domingo, 15 de novembro de 2009

O 2º Momento Pós-Vampirismo e a 3ª Noite

- Mordeu-te? Como é que tu sabes que a Cátia me mordeu? Espera aí, desde quando tens namorado? E como é que ele te mordeu? Ele mordeu-te? Ele é um vampiro, ou algo do género? – em todas as palavras e gestos do Sérgio, a sanidade mental parecia estar em eminente destruição. Mais um pensamento, menos um pensamento… E estaria perdida para sempre.
Mas que tinha eu a perder, em contar-lhe? Ele era, ironicamente, talvez a única pessoa que compreenderia. Ele conhecia o Artur. Talvez me pudesse ajudar a vigiá-lo, se lhe contasse. Talvez lhe pudesse falar também do meu tio Júpiter. Assim, ele compreenderia. E nunca mais teríamos de discutir.
- Sérgio, talvez fosse mesmo melhor eu contar-te tudo. Senta-te.
- Eu já não tenho a certeza de querer saber tudo… - mas ele sentou-se, de forma expectante, o que me incitou a continuar. Contei-lhe, então, tudo, à semelhança deste relato aqui escrito. Contei-lhe até de como lhe pensara dar o tal antídoto que se provou posteriormente um veneno que tinha transformado o Artur num sugador de sangue. Apenas omitira os beijos entre mim e o Artur, contando-lhe apenas que ele se confessara atraído por mim. Ele não precisava de saber os detalhes.
No fim de lhe ter dito tudo isto, ele permaneceu em silêncio uns poucos de instantes.
- Contaste isto a mais alguém? – foi o que me perguntou, por fim. Disse-lhe que não, e que também o proibia de o fazer. Ele encolheu os ombros. Parecia ainda estar a assimilar o que lhe tinha dito. Tinha já escurecido, durante o tempo em que lhe estivera a fazer o relato. Não fazia ideias de que a que horas saíra do hospital, ou de que horas eram agora. Era como se o dia inteiro tivesse sido um segundo.
- Não – disse-lhe – És o primeiro a saber de tudo, assim como to estou a contar agora. E preciso da tua ajuda, Sérgio. Não estou a brincar. Talvez aches que estou louca, mas a verdade é que esta é a minha vida desde o dia em que vi a Loira a ter tendências canibais contigo.
Ele continuava em silêncio. Talvez uma parte dele ainda não se apercebesse do que lhe dissera. Talvez nenhuma parte dele estivesse preparada para ouvir aquilo. Não o censurava. Eu própria não acreditaria se mo contassem. Se mo tivessem contado, eu provavelmente estaria a rir-me, e a dizer “boa piada” ou, quem sabe, a marcar o 112 no telefone mais próximo.
Mas não aquilo. O Sérgio parecia estar a digerir, mas era uma digestão muito, muito lenta. Presumi que era mesmo assim, que as pessoas poderiam ter dificuldade em aceitar que o seu mundo tinha mudado e que o mundo como o imaginavam não era se não uma grande mentira. Eu própria tinha tido imensas dificuldades em assimilar o que me acontecia à medida que o via com os meus próprios olhos. O Sérgio pareceu estar pronto para falar, o que, considerando as circunstâncias, pensava eu, era até de espantar:
- Tudo bem, vou ajudar-te, Emília. A Lilith está mal, não é assim? É pois a nossa prioridade. Vou dar-te um telefone e quero que fales com a tua mãe para a sossegar, porque o teu tio, muito provavelmente, já a preveniu do teu desaparecimento.
Fiquei espantada com a capacidade de compreensão que ele estava a demonstrar. Fiquei ainda mais espantada comigo própria, por não ter ainda pensado em nada daquilo durante o tempo todo desde que fugira do hospital enfiada numas roupas de idosa.
- Obrigada – foi a única coisa que lhe pude dizer, antes de levantar a mão para pegar no telefone portátil que ele me estendia. Marquei de novo número, e novamente, a voz da minha mãe fez-se ouvir num “Estou”. Apenas agora, ela não conseguia conter o nervosismo.
- Estou, mãe? É a Emília.
- Emília? Onde é que tu estás? O tio Júpiter não te viu em lado nenhum. Eu própria já estou a caminho do hospital, para ir à tua procura! Nem fazes ideia do quanto nos preocupaste a todos! Ainda por cima nesta altura, com a Liliana naquele estado… Mas que raio se passou?... – a voz dela era um misto de raiva e preocupação. Gritava mais que o necessário, e tive afastar várias vezes o auscultador do ouvido para evitar ficar surda. Naquele momento, apercebia-me da minha irresponsabilidade, mas noutra parte de mim sabia, tinha agido correctamente. O meu tio Júpiter não era de confiança.
- Mãe… Desculpa, mas eu fugi do hospital, porque precisava de ir ter com a Lilith. Onde é que estão?
- Essa é a pergunta que te faço a ti, minha menina… Fugir do hospital? Mas tu enlouqueceste? – berrava ela. O Sérgio, do outro lado da sala, estava sentado no sofá, fingindo não prestar atenção, mas de segundo a segundo, descaía-se, e o riso fugia-lhe da boca aos solavancos múltiplos.
Devia ter-me mostrado arrependida. Devia, sei lá, ter inventado uma mentira decente. Contudo, isso não me pareceu que fosse resultar, pelo que mudei de tom:
- Mãe, a minha melhor amiga está internada, depois de ter desaparecido debaixo do meu nariz! Achas mesmo que não me culpo pelo que aconteceu? Achas mesmo que era capaz de ficar com uns fiozinhos de plástico a olhar para a cara vermelha do tio Júpiter sem… - e este foi o meu erro, insultar o cunhado, o divertidíssimo senhor cunhado da minha mãe.
- Emília! – gritou ela, com cada sílaba inflamada por sangues e hemorragias auditivas. Não sabia que fazer. Largar o telefone? Fugir da galáxia onde aquela mulher estava? Não cheguei a nenhuma conclusão a tempo de evitar a explosão.
- O teu tio Júpiter gosta muito de ti, não tens o direito de o insultar dessa maneira, não tens o direito de o usares como álibi da tua fúria! É compreensível que estejas chateada pelo que aconteceu à Liliana, Deus, é extremamente compreensível, mas não posso tolerar que fales assim do teu tio, ou que hajas assim comigo e com ele! Não podes fugir do hospital, para o qual foste, devo-te lembrar, devido a teres sido mordida por um cão, numa altura em que eu julgava que estavas a dormir no quarto ao lado! Não podes mentir-me! Não podes usar a Liliana como desculpa para tudo o que fazes!
Afinal, era aquilo que ela julgava. Ela achava que eu usava a minha melhor amiga desaparecida e, agora, mentalmente instável, para fazer todos os disparates que me viessem à cabeça. Ela achava que eu era o tipo de adolescente estúpida e, Deus, delinquente! Ela achava que eu era daquelas miúdas desesperadas para terem atenção, fazendo para isso, as piores coisas, com os piores meios e com os motivos mais levianos!
- Achas mesmo que eu sou assim? Achas mesmo que o que faço é para usar a minha melhor amiga, repito, a minha melhor amiga? E estás a ver, se achas, parece que afinal, não sabes quem é que educaste, no final de contas. Nunca te dei problemas, até agora, e de repente, achas que sabes toda a psicologia sobre adolescentes em risco? É isso? Mãe, aprende, eu sou, em demasiados parâmetros, a adolescente perfeita e ponderada!
- Não, filha. Tu não és perfeita. Não há nada que seja uma “adolescente perfeita”. Todos vocês são pessoas cheias de vontade de ter segredos, e armados em crescidos, quando na verdade, tudo o que vocês sentem, são um imenso toldar dos sentidos, e uma grande euforia. Vocês embebedam-se, vocês andam aí com namoricos uns com os outros, e sim, tu também, que eu bem sei.
- Eu, namoricos? Bebedeiras? Mas tu estás a ouvir-te a falar? Não estás a fazer qualquer tipo de sentido.
- Vais dizer que ontem à noite não fugiste de casa às escondidas para ir ter com um namorado? Vais? Não me parece.
- Fui ter com o André – menti. Por esta altura, já nem me recordava de que estava na sala de estar do Sérgio, com ele a ouvir tudo. Parecia que um rio se enchia até ao cimo, como se chovesse muito, na minha cabeça. Não conseguia ouvir nada. Não conseguia ver fosse o que fosse.
- Namoras com o André? – perguntou a minha mãe, em brasa, pelo que se ouvia.
- Não! Não, mãe – apressei-me a dizer.
- Então porque é que fugiste para ires ter com ele a meio da noite?
- Porque… É complicado. E estás a ver, porque há coisas que preciso de fazer, que tu não compreendes!
- Como, não compreendo? E tu estás a achar que eu não tenho qualquer tipo de capacidades, porventura? Achas que sou tão velha e estúpida que não sou capaz de compreender aquilo pela qual a minha filha mais nova está a passar? – se ela soubesse. Deus, se ela soubesse, que o problema não era a compreensão cognitiva. Era a compreensão que é necessária para se aceitar, uma compreensão de algo que nem eu própria, que estava metido nisto até às sobrancelhas, compreendia.
- Mãe… Tu já foste adolescente. Tenta compreender… - pedi-lhe, tentando ficar calma de novo.
- O que eu compreendo é que tu me dizes que eu não podia compreender. Já fui adolescente, sim, o que, mais uma vez, me dá razão. Tenho a experiência, e sei que tu ontem saíste para ir ter com um namorado. Se é o André ou não, não quero saber, mas é certo que fugiste de casa para ir ter com ele!
- Mãe, e se fosse, qual era o problema?
- Mentiste! Fugiste de casa! Agora foges do hospital! E ainda dizes que te preocupas com a Liliana!
O tom acusatório na voz da minha mãe ecoou por toda a minha alma, que se alojou junto ao canais lacrimais, outra vez.
- Tu não fazes ideia do quanto eu me preocupo com ela! Foi por ela que fugi do hospital! Preciso de saber onde ela está, porque preciso de saber como é que ela está… Mãe… Diz-me só, onde é que ela está…
Ouvi um suspiro resignado da minha mãe do outro lado da linha. Soube desde logo que ela me ia dizer onde estava a Lilith.
- Ela está… Levaram-na para casa. Vou telefonar para a mãe dela, a avisar que vais aí passar. Eu também vou para lá. Mas promete-me que depois de a veres voltas para o hospital.
- Prometo – prometi, quase instantaneamente, tal era o meu desejo de fazer com que aquela discussão desaparecesse para sempre. Discutir feria-me a alma duma forma que, digo, qualquer um ficaria espantado, uma vez que eu sou tão prática, e no entanto, discutir perturba-me desta maneira irracional. Passei a mão pelo cabelo, despedi-me, e desliguei. Felizmente, ela não me perguntou onde estava. Não as vezes suficientes, pelo menos, para eu ter de lhe responder mesmo.
Se ela achava que eu tinha um namorado, quem sabe o que pensaria acerca do facto de eu estar em casa do Sérgio. Era melhor nem descobrir. O JP, por exemplo, sempre detestara o Sérgio. A minha mãe costumava ser, normalmente, ainda mais conservadora.
Sentei-me, derrotada, por apenas alguns segundos, no sofá, junto do Sérgio. Ele permanecia em silêncio. Já passava algum tempo desde os momentos em que ele tentava disfarçar o riso em solavancos. Agora, parecia ter perdido a vontade de rir. Pegou-me na mão e eu não a removi da dele. Com a outra mão, fez-me festas sobre as costas da mão. Passados apenas cinco ou seis segundos, largou-a e levantou-se. Pouco tempo depois, aparecia com um casaco na mão e a minha carteira desaparecida que ele, afinal, guardara o tempo todo.
- Vamos? – perguntava.
- Onde?
Não via, de facto, o que ele queria dizer.
- Alô. Ver a Lilith.
Não sabia se a ideia de ele ir comigo me agradava ou nem por isso. Sabia apenas que não me estava a sentir bem. De todo. Talvez precisasse mesmo de alguém para me amparar emocionalmente. Podia dizer à minha mãe que o encontrara na rua.
Portanto, levantei-me e saí com ele do prédio.
Tentei esquecer-me, no caminho, de que estava vestida indecorosamente para ver a minha melhor amiga outra após ela ter estado desaparecida.
No caminho, o Sérgio foi-me fazendo perguntas sobre tudo o que lhe contara, às quais respondia de forma muito sucinta. Não estava na disposição de me alongar.
Chegámos lá muito depressa, uma vez que os meus passos pareciam abarcar seis metros de extensão, porque para além de largos, eram também muito rápidos.
Toquei à campainha. Ouvi a voz da mãe da Lilith dizer:
- Quem é?
Engolindo em seco e respirando fundo, identifiquei-me:
- É a Emília.
- Sobe – disse ela, apenas.
Ouvi o som característico da porta a abrir-se e segurei nela. Esperei que o Sérgio entrasse, mas ele não deu sinais de querer entrar.
- Não, Emília. Isto é daquelas coisas que tens de fazer sozinha. Não precisas de ir procurar o Artur sozinha, prometo-te isso. Mas nisto, não te posso ajudar.
E após esta curta declaração, foi-se embora, deixando-me sozinha a segurar a porta do prédio da Lilith.
Após uns instantes sem história que contar, entrei. Subi no elevador. A porta abriu-se.
Foi a mãe da Lilith que me abriu a porta. A cara dela parecia cavada muito fundo, e estava muito, muito branca, tanto que a sua pele tinha perdido o tom saudável de alguns dias atrás. Só o vê-la, a ela, assim, transtornou-me. Em que estado estaria a Lilith, para deixar a mãe dela neste estado?
Não demorei muito a descobrir. A mãe da Lilith levou-me pelo corredor até ao quarto da minha melhor amiga. Antes de entrar, a mãe dela pediu-me que não lhe perguntasse nada acerca do que lhe tinha acontecido. Entrei. Descobri-a deitada na cama.
Parecia dormir. Na verdade, se não soubesse, diria que parecia estar morta.
A Lilith que via à minha frente era a mesma que vira na minha alucinação.
Não estou a brincar. Todas as escoriações eram uma só. Tinha a certeza que se pegasse na Lilith da minha alucinação e a comparasse com a Lilith que via à minha frente, elas seriam uma só. Uma só sombra escura e magra, ensanguentada, e praticamente morta. Um borrão de pessoa.
Contudo, esta Lilith estava estável. As feridas na cara dela não pareciam chorar sangue, como as da Lilith que vira na minha alucinação. O cabelo desta Lilith mantinha-se limpo e não continham qualquer tipo de substância pastosa.
Ainda assim, não podia evitar reparar que nenhum dos piercings da Lilith estavam postos, o que me fez confusão. Há anos que não a via sem pedaços de metal do nariz, sobrancelha e orelha. Vê-la assim, cabelo solto, e preta como se a tivessem espancado até às súplicas, quase que me incomodava mais que a alucinação de alguns dias atrás.
Não podia suportar ver a Lilith ali, e apesar de ela parecer dormir, a voz dela fez-se notar, quase tão grave e tão segura de si como antes:
- Emília, pára com isso. Já me chegou o teu irmão para aí a lacrimejar para me fazer ficar entediada para o resto da vida. Proíbo-te de dizeres algo de condescendente.
Sorri. Evidentemente, a Lilith não estava tão perturbada quanto o que me tinham dito.
- Como estás, Lilith?
Os lábios dela continuavam a mexer-se e a voz saía. Mas ela mal se movia:
- Bem. Bastante bem, aliás. Desculpa lá ter-te deixado a ver o filme sozinha, mas temos que admitir que aquilo estava a ser uma seca.
Apesar de estar a tentar contar piadas, a Lilith não se mexia, ainda, mais do que o necessário.
- Lilith, descansa. Não te canses a dizer parvoíces, como de costume – disse-lhe, tentando manter um tom neutro que não denunciasse a minha preocupação.
- Mas descansar o quê? Disse-te para não seres condescendente.
- Não estou a ser condescendente, estou a ser sensata – defendi-me. Seria assim tão difícil manter uma rapariga sossegada?
- É o mesmo – barafustou a Lilith – Desde quando é que és sensata?
- Desde quando é que achas que sensatez e condescendência são o mesmo?
Pareceu-me ver os lábios da Lilith tentarem mexer-se, tentarem sorrir. Mas, de alguma forma, não resultou. Esta imagem, de a ver, assim, incapaz de sorrir, foi a que mais me marcou de toda esta altura conturbada da minha vida. Senti os meus próprios lábios a tremer, mas não deixei de sorrir, trémula. Especialmente porque ela, agora, abria os olhos, encarava-me de baixo para cima, e esforçava-se para tentar agir como eu poderia esperar que ela agisse num dia qualquer.
- Como está o André? – perguntou, num tom normal, quase como se perguntasse pelo tempo.
- Está bem. Não falo com ele desde ontem…
- Ouvi-os falar que estavas no hospital… Que aconteceu?
Senti-me gelar só de pensar em dizer-lhe o que se passara.
- Magoei-me. Um cão estúpido. Nada de mais.
- É por isso que tens esse penso no pescoço? O parvo do cão abocanhou-te? Eu sempre te disse que os gatos são muito mais confiáveis. Um dia destes vais ver, o Rockline vai atacar-te durante o sono, e quando deres por isso já foste comida.
Tentei rir, um bocado, por debaixo dos músculos que de tanto forçar o riso me doíam.
- O Rockline é de confiança. Muito mais que a Pandora – a Pandora era a gata da Lilith. Não fazia ideia donde ela podia estar, neste momento. Esperava que não muito perto de mim, ou eu ia fugir dela, acontecesse o que acontecesse. É assim, quando se tem fobia de gatos.
- A Pandora é uma criatura sensível e inofensiva. Excepto, claro, para gajos manhosos. Nesse caso, atiço-a num segundo.
- Não ma atices a mim, não é preciso. Já tenho medo suficiente dela.
Ela pareceu rir-se, outra vez, sem mexer a boca:
- Afinal de contas, ainda bem que recuperaste depressa. Agora – a voz dela tornou-se séria. Eu temi – diz-me, porque mais ninguém o faz. Onde está o Artur?
Senti-me a bloquear. Não sabia o que lhe dizer. Não lhe podia dizer a verdade, evidentemente. E de qualquer forma, mentir-lhe, como a toda a gente, não me parecia simples.
- O Artur… Ninguém sabe dele – o que não era exactamente mentira. Ninguém sabia. Excepto eu e, agora, o Sérgio.
A Lilith não se ia tornar a terceira pessoa. Até ao momento seguinte.
- Emília, fecha a porta. Há coisas que preciso de te contar, que ainda não contei a ninguém.
Obedeci-lhe, trémula e sem saber se a devia ouvir ou mandar calar. Não era bom para ela cansar-se, mas eu não podia negar-lhe o direito de me contar coisas.
- Ora bem, senta-te aí. Isto pode demorar.
- Lilith, tens a certeza… - mas ela interrompeu-me.
- Tenho. Agora cala-te e ouve. Eu comecei a notar que as coisas estavam… Estranhas, assombradas se preferires, lá na escola. E tenho a certeza que tu também notaste. A única diferença é que tu és capaz de ser discreta a perceberes as coisas. Eu não. Não te disse nada, porque tu nunca acreditas em nada do que te digo, e também porque eu estava verdadeiramente assustada – pausou um pouco e retomou o fôlego. Os lábios gretados permaneceram abertos – Comecei a ser seguida. Era isso que te queria dizer, antes daquela aula de Biologia ridícula.
Relembrei-me. Nunca mais me tinha lembrado de que a Lilith tinha algo para me dizer. Nunca mais tinha sequer pensado que podia ser importante. Ignorara-o, pura e simplesmente. Que raio de amiga que eu era.
- Fui seguida – retomou ela – mas nunca pensei que tivessem a coragem de me raptar estando eu contigo. Raptaram-me. O Artur, mais propriamente dito, raptou-me. Levou-me dali sem tu dares conta, usando clorofórmio que me pôs a dormir. Claro que foi um pouco estranho da tua parte nem teres dado conta de que a tua amiga, que estava na cadeira ao lado, tinha desaparecido. Mas é compreensível, o filme estava no clímax.
Pausou de novo. Parecia cansada, mas a voz, de alguma forma, não vacilava.
- Eles… Fecharam-me. Perguntaram-me o que sabia, ou o que julgava que sabia. Bateram-me, como vês. Mas eu pouco sabia. Ou pouco “julgava que sabia”. Em todo o caso, iam começar a usar-me para cobaia. Iam-me dar injecções, e assim… Mas consegui convencer um deles, o mais velho, assim um homem bolachudo, a deixar-me sair. Mal conseguia andar, mas fugi dali. Corri para uma sapataria, ali perto. Pedi que me deixassem telefonar. Não fizeram grandes perguntas. Suponho que não quisessem sangue na carpete, porque me vieram logo limpar a cara e o sangue. Não posso contar à polícia o que te disse, Emília, porque aquilo que eu ouvia não era normal. Continuo sem saber muito, sabes, mas o que sei chega-me. Aquela gente não é gente. Aquela gente quer transformar-nos a todos em monstros.
- Monstros? Sim já desconfiava – deixei escapar. Ponderava seriamente. Devia contar tudo à Lilith? Não estaria ela demasiado fraca para saber? Desisti. Tinha sido suficientemente forte para me contar tudo o que sabia. Era agora minha obrigação fazer o mesmo. Contei-lhe tudo, tal como ao Sérgio, e até incluí os detalhes que não dera ao Sérgio.
- Emília! – disse-me ela, às tantas – Como foste capaz de andar aí enrolada com o Artur? Ele não é bom… Não é mesmo nada bom… Raptou-me! Como é que podias esperar alguma coisa de bom dele?
- Ele não teve culpa… - defendi-o – Ele foi apanhado no meio disto tudo, tal como nós. Ele… Não estava consciente. E agora… A esta hora está morto. Mais umas horas e está prestes a acordar…
- Como vai fazer? – quis ela saber – Para poderes “tomar conta” do bichinho? Tens noção que mesmo com a ajuda do paspalho do Sérgio, a tua mãe não te vai deixar sair de casa hoje à noite.
- Eu sei. Vou ter de fugir de novo – concluí, meditativa. Talvez a minha mãe tivesse razão. Talvez me estivesse mesmo a tornar uma delinquente juvenil, quase adulta.
- Mas tu estás louca? Não podes sair. A tua mãe vai verificar. O melhor mesmo era lixares-te para o Artur hoje e ficares em casa. Emília, estou-te a dizer isto para teu bem.
- Mas eu não posso! E se ele magoa alguém? E se ele… E se ele come alguém? Tal como ontem me tentou devorar a mim? – quem me ouvisse e não estivesse dentro do assunto, com certeza acharia tudo isto muito cómico. Pois, não eu.
- Não queiras saber! A culpa não é tua! Porque é que tens de acabar sempre tu a ser perseguida por essa besta? Porque é que tens de te sacrificar pela comunidade? – perguntava-me a Lilith, quase em brasa, ainda que ainda deitada e imóvel sobre a cama.
- Lilith! Não ouviste nada do que te disse? Eu não posso, repito, não posso, deixar que alguém morra ou fique ferido por minha culpa! Ou por culpa do meu tio, se achas que a culpa não é minha. De qualquer das formas, a culpa fica no seio da família. Sei lá, talvez a parva da Matilde tenha a culpa!
- Emília, concentra-te. Estás a perder a sanidade. Não me parece nada teu. E então o Artur é um vampiro… E depois? Temos de encontrar uma maneira de inverter o processo ou, no pior cenário, de acabar com ele de vez. Mas entretanto… Não te podes pôr em risco por causa dele. Não podes, estás a ouvir-me? Vais esperar que eu recupere, porque como vês, enquanto não tiver melhor aspecto, não me parece que a minha mãe me deixe sair de casa.
No estado em que ela estava, era surpreendente que conseguisse abrir a boca para falar. Mas não lho fiz notar.
- E agora, Emília, explica-me uma coisa que não percebi bem – Neste momento ela tentou erguer-se para se sentar, mas essa tentativa não passou disso mesmo: uma tentativa, e fracassada, por sinal. Adverti-a para não se cansar. Ela ignorou-me – Nessa alucinação que tiveste, viste-me magoada… Como agora?
Não lhe tinha contado acerca disso. Não lhe tinha falado de como ela agora parecia uma gémea apenas ligeiramente mais recuperada da Lilith da minha alucinação. Não escapava mesmo nada àquela rapariga, pois não?
- Como soubeste?
- Pressentimento – concluiu – O que pode querer dizer que as coisas não são tão simples como o que o teu tio queria fazer parecer. Durante o tempo em que estive presa, eles… Havia muitas coisas que não faziam sentido. Não segundo os padrões da ciência. Mia, acho que encontrámos a prova da sobrenaturalidade. De alguma forma, todos os monstros que viste na tua alucinação podiam ser uma profecia ou uma visão, ou coisa do género.
Um arrepio percorreu-me a espinha só de pensar no que se seria se as palavras da Lilith fossem verdadeiras.
- Lilith, tu não fazes ideia. Não era uma profecia. Era demasiado devastador.
- Já olhaste bem para mim? Eu estou devastadora. Alguém me fez isso. Se me fizeram isto, acredita, pode muito bem acontecer que todos os outros se tornem monstros como os que viste na alucinação.
Suspirei.
- Lilith, o André era um fantasma. Não era capaz de segurar os óculos no nariz. Agora que penso nisso, não percebo como é que ele segurava a roupa.
- E então? O Artur tornou-se um vampiro. Não é possível que o André perca a consistência e se torne numa criatura pouco densa? Deus, só de imaginar, estou-me a sentir com sorte por só ter ficado magoada na tua alucinação. E diz-me, viste o Artur nesse dia? Se o viste, ele devia estar como um vampiro, não?
- Eu não o vi. Não o vi mesmo. O que, obviamente, teria sido agora bom para podermos chegar a uma conclusão. Parece que vamos ter de esperar que a Vanessa se torne uma criatura do mar…
- A Vanessa era uma criatura do mar? Tipo, selkie?
- Celqui? Que é isso?
- Um selkie é uma criatura do mar.
- Talvez, é possível. E o stôr era um enorme borrão. Do género, um borrão a duas dimensões…
A Lilith ficou calada um bocado, considerando o que lhe dizia, medindo as possibilidades.
- Talvez tenhas razão. Talvez seja impossível. Esperemos que sim.
Por fim, apercebi-me que ela estava… Exausta. Tinha de a deixar, por muito que me custasse.
- Vou deixar-te, agora, Lilith. Precisas de dormir.
- Dormir? O raio – mas apesar disto, vi-a fechar as pálpebras.
- Em todo o caso, tenho de ir. Amanhã volto, está bem?
- Claro que sim, miúda. A loja não fecha e eu aparentemente não vou a lado nenhum nos próximos dias. Aparece – disse ela, já mal abrindo a boca.
Saí do quarto e perguntei-me se ela já tinha adormecido, de um momento para o outro. Ao menos, tinha o consolo de que ela não estava tão perturbada como me tinham dito. Não só se lembrava de tudo, como continuava teimosa como sempre.
Mal cheguei à sala, percebi que a minha mãe já lá estava à minha espera. Não estava com o sorriso mais bem-humorado de sempre, mas não parecia ter grandes vontades de me esganar ou prender em casa por duzentos anos.
Despedimo-nos e saímos. A minha mãe deu-me um sermão controlado. Fiquei proibida, de forma subentendida, de sair naquela noite.
O que, somado com o conselho da Lilith, dava duas proibições. Não fazia ideia do que fazer. Mandei uma mensagem ao Sérgio a perguntar o que devia fazer.
Ele respondeu-me em segundos:
“Eu trato disso.”
Passei uma grande parte da noite às mensagens com o Sérgio. Já que ele estava a fazer o meu trabalho, o mínimo que podia fazer era verificar que ele continuava vivo.
A situação não deixava de ser caricata na sua bizarria. Isto é, o meu ex-namorado a vigiar o meu actual interesse amoroso que, por acaso, era um vampiro. Ainda para mais se se considerasse que tanto eu como o meu ex-namorado tínhamos sido mordidos pelos nossos actuais interesses românticos, ainda que eu duvidasse que a Loira fosse uma vampira, e o Sérgio tivesse deixado claro que não estava já interessado nela.
Nem eu própria sabia se queria andar com o Artur. Quer dizer… É difícil namorar, ou sequer curtir, com uma pessoa a quem não podemos confiar o nosso pescoço. Por uma vez, perseguira-me, por outra vez, enganara-me deliberadamente para me poder usar como snack da meia-noite… Mórbido, diga-se de passagem. E tão anti-romântico, que até a relação do Romeu e da Julieta seria posta à prova. Porque seria difícil que se suicidassem um pelo outro, se um deles morresse e voltasse a ressuscitar sem se lembrar do outro.
O que quer dizer: isto era mesmo uma péssima ideia. Por mais que me custasse, e por mais certo que me pudesse parecer, a relação não tinha qualquer tipo de futuro. Nunca.
Mas quando visse o Artur outra vez, ia mudar de ideias num instante.
Para alguém que nunca tinha tido uma relação a sério com ele, estava bastante apanhada. O que, quando se pensa nisso, é bastante triste. Talvez seja por isto que os homens dizem que as mulheres são terrivelmente sentimentais. Não podia falar pelas outras, mas eu, eu tinha caído de cabeça no lago que eram os sentimentos que podia ter pelo Artur. De certo modo, até o facto de ele se tornar um monstro diante dos meus olhos me fez venerá-lo mais, como se… Quase como se assim o pudesse compreender, o suficiente para me apaixonar perdidamente por ele.
Eu não me sinto uma monstra completa, não, a minha auto-estima não andava a rastejar tão agarrada ao chão. Mas… Senti-me apaixonada pela infinidade da incompreensão. Tenho a teoria de que só nos podemos apaixonar por aqueles que permanecem um mistério para nós, que quando quer que conheçamos uma pessoa em toda a sua extensão ela nos deixe de fascinar. O Artur era um poço de mistérios, presentemente, até para ele próprio.
Nunca ia conhecê-lo de alto a baixo. Nunca ia saber e conhecer toda a essência do que ele é. E por isso, sabia, a chama nunca se poderia extinguir.
Porque a paixão é como uma chama que enquanto fascina se consome e arde tudo o que pode, mas quanto mais intensamente se consome essa chama, quanto mais arder, quando mais deleitar e doer, menos dura, mas deixa muitas mais cicatrizes.
Talvez eu quisesse ter essas cicatrizes e senti-las a queimar noite após noite, sem nunca poderem esbater e sem nunca aprender a viver com ou sem elas.
O Artur jamais me ia ser indiferente. Seria, talvez, uma parte adormecida, para apenas brotar chamas se alguma vez o visse de novo, mas como a chama nunca ia poder ser consumida, a chama ia permanecer lá para sempre.
O que, em parte, justifica o facto do amor estar a morrer mundialmente. Já não há relações impossíveis. Todos são livres para consumir a chama e arder juntos até que já não haja mais nada para queimar.
Contudo, eu tinha uma relação impossível. E podia confiar, a chama ia ficar.
E enquanto alcançava esta conclusão, a noite estava prestes a aclarar. Era talvez uma questão de minutos.
Por isso, não me chocou a mensagem seguinte do Sérgio:
“A noite acabou. Estou à tua porta.”
Levantei-me em silêncio. A minha família tinha o sono pesado, mas não queria correr riscos. Abri a porta com cuidado.
O grito que me carcomeu a garganta foi abafado pela mão que atravessou a porta (o resto do corpo não podia) e que me agarrou pela boca e me puxou para a escuridão quase finda.

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