Levantei-me, confusa e perturbada. Tinha tudo parecido tão real… Sentei-me, por um momento, na minha secretária, revolvendo uma caneta na mão enquanto reflectia. Como é que tivera um sonho assim? Um sonho com sonhos dentro de sonhos, um sonho que era, em toda a sua parte, verdade?...
Tentei ignorar o terrível pressentimento que tudo aquilo me fazia ressoar pela espinha abaixo e acima, alternadamente. Levantei-me. Não conseguia encontrar posição. Toda a minha preocupação e reflexão durou apenas alguns segundos, e nada mais.
Decidi cumprir o meu sonho, pelo menos na primeira parte, e decidi ir a casa da Lilith ver como ela estava. Talvez ela conseguisse tirar algum sentido de tudo o que se passava comigo e com a minha cabeça… Talvez ela pudesse explicar-me o que me acontecera, talvez…
Fui até lá, correndo, porque estava frio na rua. Quando lá cheguei, senti-me surpreendida quando o meu irmão me abriu a porta. Não porque ele lá estivesse, não, até no meu sonho isso não me tinha surpreendido. Surpreendeu-me, sim, o que ele disse:
- Então, já estás aqui? Eu vim… Ver a Lilith… Sabes como é… Estás melhor? Deixei-te a dormir porque parecias de facto muito cansada. Espero ter feito bem.
Tudo o que ele tinha dito era um decalque do que me tinha dito no meu sonho.
Tentei ignorar isto, uma vez que a verdade era que eu já conhecia o meu irmão muito bem. Não era de estranhar que previsse o que ele dizia, contei a mim própria, não tendo a certeza de que acreditava no que pensava.
- Sim, foi bom, obrigada – disse, distanciadamente. Eu não dizia o mesmo que no meu sonho. Eu estava diferente. Aquilo não era o meu sonho.
Dirigimo-nos os dois para o quarto da Lilith e ela parecia estar muito bem. Novamente, tal como no que sonhara.
Quase resignada, e tentando exprimir facilidade, disse-lhes o quão feliz estava por eles os dois terem reatado:
- Eu sabia que esta era a cura perfeita para vocês os dois!
O meu irmão fez-se desentendido e virou a cara. Outra vez. E a Lilith sugeriu:
- Sim, eu disse-te, Mia, eu disse-te que não era nada… Vês, toda a gente aí a ser condescendente, e em menos duma semana já quase me ponho de pé. Queres ver? – Outra vez. Com tenções de se levantar.
Desta vez, apenas o meu irmão tentou impor respeito e mandou a Lilith ficar quieta, porque eu estava toldada com o choque.
- Deixa-te estar deitada, Lilith!
E aproximou-se dela para a impedir de se levantar pela força.
De súbito, ocorreu-me o que sucederia dentro de talvez vinte minutos, no caminho para casa. Despedi-me à pressa, usando a desculpa do “devem querer estar sozinhos”.
Corri todo o caminho. Não podia ficar doida no caminho para casa de novo. Porque eu sabia a onde isso me levaria.
E portanto corri contra o tempo e contra as vozes. Por fim, cheguei a casa, e descansei. Fechei-me no meu quarto. Deitei-me na cama, ainda vestida, e tentei adormecer.
Mas elas chegaram antes de Morfeu. E levaram-me com elas para terras de agonia, de novo. Agora, reconheci-lhes logo desde o início o discurso, as palavras nojentas, as palavras que magoam, que apesar de palavras eram também a mágoa: há poucas palavras que magoem por si só, mas a forma como as articulamos dita o seu sentido, o sentimento por detrás destas. E aquelas vozes articulavam-nas em forma de instrumentos afiados, em forma de chicote ardentes e agonias crescentes.
Mordi a minha almofada para não gritar. Mordi-a tanto, que o tecido se desfiou.
Novamente, senti os líquidos infernais derramando-se em toda a minha extensão, toda a pessoa doente que sou eu… Se aquilo eram alucinações de novo, não sabia o que fazer. Começava-me já eu própria, lentamente, a transformar em monstro?
Eles, os maus da fita, estavam a ganhar-me, e eu, derrotada, agonizava na minha cama.
Por fim, como uma libertação, perdi os sentidos de novo. Na minha inconsciência dei graças a tudo o que me era querido por tudo aquilo ter terminado.
Acordei, mais tarde, com o JP a pronunciar o meu nome, preocupado.
- Emília… Então? A dormir outra vez? Estás mesmo doente…
- Não, JP, não… Eu estou bem. Só me deitei porque… Estava só um pouco cansada, ainda. Que horas são?
- Nove e meia. Só te acordei porque pensei que quisesses jantar. Os pais ainda não chegaram. Acho que vão trabalhar até tarde.
- Sim, eu vou jantar – e disse-o com gosto, porque as vozes também já não me atormentavam a mente. Pelo menos para já. Mas esperava que se tivessem ido embora de vez.
Por favor, que elas se tivessem ido embora de vez!
Jantei com o meu irmão, com tabuleiros, sentados no sofá da sala a ver o último episódio de Bones. Até o Rockline estava esparramado no tapete a ver a série. Foi um serão agradável, sem vampiros e alucinações. Quase me senti como antes de toda esta confusão ter começado.
Sentia-me mal só por pensar que teria de sair daquele local quente para ir procurar o Artur, daqui a umas horas.
Ou antes, não teria de o procurar. Lembrava-me de onde ele estaria. Era talvez uma má ideia querer estar com um vampiro, e dançar com ele a céu aberto… Mas desta vez, estaria bem vestida, com um casaco quente, e seria feliz. Não me conseguia impedir de desejar isto, de respirar por isto, unicamente isto, e nada mais, e seria feliz. Não haveria mais nenhum ponto do sonho que valesse a pena reviver, mas este, e aquele só, e seria feliz. Ia ter com o Artur, e ia de certeza, e seria feliz.
Disse ao meu irmão que ia sair, que me encobrisse para os nossos pais quando eles chegassem, e ele, estranhamente, pareceu motivado para isso.
- Mas não voltes tarde, está? Leva a chave, miúda.
Na rua, estava tanto frio como no dia anterior, mas desta vez, estava protegida pelo meu casaco de penas e pelo, e trazia as mãos nos bolsos. Caminhei devagar, porque não devemos correr para os momentos de grande felicidade, mas sim aproveitar cada segundo em que caminhamos, lentamente, em direcção a eles, tendo consciência de que nunca nos vamos sentir melhor na nossa vida do que naquele momento (que quem me dera que fosse para sempre) de antecipação. Aquele momento era melhor em muitos aspectos que o próprio momento em que viesse a estar frente a frente com o Artur, porque nesse momento estaria demasiado ocupada a viver o momento para o sentir, de facto, como ele merecia ser vivido.
Queria vivê-lo duzentas mil vezes, e fazer dele desenhos, poemas e cores. Queria pintar numa tela todos os detalhes da face dele, do vulto dele, do sentimento lindo e maravilhoso que ele me fazia nascer e crescer no peito, como uma enorme orquídea sendo bela, bela e apenas mais bela, ao fim do dia, ao fim da estação, ao fim do mundo…
Podia sorrir e ser feliz, mas nunca feliz como naquele instante fui, naquele instante em que, esquecida de que quando o visse ele não se lembraria de mim, naquele instante em que, esquecida de que ele estaria morto ao sol-pôr, naquele instante em que, esquecida das partes más do meu sonho tornado realidade, feliz.
Sentia animais esvoaçantes brotarem-me da alma, do interior da minha dilatada alma, que apenas se dilatava mais, a cada passada, a cada instante fino da ampulheta, a cada sombra que se abatia sobre mim, à medida que avançava para as sombras onde o poderia encontrar.
Não tardou, ainda assim. Mas pareceu durar as eternidades que a felicidade cobra, sempre que vem. Mas ainda assim, não tardou. Vi o vulto dele desenhar-se como uma sombra nos nevoeiros inventados só para nós, só para o nosso momento. Vi-o olhar-me, mais próximo, com as feições traçadas a sombra, e vi-o próximo de mim. Vi o sentimento nos olhos dele, vi a afeição à primeira vista nos olhos dele, que já tantas vezes haviam olhado para mim. E tive medo… Tive muito medo que ele não me dissesse, de seguida, aquilo que me tinha dito em sonhos.
Tive até a tentação de correr para longe, de fugir dali, de ser uma alma intocável, jamais magoada, como se nunca ninguém lhe tivesse posto mão, como se eu pudesse ser para sempre uma criança que espera o que nunca poderá chegar.
Mas não corri, não fugi. Porque estava na altura de enfrentar a verdade… Estava na hora de ser quem eu queria ser, pelo menos por aquela noite.
Portanto, esperei as palavras que já ouvira, enquanto ele me tocava ao de leve na face:
- Quem és tu, bela dama? – mas desta vez não comentou a minha indumentária.
E eu fui feliz, enquanto lhe estendi a mão e lhe disse, como num guião exacto:
- Senhor. Oh, meu senhor… Sou quem tu quiseres que eu te seja.
Fui eu quem exprimiu primeiro a intenção de dançar. E bailámos, ali, de novo, tal como no meu sonho. Há quem diga que os sonhos não se tornam realidade? Pois, quem diz isso tem razão. Não era sonho meu apaixonar-me por quem nunca poderia ter, não de verdade, mas se os meus não sonhos são sonhados e, depois, concretizados, quem se importa? Não eu, de facto. Não naquele instante. Não compreendia. Não podia compreender. E apesar de tudo, não queria compreender. Tinha medo, talvez, que a compreensão assassinasse a minha orquídea com uma labareda de fogo, de uma só vez.
E assim, dançava, dançava e nada mais, porque dançar era a única coisa que merecia a minha vontade.
E pensava no Artur. Pelos céus, como pensava nele, ainda que o tivesse e ao coração dele, nas minhas mãos, nas minhas próprias mãos.
Contei-lhe tudo. Enquanto dançávamos, expliquei-lhe tudo o que acontecera, ele ouviu, silencioso. Nem por um só momento me disse uma única palavra. Mas ouviu-me, e eu contei-lhe tudo, do início, contei-lhe como o amava, contei-lhe porque é que não se recordava de nada, contei-lhe tudo para lhe preencher o vazio no coração dele…
E quando terminei, parámos, os dois, sobre a calçada. Separámo-nos, silenciosamente. A felicidade morria um pouco, no meu peito. Olhámo-nos, fixamente. Por fim, ele disse-me:
- Eu acredito em ti. Tens um caderno, por favor?
Esta pergunta baralhou-me profundamente, de todas as coisas que ele podia ter dito, e de todas as formas que ele podia ter reagido, nunca esperei um mísero “Tens um caderno, por favor?”.
- Para quê? – perguntei-lhe. Talvez ele não tivesse, afinal, ouvido nada do que lhe dissera.
- Para não esquecer, outra vez. Para não esquecer, Emília.
E a compreensão apoderou-se de mim. Ele não me queria esquecer. Ele não se queria esquecer. Ele ia escrever, e ia-se recordar. Para sempre. Talvez não aceitasse, mas ele estava disposto a tentar.
Não reconhecia o Artur desta noite, após a noite anterior.
Na noite anterior, o Artur fora, em todas as medidas, um animal. Esta noite, no entanto, acordava como um príncipe encantado. Se ao menos ele acordasse assim todas as noites!
Ou se ao menos eu encontrasse o antídoto para o “antídoto”. Faria qualquer coisa… Daria a vida, talvez, para salvar a dele, embora não desse as minhas tardes de aulas por ele. Não sabia o que se passava hoje, mas ele não parecia interessado no meu sangue, não parecia revoltado, apenas parecia… Um rapaz bastante educado. Parecia até que era incapaz de tocar num cigarro, e isto baralhou-me. Não mostrava qualquer tipo de consistência em relação ao que fora nas noites anteriores, excepto, talvez, na noite em que me esperara à porta.
- Eu não… Não tenho nenhum aqui, mas posso ir buscar a casa…
Vi as horas. Ainda não era meia-noite.
- Eu vou contigo – ele ofereceu e, sem pedir, enlaçou a minha mão na sua. Como se fôssemos namorados. Como se fôssemos alguma coisa um ao outro.
Caminhámos, em silêncio. Estávamos já a meio do caminho quando ele perguntou, hesitante:
- A que horas é que.. A que horas é que costumo… Morrer?
A voz dele estava tingida de uma mágoa disfarçada. Obviamente, ele acreditava em mim.
- Não tenho a certeza. Logo que comece a amanhecer.
Chegámos, em poucos minutos, a minha casa. Eu entrei e ele ficou à porta à espera. Os meus pais não deram por nada, e saí de novo, com um caderno simples de argolas debaixo do braço, sem problemas.
- Tens aqui um caderno. Desculpa que algumas páginas já estejam preenchidas, mas era o meu caderno de TIC, do 9º ano, e ainda usei umas poucas de páginas. Toma, trouxe-te também uma caneta.
- Não há mal. Talvez seja bom para mim lembrar-me também do que é a humanidade, e de quem és tu.
Não sorria, enquanto dizia estas coisas, mas era adorável, era adorável de tantas formas.
- Talvez devesses ir para casa, Emília, vou precisar de algum tempo para escrever, e tu tens aulas amanhã… - sugeriu ele, ainda que a sua expressão não revelasse a vontade de me ver pelas costas. Mas ele tinha razão. Era uma solução apropriada.
- Tudo bem. Vemo-nos amanhã à noite, então, Artur? – perguntei, tentando forçar um sorriso, pois não tinha a certeza de como o ia encontrar na noite seguinte, não tinha a certeza de que ele, sequer, não rasgasse tudo o que tivesse escrito hoje, na noite seguinte.
- Com certeza, minha dama – respondeu-me ele, e forçou também um sorriso.
Virei-me de costas e dei o primeiro passo em direcção à porta. Mas virei-me no mesmo tempo em que ele me rodeou a cintura com as mãos a apertar efusivamente e nos beijámos num desespero triste. Só esperava que os meus pais não viessem espreitar à janela neste momento, ou teria muito que lhes explicar.
Senti uma lágrima na minha cara, e por momentos não sabia quem a tinha chorado. Era só uma lágrima. Limpei-a, na cara, e descobri que era minha. Tive pena, por ela. Era uma lágrima muito sozinha.
Em muitos aspectos, aquele tinha sido um beijo muito humano. Respirava humanidade e expirava humanidade. Era como se fôssemos ambos humanos, como se ambos vivêssemos e sonhássemos, de noite, enquanto dormíamos.
Mas naquela noite, eu era a única de nós dois que ia dormir e sonhar. Embora, claro, não fosse muito comum sonhar e, mais tarde, ver os sonhos concretizados.
Nenhum de nós era muito normal, nos dias que corriam, e talvez isso nos fizesse tão perfeitos um para o outro. Eu queria amá-lo com uma intensidade que se quebrava de doer tanto, de o amar tanto, de o desejar comigo para sempre e eternamente.
Largámo-nos, por fim. Só desejava poder ficar ali com ele, enquanto podia. Mas eu não podia. Caso contrário, amanhã ia, de facto, cair adormecida numa das minhas aulas.
Mas de alguma forma, não conseguia partir, não conseguia virar-me e entrar dentro de casa.
Ele prometeu-me, num murmúrio:
- Prometo-te que te vou escrever no meu caderno. Prometo-te que te vou desenhar. Prometo que vou escrever, exaustivamente, tudo o que foste para mim esta noite e nas anteriores. Amo-te, Emília. Mesmo que amanhã isso não seja o que eu te diga.
Depois de estas palavras tão bonitas e tão tristes, colocou-me a mão sobre o cabelo e beijou-me a testa e, depois, afastou-se, hesitantemente, tentando forçar-me a fazer o mesmo.
Não foi senão quando ele já tinha desaparecido por detrás de um qualquer edifício que eu me virei e caminhei para casa. Fui para o meu quarto, discretamente. Ninguém deu por mim.
Já no meu quarto, desenhei-o, e sabia que ele era parte de mim. Desenhei-lhe os traços da cara, e desenhei-lhe os olhos profundos que só às vezes conseguia ler, e esta noite lera-lhos a noite toda. Desenhei-lhe o vulto, alto e fino, e desenhei-lhe o cigarro nos dedos, alto e fino. Fui ele, enquanto me sorria no sorriso que era o dele.
Mais tarde, lembrei-me de que era suposto eu estar a dormir, e deitei-me, com os desenhos na mesinha de cabeceira, à distância duma mirada. Não desliguei a luz porque queria continuar a olhar para eles noite fora.
E adormeci, assim, a ler-lhe os olhos, a noite toda; naquela noite, tinha-lhe lido os olhos, a noite toda.
sábado, 21 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...