A seguir a uma tarde de sonhos (e de sonho – porque todos adoramos o conforto de nos abandonarmos por um bocado, ainda que seja uma perda do tempo da nossa vida), dirigi-me para a casa da Lilith. Tive o pressentimento de que lá ia encontrar o meu irmão, e não me enganei.
Foi ele que me abriu a porta e perguntou-me, corado, mas também muito feliz:
- Então, já estás aqui? Eu vim… Ver a Lilith… Sabes como é… Estás melhor? Deixei-te a dormir porque parecias de facto muito cansada. Espero ter feito bem.
- Obrigada, maninho – agradeci-lhe, porque de facto precisara daquelas horas, embora uma parte de mim se revoltasse comigo própria por ter necessidades de sono. Não dão jeito nenhum. Na verdade, vivemos apenas metade da nossa vida, uma vez que passamos metade desta na cama, a ressonar.
Fomos os dois até ao quarto da Lilith, que me parecia hoje muito melhor que no dia anterior. Porque seria(!)… Sorria, agora, sem quaisquer tipo de problemas. Parecia estar a sarar à frente dos nossos olhos, como um pequeno milagre de cura praticamente instantânea. Até já se conseguia sentar, embora, obviamente, não fosse recomendável que o fizesse.
Ajeitei o meu cachecol que me embrulhava o pescoço com o curativo e disse-lhe:
- Olá! Deus, estás mesmo melhor! Que bom! Eu sabia que esta era a cura certa – e revirei os olhos para o meu irmão, que virou a cara, como quem não está nada metido no assunto.
- Sim, eu disse-te, Mia, eu disse-te que não era nada… Vês, toda a gente aí a ser condescendente, e em menos duma semana já quase me ponho de pé. Queres ver? – perguntou ela, fazendo tenções de se levantar.
- Não, nem pensar!
- Deixa-te estar deitada, Lilith!
Quer eu, quer o meu irmão nos revoltámos perante esta ideia da Lilith, que não nos parecia mesmo nada brilhante. O JP chegou ao ponto de se aproximar da cama e de levantar uma mão, como se a fosse impedir de se mexer pela força. Não o censurei. A Lilith era demasiado irrequieta.
Para a distrair, comecei a contar-lhe das aulas que tinha tido. Ela não se mostrou minimamente interessada, mas falei-lhe de tudo na mesma. Talvez assim parasse com as ideias de se levantar da cama.
Ao fim de um bocado, percebi que estava a mais. Eles tinham reatado no dia anterior… Era compreensível. Desculpei-me e deixei-os a sós.
Desci o prédio e caminhei na rua. Pensava, vejam só, em probabilidades, em Matemática, e nada mais, quando de súbito uma dor de cabeça me fez vergar no meio do caminho.
E comecei a ouvir vozes na minha cabeça.
Inicialmente, pareciam vozes de pessoas atrás de mim, pensei que alguém caminhasse atrás de mim, e não liguei muita importância. Ainda assim, ao fim de um bocado, virei de costas, por mera curiosidade de saber que tipo de pessoa andava tão junto a mim, falando.
Não havia ninguém.
As vozes começaram a tornar-se mais intensas, sobrepondo-se, como se tivessem demasiado para dizer, demasiado para contar para esperarem umas pelas outras para falar.
Contudo, ao fim de instantes, gritavam, diziam mal umas das outras, tinham vocabulários impróprios despejados no meu cérebro, como água suja por um ralo.
Dei por mim doida, e comecei a correr.
Realizar a actividade que amava, aquilo que me fazia sentir, de certo modo, humana, nunca foi como naquele instante. Por mais que corresse, as vozes perseguiam-me, porque moravam dentro de mim. Por mais que corresse, ouvia os meus passos muito distantes, porque as vozes se sobrepunham a tudo, aos pensamentos e aos passos, a tudo.
O copo entornava-se, mas eu não dava pela humidade do líquido caindo sobre as minhas células cerebrais, sobre os meus ombros, sobre os meus membros, sobre o meu corpo. Só ouvia música, a música agressiva e desprovida de sentido que eram os desvarios de muitas vozes de vários timbres, e comecei a chorar. Num momento de agonia como aquele, agarrei-me à cabeça e, estupidamente, coloquei as mãos nos ouvidos, mas o ruído vinha de dentro e não se calou, antes pelo contrário, pareceu ficar estagnado dentro do meu próprio mundo.
Eu própria comecei a gritar, no meio da rua, perdendo a noção de espaço ou tempo. Só queria que o som parasse, que as carpideiras da minha mente se emudecessem, e que os meus pensamentos fossem meus de novo.
Por vezes, reconhecia palavras, e nessas alturas era ainda pior. Ouvia nomes, os nomes de aqueles que amava… “JP”, “Lilith”, “Ana Maria”, “Zé Luís”, “André”, “Artur”, “Sérgio… Era como que uma ladainha sussurrada nos píncaros turvos da minha mente. Não se calava. Não mudava o tom, o ritmo, apenas os gritos ressoavam, imprevisíveis e impossíveis de ignorar. E a ladainha não era um cântico de glória, mas uma ameaça, uma terrível ameaça invisível que me largava jamais.
Por fim, senti duas mãos agarrarem-me pelos pulsos, e vi que pertenciam a uma senhora de idade que me olhava preocupada, com múltiplas rugas formando-se mesmo à frente dos meus olhos… Mas eu não a focava… Via-a, mas não a ouvia… Elas, as vozes, não me deixavam…
Caí, desamparada, ou assim me pareceu. As vozes deram um último grito vitorioso e os meus olhos rolaram nas órbitas, como se quisessem fitar o céu e perderem-se nele.
Acordei, mas desta vez no hospital psiquiátrico e desta vez com a minha mãe e o meu pai sentados numa cadeira à espera de me ver acordar. Notei com agrado o silêncio, dentro e fora. Aquele era um alívio inesgotável.
Quando viu os meus olhos abrirem-se, a minha mãe pareceu saltar da cadeira como que impelida por uma mola invisível. O meu pai levantou-se também e aproximou-se com urgência. Foi ele o primeiro a falar:
- Então, Emília, como te sentes?
A minha resposta foi lenta, sentia que o mundo estava sobre mim, e desconfiava que me tinham drogado, motivo pelo qual toda eu me sentia entorpecida, como se fosse uma nuvem a cair do céu, em líquidos múltiplos.
- Sinto-me… Estou bem… - até o meu tom de voz era hesitante, não porque não soubesse como me sentia, mas porque os pensamentos se perdiam algures pelo caminho até à boca e me esquecia do que pensava, eu não me lembrava do que desenhava no meu cérebro apenas instantes antes, tal como se estivesse bêbeda, ou muito, muito cansada.
No dia anterior eu estivera muito, muito cansada.
A minha mãe foi quem falou a seguir:
- Vá, querida, não nos queres contar o que se passou?
A voz dela era a de quem compreendia, da mãe perfeita que perdoa tudo, mas isso pareceu aborrecer o meu pai que atalhou logo, de raspão, como se o que ela tivesse dito uma coisa muito má. Eu não compreendia…
- Ana Maria, não sejas assim, não a pressiones. Sabes que não o devemos fazer!
- Ora – a voz dela parecia a simplicidade em traços de simpatia – A minha filha não é nenhuma louca, pois não, querida?
Esta frase assustou-me, ainda que não tenha, na altura, apreendido o seu verdadeiro significado. Aquela medicação… Toldava-me muito mais que os sentidos.
Ainda assim, agi como se nada se tivesse passado, como se nada se tivesse dito.
- Que horas são? – perguntei, estupidamente. Não ia ver o Artur naquela noite, de certeza, mesmo que não tivesse tomado a decisão de que não o podia ver todas as noites.
- Onze e meia, querida – respondeu a minha mãe. Colocou-me os dedos finos com as unhas pintadas cor de amora escura sobre a testa e passou-os pelos mesmos sítios onde, anos depois, viriam a aparecer as minhas primeiras rugas.
- Pregaste-nos um susto e tanto, sabes, Emília? – gracejou o meu pai. Tentava animar-me. Mas até eu, coberta até às orelhas de drogas e confusões, percebia que ele estava nervoso. Como se estivesse… Cheio de medo.
- O que me aconteceu? – perguntei, esperando algo que não a verdade, algo que não a inevitável alucinação que me sucedera de novo, naquela mesma noite, torturando-me tanto como a primeira o tinha feito.
O meu pai olhou, sem as palavras, para a minha mãe. Não, talvez ele até as tivesse. Ele tinha-as. Todas as palavras. Apenas não eram as palavras que ele desejava ter. Procurava, talvez, uma escapatória, uma mentira na boca da minha mãe. Mas se a esperou, enganou-se e desapontou-se, uma vez que a seguir à minha pergunta ela se ajoelhou junto da cama e me disse baixinho:
- Filha, tu disseste… Coisas. Estavas a delirar sozinha, no meio da rua, quando uma senhora te encontrou e ligou para o 112.
O meu pai pareceu olhar furioso para a minha mãe, mas não disse nada. Tudo o que ele pudesse dizer ia parecer pior.
E assim, ocupava-me tentando dar um significado aos gestos dos meus pais, tentando interpretar as suas expressões, só porque não era capaz de me concentrar no que a minha mãe dissera.
Até que por fim o que ela disse me deitou ao chão. Mas a verdade era, eu já estava deitada numa cama dum hospital psiquiátrico. Quão mais podia descer?
- Eu não estou doida – sussurrei, pensando furiosamente em como todos pensavam que não existiam vampiros. Um dia dir-lhes-ia, e todos reconheceriam que eu tinha razão. Um dia veriam que não estou louca. Era tudo um esquema infernal para nos converter a todos em monstros… Assim o dizia a Lilith, também. Não estava sozinha. Eu não estava louca.
O meu copo estava até bastante equilibrado. Qualquer um na minha situação perderia o tino, e ainda assim, eu mantinha-o, mesmo tendo conhecimento de um vampiro, mesmo tendo conhecimento dos monstros, mesmo tendo conhecimento dos venenos do meu tio Júpiter.
Mas não podia falar destas coisas aos meus pais, e portanto, limitei-me a repetir:
- Eu não estou doida – repeti esta frase cinco vezes, todas com algum espaçamento pelo meio, como se os meus pais não falassem, como se os meus pais não se rissem e dissessem “Ora, que ideia, Emília… Claro que não está doida, estes médicos é que andam doidos para cobrarem tanto!”.
Mas nada disso aconteceu.
E portanto, feita rapariga caída em insanidade, comecei a chorar.
- Porque é que não acreditam em mim? – resmungava, por entre lágrimas quentes e faces ardentes.
- Emília… - sussurrou, simplesmente, a minha mãe. O meu pai não disse nada.
Como uma criança amuada, disse-lhes:
- Estou com sono. Vou dormir, boa noite.
Eles, tentando mostrar compreensão, não me lembraram de que tinha acabado de acordar. Apenas se limitaram a sair e a desligar as luzes.
Nunca na minha vida me tinha sentido tão só. O JP não me tinha vindo ver. Os meus pais achavam que estava louca. A Lilith, a única pessoa que podia acreditar em mim, estava doente e imobilizada em casa. O André, aos poucos, ficara afastado de mim, como um amigo distante daqueles que se perdem e cuja pena lamentamos, posteriormente, de forma amarga. Mas não há forma de recuperar amizades perdidas pelo tempo e afastamento: chega-se ao ponto onde não há desculpa para estarmos mais juntos, para falarmos do calor de coisas que, dantes, nos costumavam fazer felizes.
Também o Sérgio ia ter de ficar no passado, mais tarde ou mais cedo, por mais que nos custasse a ambos. Se eu acabei com ele por um pacote de pipocas, era bem possível que o navio fosse ao fundo antes de desembarcar.
E o Artur. O meu Artur. Que andava por aí, sozinho, de noite.
Como eu.
Se alguma vez já tentaram escapar dum hospital psiquiátrico, sabem que é muito mais difícil sair dum destes do que dos normais. Há guardas, barras nas janelas, e muita desconfiança.
Ainda assim, levantei-me. Deambulei pelos corredores como se procurasse um motivo para quebrar a insónia. À saída, tive de aproveitar um momento de distracção do guarda para passar por detrás deste.
Se da última vez que tentara uma proeza daquelas tinha saído vestida de forma algo ortodoxa, agora estava vestida para matar. Não trocara a minha camisa de dormir do hospital e agora, cá fora juntamente com Novembro, tremia. Os chinelos, pesadões e quentes, eram o meu único conforto enquanto caminhava na noite, para a noite, em busca dele.
Artur…
Aos poucos, fui perdendo a sensibilidade. Tremia, ainda, e o meu nariz parecia molhado de tão gelado, mas a mente foi-se libertando de tais tragédias para me concentrar apenas nas feições adoráveis do meu vampiro que ia ver em poucos momentos… Eu ia encontrá-lo…
E assim, nesse instante gelado vi um vulto alto contra o nevoeiro da noite.
Ele aproximou-se. Olhei-lhe para a cara. A cara tornou-se a dele. A minha cara tornou-se a da mulher mais feliz da Terra.
Ele pousou-me uma mão na cara e sussurrou, baixinho, talvez consciente do quão ainda me doía a cabeça de todo o som, de todo o ruído aterrorizante.
- Quem és tu, bela dama, e porque andas pelas ruas assim – deverei dizer despida?
- Senhor – disse, dum sopro, como se fosse uma daquelas damas de séculos antigos, com o peito repuxado por suspiros e corpetes – Sou quem tu quiseres que eu te seja.
Ele estendeu-me a mão, galanteador, que eu tomei na minha. De seguida, dançámos, ali mesmo, no meio da calçada, eu de chinelos e camisa de dormir e ele com as roupas desfeitas e poeirentas. E na minha cabeça ouvi apenas ligeiros acordes de uma qualquer música perfeita que ele trauteava só para mim.
Mas eis que o som se corrompe a si próprio pelo acto de ser copiado pelos meus lábios… E, com o som da minha própria voz, do meu próprio momento, acordei, suada, na minha cama.
Eram seis horas da tarde de quinta-feira.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
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