nenhum Artur, ninguém.
- E o Sérgio? – perguntei, desesperada, como se qualquer pedaço de informação fosse a jangada que me trouxesse de volta ao lado racional da vida – O Sérgio veio cá, alguma vez? A Matilde! A Matilde era a namorada do Artur! Ela veio cá?
Os meus pais olhavam-me, quase sem entender, quase como se ainda estivesse doida.
- O Sérgio? O teu ex-namorado? Não, não veio cá. A Matilde veio cá sim, com a tia Daniela e o tio Marco, nós perguntámos-lhe se conhecia algum Artur, porque queríamos saber quem era ele, mas ela disse que não, que nunca conhecera nenhum Artur, e que era um nome estúpido. O teu irmão quase lhe bateu várias vezes nesse dia, com algumas coisas que a rapariga dizia.
Sentia-me como se a cada palavra, a cada segundo, uma pedra me abandonasse os pés, e como se eu ficasse, desamparada, em pleno voo, em plena queda…
- Porquê? – reclamei, baixinho, engolindo as lágrimas – Como é que perdi assim a minha sanidade toda? Como? Como é que a Lilith…? A Lilith morreu, como é que é possível? O Artur é como se tivesse morrido… O Sérgio não quer saber de mim para nada… Porquê? Para quê viver assim, se enquanto era louca era tão mais completa?
A minha mãe abraçou-me, por cima dos cobertores, e adormeci a chorar baixinho, tentando evitar as lágrimas, para as deixar encher de novo o meu copo vazio mas agora de pé – o meu copo da lucidez.
As luzes eram fracas e a música muito alta, mas não era capaz de disfarçar os risos múltiplos que eram os meus e os da Margarida. Cada uma tinha à sua frente uma garrafa de cerveja meio cheia (ou meio vazia) e ríamo-nos descontroladamente por causa de um bêbedo ridículo que tinha pedido descaradamente o número da Margarida. A Margarida era a minha melhor amiga desde há três anos, quando entrara na universidade e a conhecera.
Ela parou de rir, por instantes, e avisou-me, discretamente:
- Não dês muito nas vistas, mas está ali um loiro adorável a tentar ganhar coragem para vir ter contigo. Não pára de olhar para ti.
Discretamente, virei-me na cadeira e tentei ver de quem é que ela estava a falar. Como se um cubo de gelo me deslizasse pela coluna abaixo, reconheci o Sérgio, sentado ao balcão.
Virei-me de rompante.
- Oh Deus. É o Sérgio.
A Margarida abriu a boca com o choque e sibilou, quase como quem não consegue acreditar.
- O quê? Aquele é o gajo que deixaste por um pacote de pipocas no 10º ano? Miúda, não devias estar boa… O gajo não é nada de se deitar fora!
Deixei-me rir, contra vontade. Também contara à Margarida tudo sobre o meu “período negro” em que tivera alucinações. Ela sabia exactamente o papel que o Sérgio tinha tido nas minhas alucinações, mas fiquei grata por apenas encontrar como ponto de referência o pacote de pipocas.
- Tu és tão parva… Ele mereceu. Sabes bem que sim.
- Costumava achar que sim, mas dantes nunca o tinha visto! Caramba, miúda, vai mas é falar com ele.
A sugestão apanhou-me de surpresa. Não tinha pensado nisso. Bem, é claro que já tinha pensado variadíssimas vezes no que aconteceria se visse o Sérgio outra vez… Quem não pensaria? Mas nunca tinha pensado nisso seriamente, apenas como forma de recriação pessoal. Afinal de contas, nunca mais faláramos desde o incidente do pacote de pipocas. Isto porque presumo que o nosso encontro adorável enquanto passeávamos o Rockline e Falbala tenha sido também fruto da minha imaginação hiperactiva (ou da minha sanidade mental em estado decrépito). Mas e daí, era até uma boa ideia voltar a falar com ele. Seria agradável. Tinha sido importante para mim durante tanto tempo… Porque não?
- Sabes que mais? Vou mesmo – disse à Margarida e ela sorriu-me, erguendo a garrafa dela em jeito de brinde. Eu fiz o mesmo com a minha e levei-a depois comigo enquanto me dirigia para o Sérgio. Ele pareceu estar a olhar para mim, mas depois pareceu disfarçar, para apenas olhar para mim quando eu o cumprimentei, com um sorriso simples e uma sensação estranha de que as borboletas no estômago tinham diminuído apenas ligeiramente de tamanho desde a última vez que o vira, na viagem de finalistas. Tinha sido já há bastante tempo.
- Olá, Sérgio.
Ele olhou para mim, e fez-se de surpreendido, e sorriu para mim. Um sorriso fácil, como o meu. Às vezes, parece que dar tempo ao tempo torna tudo muito mais simples, especialmente os sorrisos.
- Olá, Mia. Há tanto tempo… Como estás?
- Bem. Muito bem. Tu? – perguntei, antes de beber um pequeno golo da minha garrafa.
- Bem, também. Não esperava encontrar-te aqui…
- Eu é que não esperava encontrar-te aqui… Eu moro aqui – ri-me, enquanto disse isto, mas nem sabia bem porquê.
Ele riu-se também, e duvido que soubesse porquê.
- A sério? Não sabia. Eu não moro aqui… - constatou, também, e rimo-nos de novo sem motivo. Talvez tivéssemos bebido de mais. Talvez. E de súbito, dei por mim a dizer uma coisa que apenas tinha dito em sonhos (ou uma espécie de) e que há tanto tempo lhe queria dizer:
- Ouve, Sérgio, desculpa ter acabado contigo no 10º ano por causa dum pacote de pipocas. Fui uma idiota. Passei o resto do Secundário a lamentar tê-lo feito.
Ele não riu, mas sorriu de novo. Não parecia chateado. Não parecia chateado de todo.
- Ei, eu também tive culpa, Mia. Fui eu que não te dei a porcaria do pacote de pipocas. Fui eu que não pedi desculpa. Fui eu que nunca mais te falei desde esse dia… E ouve, bem que me arrependi disso. Nunca te disse, tal como nunca te disse muita coisa, mas foste aquela que me escapou. Eles fartam-se de dizer isto nos filmes, mas é a verdade.
Sorri, também, ainda mais, genuinamente. Talvez ele estivesse a inventar, talvez não. Ambos tínhamos mudado bastante e eu estava a gostar imenso desta conversa.
- A sério? – perguntei.
- A sério – confirmou ele.
- Então e a Loira, qualquer que fosse o nome dela? Andaste com ela quase o 12º todo… - perguntei, quase como que o desafiando a dizer-me que fora um parvo por ter andado com ela.
Ele riu-se com a minha pergunta. Eu pensava na Margarida, de olhos fixados em nós os dois, rezando para um desfecho romântico. A Margarida era terrivelmente romântica. Nada como a Lilith, pensava, às vezes. Mas era uma boa amiga. Devia estar a delirar com tantos risos e sorrisos.
- A Loira era isso mesmo: loira. Eu sei que também sou, e talvez seja estúpido admitir isto, mas às vezes penso mesmo que os loiros são mais estúpidos. Caso contrário, não teria andado com aquela avestruz sem cérebro tanto tempo, e não te teria deixado acabar comigo assim do nada. Afinal de contas, que raio de motivo. Admite, foi uma desculpa.
- Eu admito. Foi uma desculpa. Mas não foi uma desculpa para acabar contigo, antes uma desculpa para nos chatearmos e depois fazermos as pazes. Como é que eu ia adivinhar que não ia resultar?
Ele ficou a olhar para mim durante vários segundos seguidos e, depois, sem pensar duas vezes, uniu os lábios dele aos meus, só para depois de novo os separar.
- Desculpa – disse, de imediato – Provavelmente tens namorado, ou assim. Ou, sei lá, talvez me detestes…
Mas dessa vez, fui eu que o agarrei pela camisola com a mão que não segurava a garrafa de cerveja e que uni os meus lábios aos dele. E nenhum de nós os separou durante muito tempo.
Tinha anoitecido mais depressa do que eu esperara. As minha pernas doíam-me e a minha carteira escura parecia feita de chumbo. Mas tinha de continuar, ou ainda me assaltavam, e sabe Deus o que pode uma mulher de oitenta anos com problemas cardíacos contra um assaltante temível. Além disso, a minha casa já não estava assim tão longe. Só tinha de me esforçar um pouco mais.
Desde que o meu Sérgio morrera, há dois anos, com uma pneumonia, tudo o que eu tinha era eu própria. Saíra tarde de casa, esperando ter tempo de ir à farmácia. Mas encontrara-a fechada. Tinha tido de ir a outra farmácia, e agora era já de noite.
Não gostava da noite nem do escuro desde os meus dezassete, dezoito anos, em que durante uns dias tinha estado internada num hospital psiquiátrico por causa de alucinações. As alucinações. Tinha sempre temido que elas voltassem, mas nunca tinham voltado, para minha grande sorte ou desgraça. Tinha sido uma grande perda, naquela altura, ter acordado daquela loucura temporária. Desde aí, tinha tomado comprimidos diariamente, e aparentemente tinham resultado. Mas um dia, talvez por volta dos meus trinta anos, desisti de os tomar, porque tinha saudades da Lilith, porque tinha saudades do Artur. Isso mesmo, apesar de casada com o melhor homem do mundo, eu não era capaz de abandonar por completo o mundo que a minha cabeça criara. Mas as alucinações, mesmo assim, sem os comprimidos, não tinham voltado nunca. Nunca mais os tomei.
Talvez isso explique o que eu estava a ver diante dos meus olhos, e no qual não queria acreditar.
- Senhora, deixe-me levar-lhe a carteira… Eu juro que não a vou roubar, é só que… Há qualquer coisa em si… Isto pode parecer esquisito, minha senhora, mas eu acho que estou apaixonado por si…
- Vai-te embora, Artur – disse-lhe simplesmente, continuando a andar, sem parar, enquanto que ele andava à minha frente, sem esforço, de costas, uma vez que eu andava tão devagar.
A face dele era exactamente a mesma que deixara naquele sábado à noite em que o vira pela última vez. Os olhos dele, igualmente impenetráveis, mas profundos, duma cor escura e extrema que nunca mais vira em olhos nenhuns. Agora que eu minguava, devido à minha idade avançada, ele parecia-me ainda mais alto. Na mão tinha o sempre cigarro, e deu-me vontade de lhe bater por após estes anos todos ainda manter os maus hábitos, não fosse eu uma senhora de respeito.
- Vê, senhora? Estamos destinados… Até conhece o meu nome. Eu tenho um conjunto de cadernos, já com umas décadas… E eles falam-me duma Emília, há já sessenta e tal anos… Não será a senhora? Eu amo essa Emília… E todas as cores que os cadernos descrevem, as cores do sentimento maravilhoso, eu vejo-as todas, minhas senhora… Quando olho para si – e o sorriso dele era quase fatal no meu coração, porque era exactamente o mesmo que lhe vira há tantos anos.
- Deixa-me, Artur… - disse-lhe, apenas. Não me podia dar ao luxo de tombar o copo de novo, não nesta idade. Talvez o copo da lucidez nunca mais se pusesse de pé.
- Posso chamá-la pelo seu nome também? Emília? És tão bonita, mesmo com todos estes anos passados, continuas tão bonita…
- Obrigada e igualmente. Passa bem – dizia-lhe eu, simplesmente, mas as minhas pernas não me deixavam fugir dele como tinha fugido naquele dia no pinhal… Eu tinha gostado tanto de correr… E agora não podia…
- Emília, amo-te. Só desejava poder tocar-te e poder ser teu mesmo depois do sol nascer. Desejava ser eu, mas ser eu contigo. Só contigo vale a pena. Os cadernos contam-me os anos… Mas eu não quero saber dos anos, porque todos esses anos foram dolorosos, porque não te tive, Emília. Eu tive-te há muitos anos atrás, e não nos anos todos que se seguiram, e doeu-me. Não me lembro, mas até agora me dói saber que um dia não existirás mais, e ainda existirá o meu amor por ti. Porque existe sempre… Tu existes sempre… Porque existes comigo, e eu vou sempre existir, para mal do meus pecados.
Por fim, parei, farta, porque estava muito cansada. O Artur tomou-me a carteira com a mão que não segurava o maldito cigarro, e eu não o pude impedir.
- Então reza, Artur, reza pelos teus pecados. Reza porque me abandonaste, assim, sozinha no mundo em que tu não existias, e não voltaste mais. Reza porque és ainda belo e jovem, enquanto que eu envelheci e vou morrer mais ano, menos ano. Reza porque já devias ter morrido há muito tempo com cancro do pulmão, uma vez que não largas esse hábito terrível de fumar, fumar, fumar… E reza, reza porque não existes se não na minha cabeça!
Enterrei a cara de pele em pregas enrugadas nas mãos traçadas e gordas, de unhas velhas, unhas podres. Eu desfazia-me à frente dos meus próprios olhos. A minha vida e os meus anos haviam sido tudo o que sonhara antes dos sonhos, mas não tivera o que sonhara nesses sonhos, pois que me tinha valido a vida, então?
Quando ergui a cabeça das mãos, o Artur tinha desaparecido. Tinha-me abandonado, outra vez. E tinha levado a minha carteira com ele.
Mas de repente, ouço passos atrás de mim. Antes de que tenha tempo para me virar, a pessoa está à minha frente, segurando a minha carteira. E fala:
- Olá, Mia. Tiveste saudades minhas?
E, vendo a Lilith como a última imagem que tenho dela, no cinema, cheia de piercings e de cabelos pintados de negro mal amanhados num penteado duvidoso, sinto o meu coração vacilar com o medo. O copo lúcido entorna-se, na minha cabeça, e estilhaça-se. A Vanessa morta passeia pela rua feita criatura das águas. O meu professor de Matemática do 12º ano é um borrão a duas dimensões, que grita comigo. A D. Palmira e a D. Rosette avançam contra mim com esfregonas em chamas empunhadas. A Loira e a Matilde, também com a aparência de dezassete anos, atravessam a rua com olhares cínicos e cospem no chão. O André está no chão, a tactear, à procura dos óculos. Até o meu falecido marido emerge das sombras, loiro e maravilhoso, e vai ter com a Loira e beija-a apaixonadamente. Ela morde-lhe o dedo e o sangue escorre-lhe pelo queixo.
A Lilith pega-me na mão vincada e calejada, gorda e feia, e sossega-me, sussurrando:
- Não te preocupes, Mia. Em segundos vais poder juntar-te a nós.
E nesse instante, como o copo que é a minha mente, eu própria sinto o coração estilhaçar-me no peito. Caio, no meio da estrada de alcatrão vazia, com a carteira e um uma beata mal apagada ao meu lado, e sinto-me como se todo o líquido que é a minha alma se evaporasse de vez do meu peito ardente.
domingo, 29 de novembro de 2009
A Última Noite - FIM
FIM
A 7ª Noite
Naquela tarde, a noite caiu cedo, assim que fomos fechados no sítio escuro que a Lilith tinha descrito como o seu cenário permanente durante o tempo em que esteve desaparecida. Tinham-nos amarrados a cadeiras e tínhamos os três mordaças na boca, como que imitando filmes de má qualidade.
O André era o único que tinha ficado na mesma divisão connosco. Na sua cor pálida quase transparente, parecia que tinha adoptado uma terrível face negra, e um comportamento verdadeiramente psicótico.
Ria-se muito, sozinho, como se tudo isso fosse normal. Por fim, pareceu aborrecer-se e soltou a minha mordaça, dizendo:
- Olá, Miazinha, minha amiga adorável. Como estás hoje?
- André… Vamos conversar – sugeri, ignorando a pergunta, tentando soar apaziguadora, mas não de uma forma irritante. Queria tirar-nos a todos daquela enorme confusão. Nada era o que parecia, já tinha aprendido essa lição. E agora, tinha de mostrar que também aprendera aquela que seguia pelas linhas de “Nunca ofendas um monstro”.
- “André… Vamos conversar!” – imitou ele, em falsetto, fazendo pouco de mim. Aquele não era o André que eu conhecera, excepto nas feições – Acerca de que é que queres conversar, miúda? Sobre os meus planos diabólicos temíveis? – e nesta altura experimentou uma risada maléfica, mas a verdade é que não resultou.
- Seria um bom ponto para começar, sim, e algures pelo meio os motivos para me teres mandado raptar a mim e à minha família – e de seguida apontei com a cabeça o meu irmão e o meu pai que continuavam atados e silenciosos.
O André riu-se de novo. Parecia estar a ter dos melhores momentos da vida dele.
- És tão parva, não és, Mia?
O insulto magoou-me, mas fiz de conta que não se passara nada. O André suspirou, resignadamente, como se se aborrecesse.
- Então olha: é simples. Talvez seja preferível contar-te primeiro como é que o teu queridinho adorado Artur se transformou num ser fotofóbico.
Os olhares tanto do JP como do meu pai pareceram aumentar de surpresa. Era deprimente pensar no que teria de lhes contar se alguma vez saíssemos dali vivos.
- Seria um bom ponto para começar, sim – concordei, para impedir que ele se perdesse nos seus devaneios e não me relatasse tudo como deve ser.
- O teu tio nunca te quis magoar. Fui eu, com a ajuda dos meus aliados, que consegui que ele te desse aquele “antídoto” que ele esperava que apenas te fizesse bem. Claro que eu não esperava que o desses ao Artur, esperava que o bebesses tu! O Artur foi um erro do início ao fim. Ele era um dos meus aliados, no início, mas depois chegaste tu, e os remorsos estúpidos dele, e o que aconteceu foi que ele se esqueceu de fazer o que eu lhe tinha mandado para fazer aquilo que ele pensava que era melhor… Pois olha, bem vês que eu, sem nada fazer por isso, fui vingado. Se não há karma, não sei o que é isto. Lei do par acção-reacção? Determinismo? Não interessa, eu devia ter sabido que tu ias dar cabo dele. A única coisa que correu mal nisto tudo, foi que saíste incólume, ao contrário da Lilith. Bem vês como a tirei do caminho assim que começou a desconfiar. Ela falou comigo, mas não contigo porque não te queria preocupar. Ela achou que eu compreenderia, porque era um génio, tal como ela. E tu… Desculpa, Mia, mas a verdade é que sempre foste a burrinha do nosso triângulo adorável.
Engoli em seco, mas forcei-me a não responder. Talvez assim ele me contasse as coisas mais depressa, sem se distrair do seu intento.
- Porque bem vês, eu tenho um plano. Não o de conquistar o mundo, não sou assim tão sociopata. O meu objectivo é o de tornar possível a experimentação em humanos. Já imaginaste o quão a Ciência iria evoluir a partir disto?
Esta era de facto uma explicação muito fraca, no fim de tudo isto pelo que passei. Mas não pude contemplar esta realidade por muito tempo, uma vez que após uns instantes escassos a porta se escancarou e o Artur apareceu junto dela.
Entrou, sem hesitações, sobre o olhar perplexo do André, e deu-lhe um murro único que o deitou ao chão. Como o Artur era muito mais alto e forte que o escanzelado do André, este nem sequer tentou resistir. Posteriormente, o Artur soltou-me, o mais rápido que conseguiu, e depois cada um de nós libertou os dois homens da minha família.
- Ah… Pai, JP, este é o Artur. Ele está do nosso lado, suponho eu…
- Sim, supões bem. Já falamos.
O Artur desta noite era muito introspectivo, durante toda a nossa fuga, não disse mais uma palavra, e nem sequer explicou como nos encontrara ou como tinha passado pelos tais “aliados” do André. Não disse absolutamente mais nada.
Nós seguíamo-lo, confusos. O meu pai ainda me fez uma pergunta qualquer, mas como eu não lhe soube responder, limitou-se a caminhar também calado.
Caminhámos pela cidade, em silêncio, eu que era a que tinha as pernas mais curtas quase correndo para os acompanhar. Ao fim de um bocado, chegámos a um beco onde uma figura nos esperava.
A Lilith, que estava de pé, aparentemente sem qualquer mazela.
- Lilith! Tu não podes estar de pé! – reclamou o meu irmão, quando a viu.
- Posso sim, JP. Eu recuperei. Hoje, tive que ir à procura dele, uma vez que era a única forma de vos poder ajudar. Também tentei falar com o Sérgio, mas ele não me atendeu. Eu soube… Eu soube da casa. A vossa mãe está em minha casa, preocupadíssima, talvez devessem ir lá.
- Então e tu, que é que estás aqui a fazer ainda?
- O Artur não sabia onde era a minha casa. Tive de esperar por vocês para vos dizer isto.
Todos estes acontecimentos se desenrolavam à frente dos meus olhos, tal como quem vê um filme a 3D. Mas não estava a ser divertido. De todo.
- Talvez vocês os dois devessem ir ter com a mãe – disse para o JP e para o meu pai – Eu tenho que ir… à polícia – menti.
- À polícia? Mas que raio lhes vais dizer, que um monte de criaturas geneticamente modificadas nos entraram pela casa adentro e que nos aprisionaram? – perguntou, céptico, o meu pai.
- Pai, eu tenho que falar com o Artur. Eu não posso explicar tudo agora, mas depois vou tentar…
O meu pai tentou impedir-me, mas eu já andava na direcção oposta, com o passo mais rápido que consegui arranjar, arrastando o Artur por um braço.
Mal os perdemos de vista, parei no meio do caminho e perguntei-lhe, sem rodeios:
- Que tipo de pessoa és tu hoje? De que te lembras?
- Nada – respondeu ele – Acho que é usual. E sou… Sou eu.
Esta única frase teve o condão de me pôr com a alma de joelhos junto aos olhos, para depois mergulhar e me fazer chorar.
As minhas lágrimas, por sua vez, tiveram o condão de fazer o Artur perder toda a falta de expressividade e de comunicação. A medo, ele ergueu a mão e pousou-ma na face, e com um dedo gelado limpou-me a lágrima fugitiva. E com a voz mais terna e inacreditável, sussurrou baixinho:
- Não chores, Emília… Não chores por mim.
Mas isto só me fez chorar mais e ele abraçou-me para que toda a minha alma vertida o atingisse directamente no coração.
Foi neste momento que, novamente, me vi perseguida por criaturas de pesadelo. Vinham do caminho de onde tínhamos vindo; o meu coração pululou desejando que a minha família e a Lilith estivessem bem e não tivessem sido raptados de novo.
Em pânico crescente, limpei as lágrimas com uma mão e quase me esqueci de que era suposto estar a chorar. Agarrei, sem pensar, na mão do Artur, e corremos os dois, em fuga das temíveis criaturas.
Galgávamos os paralelos do chão quase sem os tocar, de tão rápido corríamos. E eu sentia, feliz, o ar na minha cara. Sentia, feliz, a mão do Artur na minha.
No caminho, via as árvores com as ramadas a serem como que puxadas e empurradas por mãos invisíveis, furiosas. O lixo largado por alguns transeuntes durante o dia voava, agora, de encontro a nós, de encontro à multidão de monstros que nos perseguia, sem vontade própria, mas com apenas o intento de servir o fantasma que eu criara, porque ele não mo dissera, mas de alguma forma sabia: o André tornara-se agressivo e descontente porque me quisera, e eu nunca tinha demonstrado qualquer interesse romântico por ele. Assim, o seu próprio medo tornara-se a sua cara; fora esquecido por mim, ainda que com grande desgosto meu.
Tudo se começava a encaixar, ou pelo menos assim era na minha cabeça. Tudo fazia sentido, os monstros e a tristeza, os acontecimentos impossíveis e a solidão: porque um plano só se cria quando algo nos impulsiona para isso.
Atrás de nós, ouviam-se as palavras mais feias do mundo, algumas delas, ainda nem sequer existiam antes daquele momento, mas naquele momento criavam-se: eram proferidas e cuspidas só para os nossos ouvidos. E ainda que nós fugíssemos, e ainda que nós as ignorássemos, ouvíamo-las, nítidas, repetindo-se incessante e horrorosamente nas nossas cabeças…
E eis que neste instante, o nosso caminho é perturbado por um vulto quieto, de braços cruzados, recortado em traços escuros contra a luz do candeeiro atrás de si. E o seu cabelo é uma auréola doirada de cabelos esvoaçantes e claros.
- Sérgio! Que estás aqui a fazer? – ouvi os meus lábios pronunciarem, dando voz aos meus pensamentos, quase sem pensar que o ia de facto perguntar.
- À vossa espera. Vocês não vão passar.
- O quê? – a minha voz elevou-se uma oitava acima do normal, com o choque daquilo que ele acabava de dizer. Ainda assim, não parei de correr em direcção a ele. Ele não nos podia impedir de passar. O que podia ele contra nós dois? – Porquê?
- Não vão passar – insistiu ele, sem mais explicações.
- Quem é este palhaço? – perguntou, irritado, o Artur.
- O Sérgio. Deves ter referências a ele no caderno…
E não parámos de correr, aproximávamo-nos do Sérgio e ele mantinha-se quieto, imóvel, passivo como uma estátua erguendo-se a muitos metros de alturas de nós, meros mortais. Ainda assim, ele continuava com a sua altura normal, muito inferior à do Artur. Não percebia o que é que ele esperava da sua intervenção, ou porque é que tinha sequer pensado em parar-nos.
E corremos para o lado esquerdo do Sérgio, sem parar. Vamos passá-lo. Deixá-lo, assim, estatuado e, mais importante que tudo, para trás.
Mas no preciso instante em que estamos lado a lado com o Sérgio, algo acontece. Toda a nossa carne parece arder, por momentos, com chamas verdadeiras. Gritamos, os dois, em uníssono, como se ambas as nossas almas se unissem na dor de se libertarem dos corpos. Sinto a pele ceder, como cera que derrete, e sinto-a perder-se numa forma que não existe. E esta não existência cobrava-me toda a dor que eu até ali só podia imaginar; perdia-me nas cinzas dum corpo em chamas. Parecia que era impossível tudo o que me estava a acontecer… E apesar disso, este foi o momento mais real da minha vida.
Por fim, senti uma mão ardente puxar-me do fogo que era eu (toda eu era o fogo) e senti de novo o frio e gelado ar da noite na cara, nas mãos, nas roupas queimadas. Ainda assim, nada mais era já o fogo, assim que o abandonei – toda a minha cara devia ser o meu pior pesadelo: também eu me tinha tornado um monstro, neste momento único. Os monstros, atrás de nós, aproximavam-se, mas eu e o Artur já não temíamos mais. Olhei para ele e vi-o, mas ele não estava desfigurado, não como as minhas mãos sangrentas e vermelhas, não como as minhas roupas que fumegavam, não como estaria a minha cara para a qual eu nunca mais queria olhar. O Artur era… Apenas ele, o Artur, e olhava para mim como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo.
E eu sabia que era, provavelmente, a mais feia, a partir do momento em que as labaredas me tocaram a face.
Os monstros aproximaram-se e eu descobri que estava a chorar, porque as lágrimas começaram a evaporar à frente dos meus olhos devido ao calor ardente da minha pele queimada.
Sem perceber muito bem porquê, senti-me a desfalecer, e caí nos braços rápidos do Artur que me ampararam, mas magoou-me sentir a minha pele contra a dele, ainda que a temperatura fresca da pele dele me aliviasse o ardor ligeiramente.
As criaturas rodeavam-nos, agora, e custou-me observar que a barreira que me pusera fogo não existia para elas. O Sérgio avançava, agora, para nós, e sorria.
Mas nunca chegou a dizer qualquer palavra que fosse, uma vez que de um impulso o Artur ergueu uma faca que não sabia que ele sequer tinha e a enterrou no estômago do Sérgio.
Gritei, e senti a visão enevoada com as dores e as lágrimas que voavam, evaporadas, da minha pele.
Também o Sérgio exprimiu um qualquer som que parecia um grunhido vindo do âmago da alma dele (se ele ainda a tinha) antes de cair com a cara no chão, como uma tábua hirta espatifando-se porque alguém deixou de a segurar.
Aquele era o rapaz que me tinha dado um beijo há umas poucas de horas atrás. Aquele era o rapaz com quem tinha acabado por um pacote de pipocas. Era o rapaz por quem suspirara, em silêncio, durante dois anos inteiros até me apaixonar pelo Artur. E aquele era o rapaz que me tinha desfigurado as feições com um qualquer dom que eu nunca conhecera, a acrescentar ao dom telepático que ele ganhara recentemente.
Ainda assim, não me parecia certo, nada certo mesmo, que ele estivesse morto e silencioso para sempre. Não podia acreditar que ele nunca mais me ia dizer que me amava e que o Artur era um monstro. Nunca mais ia vê-lo sentado nas aulas de Biologia. Nunca mais… Talvez nunca mais houvesse aulas de Biologia. Tudo tinha perdido o senso e a lógica! Quem sabia? Talvez agora a minha vida fosse apenas esta: a de percorrer na noite a Terra com o meu namorado morto durante o dia.
Toda aquela noite era horrores, talvez toda a vida se tornasse um horror único, e não havia nada pior que pudesse acontecer, ou pelo menos, era isso o que me parecia. Mas era muitíssimo possível que estivesse enganada.
Afinal de contas, todo vento que se erguia não podia ser um bom sinal… Nada era um bom sinal, muito menos o olhar profundo e indistinguível do Artur, o meu Artur.
E o instante seguinte foi o instante que ditou para sempre toda a minha vida.
O Artur disse-me, sussurrando:
- Pára de sonhar, Mia. O Artur não existe.
E de repente já não era de noite.
O André era o único que tinha ficado na mesma divisão connosco. Na sua cor pálida quase transparente, parecia que tinha adoptado uma terrível face negra, e um comportamento verdadeiramente psicótico.
Ria-se muito, sozinho, como se tudo isso fosse normal. Por fim, pareceu aborrecer-se e soltou a minha mordaça, dizendo:
- Olá, Miazinha, minha amiga adorável. Como estás hoje?
- André… Vamos conversar – sugeri, ignorando a pergunta, tentando soar apaziguadora, mas não de uma forma irritante. Queria tirar-nos a todos daquela enorme confusão. Nada era o que parecia, já tinha aprendido essa lição. E agora, tinha de mostrar que também aprendera aquela que seguia pelas linhas de “Nunca ofendas um monstro”.
- “André… Vamos conversar!” – imitou ele, em falsetto, fazendo pouco de mim. Aquele não era o André que eu conhecera, excepto nas feições – Acerca de que é que queres conversar, miúda? Sobre os meus planos diabólicos temíveis? – e nesta altura experimentou uma risada maléfica, mas a verdade é que não resultou.
- Seria um bom ponto para começar, sim, e algures pelo meio os motivos para me teres mandado raptar a mim e à minha família – e de seguida apontei com a cabeça o meu irmão e o meu pai que continuavam atados e silenciosos.
O André riu-se de novo. Parecia estar a ter dos melhores momentos da vida dele.
- És tão parva, não és, Mia?
O insulto magoou-me, mas fiz de conta que não se passara nada. O André suspirou, resignadamente, como se se aborrecesse.
- Então olha: é simples. Talvez seja preferível contar-te primeiro como é que o teu queridinho adorado Artur se transformou num ser fotofóbico.
Os olhares tanto do JP como do meu pai pareceram aumentar de surpresa. Era deprimente pensar no que teria de lhes contar se alguma vez saíssemos dali vivos.
- Seria um bom ponto para começar, sim – concordei, para impedir que ele se perdesse nos seus devaneios e não me relatasse tudo como deve ser.
- O teu tio nunca te quis magoar. Fui eu, com a ajuda dos meus aliados, que consegui que ele te desse aquele “antídoto” que ele esperava que apenas te fizesse bem. Claro que eu não esperava que o desses ao Artur, esperava que o bebesses tu! O Artur foi um erro do início ao fim. Ele era um dos meus aliados, no início, mas depois chegaste tu, e os remorsos estúpidos dele, e o que aconteceu foi que ele se esqueceu de fazer o que eu lhe tinha mandado para fazer aquilo que ele pensava que era melhor… Pois olha, bem vês que eu, sem nada fazer por isso, fui vingado. Se não há karma, não sei o que é isto. Lei do par acção-reacção? Determinismo? Não interessa, eu devia ter sabido que tu ias dar cabo dele. A única coisa que correu mal nisto tudo, foi que saíste incólume, ao contrário da Lilith. Bem vês como a tirei do caminho assim que começou a desconfiar. Ela falou comigo, mas não contigo porque não te queria preocupar. Ela achou que eu compreenderia, porque era um génio, tal como ela. E tu… Desculpa, Mia, mas a verdade é que sempre foste a burrinha do nosso triângulo adorável.
Engoli em seco, mas forcei-me a não responder. Talvez assim ele me contasse as coisas mais depressa, sem se distrair do seu intento.
- Porque bem vês, eu tenho um plano. Não o de conquistar o mundo, não sou assim tão sociopata. O meu objectivo é o de tornar possível a experimentação em humanos. Já imaginaste o quão a Ciência iria evoluir a partir disto?
Esta era de facto uma explicação muito fraca, no fim de tudo isto pelo que passei. Mas não pude contemplar esta realidade por muito tempo, uma vez que após uns instantes escassos a porta se escancarou e o Artur apareceu junto dela.
Entrou, sem hesitações, sobre o olhar perplexo do André, e deu-lhe um murro único que o deitou ao chão. Como o Artur era muito mais alto e forte que o escanzelado do André, este nem sequer tentou resistir. Posteriormente, o Artur soltou-me, o mais rápido que conseguiu, e depois cada um de nós libertou os dois homens da minha família.
- Ah… Pai, JP, este é o Artur. Ele está do nosso lado, suponho eu…
- Sim, supões bem. Já falamos.
O Artur desta noite era muito introspectivo, durante toda a nossa fuga, não disse mais uma palavra, e nem sequer explicou como nos encontrara ou como tinha passado pelos tais “aliados” do André. Não disse absolutamente mais nada.
Nós seguíamo-lo, confusos. O meu pai ainda me fez uma pergunta qualquer, mas como eu não lhe soube responder, limitou-se a caminhar também calado.
Caminhámos pela cidade, em silêncio, eu que era a que tinha as pernas mais curtas quase correndo para os acompanhar. Ao fim de um bocado, chegámos a um beco onde uma figura nos esperava.
A Lilith, que estava de pé, aparentemente sem qualquer mazela.
- Lilith! Tu não podes estar de pé! – reclamou o meu irmão, quando a viu.
- Posso sim, JP. Eu recuperei. Hoje, tive que ir à procura dele, uma vez que era a única forma de vos poder ajudar. Também tentei falar com o Sérgio, mas ele não me atendeu. Eu soube… Eu soube da casa. A vossa mãe está em minha casa, preocupadíssima, talvez devessem ir lá.
- Então e tu, que é que estás aqui a fazer ainda?
- O Artur não sabia onde era a minha casa. Tive de esperar por vocês para vos dizer isto.
Todos estes acontecimentos se desenrolavam à frente dos meus olhos, tal como quem vê um filme a 3D. Mas não estava a ser divertido. De todo.
- Talvez vocês os dois devessem ir ter com a mãe – disse para o JP e para o meu pai – Eu tenho que ir… à polícia – menti.
- À polícia? Mas que raio lhes vais dizer, que um monte de criaturas geneticamente modificadas nos entraram pela casa adentro e que nos aprisionaram? – perguntou, céptico, o meu pai.
- Pai, eu tenho que falar com o Artur. Eu não posso explicar tudo agora, mas depois vou tentar…
O meu pai tentou impedir-me, mas eu já andava na direcção oposta, com o passo mais rápido que consegui arranjar, arrastando o Artur por um braço.
Mal os perdemos de vista, parei no meio do caminho e perguntei-lhe, sem rodeios:
- Que tipo de pessoa és tu hoje? De que te lembras?
- Nada – respondeu ele – Acho que é usual. E sou… Sou eu.
Esta única frase teve o condão de me pôr com a alma de joelhos junto aos olhos, para depois mergulhar e me fazer chorar.
As minhas lágrimas, por sua vez, tiveram o condão de fazer o Artur perder toda a falta de expressividade e de comunicação. A medo, ele ergueu a mão e pousou-ma na face, e com um dedo gelado limpou-me a lágrima fugitiva. E com a voz mais terna e inacreditável, sussurrou baixinho:
- Não chores, Emília… Não chores por mim.
Mas isto só me fez chorar mais e ele abraçou-me para que toda a minha alma vertida o atingisse directamente no coração.
Foi neste momento que, novamente, me vi perseguida por criaturas de pesadelo. Vinham do caminho de onde tínhamos vindo; o meu coração pululou desejando que a minha família e a Lilith estivessem bem e não tivessem sido raptados de novo.
Em pânico crescente, limpei as lágrimas com uma mão e quase me esqueci de que era suposto estar a chorar. Agarrei, sem pensar, na mão do Artur, e corremos os dois, em fuga das temíveis criaturas.
Galgávamos os paralelos do chão quase sem os tocar, de tão rápido corríamos. E eu sentia, feliz, o ar na minha cara. Sentia, feliz, a mão do Artur na minha.
No caminho, via as árvores com as ramadas a serem como que puxadas e empurradas por mãos invisíveis, furiosas. O lixo largado por alguns transeuntes durante o dia voava, agora, de encontro a nós, de encontro à multidão de monstros que nos perseguia, sem vontade própria, mas com apenas o intento de servir o fantasma que eu criara, porque ele não mo dissera, mas de alguma forma sabia: o André tornara-se agressivo e descontente porque me quisera, e eu nunca tinha demonstrado qualquer interesse romântico por ele. Assim, o seu próprio medo tornara-se a sua cara; fora esquecido por mim, ainda que com grande desgosto meu.
Tudo se começava a encaixar, ou pelo menos assim era na minha cabeça. Tudo fazia sentido, os monstros e a tristeza, os acontecimentos impossíveis e a solidão: porque um plano só se cria quando algo nos impulsiona para isso.
Atrás de nós, ouviam-se as palavras mais feias do mundo, algumas delas, ainda nem sequer existiam antes daquele momento, mas naquele momento criavam-se: eram proferidas e cuspidas só para os nossos ouvidos. E ainda que nós fugíssemos, e ainda que nós as ignorássemos, ouvíamo-las, nítidas, repetindo-se incessante e horrorosamente nas nossas cabeças…
E eis que neste instante, o nosso caminho é perturbado por um vulto quieto, de braços cruzados, recortado em traços escuros contra a luz do candeeiro atrás de si. E o seu cabelo é uma auréola doirada de cabelos esvoaçantes e claros.
- Sérgio! Que estás aqui a fazer? – ouvi os meus lábios pronunciarem, dando voz aos meus pensamentos, quase sem pensar que o ia de facto perguntar.
- À vossa espera. Vocês não vão passar.
- O quê? – a minha voz elevou-se uma oitava acima do normal, com o choque daquilo que ele acabava de dizer. Ainda assim, não parei de correr em direcção a ele. Ele não nos podia impedir de passar. O que podia ele contra nós dois? – Porquê?
- Não vão passar – insistiu ele, sem mais explicações.
- Quem é este palhaço? – perguntou, irritado, o Artur.
- O Sérgio. Deves ter referências a ele no caderno…
E não parámos de correr, aproximávamo-nos do Sérgio e ele mantinha-se quieto, imóvel, passivo como uma estátua erguendo-se a muitos metros de alturas de nós, meros mortais. Ainda assim, ele continuava com a sua altura normal, muito inferior à do Artur. Não percebia o que é que ele esperava da sua intervenção, ou porque é que tinha sequer pensado em parar-nos.
E corremos para o lado esquerdo do Sérgio, sem parar. Vamos passá-lo. Deixá-lo, assim, estatuado e, mais importante que tudo, para trás.
Mas no preciso instante em que estamos lado a lado com o Sérgio, algo acontece. Toda a nossa carne parece arder, por momentos, com chamas verdadeiras. Gritamos, os dois, em uníssono, como se ambas as nossas almas se unissem na dor de se libertarem dos corpos. Sinto a pele ceder, como cera que derrete, e sinto-a perder-se numa forma que não existe. E esta não existência cobrava-me toda a dor que eu até ali só podia imaginar; perdia-me nas cinzas dum corpo em chamas. Parecia que era impossível tudo o que me estava a acontecer… E apesar disso, este foi o momento mais real da minha vida.
Por fim, senti uma mão ardente puxar-me do fogo que era eu (toda eu era o fogo) e senti de novo o frio e gelado ar da noite na cara, nas mãos, nas roupas queimadas. Ainda assim, nada mais era já o fogo, assim que o abandonei – toda a minha cara devia ser o meu pior pesadelo: também eu me tinha tornado um monstro, neste momento único. Os monstros, atrás de nós, aproximavam-se, mas eu e o Artur já não temíamos mais. Olhei para ele e vi-o, mas ele não estava desfigurado, não como as minhas mãos sangrentas e vermelhas, não como as minhas roupas que fumegavam, não como estaria a minha cara para a qual eu nunca mais queria olhar. O Artur era… Apenas ele, o Artur, e olhava para mim como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo.
E eu sabia que era, provavelmente, a mais feia, a partir do momento em que as labaredas me tocaram a face.
Os monstros aproximaram-se e eu descobri que estava a chorar, porque as lágrimas começaram a evaporar à frente dos meus olhos devido ao calor ardente da minha pele queimada.
Sem perceber muito bem porquê, senti-me a desfalecer, e caí nos braços rápidos do Artur que me ampararam, mas magoou-me sentir a minha pele contra a dele, ainda que a temperatura fresca da pele dele me aliviasse o ardor ligeiramente.
As criaturas rodeavam-nos, agora, e custou-me observar que a barreira que me pusera fogo não existia para elas. O Sérgio avançava, agora, para nós, e sorria.
Mas nunca chegou a dizer qualquer palavra que fosse, uma vez que de um impulso o Artur ergueu uma faca que não sabia que ele sequer tinha e a enterrou no estômago do Sérgio.
Gritei, e senti a visão enevoada com as dores e as lágrimas que voavam, evaporadas, da minha pele.
Também o Sérgio exprimiu um qualquer som que parecia um grunhido vindo do âmago da alma dele (se ele ainda a tinha) antes de cair com a cara no chão, como uma tábua hirta espatifando-se porque alguém deixou de a segurar.
Aquele era o rapaz que me tinha dado um beijo há umas poucas de horas atrás. Aquele era o rapaz com quem tinha acabado por um pacote de pipocas. Era o rapaz por quem suspirara, em silêncio, durante dois anos inteiros até me apaixonar pelo Artur. E aquele era o rapaz que me tinha desfigurado as feições com um qualquer dom que eu nunca conhecera, a acrescentar ao dom telepático que ele ganhara recentemente.
Ainda assim, não me parecia certo, nada certo mesmo, que ele estivesse morto e silencioso para sempre. Não podia acreditar que ele nunca mais me ia dizer que me amava e que o Artur era um monstro. Nunca mais ia vê-lo sentado nas aulas de Biologia. Nunca mais… Talvez nunca mais houvesse aulas de Biologia. Tudo tinha perdido o senso e a lógica! Quem sabia? Talvez agora a minha vida fosse apenas esta: a de percorrer na noite a Terra com o meu namorado morto durante o dia.
Toda aquela noite era horrores, talvez toda a vida se tornasse um horror único, e não havia nada pior que pudesse acontecer, ou pelo menos, era isso o que me parecia. Mas era muitíssimo possível que estivesse enganada.
Afinal de contas, todo vento que se erguia não podia ser um bom sinal… Nada era um bom sinal, muito menos o olhar profundo e indistinguível do Artur, o meu Artur.
E o instante seguinte foi o instante que ditou para sempre toda a minha vida.
O Artur disse-me, sussurrando:
- Pára de sonhar, Mia. O Artur não existe.
E de repente já não era de noite.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...