segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O 3º Momento Pós-Vampirismo

O Artur levava-me para algures fora da cidade. Corria pela estrada comigo a debater-me contra o corpo alto e forte dele. Estávamos a aproximar-nos dum pinhal bravio. Eu só me perguntava “O Sérgio, que terá ele feito ao Sérgio?”.
Não demorou que estivéssemos envolvido pelos pinheiros altíssimos e pelos arbustos rugosos. Ele largou-me no chão. Ele próprio ajoelhou-se à frente do meu corpo estendido e cobriu-me os pulsos que repousavam no chão junto às muitas agulhas secas de pinheiro com as suas próprias mãos.
E o que ele disse foi:
- Como é que me pudeste trair assim, Emília?
Como ele se lembrava de mim, ou como ele sabia que eu contara ao Sérgio, eu não sabia. Nem tive hipótese para perguntar, porque no momento seguinte eu sentia todo o peso do Artur em cima de mim e os lábios dele na minha testa.
Senti as bochechas molhadas e pensei que chorava. Porém, após uns segundos descobri que as lágrimas não eram minhas, mas do próprio Artur, que continuava a prender-me pelos pulsos de forma que não era de todo capaz de me libertar, por mais que tentasse, e que me beijava descomensuradamente, como se os beijos dele me purificassem e apagassem todo o mal que lhe pudesse ter feito.
- Que fiz eu? – gaguejei eu para a garganta do Artur – Estás zangado por eu ter dito ao Sérgio?
- Quem é o Sérgio? – perguntou ele, confuso, parando de me beijar e largando os meus pulsos para usar as mãos dele para me acariciar a cara e os cabelos. Contudo, ainda não me podia levantar porque todo o peso do corpo dele estava aplicado em mim num abraço inevitável.
- O… Rapaz… Que mandei para te vigiar.
- O do cabelo amarelo?
- Sim.
- Ele disse-me, Emília, disse-me que me mataste. Ele contou-me tudo…
Porque haveria o Sérgio de fazer uma anormalidade dessas? Se o mandara vigiar o Artur, para que lhe tinha ele dito tudo aquilo?
- Diz-me que não é verdade, diz-me que eu não te conheço de lado nenhum…
O mais absurdo de tudo aquilo era a reacção explosiva do Artur. O que teria ele feito ao Sérgio?
- Artur, diz-me, estás com fome?
- Não, Emília, porque haveria de estar?
Não sabia o que aquilo significava.
- Lembras-te de mim?
- Não. Mas quem me dera lembrar… És tão bonita – concluiu ele, enquanto deslizava uma das mãos desde a minha bochecha para o meu pescoço, para o meu peito, para a minha anca.
- É verdade – respondi-lhe por fim – Eu matei-te. Mas eu não sabia…
As lágrimas dele caíram-me na cara como se de chuva se tratasse. E o sol estava quase a nascer…
- É verdade? Porquê, Emília? O que te fiz eu? Como é que eu te posso ter magoado, um dia, como? Não consigo sequer imaginar… Desculpa-me. Desculpa-me.
E depois disto, descobri que também eu estava a chorar. E depois começou a chover a sério.
E por fim, nesta cadeia de acontecimentos, ele beijou-me. Beijou-me a sério. Nenhum outro beijo que alguma vez tenha tido, em toda a minha vida, se pode comparar com este. Este beijo ultrapassou às milhas a sensação de prazer que me dera que ele me sugasse o sangue.
Envolvi a cara dele com as minhas mãos, para não o deixar fugir. Ele, por seu turno, envolveu-me com ambas as mãos e, juntos, rebolámos pelas agulhas de pinheiro. Não me importei.
Aquilo era tremendamente errado. Tremendamente desprovido de esperança.
Mas eu estava certa, aquela chama jamais poderia morrer.
Embora, claro, o Artur pudesse. Como aconteceu enquanto rebolávamos. Dei por mim em cima de um cadáver, beijando-o apaixonadamente.
Estava a chover torrencialmente. A chuva abafou-me os gritos de horror.
Não fazia ideia do que acontecera ao Sérgio, mas encontrara o telemóvel dele num dos bolsos do Artur. Fugi para casa e não demorei a entrar. A porta tinha ficado encostada, só esperava que nenhum ladrão se tivesse infiltrado. A minha família continuava a dormir.
Fui para o meu quarto e sequei-me. Vesti-me e fiquei a ver o sol nascer, rapidamente na janela. A minha família já estaria a acordar dentro de poucos instantes.
E para além de todos os horrores da minha vida, aquele era o dia em que ia receber o meu teste de Matemática.
O stôr nunca falhava. Precisamente uma semana a seguir a termos feito o teste, lá estava ele, com um envelope amarelento debaixo do braço e um canto da boca contraído, exprimindo desaprovação.
E era precisamente a expressão que tinha previsto que ele envergava algumas horas depois, quando eu me sentava no meu lugar habitual, um lugar sem a Lilith ao lado, mas que já não parecia tão soturno estando vazio, porque o significado era já completamente diferente.
A Lilith estava em casa, era o que o meu coração cantava, liberto de pelo menos uma preocupação. Mas claro… Continuava quase tão enterrado como antes: o Artur continuava um morto-vivo, a Lilith estava em tremendo mau estado, havia pelo menos alguém que queria converter toda a população estudantil em monstros, e o meu tio Júpiter era, provavelmente, um deles.
E eu não fazia ideia de mais nada do que se passava. Até porque, diga-se de passagem, nada fazia sentido.
O que me irritava profundamente. É de meu direito viver numa dimensão como a que me foi prometida à nascença. Sempre me disseram que “tudo tinha uma causa”, “tudo é explicável pela ciência”, mas não, agora nada fazia sentido, e ali estava eu, mais indefesa e ignorante que um recém-nascido, tentando encontrar um acontecimento de todos os que já tinham ocorrido que eu pudesse conectar a outro, de forma a que, por amor de Deus, tivesse um mínimo de lógica.
Até ali, não estava a ter sorte nenhuma.
E o stôr de Matemática ia entregar os testes.
O meu teste aterrou na minha mesa com um impulso violento de pulso. Olhei-o, em cima da mesa, esparramado como um bicho atropelado, e vi o número.
147. Nada mau para um teste de gritos.
Embora, claro, nada do que eu, Emília, costumava ter. Sempre fui boa a Matemática. Posso ser uma nódoa a Inglês, mas a Matemática… Nunca tirava menos de dezassete.
E o pior de tudo era, isto tinha sido antes dos monstros.
Raios com as probabilidades.
Nesse dia, a seguir ao almoço, tinha a tarde livre. Fui a casa da Lilith. Contudo, mal entrei, a Pandora atirou-se a mim.
Gritei. Grito sempre, histericamente, ainda por cima, quando vejo a gata da Lilith. Odeio gatos. Tenho medo de gatos. Parece que me vão atacar a qualquer instante. Parece que estão a planear atacar-me desde sempre. Parece que… Parece que me querem reduzir ao estado da Lilith. Como ela consentia coisas daquelas em casa dela, não compreendia.
A mãe da Lilith sossegou-me e tirou-me a Pandora do caminho.
Quando entrei no quarto da Lilith, vi que estava melhor. Já quase se via o sorriso debaixo das nódoas e inchaços.
- Mas tu és parva? Coitada da Pandora – foi a primeira coisa que me disse. Como ela sabia, era uma incógnita, mas diga-se de passagem, não era muito difícil de adivinhar, uma vez que sempre que ia lá a casa a fita se repetia. O dia anterior tinha sido uma excepção.
- Coitada de mim. Só os olhos dela… - queixei-me – Uma coisa que não vais gostar: os stôres já sabem que tu voltaste à cena e mandaram fichas para tu fazeres… Obviamente, ignoram que tu não estás em condições de pegar num lápis.
- Eu, incapaz de pegar num lápis? Está doida, a miúda. Uma gaja como eu, que quer ser jornalista, nunca pode ficar sem pegar num lápis, ouviste? – mas após uma breve pausa acrescentou – Mas os stôres não têm de saber disso, portanto não vou fazer nada na mesma.
Ri-me, ainda que não com muita vontade.
- Agora, conta-me, como fizeste a noite passada?
Encostei a porta. Naquela manhã, eu tinha verificado a presença do Sérgio na escola. Contudo, não lhe dissera nada, uma vez que ele estava rodeado de amigos. Ainda assim, reparei numa nódoa negra que ele tinha na bochecha esquerda, não muito notória, mas o suficiente para eu reparar.
- Mandei o Sérgio tratar do assunto.
- Boa – disse ela, com o tom mais irónico de que há memória – Temos um assunto feio entre mãos? Porque não mandar o ex tratar disso?
- Vá, não sejas assim. O Sérgio sabe-se defender.
- Só podes estar a gozar. O Artur é uma torre. E deixaste de parte os super-poderes vampíricos dele, mas presumo que os tenha.
- Não, não tem – atalhei.
- Ainda assim. Como é que ficou o Sérgio?
- Hoje vi-o na escola e estava… Com uma nódoa negra de nada… Ora bolas, eu sou horrível, não sou? – De súbito, apercebia-me do quão perigoso teria sido para o Sérgio. Mas na altura parecera uma boa ideia. Confortável…
Mas eu ainda nem sequer tinha contado à Lilith o que acontecera a seguir. Será que o devia fazer?
- Não voltes a pedir ao Sérgio uma coisa dessas. Já acho suficientemente rebuscado que lhe tenhas contado… E agora, mandas o teu ex tratar do teu potencial actual namorado… Que sentido tem? Recomendarias ao teu ex-namorado ter explicações com o teu actual namorado? Ou coisa assim? Pura e simplesmente, há coisas que não fazem sentido. Esta é uma delas, sem dúvida.
Suspirei.
- Sim, talvez. Tens razão… Mas eu estava de mãos atadas. Antes o Sérgio que a população toda… Não, isto não soa bem, mas ainda assim! Por amor de Deus! Não era minha intenção mandá-lo para a morte! Porque é que todas as acções que tomo em relação ao Sérgio são mal interpretadas?
- Como a cena das pipocas ser um motivo para acabares com ele? Não lhe chamaria má interpretação, chamar-lhe-ia única conclusão possível a partir das premissas – era bom ver que a Lilith, apesar de tudo, mantinha conhecimentos de Filosofia, mas isto não estava a ajudar nada a minha auto-estima, ou a minha confusão em relação ao Sérgio. Sim, era possível que eu fosse uma pessoa horrível, mas ele… Ele tinha deixado a namorada trincar-lhe o dedo!
Uma voz interior disse-me “Tu deixaste o teu namorado ou o raio que ele seja trincar-te o pescoço… O que é que achas que é pior?”.
Portanto, sim. Eu era terrível. O Sérgio era um santo. Era as conclusões que tirava a partir dos únicos argumentos que me acorriam naquele momento.
A Lilith parecia concordar.
- Mas Lilith, a cena das pipocas foi apenas o culminar do que já se previa há bastante tempo…
- Já se previa? Ainda no dia anterior estavam colados aos beijos?
Corei. Odiei-me por isso, mas sei que o fiz.
- Para que é que estamos a discutir uma coisa que já aconteceu há tantos anos?
- Dois anos. Olha que não é assim tanto tempo, Mia.
- Eu já não tenho sentimentos pelo Sérgio!
A Lilith ficou calada por um bocado.
- Não? – perguntou por fim.
- Lilith, se me perguntasses isso há, sei lá, duas semanas atrás, eu talvez parecesse hesitante. Mas agora, tenho a certeza – suspirei. Um suspiro mau, daqueles que nos consomem por dentro de ironia - É o Artur. É ele. Só ele. Desculpa.
A Lilith pareceu zangar-se:
- E então, preferes mandar o teu ex que continua apaixonado por ti para salvar o teu actual namorado, que por acaso é um vampiro?
- Ele continua apaixonado por mim? – ouvi o meu próprio choque em cada letra que pronunciei, todas de seguida, quase como se fossem uma só.
A Lilith ficou calada, durante um pedaço de tempo.
- Lilith? – insisti, e tive a certeza de que a minha expressão condizia com o meu tom de voz.
- Ok, ok… Ontem, depois de saíres, ele esteve cá.
- Quem? O Sérgio?
- Não, o Pai Natal gótico. Claro que foi o Sérgio!
- A que propósito?
- Quando saíste, eu fiquei a dormir. Mas ele veio logo a seguir, e apesar da minha mãe não ter achado piada nenhuma à brincadeira, deixou-o vir aqui por um bocado. Ele estava chateado. Diz que se abriu contigo e que tu lhe deste uma tampa redonda. Vejo agora que tu nem deste conta, verdadeiramente, do que se passou.
Olhei para ela, petrificada. “Tampa”? Aquilo, definitivamente, não era o que se tinha passado. Ou era? E se eu tivesse percebido a verdadeira intenção da conversa dele comigo, ter-lhe-ia dado alguma oportunidade? Provavelmente não.
- E ele veio falar contigo porquê?
- Ele queria saber se eu sabia mais alguma coisa sobre o Artur.
- E para que é que queria ele saber uma coisa dessas?
- Sei lá, para inverter o efeito do “antídoto”, provavelmente. Ele não foi muito explícito. Foi-se embora muito subitamente, quando leu uma mensagem qualquer no telemóvel.
- Era minha… A perguntar-lhe o que havia de fazer.
- Ora aí está, mistério resolvido.
- Porque não me disseste que ele tinha vindo cá?
- Porque não veio ao assunto. Em todo o caso, continuo a achar que ele é melhor escolha que um gajo que te morde sempre que te vê.
- Não é verdade! – defendi, automaticamente, e quando dei conta do que fizera era já tarde demais.
- Ai não?
- Não… Ontem à noite, ele apareceu-me à porta de casa. Deve-se ter livrado do Sérgio de alguma forma, não sei bem. Tinha o telemóvel dele. Eu só abri porque achei que fosse o Sérgio. Aparentemente não era.
Na próxima frase, a Lilith parecia mesmo muito chocada:
- Aparentemente? O que é que ele te fez?
- Nada – menti – Levou-me para um pinhal, só isso.
- Para um pinhal?! O que raio é que ele queria fazer contigo num pinhal?
- Não sei bem. Amanheceu. Ele morreu de novo.
- Graças ao Big Bang que há sol! Como é que pudeste ser tão descuidada, Mia? Como? Tens de ter mais atenção! O rapaz não é um rapaz!
Abstive-me de lhe lembrar que ela própria lhe tinha chamado “rapaz”.
- Ok, Lilith. Em todo o caso… Eu recuperei o telemóvel do Sérgio. Tenho de ir para passar em casa dele para lho dar antes que o meu irmão chegue a casa.
- O JP?
- Sim, claro, é o único irmão que tenho. Porquê?
- Hm, nada.
A percepção do que se estava a passar na cabeça dela atingiu-me de repente.
- Oh Deus, tu estás a falar a sério? Tu ainda gostas dele.
- Não! – mas eu podia jurar que por baixo dos hematomas ela estava a corar.
- Sim. Sabes, ele no outro dia, antes de desapareceres, queria-te convidar para sair.
- Estás a falar a sério?
- Sim – e nem sequer me preocupei por estar a quebrar o laço secreto entre irmãos para dizer isto à Lilith. Se aqueles dois precisavam de um empurrão, eu não ia ficar parada a olhar.
A Lilith ficou pensativa, por uns instantes. Por fim, decidiu-se.
- Diz-lhe que me venha visitar.
Sorri abertamente.
- Está combinado.
Depois despedi-me dela e saí. Tal como lhe tinha dito, ainda tinha de ir a casa do Sérgio para lhe dar o telemóvel. Contudo, ainda no caminho, uma vontade irresistível de ler as mensagens dele apoderou-se de mim.
Foi mais forte que eu.
Não abri as primeiras, porque estavam ainda marcadas como não lidas, e eu não fazia ideia de como é que depois de as ler as podia pôr como “não lidas” de novo, para ele não dar por isso. De qualquer forma, vi que eram todas de rapazes com nomes que eu reconhecia, e portanto não me suscitou muito interesse.
Encontrei, depois, as minhas do dia anterior. Aparentemente, ele tinha-me gravada no telemóvel dele como “Mia”, o que de certo modo me agradou. Novamente, passei-as todas sem me dar ao trabalho de as abrir. Eram bastantes, não me recordava de lhe ter mandado tantas.
De seguida, para meu espanto e agrado, não haviam mais mensagens. Nenhuma única mensagem. Abri, então, a última mensagem de todas, que era também minha.
O que li, surpreendeu-me.
“Dorme bem, então. Não te quero chatear mais hoje. A propósito, estou apaixonada por ti.”
Tinha sido uma das primeiras mensagens que lhe tinha mandado quando andávamos os dois juntos. Ainda em choque por ele ter guardado aquilo durante tanto tempo, ainda que tivesse apagado tudo o resto, li a mensagem seguinte. Também era do tempo em que tínhamos andado juntos. Eram muitas. Eventualmente, cheguei às do dia anterior. Suspirei e guardei o telemóvel no bolso.
Não demorou a que chegasse a casa dele. Toquei à campainha. Ele mandou-me subir. Tentei ignorar o tom de felicidade na voz dele quando percebeu que era eu.
Subia no elevador e pensamentos e remorsos apoderavam-se de mim. Eu tinha acabado com ele por um pacote de pipocas, e ele… Guardara as minhas mensagens durante anos. Deus sabes que eu tinha apagado as dele ainda quando andava com ele, sempre que ficava com a caixa cheia. Quem podia prever que o rapaz tinha tal sensibilidade? Quem podia prever que ele ainda gostava de mim, apesar de ter começado a andar com uma loira que mais que estúpida era maléfica? Não sabia o que pensar e, definitivamente, não queria pensar no assunto.
Por fim, as portas abriram-se. O Sérgio estava à frente das portas, em vez de esperar dentro de casa.
Em vez de me deixar sair, entrou para dentro do elevador comigo.
- Onde vamos? – perguntei, estupidamente.
- Vamos embarcar na viagem mais longa e inesquecível das nossas vidas – respondeu-me ele. Pensei que estava a sonhar, talvez a ter alucinações outra vez.
Nada fazia sentido. Ele premiu o botão do zero e, após termos descido todos os andares, ele deixou a porta fechada e colocou-se na frente desta para me impedir de sair.
- Que raio estás tu a fazer? – perguntei, talvez agora ainda mais estupidamente que anteriormente.
- A pôr-me à estrada – respondeu ele, calmamente. Pensei que nada daquilo estava a fazer sentido, mas ele continuou a falar – Emília, estou apaixonado por ti. Estou apaixonado por ti desde o primeiro momento em que te vi, há já alguns anos, e nunca deixei de estar.
Em todas estas palavras, ele não implicara um sequer tom de dúvida, não pensara duas vezes sobre nada. Não exigia resposta, mas também não esperava o silêncio.
A minha cara, em contrapartida, poderia servir de molde a uma máscara de Halloween, presumo.
- Sérgio… Não faças… - mas ele interrompeu-me antes de poder concluir. Nos olhos dele brilhava a desilusão, uma vez que ele sabia, ele já via nos meus olhos ainda antes de eu concluir que não, que aquilo não ia ser um final feliz.
- É verdade, não é, Emília? – e riu-se, sem humor, como se eu estivesse estado a gozar com ele durante muito tempo – É verdade que aquilo das pipocas foi só uma desculpa, não é? Tu não querias estar mais comigo, e em vez de assumir que a culpa era tua, que tu é que já não sentias nada por mim, quem sabe, talvez nunca tenhas sentido, decidiste culpar-me e deixar-me pensar durante todos estes anos que era possível, um dia, voltar a andar contigo, se me limitasse a pedir desculpa.
Gelei por dentro com as palavras dele. Não era possível. Não era possível que ele me amasse e, ao mesmo tempo, pensasse aquilo de mim. Tinha cometido muitos erros em vida, e um deles era com certeza ter acabado com o Sérgio por causa dum pacote de pipocas. Mas não o fizera como desculpa, não o fizera para me poupar ao trabalho de o olhar nos olhos e dizer-lhe que “não, não era possível estar com ele”, não o fizera para evitar que as lágrimas me escorressem pela cara abaixo, deixando sombras disformes e molhadas a enfeitarem-me a camisola; fizera-o, antes, porque achava que havia uma maneira. Bastava que ele… Me pedisse desculpa, que ele compreendesse porque o deixara, que ele compreendesse que me magoava quando me recusava um pacote de pipocas, porque em teoria, devíamos partilhar tudo, à semelhança dos abraços e intervalos em comum.
Mas a distância imposta por mim não resultou conforme o previsto. Estava previsto que ele pedisse desculpa e que eu o perdoasse e que tudo fosse uma dimensão repleta de unicórnios vestidos com T-shirts amarelas às bolinhas azuis, em tecido de cetim. Não foi o que aconteceu.
Ele não foi capaz de engolir o orgulho… Até ser já demasiado tarde. Porque a distância transformou o remorso em ressentimentos e esperanças. Que se transformaram em pó: isto mesmo, tudo o que o Sérgio algum dia foi para mim, desfez-se, sem que me desse conta, em mero pó da terra, cinzas, se vos aprouver… Nada de nada que valha a pena reviver. Apenas recordar.
E era triste, mas era a verdade. E tristemente, na sua tristeza e resignação, todas as verdades são tristes, de uma maneira ou de outra.
Portanto, tudo o que disse ao Sérgio foi:
- Não é verdade.
Depois, levei a mão ao bolso e tirei o telemóvel dele. Entreguei-lho. Acrescentei:
- Desculpa ter-te envolvido em tudo isto. Desculpa que o Artur te tenha magoado. Obviamente, esqueci-me de que eras o meu ex-namorado, ou não teria cometido todos estes erros colossais. Acabei contigo porque fui uma idiota, mas não porque precisava de uma desculpa. Não te quero agora porque parei de te amar, mas não porque estive a gozar contigo este tempo todo. Agora, desviavas-te e deixavas-me sair, se faz favor?
Ele desviou-se.
Estava já a sair do elevador, e preparava-me para largar a porta quando ele colocou a mão nela me impediu de a fechar. O tom dele quando falou foi simples, nada como o tom sem humor com que falara há segundos:
- Desculpa-me por não te ter dado o pacote de pipocas, Mia.

1 comentário:

  1. oh que romantico :D

    essa cena entre o Sérgio e a Mia ta muito bem, mas a cena entre a Mia e o Artur... ta tao fixee :D alias as cenas deles sao mt boas :)

    :D:D:D:D:D:D:D

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