A campainha naquela escola não tocava como as restantes. Aquele som vibrante, combinado com o nevoeiro e a noite lá fora, ainda que fossem apenas seis horas, gelava uma alma no instante terrível em que tocava. E eu, ainda não liberta daquele antro para o resto do dia, ainda tinha de subir as escadas em caracol desertas e sombrias (não há lâmpadas nas escadas) até ao topo da escola para entregar um livro na biblioteca.
Subia, assim, rapidamente, sentindo cada passada ecoar como um mundo em destruição. Após alguns círculos de escadas, cheguei finalmente ao céu, isto é, vi a um tecto de distância a janela do topo e, lá fora, o céu nocturno. Aqui já existia luz, que passava pelos vidros da porta da biblioteca. Assim, este ambiente estranho corrompia-se no preciso instante em que um estrondo faz ressaltar vidros para todo o lado – a minha roupa, o meu cabelo, o chão e a minha cara – para todo o lado, e eu só pude ver um rapaz emergir da janela para o patamar final das escadas. De pé.
Gritei. Senti o sangue e o ardor dos cortes pelo vidro nas bochechas. O rapaz olhou para mim e fugiu pelas escadas abaixo. Não o persegui.
Senti as faces a queimar. Tentei livrar-me do máximo de vidros possível. Um funcionário saiu da biblioteca e encontrou-me ali, cheia de vidros.
- Porra, o que é que aconteceu à janela?
Eu hesitei. Como era suposto dizer-lhe que um rapaz tinha acabado de entrar por ali?
- Um… Rapaz. Saltou pela janela. E fugiu pelas escadas.
O funcionário coçou a orelha, em choque. Via-se que não sabia se havia de correr na direcção em que indicava ou dizer-me que tal não era possível.
- Eu sei, é difícil de acreditar. Eu também não consigo aceitar.
- Enganaste-te, com certeza. Não terá sido o vento a arrastar qualquer coisa que partiu o vidro?
- Não. Foi um rapaz. Porque não vai à procura dele?
O funcionário continuava baralhado.
- Mas… Como é que ele ia lá para acima?
- Indo. Não tenho culpa!
- Amanhã vais dizer isso ao Conselho Executivo.
Senti-me invadir pela injustiça.
- Mas… Eu não tenho culpa!
- Ainda assim, têm que se averiguar as responsabilidades. Como sei que não foste tu a mandar uma pedra ao vidro?
- O que é que eu ganhava por o fazer?
- E como é que um miúdo ia lá para a cima?
Suspirei.
- Tudo bem, amanhã vou ao Conselho Executivo. Só vinha entregar um livro – estendi-lhe O Jogador de Dostoievski e saí.
Cá fora era de noite e a lua nada não era senão uma pequena nódoa redonda, branca e gordurosa no céu azul acetinado. O vento estava frio e forte. Foi encolhida no meu casaco que caminhei para casa nessa noite. Reflectia no que se tinha passado. Mais uma vez, as minhas suspeitas confirmavam-se. Algo estava errado. Muito errado mesmo.
Todos os acontecimentos suspeitos que tinham origem desde há semanas se interligavam num ponto comum: a improbabilidade de acontecerem em circunstâncias normais. E todos eles eram, a maior ou menor grau, assustadores. Esfreguei, quase sem dar por isso, a minha bochecha magoada e tentei esquecer-me disso. Mas os trabalhos de casa que me aguardavam em casa não eram uma perspectiva muito mais animadora.
Telefonei à Lilith, com quem tinha estado ainda apenas há minutos. Dez, quinze? Já parecia uma eternidade. Ainda não tinha comparado os meus pensamentos com os dela para poder saber se ela reparara no mesmo. Afinal de contas, ela era a conspiradora do grupo. A revolucionária, aquela que pensava que o David Hume era um idiota tremendo e que o William Shakespeare, se não fosse homossexual, teria sido o seu ideal de marido. Se a Lilith não tinha dado conta, ou eu me estava a tornar paranóica ou ela estava doente. Seriamente doente.
Mas ainda há instantes ela fizera um comentário sarcástico sobre a importância do Triângulo de Pascal nas nossas vidas quando eu for uma ilustradora de guias científicos e ela uma jornalista científica na Super Interessante.
Claro que isto são os nossos planos estúpidos. Os nossos verdadeiros planos são abrirmos uma banca de limonada e construirmos a nossa vida a partir daí. Deve dar para comprar muitos lollipops. Em todo o caso, estou a brincar. E a divagar.
Ela atendeu, após o toque personalizado que era de sustos. Ela diz que é uma obra-prima, mas aos meus ouvidos, soa agressão.
- Oi, Ema. Diz.
- Olá. Olha, precisamos de falar. Já chegaste a casa?
- Já. Mas se quiseres podemos ir beber um café juntas num instante.
- Deixa. Amanhã falamos, então. É só que… Há algo que não está bem.
- Também achas isso? Eu sabia. Toda a gente diz que eu tenho a mania da conspiração, mas no fim de contas, a minha sã amiga Emília pensa exactamente o mesmo. Eles andam a pôr alguma cena esquisita nos paniques de chocolate da escola, não andam?
Esta frase deu-me logo a perceber que a Lilith, a conspiradora, não fazia ideia do que eu estava a falar. Porque, de facto, o que é um panique de chocolate ao pé duma rapariga que anda às dentadas ao namorado? Sim, tudo bem, para alguns isso pode parecer normal, mas não para mim. Talvez seja eu, que sou demasiado pudica, mas isso parece-me pura e simplesmente nojento. Nem consigo suprimir os saltos estomacais.
E a Lilith não deu por ela.
- Sim – disse, nem sei porquê – Tens razão. Os paniques este ano são um crime.
E desliguei, depois dos habituais “adeus” e “beijinhos”. E não lhe disse nada.
Bem, podemos falar amanhã, for aquilo que eu pensei. Em todo o caso, apenas me parecia estranho que eu não fosse capaz sequer de falar daquele assunto à minha melhor amiga doida. Parecia de gritos, mas se alguém iria compreender, essa pessoa era a Lilith. Quer dizer, ela tem o cabelo pintado de preto, sempre amanhado em penteados estranhos. Tem três piercings, um na sobrancelha, outro na orelha e um pequenino diamante incrustado no nariz. Ela ouvia o tipo de música a que a maioria das pessoas consideraria um crime. Um atentado auditivo. Doom metal, black metal, e outros metais pesados que nem me atrevo a descrever. Só putos reguilas aos grunhidos como se fossem uns leões. Pobres gatinhos. Mas isso é o que eu penso. A Lilith fica sempre irritada quando eu digo isto. Diz: quem és tu para falar, tu que só ouves The Corrs e música céltica de bandas que se vestem como se vivessem numa pocilga há seiscentos anos atrás.
Nessas alturas, sou eu que me irrito. Mas nada disto interessa, porque a verdade é que a Lilith é uma mente aberta. Não no que respeita o Hume, com certeza, mas de resto, aceita as opiniões de todos acerca de tudo. Ela acreditava na existência do sobrenatural. E ainda assim, eu, a realista, a científica, a racional: tinha visto esta série em cadeia de acontecimentos dúbios antes dela poder sequer largar as suas desconfianças a respeito dos paniques.
Mas tinha de começar a perceber o que de facto estava a suceder naquela escola e naquela cidade.
Porque começava a tornar-se muito perigoso.
No dia seguinte, dirigi-me para o Conselho Executivo, tal como me tinham ordenado. O director mandou-me sentar e esperar um pouco, com um mero gesto, enquanto ele próprio falava ao telefone, tentando soar educado com quem quer que fosse que estivesse ao telefone.
Fiquei ali sentada durante, pelo menos, quinze minutos. Durante esse tempo, aproveitei para me entreter olhando para os múltiplos dossiers amontoados em armários, as resmas de papel em torre, os ocasionais bibelots e suportes de canetas e outro material de escrita.
Não estava praticamente a prestar atenção à conversa do director ao telefone. Presumi que era resultado de alguma nova burocracia e, por conseguinte, abstraí-me, tentando relembrar-me do dia anterior, de como um miúdo qualquer tinha rebentado com a janela, e o estrondo, e os vidros por toda a parte, e o meu sangue nas faces.
Instintivamente, levei a mão à cara e senti a cicatriz mínima. Não me doía, mãe era bastante evidente ao toque o sangue coagulado amontoado em linhas curtas.
E foi nesse instante que me apercebi duma palavra. Uma mera palavra. De súbito, endireitei-me na cadeira e dei toda a minha atenção àquilo que o director dizia, em tom alegre de tagarelice cordial, ao telefone.
A palavra era: Fantasmas.
Não pude evitá-lo. Engasguei-me de espanto. Tossi desalmadamente.
- E, portanto, são sei o que hei-de fazer com eles. O Margaraça disse-me que ninguém dava conta, mas os acontecimentos começam a tornar-se demasiado estranhos, demasiado evidentes. A D. Palmira e a D. Rosette andarem à bulha com esfregonas feitas tochas gigantescas e ridículas deu ligeiramente nas vistas, sabes. Eu nem acreditava em nada disto, nem nestas coisas, nem que estes acontecimentos fosse possíveis, e agora…
Seria possível que fosse, de facto, verdade? Seria possível que a escola estivesse infestada de monstros e fantasmas? Seria possível que a escola estivesse… Assombrada, tal como o director parecia crer? Uma parte de mim sentia-se tentada a concordar. Contudo, outra parte de mim, a maior parte de mim, a racional, a científica, não podia aceitar tal facto. Fantasmas? Está certo, posso acreditar que há mais que a carne e os ossos no nosso corpo. O que é um ser humano? Não um amontoado de órgãos, certamente. Mas espíritos dos mortos? Fantasmas? Não, não podia aceitar isto.
No entanto, essa não parecia ser a opinião do director. Pergunto-me de que disciplina seria ele professor. Não de ciências exactas, com certeza.
Por fim, após se despedir, o director colocou o auscultador no descanso e olhou para mim, juntando as pontas dos dedos, expectante.
- Diz lá, então. Como te chamas?
- Emília. Vim aqui porque o funcionário da biblioteca me disse para o fazer. Uma janela caiu-me literalmente em cima.
O director abriu ligeiramente os lábios e soltou uma risadinha.
- Caiu-te a janela em cima? Ah, então podes dizer-me o que aconteceu. Ando doido para saber a quem vou cobrar aquela janela.
Sorri, educadamente. Tentava não cair no erro de parecer ofendida. Muitos alunos ficariam livres de problemas se se inteirassem desta pequena regra. Nunca parecer ofendido. Ou então, os senhores professores vão achar que o aluno o está a fazer por uma questão de defesa pessoal. O que, naturalmente, nunca é verdade.
E assim, limitei-me a sorrir. Sorri, educadamente.
- Bem. Houve um rapaz que saltou de lá para dentro da escola. Não me lembro bem dele. Sei que é moreno e baixinho. Oitavo, nono ano, talvez? Enfim. Eu sei que é estranho, mas é certo que ele não devia ter entrado por ali. E eu não tenho qualquer culpa no cartório porque, como vê, até me magoei com os vidros enquanto eles caiam.
- Hm. Hm – repetiu o director, franzindo a testa. Pensei que talvez ele se inteirasse de todos os problemas assim. Hm para duas funcionárias à bulha com esfregonas em chamas. Hm para miúdos a saltar por janelas do tecto. Hm para os fantasmas. Algo mais que isso? Hm. Estranho.
- Bem, talvez fosse melhor se tentasses ver se o encontras novamente. Informa-te. Uma escola tão pequena. Mal ou pior, vocês conhecem-se todos.
“Fugiu-lhe a boca para a verdade. É mesmo assim. Mal e muito mal”, pensei, e perguntei-me novamente se devia contar alguma coisa sobre as minhas suspeitas à Lilith. Ou talvez ao André. Ainda assim, não me parecia certo, de alguma forma, dizer-lhes fosse o que fosse acerca do assunto.
- Em todo o caso, podes sair – disse, por fim, o director. Isto fez-me logo à partida muito feliz. Estar liberta daquelas paredes e do bonacheirão do director era algo que, definitivamente, me agradava.
- Obrigada – disse, saindo. Contudo, mal eu sabia que o Conselho Executivo era o menor dos meus problemas.
Mal saí, fui praticamente contra a minha adorável prima Matilde, de braço dado com o seu intragável guarda-costas. Alto, como sempre, não teve porém dificuldades em baixar o olhar para encontrar o meu. Para me ameaçar e esmiuçar, interiormente, enquanto que a namorado o fazia utilizando a sua terrível grande boca:
- Priminha… Este fim-de-semana faltaram de novo ao almoço de Domingo. O que é que se passa? Problemas familiares? Lembra-te, somos sempre uma família.
- Priminha – disse, imitando-a – Os únicos problemas familiares que tenho são contigo. Faltámos porque o meu pai tinha de fazer uma reportagem longe de casa, sabes como é. Como está o tio Júpiter?
- Bem. No Domingo estava excepcionalmente feliz. Sabes como gosta da minha companhia.
Ri-me, interiormente. Apesar de ser tio de ambas, o meu tio Júpiter mal era capaz de manter cara serena quando a minha prima Matilde estava na mesma divisão. Se tentava não se rir das baboseiras dela, era para não ofender a mãe dela, irmã dele, minha tia, que é um amor de pessoa, ao contrário da filha que sofreu, com certeza, uma mutação génica tal que se viu convertida numa criatura semelhante a uma tartaruga maléfica, ao invés dum ser humano digno de fazer parte da nossa família.
- Sim, sei – disse, contendo o riso só para mim – É hoje que temos aula juntas, priminha? Biologia, não é?
Algo que me supera é como é que alguém tão burro quanto a minha prima é capaz de nunca ter chumbado ano nenhum e de não ter deixado qualquer disciplina para trás. O pobre do JP que o diga, que tem aulas de Matemática com ela.
- Pois, parece que sim. Desculpa que não tenha podido ficar contigo na tua carteira, minha querida prima, mas sabes como tenho dificuldades em ficar longe do meu Artur…
E neste momento, pareceu-me ver um terrível trejeito de desprezo na cara do referenciado “Artur dela”. Não sabia o que significava aquilo, mas sabia, no entanto, que obviamente não era só a mim que as intervenções da Matilde enjoavam.
Pior que a Matilde era, certamente, a Loira, que com a sua falta de oportunidade apareceu no preciso momento, também ela de braço dado ao seu próprio namorado. Aquilo parecia, sem dúvida, uma exposição canina, só que sem os cães, e com rapazes no lugar deles. Eu sentir-me-ia ofendida se estivesse no lugar deles. Ainda assim, parecia normal quer para o Sérgio quer para o Artur que estivessem assim dependentes de duas miúdas burras que nem portas encostadas, de braço dado como um mero acessório de moda (como um relógio caro, ou uns brincos de diamante) e nada mais que isso.
- Oh… Cátia. Estava apenas aqui a falar com a minha priminha querida – e nestas palavras revelou o quão querida ela pensava que eu era.
- Oh… Matilde. A sério? És tão caridosa.
- Caridosa? Caridosa sou eu por ainda não me ter ido embora.
- Oh, coitada, não está ainda preparada para assumir que precisa da nossa ajuda – continuou, sibilando, a Loira – E a propósito, como está a tua amiguinha Liliana? Continua com os ferrinhos enfiados nos sítios certos?
Neste momento, resumi-me fazendo-lhes um gesto feio e virando costas em direcção à sala onde os cinco íamos ter aulas.
E no entanto, ia com lágrimas nos olhos, porque em toda aquela cena, o Sérgio estivera a assistir, e não fora capaz de proferir uma só palavra ou de intervir uma única vez, nem para me dizer “olá” ou fazer qualquer gesto de reconhecimento. Naquele momento, ele pareceu-me apenas uma marioneta de mão, guiada por uma miúda perfeita, sem qualquer pelo e de cabelo loiro, sem acne e sem marcas de tal, sem óculos ou lentes, sem falta de amigos e rapazes atrás dela, mas a quem faltava o mais importante: a integridade.
Mas engoli em seco e fingi que não me importava, porque a verdade é que já nem me importava. Podemos fingir que conhecemos as pessoas que costumávamos conhecer, podemos fingir que as pessoas não mudam nem nos desiludem, mas a verdade é que as pessoas estão em permanente mutação: uma mutação aterradora. As pessoas mudam e dois anos são muito tempo. Dois anos são, quanto se tem dezassete anos, uma semi-vida. Ele já não era o Sérgio, mas sim outro Sérgio, um inventado assim à pressão (desde há dois anos para cá) e irreversivelmente modificado, alguém que eu nunca conhecera e, que de facto, talvez não conheça mesmo.
Cheguei à porta da sala antes de dar por isso, e dei por mim com a Lilith à minha frente, agitando os cabelos negros penteados duma forma duvidosa. Mas, agora que reparava, não era apenas o cabelo dela que estavam penteados de forma duvidosa, também ela exibia um ar hesitante.
- Então, Mia? Onde andaste? Queria contar-te uma cena… - foi o que ela me disse.
- Nenhum sítio especial. Então o que é? Podes contar-me…
Mas nesse instante, chegou a stôra de Biologia.
- Conto-te depois, está bem? – e, estranhamente, a Lilith parecia, até, aliviada por não ter de, afinal, me dizer nada. Senti-me desconfiada com isto, mas entrei na sala sem dizer palavra.
Sentei-me no meu lugar junto da Lilith, na fila de trás. O André não tinha Biologia. Assim, abri o caderno e concentrei-me na aula. Ignorei a minha prima e a Loira assim que entraram na sala, atravessando o corredor atrás da minha carteira, atrasadas, seguidas pelos dois namorados/escravos.
Mas elas não o fizeram. A Loira deu-me um pontapé na cadeira e a minha adorada prima pousou-me a mão na cabeça para se apoiar.
Suspirei fundo, e tentei ignorar a impertinência daquelas duas. A Lilith não fez o mesmo.
- Ouçam lá, vocês, que pertencem à família Bovidae, não querem levar com um murro na zona ventral? Cabras de – a palavra seguinte foi censurada neste registo.
E claro, a nossa stôra de Biologia ouviu perfeitamente tudo o que ela diz. Para além disso, estou certa de que ela, ao contrário da Loira e da Matilde estava familiarizada com a família Bovidae.
- Liliana! Mas que raio é isto agora? Saia imediatamente!
- Mas stôra, aquelas duas andam a meter-se com a Emília sem ela fazer o que quer que fosse! – defendeu-se ela.
- Eu não quero saber! Isto não é linguagem para ter na sala de aula. Rua!
- Mas stôra, é verdade! A Lilith… A Liliana, quero dizer, só estava a defender-me. Ela só reagiu de forma algo… Explosiva. Nada de mais. Não a mande embora!
- É mentira, nós não fizemos nada, stôra. Essa miúda é que anda passada, com ciúmes ou assim, e depois chama-nos estes nomes e inventas estas coisas.
A stôra olhava de par de raparigas para par de raparigas, obviamente tendo dificuldades em discernir quem dizia a verdade.
- Foi assim, stôra: a Loi… a Cátia deu um pontapé na cadeira da Emília e a Matilde esfregou-lhe a mão no cabelo – argumentava a Lilith, de pé, e a cometer o pior erro de todos: ela estava a mostrar-se ofendida.
- Não posso acreditar nisso! – decidiu, por fim – A Matilde é prima da Emília, porque é que havia de fazer uma coisa dessas?
- Exactamente, stôra! Não fizemos nada! – corroborou a Matilde, nas pontas dos dedos de felicidade.
- Portanto, Liliana, faça o favor de sair. O que disse foi completamente impróprio.
E este foi o instante que mudou tudo. Talvez na altura me tenha parecido apenas um acaso curioso e dúbio de uma réstia de bom senso numa alma má. Contudo, esse foi o momento que ditou o resto da minha vida, de certo modo.
- A Cátia e a Matilde estão a mentir. A Liliana fez a coisa certa ao defender a Emília. Eu próprio devia ter feito o mesmo.
E estas palavras foram ditas pelo rapaz alto e de olhos sombrios que, por acaso, era o namorado da minha prima. O Artur.
A Matilde parecia que, por momentos, ia entrar em combustão e desfazer-se em milhões de células inflamadas, dilatadas.
A Loira estava com a cara mais estúpida e ridícula que se possa imaginar. Nunca vira aquela rapariga adoptar qualquer tipo de expressão facial que não fosse a do desprezo e a do aborrecimento. Agora, contudo, a cara dela revolvia-se em máscaras desfeitas e incríveis de espanto e raiva.
Até o Sérgio pareceu levemente espantado com a ousadia do companheiro de emprego. Isto é, companheiro de escravidão. Parecia pensar, lá dentro “O que é ele a ela?”.
E Deus, eu sabia que eu própria estava a pensar o mesmo.
Parecia-me que estava a vê-lo pela primeira vez. Um ser humano. Com vontades próprias. Seria possível?
Era, de facto, muito alto. A altura dele incomodava-me mais do que qualquer traço que ele tivesse, ainda que os olhos dele, escuros como uma noite gelada, me deixassem também amedrontada, de certo modo, uma vez que nunca conseguia saber em que é que ele estava a pensar. Era como se a melanina dos olhos dele fosse uma grande venda, não para ele, mas para os demais, uma grande venda que lhe tapa a alma.
Talvez por todos os traços dele estarem contidos por e naquela cor, aquele momento foi o primeiro em que considerei que ele talvez não fosse unicamente uma pessoa inteligente, mas encostada aos confortos da sociedade. Talvez ele fosse… Apenas uma pessoa inteligente?
- Porque me mentem, meninas? – perguntou a stôra, mas desta vez apenas para a Loira e a Matilde. Obviamente, o testemunho do Artur tinha um significado especial para ela. Ela tinha, agora, adoptado uma posição e acreditado a nosso favor.
A Loira e a Matilde fitaram cada uma os seus sapatos. A stôra decidiu não mandar a Lilith para a rua, ainda que lhe tenha dado uma boa reprimenda. Durante a aula, penso que ouvi uns sussurros furiosos na mesa da minha prima e do Artur e, depois desses mesmos sussurros furiosos, um silêncio que estendeu até ao fim da aula.
No dia seguinte, já corriam por toda a escola as notícias de que o Artur e a Matilde já não estavam juntos. Ela, inclusive, tinha já sido vista com um tal João Peres que eu não conhecia mas que a Lilith me disse que era daqueles que come tabaco com os cereais do pequeno-almoço e que se deita com uma garrafa de rum em vez dum ursinho de peluche.
A única pergunta que me assaltava após aquele acontecimento na aula de Biologia era: Será que aquilo era suposto acontecer? Isto é, será que a honestidade do Artur era apenas mais um dos acontecimentos estranhos que tinham vindo a acontecer nos últimos tempos?
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
Se chegaste ao fim deste capítulo, parabéns! Estás oficialmente na lista dos meus novos melhores amigos! :) Agora é preciso é saber: vais continuar? Prometo que dentro em breve se torna menos seca...
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