Saí dali a correr. Consegui cumprir o meu objectivo de chegar a casa antes do JP aparecer. Se ele soubesse que me tinha ido embora, ou quem que quer que fosse da minha família, estava cozinhada de muitas formas diferentes, e de nenhuma dessas formas eu saía viva.
Aproveitei para me tentar concentrar em estudar Inglês, porque isto de ter conhecimentos de conspirações é muito bom em teoria, mas quando toca à prática, não há nada que se possa, de facto, fazer. Podia ir à procura deles donde a Lilith tinha fugido, mas não me parecia que saísse de lá mais viva que dos cozinhados da minha família.
Ou, pior, podia sair de lá viva e convertida numa monstra que podia tomar qualquer forma inimaginável.
Eu, certamente, não queria imaginar.
Mais tarde, o JP chegou a casa. Dei-lhe o conselho da Lilith. Ele pareceu embaraçado, mas concordou, como quem não tem nada a esconder:
- Sim, de facto, é capaz de ser uma boa ideia…
- Porque não vais lá agora? – sugeri.
- Agora? Porque haveria de ir agora? – perguntou ele, confuso – Acabei de chegar a casa. Espero que não estejas a tramar alguma.
Fiz um esforço por me mostrar ofendida.
- Eu? A tramar alguma. Como se isso sequer fosse possível. E estás a ver, a miúda quer mesmo ver-te. Hoje fartou-se de falar de ti – acrescentei. Esperava estar a ser ligeiramente subtil. Deus, se houvesse algum prémio de casamenteira, eu devia ganhá-lo.
- Hm… Talvez tenhas razão. A verdade é que também não tenho grande coisa para fazer… - concluiu ele, subitamente com um sorriso estúpido pespegado na cara. Mas não me irritou. Fiquei feliz por ele e pela Lilith. Deviam ser felizes juntos, por fim, depois de tudo o que lhes acontecera.
Ironicamente, eu própria poderia estar agora feliz com o Sérgio, tal como tinha querido durante estes dois anos. E agora, por fim, que ele parecia cair em si, eis que eu estava apaixonada por uma criatura das trevas. Ah, sim, se o Karma existe, não sei quem é que fez piores coisas em vida, se eu, se o Sérgio, se o pobre do Artur, que por esta hora do dia ainda estava morto com certeza.
Porque isto para se morrer ininterruptamente, alguma coisa muito má se deve ter feito. E não algo de mau, do género, usar a escova de dentes do irmão para limpar a sanita, mas sim mau, do género, matar alguém.
Esperava que isso nunca tivesse acontecido.
Afinal de contas, que é que eu sabia sobre o Artur? Muito pouco. Apenas que fumava, que tinha namorado com a minha prima Matilde… A minha prima. Ela é tão burra… Talvez não fosse má ideia ter uma conversa com ela sobre o Artur. Ou então, mais simples até, ter uma pequena conversa com o Diário Jamais Secreto dela. Toda a família sabia que ela escrevia um diário, e ela costumava contar que o havia de publicar, um dia, quando fosse famosa. Usualmente, eu, o meu irmão e o tio Júpiter apenas tentávamos disfarçar as gargalhadas por dois segundos. Após esse tempo, ríamo-nos a bandeiras despregadas, quer tivéssemos tido tempo de fugir da divisão para longe, numa tentativa inútil de lhe poupar os sentimentos, quer fosse ali mesmo, porque éramos absolutamente incapazes de a ouvir dizer que ia publicar os diários sem pensarmos no absurdo que tal acontecimento seria.
Em todo o caso, sabia que existiam. Só tinha de ir a casa dela e roubar-lhe os diários. O que não era muito difícil, uma vez que a minha mãe me andava a pedir há séculos para eu ir a casa da tia Daniela buscar um regador que ela levara emprestado. Aquele dia era tão bom como qualquer outro. Que interessa que fossem sete da noite e estivesse noite cerrada, uma vez que estávamos em Novembro? Também era possível que no dia seguinte chovesse a potes, mas um regador é um objecto de que se precisa muito amiúde.
Pronto, suponho que haveria melhores desculpas, mas aquela era a única que tinha, e aproveitei-a. Corri naquele momento para a casa da tia Daniela. Só podia esperar que a Matilde não estivesse em casa.
O meu desejo foi concretizado.
- Olá, tia – cumprimentei, quando a minha tia me abriu a porta e abriu um largo sorriso para me cumprimentar. Não fazia mesmo ideia de como é que ela dera à luz uma criatura tão repugnante como a minha prima.
- Emília, querida! Que queres tu à tua tia? – perguntou-me, não largando o sorriso ao qual eu tanto apreço tinha. Quase me sentia com remorsos por antecipação por aquilo que ia fazer à filha.
- Tia, desculpe, a minha mãe andava há séculos a chatear-me para vir cá buscar o regador… Até agora só tem dado conta do recado com a jarra da água…
- Oh, claro, claro… Entra, um bocadinho, Emiliazinha…
Fiz como ela me disse. Agora só precisava de usar a desculpa da casa de banho para conseguir deslocar-me a mim e à minha preciosa mochila até ao quarto da Matilde.
- Senta-te, querida, já volto, vou buscar o regador… - começou por dizer a minha tia Daniela.
- Deixe estar, tia, eu vou à casa de banho num instante. Não tenho pressa… - descansei-a e eu própria desloquei-me para o corredor.
Não tinha muito tempo, sabia-o, era só o tempo da minha tia ir à cave buscar o regador. Corri, então, e abri a porta fechada da Matilde após constatar que não se ouvia qualquer barulho lá dentro e que a luz estava desligada. A Matilde era uma existência muito sem-graça, mas nunca dormia durante o dia. Assim, estava descansada, e quando entrei, comprovei que não estava ninguém no quarto. Agradeci mentalmente a Deus (ou ao Big Bang, conforme a disposição e as crenças com que estivesse no dia). Olhei, com urgência, para as prateleiras, quase sem ler as lombadas dos livros. Olhei também para debaixo da cama. Por fim, os meus olhos caíram, enquanto me erguia, no armário. Abri-o. No meio de muitas roupas que a minha prima exibia quase de mês a mês, ou talvez uma vez por ano, encontrei vários cadernos com capa de couro. Agarrei num, ao acaso, e descobri que era desde Agosto até Outubro do ano presente. Mal podia acreditar na minha sorte. Enfiei-o, com pressa e de modo algo atrapalhado, na mochila. Fechei a porta do armário e também a do quarto. Corri para a casa de banho e premi o autoclismo. Eu era uma profissional. Fingi lavar as mãos (lavando mesmo) e dirigi-me para a cozinha, por onde eu própria tinha entrado.
No momento em que eu própria entrava na cozinha, a minha tia Daniela chegava pela porta da cave. Mal podia crer na minha sorte.
- Toma lá o regador – estendeu-mo ela, enquanto eu ajeitava a mochila nos meus ombros.
- Obrigada, tia – agradeci.
Após uns minutos de conversa de circunstância, deixei-a e saí, abandonando a casa antes da chegada da minha prima. Agora só podia esperar que ela não descobrisse que faltava um caderno, ainda por cima um caderno tão próximo da data presente, que passara de vigor há apenas um mês.
Mas ainda assim, continuava a achar que os motivos recompensavam os riscos. Fui direita para casa (porque não muito mais onde ir com um regador na mão). Não demorei a chegar lá e assim que abri a porta e vi a escuridão e pressenti o silêncio absoluto, percebi que o JP ainda não tinha chegado a casa da sua visita à Lilith. Ainda bem, ainda bem para eles.
Entrei no meu quarto e estendi-me na cama com o diário de Agosto a Outubro da Matilde. Não me senti mal por penetrar nos segredos privados dela.
A vida dela era, em grande parte, pública. Toda a gente sabia que fumava socialmente, de vez em quando, e era do conhecimento geral o número dos seus namorados, ou o que ela fazia com os mesmos. Não que me interessasse muito pela vida da minha prima, até eu própria sabia muitos dos detalhes que estavam escritos nas primeiras páginas. Não sabia em que data tinha a Matilde começado a namorar o meu Artur, apenas que o ano lectivo começara com eles os dois sendo um item. E portanto, não tinha outro remédio se não prosseguir a leitura. O momento não podia estar longe…
E por fim encontrei-o:
(…) Hoje no Vendredi, o Nando apresentou-me a um amigo dele. Chama-se Artur. Não é por nada, mas o gajo é cá um pedaço! Bem sei eu o que lhe fazia. É alto, moreno, e todo bom. Talvez um destes dias consiga fazer dele mais que um conhecido.
Esteve sentado connosco um bocado, até sair para ir fumar. O gajo é o ideal de gajo. Não ouvi nada do que ele dizia (ele também falava pouco, como convém), mas sempre que o fazia ficava a fitá-lo no maior descaramento. Um dia, hei-de ter os bebés daquele gajo, marquem o que vos digo, porque pode acontecer… E vai. Porque eu nunca desisto do que quero.
Após esta passagem, ela tinha outros devaneios intragáveis. Não podia suportar muito mais daquilo. A miúda não dizia nada com um pingo de sentido ou complexidade.
Para além dessa passagem, ela tinha várias outras, em que voltava a ver o Artur. Contudo, nenhuma trazia qualquer tipo de informação para além do quão bom que ele era. Muito verdade, mas não invalida que eu estivesse à procura de algo que não soubesse, e não do óbvio.
Por fim, cheguei à passagem do início do namoro deles:
Oh meu Deus! Diário, diário, nem sabes: hoje, finalmente, o Artur fê-lo. Beijou-me e eu beijei-o. Já não era sem tempo, começava a pensar que o gajo não se decidia. Diga-se de passagem que ainda emborcou umas quantas antes de o fazer. Ei, não me queixo, ele que arranje a coragem dele onde quiser… Primeiro não sabia se aquilo era curte, mas depois eu própria arranjei estômago para lhe perguntar “Amanhã queres que espere por ti ao portão da escola?”, e quando ele disse “Ya” não houve muitas mais dúvidas. The thing is on now. E eu também.
A seguir a isto, não encontrei nada de mais. A minha prima era tão fútil e presumida que não existia uma única referência em todas as entradas do diário à personalidade do Artur, quer fosse pelas qualidades ou pelos defeitos. Nem uma única queixa. Apenas relato monótono e estupidificante sem sentido ou fim.
O meu grande risco tinha sido a coisa mais inútil que já fizera.
Atirei o caderno para um canto e tentei planear a minha noite. Como é que eu fazia, agora? Como é que ia tratar do Artur no dia presente? Hoje não ia descarregar as minhas tarefas e os meus medos no Sérgio, aliás, não podia, a partir dali, parecia, contar com o Sérgio para nada. A verdade é que talvez o Sérgio não pudesse perdoar-me. Íamos, assim, permanecer mudos e silenciosos, reprimidos tal como nestes últimos dois anos. O que, claro, apenas era diferente porque agora… Não havia volta a dar. Não havia palavra nenhuma que nos salvasse. Nem mesmo “Desculpa”.
E o Artur… Continuava morto. E o que é que se esperava de mim? Não ia conseguir fugir de casa para ir procurá-lo.
Certos momentos, duvidava que quisesse.
Mas tinha de o fazer, e por isso mesmo, cheguei à conclusão, de que de algum modo, ia ter de fugir outra vez. O que não era muito bom. A minha mãe ia adorar se descobrisse. O meu pai igualmente. E o JP, nem se fala.
E foi ele que, nesse preciso momento, chegou a casa. Ouvi a porta abrir-se e fechar-se muito devagar, como se ele estivesse extremamente cauteloso, como se tivesse medo de partir fosse o que fosse, na sua euforia presente, com a sua falta de cuidado presente.
Bateu-me à porta, ao de leve, e até esperou que lhe respondesse antes de a abrir de rompante, como de costume.
- Entra – acedi.
Ele obedeceu. A cara dele era uma máscara de felicidade. Não disse muito. Disse-me, apenas:
- Obrigada, mana.
E desapareceu, pelo corredor, trauteando uma música da Kelly Clarkson baixinho. O JP, usualmente, ouvia Sam the Kid e outras atrocidades. A Kelly Clarkson era, certamente, uma variação positiva. Mas, certamente, não eram influências da Lilith. Se ele tivesse sido influenciado por ela, estaria provavelmente a ouvir Dimmu Borgir ou Epica. A Lilith diz-me muitas vezes que as duas bandas são completamente diferentes (ainda que estranhamente agradáveis), mas quando ela mo mostra, a única diferença que encontro é a presença de vocais femininos numa delas.
Tomei isto como um bom sinal. Isto poderia querer significar que teria mais facilidade em escapar, de noite, porque o meu irmão estava, obviamente, absorvido na sua própria felicidade.
Só esperava que os meus pais chegassem estafados e sem qualquer vontade de me impor barreiras ou de me prestar muita atenção.
Não foi o que aconteceu. Naquele dia, pareciam estranhamente devotos. O meu pai, em particular, decidiu vir ao meu quarto contar-me todas as novas anedotas que tinha aprendido com os seus colegas jornalistas.
Só à hora de dormir, supostamente, é que me deixaram livre para me deitar. Contudo, esperei que o sono lhes chegasse a eles próprios, e que as pálpebras lhes começassem a pesar. Novamente, estava com pouca sorte. Parecia que tinham bebido um barril de cafeína naquela noite. Ainda assim, não desisti, e comecei a andar pelo quarto, silenciosamente, para evitar o sono inesperado.
Finalmente, deitaram-se, e esperei cautelosamente até ouvir dois ténues ressonares em contra-tempo.
Aí, ergui-me e corri para a rua. Era já muito tarde. Duas, três da manhã, talvez. As minhas passadas em direcção ao pinhal onde vira o Artur cair morto eram largas, e não pareciam humanas. Pode-se dizer que era movida por algo maior que o desejo e a humanidade, mas pelas asas dos sonhos. Sim, quase pensei que, enquanto corria, sonhava. Talvez eles tenham razão e não tenha tudo passado dum sonho, é o que penso quando me lembro de como corri naquela noite.
Quando cheguei ao pinhal, acautelei-me. Estava escuro e havia muitas sombras soltas. Muitos esconderijos. As sombras moviam-se como se fossem gente, e atrás de todas se podia esconder um vulto que não era gente, mas uma criatura das trevas.
Notei o local onde o Artur caíra… Estava vazio. Não era de surpreender.
Naquela noite tinha-me esquecido de trazer fosse o que fosse para me proteger. Fora uma inconsciente tremenda, no verdadeiro sentido da palavra. Mas quando pensava no Artur, de certo modo, esquecia-me do verdadeiro sentido do medo.
Um truque vampírico? Não fazia ideia, mas gelava-me por dentro saber o quanto gostava dele, mesmo sabendo que ele não era a pessoa certa para mim. Não sabia se havia de continuar à procura do anti-veneno. Não sabia se existia…
Sabia, no entanto, que o devia temer, ali, no escuro, e longe do mundo.
Mas não era capaz.
Vagueei, então, no escuro, desprotegida e inocente, esperando-o. Esperando a morte. Se ele me atacasse ali mesmo, era impossível que alguém me visse, caída. Se ele me quisesse matar… Só sabia que o podia fazer, especialmente porque no que tocava o Artur, eu tornava-me uma completa idiota.
E de súbito, ele surgiu no escuro: Negro e rápido, como uma luz de noite.
Nesse momento, um alerta que quase desesperara por alcançar abraçou-me o espírito e, assustada, inesperadamente, fugi.
Eu estava a correr pela minha vida, e nem percebia como arranjara forças para tal.
Mas as sombras pareciam a eternidade, pisava as agulhas secas, os ramos e os musgos, e temia escorregar, mas temia ainda mais aquele que eu amava, e de quem fugia.
Ter um namorado vampiro dá, de facto, um novo sentido à expressão “violência no namoro”.
E enquanto corria, todos os ruídos de perseguição cerrada sossegaram e na minha mente, tudo se calou, restando apenas uma canção norueguesa sem instrumentação, só com uma voz feminina desenhando a beleza e o sentido que só pode ser encontrado no silêncio.
(*) Vandrer ensom på ukjente stier…
As árvores cruzam os meus olhos apenas por instantes, apenas para serem de novo substituídas por outras… Durante a minha procura alienada pelo pinhal, tinha-me embrenhado demasiado no meio delas. Não encontrava a saída… A estrada…
Skumringen senker seg…
E as sombras fechavam as janelas para a noite e para a lua em pequena fatia, e nada mais via que não o sonho de sair dali… De viver… E continuava a correr no escuro, tropecei talvez três vezes, e não ousava olhar para trás, mas ele corria atrás de mim… Sempre… Atrás de mim…
Roper, venter – stillheten tier…
O vento e eu éramos um só, e eu mergulhava de cabeça na imensidão que era ele, e ele abraçava-me com força, a pequenez que era eu… E eu corria, sentia as pernas quebrarem, mas adorava como aquilo me fazia sentir, ainda que por dentro morresse de medo; eu era o medo a fugir de si próprio; eu era o movimento e o medo, interligados, e nada mais eu podia ser…
Skumringen senker seg…
E eu nada mais podia ser.
Por fim, as árvores quebravam a paisagem, deixei-as para trás, alarguei o passo. Voltei a ouvir os ruídos de quem caminha. Ouvi passos tão rápidos como os meus um pouco atrás de mim; tinha de fugir, ou perdia tudo. Perdia-me não só a mim, mas também ao Artur. Se eu me perdesse, ele também se perderia, na noite seguinte, sem memórias e sem vidas anteriores, sem uma única ligação à sua própria vida original.
E portanto, corria. Nada mais fazia que correr. Não o podia deixar sozinho, não podia estar próxima dele naquele estado… E assim, desesperada, prosseguia, porque não sabia que mais fazer, porque ele não parecia nada pacífico e parecia não restar qualquer réstia de humanidade nele naqueles momentos em que me perseguia…
Eu era capaz de correr. Podia correr até ao fim da noite, mas de certo modo, tive medo de ter de o fazer.
Congelei no lugar onde estava e ao cabo de escassos segundos, ele embateu em mim. Parecia ter ganas de me matar, mas eu lutei de volta. Esmurrei-o num olho e no estômago. Com raiva, mordi-o a ele próprio no primeiro pulso que apanhei. Ele não sangrou, mas pareceu ficar amedrontado com esta presa que lutava e quase que desistiu. Afastou-se, de pé, alguns metros. Ainda assim, rosnou-me, como se dum animal se tratasse.
Rosnei-lhe de volta. O raio, se ele pensava que me ia assustar. Podia ser apenas um pouco mais alto que eu, mas era feito do mesmo que eu… De carne e osso. E, esperava eu, algo mais, que nos garantisse a decência de sermos pessoas.
Ele estudou-me, cauteloso, como se só agora me pudesse de facto ver. Naquele dia parecia, de facto, nem se lembrar da capacidade de falar.
Aproximou-se e eu mantive-me quieta, expectante. Ele cheirou-me. De uma forma quase ternurenta, pegou-me na mão, cheirou-a e, de seguida, lambeu-a.
De seguida, sem eu dar por isso a tempo, atirou-me violentamente ao chão, com o próprio corpo dele. Agora estávamos quase tal como na noite anterior, mas no meio duma estrada de alcatrão que, ainda que deserta, estaria movimentada pela hora do nascer do sol.
Custou-me a perceber que o objectivo dele, nesta noite que retratava o lado mais animalesco do que quer ele fosse, era procriar. Isso mesmo… Desesperado, sem se lembrar que estava vestido (provavelmente, nem sabia o que isso era, naquele instante), o Artur estava a tentar acasalar comigo.
Claro que eu o empurrei para longe de mim no momento em que me apercebi do facto. Quem é que raio ele pensava que era?! Pior, quem é que raio ele pensava que eu era?! Alguma vampira?... Se é que ele sequer era um vampiro. Naquela noite, começava a pensar que ele não passava de um humano forçado à era primitiva…
Comecei a correr de novo, em pânico, porque percebia agora que ele na noite presente não era uma ameaça para a população da cidade, mas sim para mim. Ele tinha-me escolhido para fêmea preferida. Eu não ia tolerar tal coisa.
Fugi. Senti de novo o vento na minha cara, mas agora senti-o de forma diferente. Parecia-me, até, que corria mais rápido que anteriormente. A urgência apoderava-se de mim e eu sentia-me confortável com ela. Mais segura, certamente.
Ainda assim, agora até o próprio Artur me perseguia com maior ferocidade. E eu comecei a recear o que estava a suceder ali. Aquilo não era certo. Não era nada certo.
Ele estava verdadeiramente doente, era a única conclusão que podia tirar dali.
A certa altura, senti-o derrotar-me e raspei com os joelhos no chão. As calças rasgaram-se… Se a dor significava alguma coisa, eu estava provavelmente a sangrar…
E os olhos do Artur começaram a mudar de cor, isto é, figurativamente falando.
Consegui ler-lhe o que tinha nos olhos e tive medo. Já tinha sido mordida por ele, sabia o que acarretava. Os meus pais não iam acreditar na história do cão outra vez. Podia dizer-lhes que me tinha ferido, que um homem me tinha tentado assaltar e que me ferira… Mas para que me preocupava eu com a desculpa que iria arranjar? A verdade é que era pouco provável que eu saísse dali viva.
Eu ia morrer. E desta vez era a sério.
Até que o Artur caiu para o lado e me largou.
Demorei algum tempo a aperceber-me do que se tinha passado. A manhã ainda estava longe de chegar, mas o Artur ali estava, caído, quase que morto.
A uns metros de distância, segurando numa pedra tamanho calhau, estava o Sérgio.
(*) Pedaços de Vandring, dos The 3rd and the Mortal
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
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