segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O 5º Momento Pós-Vampirismo

No dia seguinte, acordei com a luz acesa, e sentia os meus olhos como se carregassem as dores de quem não os chegou a fechar para dormir. No meu peito, estava o peso, o horroroso peso de saber que agora aquele que amava não existia mais… A manhã tinha chegado, e ele não existia, porque jazia morto, algures, onde ninguém o pudesse encontrar.
Esperançosamente, com um caderno de argolas a seu lado.
Levantei-me e senti-me pesada, como se algo de muito horrível estivesse prestes a acontecer, a qualquer instante. Não era nada de extraordinário, no entanto, uma vez que esse sentimento era já bastante usual desde o dia infame em que vira o dedo do Sérgio a ser mordido em frente aos meus próprios olhos. Todos esses acontecimentos estranhos dos primeiros tempos permaneciam sem qualquer explicação, e não pareciam vir a ter nos tempos próximos. Havia gente a tentar converter a população toda em monstros? Estava certo. Mas agora, com que motivo? Queriam fazer um filme de terror com de baixo orçamento, ou quê?
Esmiuçar as ideias para as tornar algo que se visse e compreendesse não estava a resultar. Apesar de ter dormido naquela noite, continuava dorida, como se fosse a princesa da ervilha debaixo do colchão, e todo aquele pesadelo diurno me estivesse a torturar ininterruptamente.
Era horrível, abria uma gaveta e ficava um minuto a fitar o vazio, para depois dar conta de mim e pegar na primeira camisola quente que estava à vista. Vestia-me sem a noção do que fazia, porque as dúvidas e os medos tomavam todo o meu tempo. Caminhei para a escola, sozinha, lentamente. Cheguei atrasada quinze minutos, mas mal dei por isso. Sentei-me na minha carteira, onde estava sozinha. Assisti a todas as aulas com tão passiva como uma morta. Mas eu não estava morta. O Artur estava.
E, vim a saber no segundo intervalo, também a Vanessa, que estava a faltar desde de manhã, mas que pela ausência eu não tinha dado conta.
Foi uma colega minha, a Raquel, que começou aos berros e a chorar de forma quase automática, ao telemóvel, estava eu ao lado, assim como muitas das minhas outras colegas. Tínhamos estado a falar, como num dia normal. Não me lembro de qual era o assunto, mas este empalidecia com certeza ao pé daquilo que se começou a passar assim que a Raquel atendeu o telemóvel.
Alucinada, esquecendo-se de tudo o que fazia sentido, começou a gritar, como se todos tivessem de saber, como se toda a escola tivesse de saber, como se não suportasse que ficasse alguém sem reconhecer aquela dor tão forte, e dizia:
- Ela está morta! Ela está morta! Morreu! Ela está morta!
- Quem é que morreu? – foi o que lábios de muitas caras perguntaram, todos adoptando uma face de cera, como se morressem de medo, como se todo o seu mundo de cristal pudesse cair ao chão com a resposta que urgentemente, queriam e não queriam ouvir.
Uma das minhas colegas aproximou-se da Raquel e tentou abraçá-la, para que ela parasse de gritar. Neste ponto, o histerismo corrompeu-se e ela parou de gritar para soluçar como se não houvesse amanhã.
- Quem foi, Raquel? Quem morreu? – perguntou a medo, a minha tal colega.
E, entre soluços que vinham às sílabas, ela sussurrou:
- A Vanessa.
A partir daí, foi o pânico geral. Agora, ouviam-se muitas mais vozes a gritar “Não!”, “Ela morreu!” e “Não, a Vanessa não!”, caíram muitas lágrimas naquele corredor, e o tempo pareceu congelar.
Havia, no entanto, outras pessoas como eu, incapazes de reagir, que apenas assistiam com o diabo pespegado na cara.
Por fim, consegui pronunciar, a medo, as palavras “Oh meu Deus”, e também eu comecei a chorar, porque a Vanessa era parte do meu mundo, e a Vanessa tinha sido uma pessoa espectacular.
Todas nós chorávamos, também alguns rapazes. As pessoas chegavam e perguntavam o que se passava, inutilmente, porque se continuavam a ouvir os gritos de “Ela morreu”, “Ela morreu”…
Por fim, o namorado da Vanessa, o Jorge, perguntou, recusando-se a acreditar:
- Como? Como é que ela morreu?
A Raquel tentou engolir os soluços, mas não conseguiu, e a frase seguinte saiu como se quase não existisse:
- Caiu num poço… Morreu… Afogada!
Eu tinha visto a Vanessa como uma criatura das águas, na minha alucinação, tal como vira a Lilith magoada como um quase cadáver.
Olhei para o André, que estava também parado no corredor, em choque, e sem pensar no que fazia, abracei-o com força, quase atirando os óculos dele ao chão, pois sabia que em breve já não o poderia fazer.

Ninguém foi à última aula. A stôra não pressionou ninguém para ir. Também ela estava abalada. Toda a gente estava abalada. Nada fazia sentido, porque a morte não faz sentido. Especialmente quando se é jovem e se tem todos os momentos cheios de significado à nossa frente: a universidade, o casamento, os filhos, o primeiro emprego; tudo isto estava perdido para a Vanessa. Para sempre.
Também o meu vampiro estava longe de alcançar qualquer um desses momentos: mas ainda assim, eu não desistia, por ele, não podia desistir. Acreditava, ainda, que um dia, ele podia vir a ser gente de novo. Ele podia: nós podíamos vir a ser felizes juntos. Os momentos futuros dele podiam ser os meus e os meus os dele. Podíamos… Se ao menos eu tivesse sabido do dito “antídoto”. Se ao menos… Começava a ser altura de confrontar o meu tio Júpiter. O meu tio ia ter de me arranjar uma explicação muito boa para me impedir de destruir os laços familiares.
Mas ainda assim, não era capaz de deixar de ter medo do que ele pudesse fazer. Ele tinha destruído a vida daquele que eu amava sem sequer o intentar. Aquele veneno era para mim, aquele destino era o meu; e eu entregara-o àquele que amava como se fosse a salvação. Tinha-lhe querido tanto, naquela noite em que ele morrera pela primeira vez. Queria-lhe tanto, ainda agora, e afinal, nada disso importava. Se não lhe quisesse tanto, ele não estaria assim…
E nunca tinha descoberto fosse o que fosse sobre a família dele. Teria ele família, sequer?... Não sabia nada dele. Não sabia nada, e era esse mistério que me consumia o peito, era essa ignorância que me ardia no coração. Mas não só… Podia ter sido feliz com ele.
Mas o mundo parecia feito uma realidade irreal. Quem haveria de pensar que as minhas meras desconfianças de que alguma coisa não estava bem iam resultar naquele desfecho temível? Um rapaz, que eu amava, que morria todas as noites; a minha melhor amiga desaparecida, regressada em péssimo estado; e agora: uma colega minha de turma, morta, afogada, após eu própria ter tido a alucinação de que ela era uma criatura aquática.
Poderia tudo isto ter uma explicação plausível, apoiada pela ciência? Não me parecia. E isso custava-me. Tinha-me habituado a confiar na ciência. Tinha-me habituado a acreditar no que podia compreender, mas eu não podia compreender isto! Não havia qualquer lógica em tudo o que sucedia, o único fio condutor era que todos estes acontecimentos me doíam, e doíam muito!
Toda esta história não era senão um filme de terror dos baratos. Mas era real. Era tudo real, para mim, a toda a hora. Era como se tivesse entrado na cabeça doente de alguém e estivesse agora à luta com a imaginação dessa pessoa doente.
Nesse dia, estivera perto do Sérgio, mas nem tinha dado por isso, tão absorvida como estava nos meus problemas prementes (ao contrário do Sérgio). E portanto, surpreendeu-me encontrar na minha mochila um envelope fechado que dizia apenas: Emília.
Abri-o, sem me preocupar muito com não rasgar o papel. Tirei uma folha A4 dobrada de dentro deste e comecei a ler.
Mia:
Penso que me estás a tentar ignorar. Não te censuro. Sei que não me queres envolvido neste assunto nunca mais, mas eu sei, e não consigo dormir a pensar que podes estar a ser mordida por aquela besta (e sim, sei que ele já foi meu amigo, não quero saber). Assim, quero que me mandes uma SMS a dizer se vais sair à procura dele esta noite, e se fores, quero ir contigo. Prometo que não te pressiono para nada que não queiras. Apenas estou preocupado contigo. Não me morras. Manda-me a tal SMS.
Fico à espera.
Beijos,
Sérgio
A minha primeira reacção foi fazer uma bola daquela carta e atirá-la à parede do outro lado do quarto. Quem é que ele se achava para me dizer aquilo? O Super-Homem? Ele não era nenhum super herói ou cavaleiro andante, para estar à espera para salvar a dama em apuros quando fosse preciso! Eu era bem capaz de tomar conta de mim. E depois, era o Artur, não um monstro! E tudo bem, o Sérgio já tinha tido duas oportunidades de me salvar de morte certa por causa dele, mas ele não tinha culpa e o Sérgio…
Bem, talvez fosse afinal ingrato da minha parte não reconhecer que se não fosse pelo Sérgio já estaria tão morta como a Vanessa. O Sérgio tinha-me salvo a vida de muitas mais formas do que as que estava preparada para admitir. O facto de ele ser o meu ex-namorado não ajudava nada ao facto de lhe estar grata. Como é que uma rapariga pode ter sentimentos de vulnerabilidade em relação a um ex-namorado? Não se pode ter. Uma rapariga tem de parecer sempre forte. Porque se eu não parecer forte, se ele achar que sou frágil, vai parar de pensar em mim como um espírito livre, vai pensar que eu estou a sentir falta dele, quando na realidade, a única coisa de que preciso é paz!
O Sérgio era um símbolo mais do que não queria ser, do que aquilo que poderia vir a ser. E assim, não era capaz de pensar com coerência acerca dele.
Depois, comecei a pensar no quão simpático, querido até, da parte dele era que ele se tivesse oferecido para vir comigo. Ele não tinha visto o Artur nos seus melhores dias, só quando ele estava num estado semelhante ao dum animal selvagem. Assim, pensei que talvez lhe fosse mandar uma SMS. Mas não era para ele vir comigo. Era para lhe dizer que se deixasse de preocupar. Não fosse eu estar grata com a atitude dele, ainda que apenas em certa medida, nem lhe teria dito mais nada. Assim, disse-lhe “Não necessito de escolta/guarda-costas. Obrigada na mesma.”.
Mas ele, claro, não se ficou. Passados cinco minutos, se tanto, recebi uma mensagem que dizia “Ainda bem que nos entendemos. Vou buscar-te às dez.”.
Toda a condescendência que eu podia ter por ele desapareceu naquele instante.
- Quê?! Mas este gajo anda a gozar-me? – reclamei, em voz alta, demasiado zangada para me dar conta que tinha falado.
Mandei-lhe uma SMS de volta. Dizia: “Mas tu és estúpido?! Disse-te que não preciso de ti!”. Mas, novamente, ao cabo de poucos minutos, recebi uma nova SMS dele que dizia “Está certo. Nove e meia, então.”.
Foi nessa altura que atirei o telemóvel para a cama, com um só movimento brusco, e não quis mais saber dele. Decidi nesse mesmo instante que ia sair de casa às oito, para que quando ele viesse cá ter batesse com o nariz na porta. Ia-me dar gozo saber disto. Claro que ele era estúpido, se não pensasse nessa possibilidade. Mas ele era mesmo assim: estúpido.
Reconciliei-me depressa com o meu telemóvel e mandei uma SMS à Lilith a dizer que ia passar por casa dela dentro de meia horas.
E assim foi, dentro de meia hora estava defronte da porta dela. Subi no elevador e, em segundos, batia à porta. Desta vez, foi a avó da Lilith que me abriu a porta. Tinha ido para casa da filha para tratar da neta, e parecia estar a adorar o serviço.
- Entra, querida, entra… A minha Liliana esteve a tarde toda a dormir, agora vai-lhe fazer bem um pouco de companhia.
Aquele “a tarde toda” fez-me uma ligeira confusão, uma vez que ainda mal eram quatro da tarde e a Lilith tinha-me respondido à minha SMS, meia hora atrás.
Entrei, devagarinho, como se tivesse medo de a acordar. Ela parecia estática, na cama, como se estivesse imersa num sono profundo.
Sussurrei, baixinho:
- Lilith, estás a dormir?
De imediato, ela virou-se, na cama e encarou-me.
- Ah, és tu. Como esperavas que te respondesse? Sim, Mia, estou, vai-te embora?
Mas eu estava demasiado chocada para responder.
- Tu estiveste a fingir que estavas a dormir?
- Bem… Um bocado. Sabes como é… As avós são pérolas, mas no que toca a doenças e sopinhas… - e fez uma careta.
- Lilith! Só podes estar a brincar!
- Não te preocupes, Mia. Foi só a seguir ao almoço. Já não podia comer mais caldinhos e coisas do género. Toda a gente continua a fazer um grande escândalo acerca disto, mas eu estou bem. Estou mesmo muito bem. Às vezes, de noite, quando ninguém me pode impedir, levanto-me e ando um bocadinho. Já nem me dói. Estou mesmo muito bem.
A rapariga estava cada vez a deixar-me mais irritada.
- Mas tu não tens cérebro? Estás magoada, não podes andar aí a cirandar dum lado para o outro! E estás a ver, arriscas-te a atrasar muito mais a tua recuperação!
- Não, assim estou a adiantá-la. Fisioterapia é algo extremamente recomendável. Passar aqui o dia todo enfiada sem poder mexer as pernas não é! Não interessa. Novidades?
E o lembrar-me das novidades fez-me cair na cama ao lado dos pés da Lilith. Não me tinha esquecido. Como podia? Mas estava a tentar evitar pensar nisso a todo o custo.
- Lilith, a Vanessa… A Vanessa morreu.
- O quê? - toda a Lilith deu um salto na cama. Pareceu estar em choque, por instantes – Como é que isso aconteceu?
- Afogou-se. Num poço…
Por mais uns instantes, a Lilith permaneceu calada. Depois, começou a chorar baixinho. Não era próprio dela mostrar tristeza, mas a morte de uma colega era muito. Mais tarde, também ela fez a mesma associação que eu.
- Espera… Tu alucinaste com a Vanessa também, não foi?
- Sim.
Ficámos as duas em silêncio por mais um bocado.
- Pode ter sido uma coincidência – atalhou a Lilith. Não muito convencida, disse-lhe:
- Sim.
Mas nenhuma de nós acreditava nisto. E parecia que no meio de nós tinha caído uma pedra de gelo. A morte de uma colega, ainda que não muito chegada, é sempre um acontecimento triste.
Não ajudava o facto de eu ter tido uma alucinação em que ela se tornava numa criatura do elemento em que tinha morrido.
Não falámos de muito mais, nessa tarde. Nenhuma de nós se sentia com disposição para animar a outra. Só queríamos estar sós, acho.
Assim, saí e dirigi-me a casa. Encostado ao lado da minha porta, com um pé apoiado na parede, estava o Sérgio.
Sem sorrir, embora tenha tentado, perguntou-me:
- Então, Mia, vais convidar-me a entrar?