domingo, 29 de novembro de 2009

A 7ª Noite

Naquela tarde, a noite caiu cedo, assim que fomos fechados no sítio escuro que a Lilith tinha descrito como o seu cenário permanente durante o tempo em que esteve desaparecida. Tinham-nos amarrados a cadeiras e tínhamos os três mordaças na boca, como que imitando filmes de má qualidade.
O André era o único que tinha ficado na mesma divisão connosco. Na sua cor pálida quase transparente, parecia que tinha adoptado uma terrível face negra, e um comportamento verdadeiramente psicótico.
Ria-se muito, sozinho, como se tudo isso fosse normal. Por fim, pareceu aborrecer-se e soltou a minha mordaça, dizendo:
- Olá, Miazinha, minha amiga adorável. Como estás hoje?
- André… Vamos conversar – sugeri, ignorando a pergunta, tentando soar apaziguadora, mas não de uma forma irritante. Queria tirar-nos a todos daquela enorme confusão. Nada era o que parecia, já tinha aprendido essa lição. E agora, tinha de mostrar que também aprendera aquela que seguia pelas linhas de “Nunca ofendas um monstro”.
- “André… Vamos conversar!” – imitou ele, em falsetto, fazendo pouco de mim. Aquele não era o André que eu conhecera, excepto nas feições – Acerca de que é que queres conversar, miúda? Sobre os meus planos diabólicos temíveis? – e nesta altura experimentou uma risada maléfica, mas a verdade é que não resultou.
- Seria um bom ponto para começar, sim, e algures pelo meio os motivos para me teres mandado raptar a mim e à minha família – e de seguida apontei com a cabeça o meu irmão e o meu pai que continuavam atados e silenciosos.
O André riu-se de novo. Parecia estar a ter dos melhores momentos da vida dele.
- És tão parva, não és, Mia?
O insulto magoou-me, mas fiz de conta que não se passara nada. O André suspirou, resignadamente, como se se aborrecesse.
- Então olha: é simples. Talvez seja preferível contar-te primeiro como é que o teu queridinho adorado Artur se transformou num ser fotofóbico.
Os olhares tanto do JP como do meu pai pareceram aumentar de surpresa. Era deprimente pensar no que teria de lhes contar se alguma vez saíssemos dali vivos.
- Seria um bom ponto para começar, sim – concordei, para impedir que ele se perdesse nos seus devaneios e não me relatasse tudo como deve ser.
- O teu tio nunca te quis magoar. Fui eu, com a ajuda dos meus aliados, que consegui que ele te desse aquele “antídoto” que ele esperava que apenas te fizesse bem. Claro que eu não esperava que o desses ao Artur, esperava que o bebesses tu! O Artur foi um erro do início ao fim. Ele era um dos meus aliados, no início, mas depois chegaste tu, e os remorsos estúpidos dele, e o que aconteceu foi que ele se esqueceu de fazer o que eu lhe tinha mandado para fazer aquilo que ele pensava que era melhor… Pois olha, bem vês que eu, sem nada fazer por isso, fui vingado. Se não há karma, não sei o que é isto. Lei do par acção-reacção? Determinismo? Não interessa, eu devia ter sabido que tu ias dar cabo dele. A única coisa que correu mal nisto tudo, foi que saíste incólume, ao contrário da Lilith. Bem vês como a tirei do caminho assim que começou a desconfiar. Ela falou comigo, mas não contigo porque não te queria preocupar. Ela achou que eu compreenderia, porque era um génio, tal como ela. E tu… Desculpa, Mia, mas a verdade é que sempre foste a burrinha do nosso triângulo adorável.
Engoli em seco, mas forcei-me a não responder. Talvez assim ele me contasse as coisas mais depressa, sem se distrair do seu intento.
- Porque bem vês, eu tenho um plano. Não o de conquistar o mundo, não sou assim tão sociopata. O meu objectivo é o de tornar possível a experimentação em humanos. Já imaginaste o quão a Ciência iria evoluir a partir disto?
Esta era de facto uma explicação muito fraca, no fim de tudo isto pelo que passei. Mas não pude contemplar esta realidade por muito tempo, uma vez que após uns instantes escassos a porta se escancarou e o Artur apareceu junto dela.
Entrou, sem hesitações, sobre o olhar perplexo do André, e deu-lhe um murro único que o deitou ao chão. Como o Artur era muito mais alto e forte que o escanzelado do André, este nem sequer tentou resistir. Posteriormente, o Artur soltou-me, o mais rápido que conseguiu, e depois cada um de nós libertou os dois homens da minha família.
- Ah… Pai, JP, este é o Artur. Ele está do nosso lado, suponho eu…
- Sim, supões bem. Já falamos.
O Artur desta noite era muito introspectivo, durante toda a nossa fuga, não disse mais uma palavra, e nem sequer explicou como nos encontrara ou como tinha passado pelos tais “aliados” do André. Não disse absolutamente mais nada.
Nós seguíamo-lo, confusos. O meu pai ainda me fez uma pergunta qualquer, mas como eu não lhe soube responder, limitou-se a caminhar também calado.
Caminhámos pela cidade, em silêncio, eu que era a que tinha as pernas mais curtas quase correndo para os acompanhar. Ao fim de um bocado, chegámos a um beco onde uma figura nos esperava.
A Lilith, que estava de pé, aparentemente sem qualquer mazela.
- Lilith! Tu não podes estar de pé! – reclamou o meu irmão, quando a viu.
- Posso sim, JP. Eu recuperei. Hoje, tive que ir à procura dele, uma vez que era a única forma de vos poder ajudar. Também tentei falar com o Sérgio, mas ele não me atendeu. Eu soube… Eu soube da casa. A vossa mãe está em minha casa, preocupadíssima, talvez devessem ir lá.
- Então e tu, que é que estás aqui a fazer ainda?
- O Artur não sabia onde era a minha casa. Tive de esperar por vocês para vos dizer isto.
Todos estes acontecimentos se desenrolavam à frente dos meus olhos, tal como quem vê um filme a 3D. Mas não estava a ser divertido. De todo.
- Talvez vocês os dois devessem ir ter com a mãe – disse para o JP e para o meu pai – Eu tenho que ir… à polícia – menti.
- À polícia? Mas que raio lhes vais dizer, que um monte de criaturas geneticamente modificadas nos entraram pela casa adentro e que nos aprisionaram? – perguntou, céptico, o meu pai.
- Pai, eu tenho que falar com o Artur. Eu não posso explicar tudo agora, mas depois vou tentar…
O meu pai tentou impedir-me, mas eu já andava na direcção oposta, com o passo mais rápido que consegui arranjar, arrastando o Artur por um braço.
Mal os perdemos de vista, parei no meio do caminho e perguntei-lhe, sem rodeios:
- Que tipo de pessoa és tu hoje? De que te lembras?
- Nada – respondeu ele – Acho que é usual. E sou… Sou eu.
Esta única frase teve o condão de me pôr com a alma de joelhos junto aos olhos, para depois mergulhar e me fazer chorar.
As minhas lágrimas, por sua vez, tiveram o condão de fazer o Artur perder toda a falta de expressividade e de comunicação. A medo, ele ergueu a mão e pousou-ma na face, e com um dedo gelado limpou-me a lágrima fugitiva. E com a voz mais terna e inacreditável, sussurrou baixinho:
- Não chores, Emília… Não chores por mim.
Mas isto só me fez chorar mais e ele abraçou-me para que toda a minha alma vertida o atingisse directamente no coração.
Foi neste momento que, novamente, me vi perseguida por criaturas de pesadelo. Vinham do caminho de onde tínhamos vindo; o meu coração pululou desejando que a minha família e a Lilith estivessem bem e não tivessem sido raptados de novo.
Em pânico crescente, limpei as lágrimas com uma mão e quase me esqueci de que era suposto estar a chorar. Agarrei, sem pensar, na mão do Artur, e corremos os dois, em fuga das temíveis criaturas.
Galgávamos os paralelos do chão quase sem os tocar, de tão rápido corríamos. E eu sentia, feliz, o ar na minha cara. Sentia, feliz, a mão do Artur na minha.
No caminho, via as árvores com as ramadas a serem como que puxadas e empurradas por mãos invisíveis, furiosas. O lixo largado por alguns transeuntes durante o dia voava, agora, de encontro a nós, de encontro à multidão de monstros que nos perseguia, sem vontade própria, mas com apenas o intento de servir o fantasma que eu criara, porque ele não mo dissera, mas de alguma forma sabia: o André tornara-se agressivo e descontente porque me quisera, e eu nunca tinha demonstrado qualquer interesse romântico por ele. Assim, o seu próprio medo tornara-se a sua cara; fora esquecido por mim, ainda que com grande desgosto meu.
Tudo se começava a encaixar, ou pelo menos assim era na minha cabeça. Tudo fazia sentido, os monstros e a tristeza, os acontecimentos impossíveis e a solidão: porque um plano só se cria quando algo nos impulsiona para isso.
Atrás de nós, ouviam-se as palavras mais feias do mundo, algumas delas, ainda nem sequer existiam antes daquele momento, mas naquele momento criavam-se: eram proferidas e cuspidas só para os nossos ouvidos. E ainda que nós fugíssemos, e ainda que nós as ignorássemos, ouvíamo-las, nítidas, repetindo-se incessante e horrorosamente nas nossas cabeças…
E eis que neste instante, o nosso caminho é perturbado por um vulto quieto, de braços cruzados, recortado em traços escuros contra a luz do candeeiro atrás de si. E o seu cabelo é uma auréola doirada de cabelos esvoaçantes e claros.
- Sérgio! Que estás aqui a fazer? – ouvi os meus lábios pronunciarem, dando voz aos meus pensamentos, quase sem pensar que o ia de facto perguntar.
- À vossa espera. Vocês não vão passar.
- O quê? – a minha voz elevou-se uma oitava acima do normal, com o choque daquilo que ele acabava de dizer. Ainda assim, não parei de correr em direcção a ele. Ele não nos podia impedir de passar. O que podia ele contra nós dois? – Porquê?
- Não vão passar – insistiu ele, sem mais explicações.
- Quem é este palhaço? – perguntou, irritado, o Artur.
- O Sérgio. Deves ter referências a ele no caderno…
E não parámos de correr, aproximávamo-nos do Sérgio e ele mantinha-se quieto, imóvel, passivo como uma estátua erguendo-se a muitos metros de alturas de nós, meros mortais. Ainda assim, ele continuava com a sua altura normal, muito inferior à do Artur. Não percebia o que é que ele esperava da sua intervenção, ou porque é que tinha sequer pensado em parar-nos.
E corremos para o lado esquerdo do Sérgio, sem parar. Vamos passá-lo. Deixá-lo, assim, estatuado e, mais importante que tudo, para trás.
Mas no preciso instante em que estamos lado a lado com o Sérgio, algo acontece. Toda a nossa carne parece arder, por momentos, com chamas verdadeiras. Gritamos, os dois, em uníssono, como se ambas as nossas almas se unissem na dor de se libertarem dos corpos. Sinto a pele ceder, como cera que derrete, e sinto-a perder-se numa forma que não existe. E esta não existência cobrava-me toda a dor que eu até ali só podia imaginar; perdia-me nas cinzas dum corpo em chamas. Parecia que era impossível tudo o que me estava a acontecer… E apesar disso, este foi o momento mais real da minha vida.
Por fim, senti uma mão ardente puxar-me do fogo que era eu (toda eu era o fogo) e senti de novo o frio e gelado ar da noite na cara, nas mãos, nas roupas queimadas. Ainda assim, nada mais era já o fogo, assim que o abandonei – toda a minha cara devia ser o meu pior pesadelo: também eu me tinha tornado um monstro, neste momento único. Os monstros, atrás de nós, aproximavam-se, mas eu e o Artur já não temíamos mais. Olhei para ele e vi-o, mas ele não estava desfigurado, não como as minhas mãos sangrentas e vermelhas, não como as minhas roupas que fumegavam, não como estaria a minha cara para a qual eu nunca mais queria olhar. O Artur era… Apenas ele, o Artur, e olhava para mim como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo.
E eu sabia que era, provavelmente, a mais feia, a partir do momento em que as labaredas me tocaram a face.
Os monstros aproximaram-se e eu descobri que estava a chorar, porque as lágrimas começaram a evaporar à frente dos meus olhos devido ao calor ardente da minha pele queimada.
Sem perceber muito bem porquê, senti-me a desfalecer, e caí nos braços rápidos do Artur que me ampararam, mas magoou-me sentir a minha pele contra a dele, ainda que a temperatura fresca da pele dele me aliviasse o ardor ligeiramente.
As criaturas rodeavam-nos, agora, e custou-me observar que a barreira que me pusera fogo não existia para elas. O Sérgio avançava, agora, para nós, e sorria.
Mas nunca chegou a dizer qualquer palavra que fosse, uma vez que de um impulso o Artur ergueu uma faca que não sabia que ele sequer tinha e a enterrou no estômago do Sérgio.
Gritei, e senti a visão enevoada com as dores e as lágrimas que voavam, evaporadas, da minha pele.
Também o Sérgio exprimiu um qualquer som que parecia um grunhido vindo do âmago da alma dele (se ele ainda a tinha) antes de cair com a cara no chão, como uma tábua hirta espatifando-se porque alguém deixou de a segurar.
Aquele era o rapaz que me tinha dado um beijo há umas poucas de horas atrás. Aquele era o rapaz com quem tinha acabado por um pacote de pipocas. Era o rapaz por quem suspirara, em silêncio, durante dois anos inteiros até me apaixonar pelo Artur. E aquele era o rapaz que me tinha desfigurado as feições com um qualquer dom que eu nunca conhecera, a acrescentar ao dom telepático que ele ganhara recentemente.
Ainda assim, não me parecia certo, nada certo mesmo, que ele estivesse morto e silencioso para sempre. Não podia acreditar que ele nunca mais me ia dizer que me amava e que o Artur era um monstro. Nunca mais ia vê-lo sentado nas aulas de Biologia. Nunca mais… Talvez nunca mais houvesse aulas de Biologia. Tudo tinha perdido o senso e a lógica! Quem sabia? Talvez agora a minha vida fosse apenas esta: a de percorrer na noite a Terra com o meu namorado morto durante o dia.
Toda aquela noite era horrores, talvez toda a vida se tornasse um horror único, e não havia nada pior que pudesse acontecer, ou pelo menos, era isso o que me parecia. Mas era muitíssimo possível que estivesse enganada.
Afinal de contas, todo vento que se erguia não podia ser um bom sinal… Nada era um bom sinal, muito menos o olhar profundo e indistinguível do Artur, o meu Artur.
E o instante seguinte foi o instante que ditou para sempre toda a minha vida.
O Artur disse-me, sussurrando:
- Pára de sonhar, Mia. O Artur não existe.
E de repente já não era de noite.

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