sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O 1º Momento

O momento em que me apercebi de que algo não estava como suposto foi aquele em que vi, em frente aos meus próprios olhos, uma rapariga a tentar arrancar o dedo de um rapaz à dentada.
Estava no Vendredi, um dos bares da cidade, sentada, como habitualmente, apenas com a Lilith e o André, os meus dois (praticamente únicos) amigos. A Lilith debruçava-se sobre a sua própria cadeira, inclinando-se para trás, para falar com alguns dos seus muitos conhecidos. Neste caso, eram um par de bêbedos que eu não conhecia. Eu e o André tínhamos conversas parvas um com o outro, tais como:
- Preferes então o intelecto à beleza num namorado?
- Precisamente.
- Nesse caso preferirias aquele anão dos óculos da Branca de Neve ao príncipe?
- Mestre, é como ele se chama. Doc, em inglês. E sim, preferia esse, ao menos talvez me limpasse a casa.
À nossa volta, ninguém tinha conversas similares. Apenas se discutiam assuntos da ordem do dia relacionados com mexericos. Fumava-se, também, muito. E bebiam-se copos e garrafas, ouviam-se vozes e risos. Ao longe, alguém chorava.
E contudo, mesmo na mesa à minha frente, erguia-se o único casal de cabelos claros da escola. A rapariga chamava-se Cátia, mas eu sempre lhe chamei Loira, e sabia que não era só eu que a tratava assim. O cabelo dela mostrava-se como uma mancha invejável de luz do sol, mesmo num bar de chão peganhento cheio de adolescentes cheios de suores. Para meu grande desgosto, o namorado dela era o rapaz com quem eu própria namorara dois anos atrás e com quem acabara por, literalmente, um pacote de pipocas.
Nestes termos, tentava evitar olhar para aquela mesa, mas era quase impossível porque eles estavam mesmo atrás do André, devorando-se vivos, segundo me parecia, e segundo se viria a confirmar minutos mais tarde.
Tentei concentrar-me nos olhos do André, minúsculos atrás das lentes de aquário que trazia nos óculos, para evitar focar a imagem gigantesca do meu ex-namorado curvado sobre a imagem da Loira. Mas claro, como normalmente acontece, quando nos tentamos abstrair de alguma coisa, apenas acabamos mais atraídos. Assim, observei nitidamente a Loira pegar-lhe na mão. Vi também uma determinada luz do bar girar sobre o olhar dela, como se este faiscasse. E após tudo isto, via-a enfiar o dedo dele na boca.
Após isto, atarantada, tentei concentrar-me novamente nas palavras do André. Ouvi-o, ao longe, falar de Newton, mas não houve nada que me prendesse aos olhos dele enquanto eu olhei de novo para os loiros e, aí, sim, vi a mesma luz girar sobre os olhos fechados da Loira. E vi o sangue tombar dos lábios dela exactamente no mesmo segundo em que todas as mesas próximas ouviram o meu ex-namorado gritar e praguejar.
- Que raio se passa contigo, miúda?
A Lilith quebrou a sua conversa com a mesa atrás de si e olhou para a mesa à minha frente. O André abandonou as suas divagações sobre Física e virou-se 90º na cadeira para poder ver o que acontecera nas suas costas. E conforme eles os dois o fizeram, muitos outros se viraram para ver o que acontecera. Algo que apenas eu e eles havíamos presenciado.
A Loira colocou, discretamente, um lenço em frente da boca ensanguentada e posteriormente bebeu mais uns goles da sua pissanga.
O meu ex-namorado colocou um guardanapo em volta do dedo e gritou para todos em volta:
- Cortei-me! Que têm com o assunto? Cortei-me!
O André virou-se de volta para a nossa mesa e sussurrou baixinho:
- O Sérgio não joga com certeza com o baralho todo. Ainda bem que puseste aquele anormal a mexer.
A Lilith olhou, também, para mim e elaborou:
- Sim, a desculpa das pipocas foi muito porreira. O gajo é um imbecil, não é capaz de juntar dois mais três.
Ergui uma mão para me livrar do cabelo, puxando-o para trás. Suspirei, também, já tínhamos tido várias vezes aquela discussão.
- Não foi desculpa. Chateei-me mesmo com a cena das pipocas, e estás a ver, ele não foi capaz de pedir desculpa. Ele nunca pensou sequer em… Pedir desculpa!
- Não estás seriamente a achar que vou acreditar que acabaste com ele por um pacote de pipocas, certo? Ninguém faz isso.
Encolhi os ombros e calei-me. Havia muitos momentos em que me arrependia da minha fúria com o pacote de pipocas. Quando o via com a Loira, por exemplo.
Porém, não sabia o que pensar de momento. Acabara de o ver ser mordido por uma rapariga sem dizer mais que algum vocabulário colorido. Acabara de ver uma rapariga mordê-lo e gostar, como se fosse vampirófila ou coisa que o valha. Isto, aliado aos acontecimentos dos dias anteriores, apenas adoptava contornos mais estapafúrdios.
Duas semanas antes, uma tarde, eu e o André estávamos sentados no pátio da escola, apenas a conversar, não me lembro sobre quê, quando uns cinco miúdos que estavam a jogar futebol pacificamente (se é que isso é possível) entraram num grande alvoroço e decidiram abandonar o jogo por uma competição para ver qual de dois deles era capaz de engolir mais terra.
Claro que automaticamente, eu e o André apostámos qual dos dois ganharia. Eu apostei no mais baixinho. Observámos com atenção o desespero dos rapazes a tentar engolir a terra. Após um bocado, o mais alto desistiu e eu ganhei.
Isto por si só já pode representar um momento estranho. Mas se agora disser o que aconteceu a seguir, talvez isto ainda surja como motivo de maior espanto.
Entrámos num dos átrios das salas e, ao entrarmos, notámos desde já o cheiro irrevogável a fumo. Seguimos o cheiro e chegámos a um corredor. Neste corredor, batiam-se duas funcionárias, cada uma com a sua esfregona em chamas. Todo o corredor se encontrava apinhado de gente que aplaudiam uma ou outra. Nesta ocasião, eu e o André já não pensámos em qualquer tipo de aposta. Era simplesmente estranho e irreal o que estava a suceder ali. No público havia bastantes adultos, também, e nenhum desses tentava impedir o sucedido.
A dona Palmira, a funcionária que envergava um vestido às flores, era bastante rápida com o seu enorme archote. Contudo, a dona Rosette, a outra combatente que trazia o cabelo penteado em tranças, não hesitava em acertar em cada um dos botões florais no padrão do tecido da dona Palmira.
Que se saiba, nenhuma das duas saiu ferida do incidente, mas não foi convenientemente explicado aos alunos o motivo da situação.
Apesar de desde este dia terem ocorridos outros eventos estranhos até à data presente em que observara o meu ex-namorado ser praticamente comido de forma literal, todos eles pareciam camuflados pela exaustão das aulas, que mais do que nunca, pareciam uma terrível doença sem diagnóstico possível e sem medicação.
Ergui-me da cadeira, não dando conta de que a Lilith continuava a falar, desta vez da arte de Monet, o meu pintor preferido.
- Emília! – gritou ela, atrás de mim, perplexa.
Saí do bar, sentindo-me irresistivelmente claustrofóbica, e respirei fundo assim que consegui o ar fresco da noite. Afastei-me ligeiramente das imediações, local preferido dos bêbedos com vontade de vomitar as entranhas, e caminhei até a um banco de rua. Sentei-me, apenas.
Não estava a tentar pensar, mas antes a dar espaço à minha mente para não ter de o fazer. Era sexta-feira e estava exausta. Continha a custo um bocejo e pensei em tirar o meu MP3 para ouvir um pouco. Ainda assim, preferi ficar em silêncio, apenas um minuto, antes de voltar para ir ter com a Lilith e o André.
- Um cigarro?
Uma imagem apareceu na minha mente associada à voz que me sobressaltara. Levantei os olhos e constatei as minhas suspeitas terríveis. Quem me encontrara aqui fora o Artur, o namorado da minha prima Matilde.
Não há pessoa que deteste mais no mundo que a minha prima Matilde. Excepto, claro, a Loira e, já agora, o Sérgio, com quem acabara por um pacote de pipocas.
O Artur é alto, mesmo muito alto. A minha prima é baixa. Baixa do género metro e sessenta. Não percebo porque gosta ele da minha prima, uma vez que ele é até bastante inteligente e ela não passa duma menina mimada.
Em todo o caso, não considero o Artur uma pessoa exemplar. Longe disso. Ele é como um grande pingente de gelo muito pontiagudo e muito gelado. Ou, pelo menos, tem dois no lugar dos olhos, que parecem ter sempre a mesma expressão indecifrável.
- Não, obrigada – respondi, encolhendo-me com frio no casaco.
Ele sentou-se ao meu lado, ainda que conservando uma distância confortável entre nós. Acendeu o cigarro. Fê-lo depressa. Tem muita prática.
- Pois. Tu não fumas.
- Tu também não devias.
Os lábios dele torceram-se e ele pareceu rir baixinho.
- Mesmo. Mas o que é o pior que me pode acontecer? Morrer mais depressa? – e depois de dizer estas palavras riu-se de novo baixinho.
- Isso mesmo. Bem, eu também não sou ninguém para te dizer o que fazer.
- Acertaste nessa. A propósito, a Matilde andou a contar-me umas histórias tuas de infância.
- A sério? Que bom que nenhum de vocês tenha algo minimamente interessante para fazer para além de falar de mim.
Tinha gelado. Sem querer, sem sequer dar conta, senti-me ficar sólida na cadeira. Encolhi-me um pouco mais.
- Incomoda-te que falem de ti? – perguntou ele, com a sua voz mais glaciar. Por um momento, olhei para ele e ele olhou para mim e senti-me humilhada por aquele olhar. Assim, desviei os olhos.
Levantei-me, olhei para ele apenas mais uma vez e dirigi-me para o interior do Vendredi. Senti-me automaticamente a arder como uma vela.
Fui ter à minha mesa original e fiquei satisfeita por ver que tanto o Sérgio como a Loira tinham desaparecido, sendo substituídos por cinco raparigas amontoadas e terrivelmente felizes.
A Lilith olhou para mim, sentida, e eu presumi que ela me estava a pedir uma explicação.
- Odeio bares apinhados de gente. E estás a ver, este em particular. Devíamos passar a ter mais noites de cinema em casa para substituir esta seca.
O André concordou comigo. A conversa fluiu de novo até que de repente vi a Loira e o Sérgio a devorarem-se novamente, desta vez na pista de dança. A minha fúria agravou-se quando a minha prima Matilde entrou, nos seus saltos altos esplêndidos, de braço dado com um rapaz alto, de olhos gelados, e com um meio cigarro na mão.
Assim, despedi-me dos meus dois amigos e fui para casa. Ainda assim, não estava à espera de lá encontrar o JP, o meu irmão, ainda para mais na cozinha com um copo de leite e com um pijama com vaquinhas vestido.
- Miúda, onde estiveste até tão tarde? Que horas são?
Respondi-lhe num suspiro quase como que um bocejo:
- Estive no Vendredi. Caso não saibas ler as horas, tal como eu suspeitava, querido maninho, o relógio ali da cozinha diz que são duas horas. Vês? O ponteiro pequenino está no dois… Do-ois. E estás a ver, são duas – disse, antes de levantar dois dedos.
- Que engraçadinha que estás hoje. É estupidamente tarde. Que estiveste a fazer e com quem estiveste?
Irritei-me. Lá por os nossos pais passarem tanto tempo fora de casa, não quer dizer que ele tenha de assumir as responsabilidades de me perguntar onde estou.
- Estive com o André e com a tua querida ex-namorada. E estás a ver, diz-me que não deixaste a Matemática por fazer para me andares a controlar a vidinha toda.
O plano de o distrair lembrando-o da sua relação passada com a Lilith pareceu resultar, uma vez que a partir desse momento ele parou de fazer perguntas.
- O teu hábito irritante do “e estás a ver” está-me a fazer passar dos carretos, não tarda. E já disse que não quero que te refiras à Lilith assim. Somos amigos, apesar de tudo.
- Eu sei – e sorri – mas parece que lembrar-te disso te deixa furioso.
- Já foi há muito tempo. Tal como tu e o gajo das pipocas.
- O Sérgio – corrigi.
- Isso. Não estou muito interessado. Leite? – ofereceu ele, enquanto eu agarrava numa caneca do armário.
- Se faz favor.
Vi-o esvaziar o pacote e depois deitá-lo fora. Bebemos leite em silêncio durante uns instantes. Depois fui também buscar bolachas.
- Vais comer bolachas? A esta hora? E que tal se fores para a cama? Não é nada cedo.
Ignorei-o.
- A Matilde estava lá.
- Também, onde é que essa ave rara não está… Trazia o guarda-costas pelo braço?
- Sim – mas não lhe contei que falara com ele. Que ele me oferecera um cigarro. Que se sentara lado a lado comigo e que me humilhara. Há coisas que não se contam aos irmãos. E essas coisas são mais do que as que se contam, de facto, aos irmãos.
- Espero que ela tome juízo, um dia destes. Bem, vou-me deitar. Faz o mesmo.
Esperei enquanto ele se afastou. Ouvi o silêncio.
No dia seguinte acordei por volta das onze. O JP ainda estava a dormir. O único sinal dos meus pais era um post-it no frigorífico a dizer “Comprar leite. Passear o cão. Beijinhos.”
Saí com o Rockline (nem queiram saber como arranjou o nome), o meu venerável pequeno cão que detesta que o chamem pequeno, e também rafeiro. Após o cumprimentar dirigimo-nos pelo nosso trajecto habitual, seguindo pela passeio da minha até ao parque mais próximo.
Contudo, estávamos apenas a meio da rua quando passámos pelo prédio onde habitava o meu adorável ex-namorado, o Sérgio, e este saía de casa com a Falbala, a sua própria cadela.
Os nossos olhares cruzaram-se, indecisos. Acabaram por se decidir por um breve brilho de reconhecimento e foi ele o primeiro a dizer-me “olá”.
- Olá – respondi-lhe. E estava a este ponto preparada para fingir que não o conhecia e continuar a andar. Contudo, as coisas complicavam-se, uma vez que ele próprio ia levar a Falbala para o mesmo parque.
- Como vai o Rockline? – perguntou ele, tentando fazer conversa de circunstância.
- Bem. Como está a Falbala? – perguntei, tentando ser educada.
- Bem, também.
Neste ponto ambos ficámos sem nada para dizer durante uns poucos de segundos até percebermos o quão felizes estavam os nossos cães de se voltarem a ver após dois anos. Quando dei por ela, o Rockline tinha já enrolado a trela dele na trela da Falbala, estando, assim, os dois presos um no outro, e eu irreversivelmente presa ao Sérgio.
- Falbala, porque não paras quieta? – perguntou ele, visivelmente incomodado.
- E estás a ver, temos os cães mais irrequietos do mundo – disse eu, também incomodada.
Ele olhou para mim, de repente, e esquecendo-se dos cães por um instante, disse:
- Ainda não largaste essa mania irritante do “e estás a ver”! Será possível?
Senti as bochechas colorarem-se de vermelho e tentei olhar para qualquer outro lado.
- Acontece. Seria de esperar que me tivesse passado ao fim dum ano, ou dois, mas a verdade é que nem por isso.
- Sabes, é uma pena termos deixado de falar quando acabámos. A verdade é que tu sempre fostes uma companhia decente, ainda que irritantemente chata.
- Ah, isso era um elogio?
- Completamente. Em todo o caso, rica desculpa que arranjaste para acabar comigo… É natural que ficasse tão chateado que nunca mais te quisesse pôr a vista em cima.
Olhei para ele, também de repente, e senti a testa enrugar de raiva.
- Não foi uma desculpa! Tu devias ter-me passado aquele pacote de pipocas! Em todo o caso, aquilo foi apenas um exemplo daquilo que estava sempre a acontecer!
- Ai sim? E o que era que, exactamente, estava sempre a acontecer? É que sabes, parece-me que o tempo em que andámos juntos foi um grande monte de nada. Nada, vês? Nunca acontecia nada!
- Nada? Acontecia o suficiente para tu andares sempre a chatear-me com mensagens!
- Eu, chatear-te? Estava apenas aborrecido. Como disse, naquela altura, era bastante frequente.
- Ah sim? E então e agora, deves divertir-te à brava com aquela loira que tanto comes e que tanto te come ela, ao ponto de te deixar o dedo a sangrar! Aposto que foi… - e este foi o momento em o Rockline e a Falbala decidiram começar a correr, arrastando-nos aos dois, desprevenidos. O Sérgio largou a trela, e agarrou-se ao dedo, que sangrava de novo, como se o lugar onde tinha sangrado se tivesse aberto de novo, enquanto que eu, firme aos meus objectivos, permaneci com a mão a agarrar na trela, só para ser atirada ao chão pelo impacto e ser depois arrastada como um grande trenó humano.
Digo-vos, há muitos momentos embaraçosos na vida.
Lembro-me de quando o meu tio Júpiter, que é médico e um pouco maluco, me veio buscar à escola há uns anos e trouxe um cartaz a dizer “Emília do 9ºA” para gozar comigo. Foi a piada da turma durante um mês.
Lembro-me também do dia em que o JP me pôs coca-cola no banco da cantina e eu tinha levado calças claras. O que me valeu foi que uma colega minha tinha um casaco que pude pôr à cintura. Mas era a única que tinha um casaco, o que foi de facto uma sorte. Afinal de contas, era Junho.
Mas nenhum desses momentos se pode comparar com o momento em que fui arrastada pelo Rockline e a Falbala três metros pelo chão, sujando todo o meu fantástico casaco preto, enquanto o meu ex-namorado assistia e os tentava fazer parar.
Quando finalmente os cães pararam e os meus berros e tortura física e psicológica cessaram, encontrei uma mão, suspendida no ar, oferecendo-me ajuda.
- Obrigada – disse, com as faces em chamas.
- Isso é que é determinação em segurar o Rockline. O pobre não pode dar um passo. Estás bem?
- Sim – respondi, tentando evitar olhar para ele.
- Ainda bem. Olha, toma o Rocky – disse, estendendo-me a ponta da trela que ele agarrara após o meu esqui algo desastroso. O sangue do dedo dele ainda não tinha secado. Fiquei com a mão esfolada de se ter agarrado à trela manchada com o sangue dele e, por momentos, senti-me enjoada com isso. Limpei as mãos às calças, algo desastrosamente – Eu acho que já chegou para a Falbala. E quanto a isso da Cátia me ter mordido… Não o repitas. É mentira.
E assim, afastou-se, lutando para afastar a Falbala do meu querido Rockline. Por dentro, sentia o coração dilatar e contrair, e sentia as pulsações individualmente em cada fibra do corpo. Mas claro, podia ser apenas da minha queda vergonhosa.
Porque é que os cães tinham começado a correr assim? É impossível saber. Mas uma coisa era já ponto assente. Alguma coisa estava a acontecer naquela cidade.

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