sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Último Momento Pós-Vampírico


- Não podes estar a falar a sério! – foi a minha primeira reacção a tal proposta. Pela primeira vez durante aquela conversa, perdi o controlo de mim mesma e da minha expressão. Tentei esquecer que eu própria já a considerara, antes do meu sonho premonitório, tentei esquecer o quão cansada eu estava sempre de manhã e durante todo o dia, após as noites que passava fora de casa sem os meus pais terem conhecimento disso. Tentei esquecer que a Lilith mo tinha recomendado, que até o Sérgio, apesar de o considerar perigoso neste instante, o tinha recomendado. Tentei esquecer tudo, porque ainda acreditava que o amava.
- Estou, Mia. Desculpa, mas estou. Se ainda por cima dizes que eu me sinto atraído por ti, isso pode querer dizer que sou mais perigoso. Eu não sei se no caderno está tudo. Não sei se me disseste tudo… Ou se eu escrevi tudo. Só sei que o que lá está escrito é suficiente. Só sei que eu sou perigoso para ti, porque não faço ideia se já te vi antes. Olho para ti, mesmo agora, e estou a pensar em como a batida do teu coração e a tua pulsação são tão fortes… O teu sangue é do tipo O. Como sei? Não foi de consultar o teu boletim de vacinas, não. É apenas porque apesar de agora te parecer que sou um homem, dentro de mim ainda está um monstro, à espera. Chamas-me vampiro? Eu rio-me. Eu sou muito pior que um vampiro, porque os vampiros não existem e eu estou aqui agora mesmo, à tua frente, sólido que nem uma rocha. E a única razão porque não te mato? Porque hoje acordei com um resquício de decência. Não preciso de matar… Preciso de comer, é certo, mas não preciso de matar e divertir-me a fazê-lo. Não hoje. Mas eu não me lembro de nada. Não sei que homem fui ontem ou que homem vou ser amanhã. Não sei se vale a pena. Sei que mesmo agora, neste corpo de homem e com esta alma de monstro, sinto por ti. Sinto… Coisas. Por ti. E apesar de todas essas coisas me despedaçarem o coração de cima abaixo num desejo profundo de te degolar (porque te amo tanto), essas coisas também me impõe que te deixe, que me deixes, para que possas viver.
Absolutamente perdida por ele e por aquela declaração, era-me quase ainda mais impossível abandoná-lo para sempre. Sem armas e sem palavras bonitas que formassem grandes discursos, disse, sem ter que acrescentar:
- Mas eu estou apaixonada por ti…
Contudo, ele pareceu rejeitar esta ideia, e nem sequer a ponderou.
- Não interessa, isso é o que pensas agora. Percebo-te. Sou alguém que nunca poderás ter. É compreensível que me aches tão atractivo, e que te aches incapaz de viver sem mim… Sou o fruto proibido – explicou ele, ainda sem expressão no rosto.
- Não! Não, Artur… Tu não percebes nada de nada! Eu estou apaixonada por ti porque és tu! Se fosse outro, nesta situação, não queria saber de nada… Eu apaixonei-me por ti ainda antes de te transformares nisso que és… Tu não sabes, não te lembras…
- Não, eu não me lembro de nada, mas tu fizeste-me um relatório pormenorizado e eu escrevi tudo… Tudo… Hoje até chego a ter medo de tudo o que lá está escrito. E é fácil ver tudo do lado de fora quando não se têm recordações. Tu não estás apaixonada por mim, estás apaixonada pelo rapaz misterioso que desapareceu com a tua melhor amiga e que reapareceu com notícias que nunca pudeste ouvir.
Dentro de mim, muralhas ruíam-se, com rochedos e areias finas colapsando como pó e cinzas. Toda eu era cinzas, na minha cabeça, e toda eu era o ruído dessas paredes múltiplas, edifícios, que ruíam, na minha cabeça.
- Eu não acredito que estás a dizer isso! – gritei, perante a passividade da expressão dele. Toda aquela noite, não tinha havido um único momento em que ele fosse mais que um rosto… E eu, que o tentara imitar, tinha agora o rosto que é uma máscara caída.
- Mia… Sejamos racionais. Nunca sentiste nada de romântico por mim até tudo isto acontecer, diz-me, caso esteja errado.
Calada e em sofrimento, não tive palavras para a mentira. Não tive palavras – nem sequer tive a coragem e a ousadia de ser mais que o silêncio, naquele banco de jardim em que continuava sentada.
- E por isso, apesar de tudo, apesar daquilo que sentimos ou julgamos sentir, este é o melhor caminho para ambos… Vá lá, podemos ser ambos muito felizes se nos deixarmos em paz. O esquecimento é, muitas vezes, uma bênção. Talvez um destes dias decida esquecer tudo e, pura e simplesmente, destrua o caderno. Não é saudável para nenhum de nós alimentar esperanças impossíveis. Era um veneno. Duvido que haja cura.
Não produzi qualquer som, mesmo quando a primeira lágrima me dilacerou os canais lacrimais com a pressão e transbordou depois, vertendo-se para a minha face de porcelana como uma gota deslizando para fora do copo da lucidez. Eu era uma estranha de mim mesma, porque toda a dor me fazia parecer ser uma pessoa recém-apresentada à vida, como se tudo não fosse verdade, como se tudo fosse apenas uma história.
- Amanhã, não me procures, Emília. Adoro-te de muitas formas, mas amanhã não me procures, por favor. Poderei não ser o tipo simpático que sou agora.
E depois destas últimas palavras, levantou-se do banco de jardim e levou com ele metade da minha alma que rebentava pelas costuras com tantos sentimentos contraditórios.
Ao fim de algum tempo, eu própria me ergui, sem dar conta disso, uma vez que continuava emersa no mundo das mágoas. Percorri todo o meu caminho até casa em silêncio e sem dar por ele.
Toda a minha mente era uma sinfonia trágica: a pior sinfonia de todas, a do silêncio.
Quando entrei em casa, passei pela cozinha para beber com um copo de água todas as lágrimas. Ainda assim, mal sabia que colado com um dos ímans do frigorífico estava o meu pior pesadelo: “Amanhã o tio Júpiter vem almoçar connosco. Vê-se pões o despertador para horas decentes.”
Deitei-me na cama como um morto se deita no congelador da morgue; como que esperando um qualquer novo instrumento de tortura para me abrir as chagas e para me humilhar como se não houvesse nada de mais útil para fazer.

O meu despertador não me despertou dos meus sonhos atribulados, uma vez que a noite se passou comigo a acordar de cinco em cinco minutos, sobressaltada, vendo o Artur rindo-se para mim em todas as imagens, mas depois ele dizia “Mantém-te afastada de mim, para sempre.”
Eram palavras que ecoavam e ecoavam como se todo o meu espaço de sonho estivesse vazio, como se toda eu estivesse vazia de tudo o que não era mágoa e desencanto. Tinha medo de acordar. Mas também tinha medo de dormir. Assim, permanecia perdida entre o mundo real e o mundo das ilusões psicológicas, quase como uma semi-viva, quase como alguém que jamais dorme ou jamais acorda.
Toda eu doía, como se nada mais fosse que alma, e como esta estava dorida, esta era a única coisa que sentia, e toda eu doía.
Os lençóis estavam feitos aquilo a que o meu pai chama “ninho de cão”, uma vez que toda a sua ordenação tinha perdido o sentido, e mal me tapava com pontas de lençóis e cobertores a serem a única coisa a cobrirem-me, uns nos pés, outros nas costas, e grandes partes de mim descobertas, como se o frio e eu não existíssemos separadamente.
Assim, quando a luz me caiu sobre a cara já os meus olhos estavam abertos e me doíam, o que se começava a tornar hábito. Desliguei o despertador ainda antes de ele tocar. Ergui-me, tentando espantar as dores pelo movimento, mas não resultou. Era uma manhã de sábado e o meu tio Júpiter vinha almoçar connosco. Ainda assim, o cenário era tudo menos pacífico ou natural. Já nada era natural nesta vida, alguma vez. Quis fugir, naquela manhã, emalar duas ou três mudas de roupa e as bolachas do armário e fugir sem uma nota. Também pratiquei confrontos, na minha mente, entre mim e o tio Júpiter. Pratiquei muito. Pensei muito. E não alcancei qualquer conclusão ou desfecho que me enchesse o peito de segurança ou um pouco de menos dor.
Os meus pais estranharam muito ver-me acordada àquela hora, assim, sem qualquer protesto, ou antes, de própria iniciativa, mas nenhum deles comentou.
De manhã, por mais estranho que seja, com todos os acontecimentos duvidosos da minha vida, estudei Português e fiz os trabalhos de casa. Ainda assim, não me concentrava como deve ser, e assim demorava muito tempo a fazer as coisas.
O meu tio chegou cedo, por volta do meio-dia. Ouvi-o falar alto, com os meus pais, no mesmo tom alegre de sempre. Não desci para o cumprimentar. Não sabia ainda o que esperar.
Algum tempo depois, a minha mãe chamou-me para almoçar. Aí, desci, sem armas, com um arrepio percorrendo-me a espinha a ritmo de batidas cardíacas. Olhei da porta da sala para o meu tio Júpiter. Com o meu maior sorriso (é surpreendente a facilidade com que o conjurei) cumprimentei-o:
- Olá, tio – e após uma pausa em que ele próprio me sorriu e me disse “Olá”, acrescentei ainda, insinuantemente – Andava morta de saudades suas.
No entanto, se ele percebeu a indirecta, não o demonstrou. Limitou-se a rir e a dizer:
- Ai que rica sobrinha esta que eu tenho!
Esse foi o instante em que todas as janelas da sala rebentaram de fora para dentro.
De um momento para o outro, todos nos deitámos no chão, tentando cobrirmo-nos dos fragmentos voadores que provinham de toda a parte. Nesse momento, o JP, que acordara apenas há minutos, emergia na sala com a sua T-Shirt velha dos Slayer só para se deitar também no chão tal como todos nós.
Mas não, nem todos nós. O meu tio Júpiter estava caído no chão, sim, mas numa posição desastrada e impossível. Mais atentamente, consegui ver que ele estava trespassado por um pedaço mais largo de vidro junto ao peito, de onde escorria uma linha fina de líquido encarnado.
Os olhos dele, abertos e baços, eram a face da morte crua e cruel. A alma naqueles olhos não se tinha matado, escorrendo-lhe pela face, mas tinha-lhe secado nas veias e nos olhos, e não havia uma única lágrima naquele olhar.
A minha mãe gritava, mas eu duvidava que já tivesse notado o estado de cadáver do tio Júpiter.
Mas o meu irmão falou o suficiente para ela se dar conta, pronunciando o primeiro palavrão que lhe veio à cabeça para exprimir o seu horror. Toda a sua voz era um buraco negro de atenção. Na sua face estava espelhada a cara morta do meu tio. Ele não tinha ainda entrado em histerismo, mas parecia bem próximo disso.
A minha mãe, vendo o motivo do terror do filho, começou a gritar histericamente, como se lhe estivessem a arrancar os braços e as pernas.
Ainda assim, havia outro motivo igualmente forte para o desespero dela. Das janelas estilhaçadas tinham começado a entrar todas as criaturas que vira na minha alucinação, que já parecia há tanto tempo atrás. Criaturas de cores e formas inumanas, criaturas sem nome e sem descrição possível: não naquele momento de choque em que tudo sucedia em simultâneo.
O meu pai, apesar da sua postura normalmente organizada e composta, pareceu perder todo o tino. Começou a correr através dos vidros múltiplos todos caídos até alcançar o irmão caído. Quando se curvou sobre o tio Júpiter, deixou cair os óculos sobre o vidro, e não os apanhou de novo. Ao invés disso, arrancou o vidro que estava ainda espetado no peito inerte do meu tio e ergueu-o no ar como um gládio empunhado por um romano.
Espetou-o, sem hesitar, na primeira criatura que se aproximou dele, que era um homem enorme semelhante a um urso, com quase mais meio metro que o meu pai. Ainda assim, tombou perante o corte súbito e inesperado.
Isto pareceu servir como incentivo a todos os outros monstros. Não fazia ideia de onde tinha vindo tanta besta junta, e infelizmente, era tudo demasiado real para estar a sonhar. E eu que julgava que almoçar com o meu tio Júpiter era a maior das minhas preocupações. O tio Júpiter, o Artur e até o Sérgio não eram nada comparados com isto que se desenrolava na minha sala, à frente, atrás e até em cima da mesa com os pratos e os talheres.
O meu irmão, à semelhança do meu pai, pegou nos primeiros bibelots que encontrava e tentava atirá-los aos monstros, defrontá-los.
A minha mãe fugiu, escondendo-se atrás da porta da sala por onde entrara o JP segundos antes.
E quanto a mim? Por momentos, parecia-me que estava simplesmente a assistir, muda e queda, sentindo demasiado para poder pôr em acções aquilo que defendia. Após esse momento inicial, agarrei numa cadeira usei-a como objecto de pancada. Sabia que todos aqueles monstros eram pessoas, pessoas que provavelmente conhecia, mas o Artur fizera-me ver, se não outra coisa, que eles nunca mais seriam os mesmos.
Há tanta coisa que esperamos ver acontecer na nossa vida. Normalmente, esses grandes dias são os primeiros em que realizamos algo de novo. Talvez aquele fosse um dia importante. Era o primeiro dia em que não tinha medo de lutar e de não compreender tudo o que se passava à minha volta (monstros? Não os mencionaram em nenhuma disciplina que tenha tido). Era também o primeiro dia em que não tinha medo de o deixar, ao Artur; era o primeiro dia em que via o meu pai pegar numa arma e lutar pela sua própria família, porque assim era necessário. Era o momento em que via todos os medos implodirem na minha sala, e era o momento em que sabia que o meu tio estava morto.
E eu estava a morrer de medo.
Mas tentei lutar contra todos eles. Eu juro que sim. Ainda assim, eles eram muitos mais, e vinham de toda a parte. Continuavam a entrar pelas janelas. Assim, levaram-nos com eles para as trevas que era o dia repleto de nuvens, arrastados, a mim, ao meu irmão e ao meu pai.
No local onde nos largaram, por fim, conhecia apenas uma cara pouco alterada: uma cara translúcida e sem óculos.

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