Acordei no hospital, para minha grande surpresa. Não sabia o que poderia ter acontecido a seguir a eu ter desmaiado nos braços do Artur. Nem sequer sabia que era possível sobreviver depois daquilo. Não sabia quem me tinha encontrado. Por momentos os meus pensamentos mostravam-se terrivelmente confusos. Só me recordava que o Artur me mordera num momento de distracção e que, apesar da dor, eu gostara o suficiente para não me impor em contrário da decisão dele de me matar ou, quem sabe, tornar-me uma vampira.
O pior de tudo era, quem me garantia a mim que ele não o fizera? Podia estar a acordar, como ele, de noite, tanto quanto sabia. As persianas estavam corridas e apenas a luz estava acesa. Não havia ninguém no meu quarto.
Tinha uma data de fiozinhos vermelhos ligados aos meus braços. Sangue, com que então. Gostava de saber qual era a explicação que eles, os obtusos, tinham encontrado para aquilo? Garfo de churrasco, como na Buffy? Animais selvagens? Nada de muito criativo, isso de certeza.
Presumi que não fosse hora de visita, e que portanto estivesse sozinha. Contudo, não pude evitar sentir-me ligeiramente ofendida com a falta de presença e de apoio dos meus ou, sei lá, de um médico, uma enfermeira…
Tentei levantar-me, para procurar alguma coisa, ver se alguém tinha tido a decência de me deixar um telemóvel ou, quem sabe, um livro, para me entreter.
Arrastei o suporte do sangue comigo, e tentei ignorar o pijama de hospital que me tinham vestido. Só o pensamento de um estranho (ou provavelmente uma estranha) me ver na minha roupa interior da Hello Kitty, que detesto, dava-me a volta ao estômago.
Procurei nas gavetas. Encontrei um livro de banda desenhada do Tio Patinhas, mas era possível que o paciente anterior o lá tivesse deixado. Fui, portanto, ao armário. Contudo, não havia ali mais nada se não meia dúzia de cabides mal postos.
Olhei de forma inquisidora para a janela. Devia abri-la, para ver, pelo menos, em que parte do hospital estava. Tentei não admitir para mim própria que estava com medo de a abrir por ter medo de confirmar que o Artur me tinha transformado em vampira e que a luz solar me desfaria em chamas. Mas depois recordei-me de que o Artur não era o padrão comum de vampiro e que ele, pura e simplesmente, não existia na luz do sol, porque estava sempre fisicamente morto nesta altura do dia. De futuro, teria de tomar precauções em relação ao sítio onde ele adormecia/morria. Em relação a isso e também em relação às mordidelas à socapa, porque isso não me parecia bem, não me parecia mesmo nada bem. Eu sei que na altura me parecera uma excelente ideia, mas agora, claro que não. Não voltaria a deixar que o acontecimento sucedesse. Nem que para isso tivesse de me manter a cem metros dele. Embora assim fosse difícil verificar que ele não magoava ninguém. Isto é, ele tinha-me magoado a mim. Só esperava que eu tivesse sido snack suficiente para a noite toda.
O que me lembrava, não fazia ideia de como ele não me matara e fora ali parar. Uma parte de mim, inundou-se de esperança. Teria ele recuperado e teria, assim, ido ele mesmo pôr-me ao hospital? Isso explicaria o porquê de ninguém ter ido lá ver-me ou deixar-me um pijama em condições. Ou, por Deus, um mísero telemóvel.
Abri a janela e a luz inundou o quarto. As minhas dúvidas dissiparam-se e respirei fundo de alívio. Sabia que na noite anterior tinha fantasiado acerca de eu própria me tornar uma vampira, mas não me parecia que isso fosse o melhor para os dois, eu e o Artur, de momento.
Ia agora apenas certificar-me de que ele e os pobres potenciais peões de rua se mantinham vivos. Isso teria de ser suficiente. E, de preferência, sem que eu própria morresse no processo.
O que me lembrava da minha carteira, onde teria ela ficado? Nenhuma resposta para tantas perguntas. Restava-me esperar que alguém aparecesse para pôr cobro às minhas misérias e ignorância.
E foi o que fiz. Esperei, simplesmente, quieta, na minha cama. Esperei durante imenso tempo até que o saco de sangue estava já quase vazio. Nessa altura, um tímido enfermeiro entrou no meu quarto. Não devia ter mais de trinta anos, e tinha uns olhos quase tão azuis como os meus. O que de certa forma torna o facto de se estar num hospital, um acontecimento muito mais feliz.
Mas não dei muito tempo a este pensamento, uma vez que muitas outras questões me espremiam a mente: tantas que, por momentos, fiquei calada, tentando decidir o que perguntar primeiro.
Por fim, perdi a oportunidade, porque o enfermeiro me colocou, ele próprio, uma pergunta antes que eu pudesse decidir-me quanto ao que devia perguntar:
- Então, Emília, que te aconteceu?
Parecia sorridente, ao perguntar isto, mas via-se que era só uma tentativa de disfarçar o seu próprio nervosismo. Deviam ter ficado confusos acerca de como eu ficara assim, deviam ter ficado mesmo muito baralhados por aquelas marcas (que descobri mais tarde que era, afinal apenas uma só grande marca, e nada como as duas feridas minúsculas e limpas mostradas na televisão).
Não era todos os dias que entrava uma miúda no hospital mordida por um vampiro. E agora, na era Twilight, era quase impossível não pensar em vampiros quando se via alguém com uma ferida no pescoço. Malditos cineastas que aproveitam sempre as obras para filmes nos piores momentos possíveis.
Como se hesitasse, ele franziu as sobrancelhas e aproximou-se cautelosamente de mim.
- Consegues falar? A ferida externa na tua garganta não devia ter afectado as tuas cordas vocais ou a tua comunicação de nenhuma forma.
- Sim, consigo falar – respondi, depressa, não querendo que ele começasse a pensar em coisas indevidas ou, pior, verdadeiras e secretas - Consigo falar. Não sei o que me aconteceu ao certo. Um bicharoco qualquer. Um cão, talvez? Quem sabe. Perdi os sentidos muito depressa.
Graças aos céus e às terras profundas, isso não era verdade. Mantinha a minha opinião firme de que aquele tinha sido o melhor momento da minha vida. De sempre.
Não que eu fosse deixar que ele se repetisse. Não sou masoquista. Não queria morrer. Tinha muito mais que fazer antes disso acontecer. Tinha de encontrar a Lilith, cuja mãe continuava inconsolável. Tinha de descobrir porque motivo tinha o meu tio dito que o que me dera era um antídoto, quando obviamente era mais uma espécie de licor-para-se-tornar-um-vampiro. O que de certa forma, era um antídoto. Contra a morte, certo? Imortalidade? Mas a verdade era, o facto de se morrer sempre que o sol nascia era, de facto, uma terrível contra-indicação. Eu não teria trocado a minha juventude por isso. Acho eu. Desde a noite anterior, em que o Artur me tinha mordido e sugado a maior parte do sangue, já não tinha a certeza de muito. Naquele momento, tinha, de facto, querido tornar-me o que quer que fosse que ele fosse. Na verdade, até antes disso eu já tinha o desejo de me tornar o que quer que fosse que ele fosse. Um vampiro, era o que ele era? Pois que fosse. Estaríamos juntos, então, até ao fim do sempre. Pelo menos, era aquilo em que tinha pensado na altura. Agora sentia-me envergonhada destes pensamentos incautos e estupidamente inocentes.
- Quem me encontrou? – perguntei, finalmente decidindo-me pela pergunta mais premente. Como é que eu não tinha morrido? Não podia perguntar isso ao enfermeiro. Mas podia, definitivamente, perguntar-lhe quem me salvara.
- Vi-a chegar trazida por um rapaz, mais ou menos da sua idade. Estava alguém consigo quando perdeu os sentidos?
Um rapaz? Seria o Artur? Não, ele não teria parado a tempo. Não o conseguia imaginar a parar. Ele era… Em todas as medidas, não o Artur. Não que o Artur fosse algum santo em verdadeira vida, mas tinha continuado sempre longe daquela insanidade que era a criatura em que ele se tornara. E agora, parecia ter conservado apenas os maus hábitos, e parecia ter perdido os bons.
Não sabia ele que nunca se mordia uma rapariga no primeiro encontro? Não que fosse um primeiro encontro para mim, mas para ele, definitivamente. Ele estava destinado a não se lembrar de mim, ou do que quer que fosse, até todo o sempre. Que destino estúpido, este. Termos de conhecer alguém todos os dias da nossa vida, sem nunca a fixarmos na mente.
Como é que eu podia mesmo querer tornar-me no mesmo que ele? Mesmo que me tornasse no que ele era, não me lembraria dele nunca mais. E assim, nenhum de nós poderia ter as forças para se lembrar do outro, e para fazermos com que o outro se lembre de nós e que nos conheça, dia após dia, ou antes, noite após noite.
- Estava sozinha. Os meus pais sabem que aqui estou?
- Sim, estiveram cá durante a noite. Pediram desculpa por não terem trazido nada, e também por terem de se ir embora, mas tinham de ir.
Ir. De certeza para trabalhar. Teriam eles sempre de trabalhar? Mesmo quando a vida da filha ficara por uma mísera sugadela? E o JP? Eu conhecia-o, ele não teria querido ir às aulas. Teria faltado por mim. Afinal de contas, ele só estava a repetir Matemática. O que lhe interessava uma ou outra aula ao lado da irmã a esvair-se em sangue durante a noite? Não, algo não estava certo, tinha de haver uma razão para nenhum deles ali estar, comigo, quando eu precisava.
- Tem um… Um telefone? – inquiri, porque me preocupava mesmo por eles não ali estarem, sabendo do sucedido. Para além do mais, precisava de respostas. Como é que raio eu tinha ali chegado, ao hospital? Quem me trouxera? Quem ligara aos meus pais?
- Claro que sim – e depois, o dito enfermeiro foi buscar o telefone. Marquei o número de pressa, e fiquei contente por verificar que o enfermeiro se ia embora e encostava a porta para me dar a privacidade de que precisava.
Pela altura em que ele saiu, o telemóvel da minha mãe já tocava alegremente, algures onde quer que ela estivesse, que não ao pé de mim. Talvez fosse egoísta da minha parte pensar que os meus progenitores e irmão deviam estar ao meu lado o dia todo só porque quase morrera, mas não sei muito bem porquê, parecia-me correcto sentir-me assim. Acho que é… Normal!
Ao fim de algum tempo, ouvi um “estou” seco do outro lado. A minha mãe tinha atendido:
- Mãe, onde estás? Porque é que nem sequer me deixaste um telemóvel?
- Emília, estás bem? – perguntou, com ansiedade, como se estivesse de facto preocupada.
- Sim, estou. E porque é que…
- O que é que se passou, filha? – indagou, de novo, e finalmente começava a convencer-me da sua honestidade e da sua genuína preocupação.
- Mãe… Não sei, um cão, talvez, não sei, desmaiei logo…
- Um cão? Como é que ele não te degolou logo de uma dentada? – na voz da minha mãe ouvia-se o timbre de todas as inquietações. Sentia-me mal, agora, por ter pensado que não se tinha importado o suficiente para ficar. Mas ainda assim, eu ainda não tinha resposta para o porquê de ter ficado ali, sozinha, sem nenhum membro da minha família pela minha cabeceira.
- Eu… Eu não sei. Mãe, onde estás? Porque é que não estás aqui? – perguntei, não conseguindo inibir um ligeiro tom de desapontamento na minha voz. Não queria que se notasse, a sério que não queria, mas foi audível.
Neste ponto, a minha mãe hesitou. Não sabia o que pensar da hesitação dela. Envergonhava-se do motivo? Era o motivo mau?
- Emília… A Liliana… Encontraram-na.
Após uma centena de pensamentos em branco, como folhas de papel queimadas e feitas barcos de papel, feitas pó de nuvem, pó de folha de papel, senti-me deslizar estando já deitada. É assim que vejo aquele momento.
Senti também o coração tornar-se um piano pesado e voar depois com a composição de melodias jamais terrenas.
Não conseguia impedir-me de me sentir eufórica e felicíssima com a esperança de a voltar a ver. Não conseguia, no entanto, simultaneamente, impedir-me de me sentir afundar ao ouvir o tom de luto na voz da minha mãe.
Tinham-na encontrado… Estaria viva?
Como se a minha mãe não falasse, reuni a força para formular a pergunta:
- Como é que… Como é que a encontraram?
Ouvi o suspiro da minha mãe, ainda que ela o tenha tentado afastar do bocal do telemóvel.
- Encontraram-na… Mal, muito mal, Emília. Tens de ser forte. Ela está… perturbada – Estava, portanto viva, o que era melhor que muitos destinos que ela poderia ter tido – Ela está muito magoada. Estou agora no Hospital Psiquiátrico de X, com a mãe dele. O teu pai também aqui está. O João Pedro está… Muito mal. Ele já a viu. Tentou falar com ela… Ela fugiu dele em gritos histéricos. Não sabemos o que ela tem, ou pelo que é que passou. E, Emília, talvez seja melhor saberes… Ela não está em bom estado.
Permaneci em silêncio. Não respondi. Não quis responder. Não pude encontrar as palavras para exprimir a dor e o medo que estava a sentir. Senti a minha alma acumular-se nos meus olhos, como se tentasse fugir. Senti-os doer, com a pressão da minha alma, que na sua frustrante tentativa de suicidar, me escorreu pelas bochechas.
Lilith. A minha amiga, a minha Lilith.
“Lilith, Lilith, que é que te aconteceu?”, cantava ela, como uma banshee, pela morte de si própria, pela vontade da morte de si própria.
- Emília, estás bem? Emília? Emília?
Mas eu não lhe podia responder. Continuava a segurar o telemóvel mais por reflexo que por vontade de a ouvir. Não queria saber. Não podia saber.
Queria afogar-me na minha alma. Se ela não se podia suicidar, poderia ela ao menos matar o corpo, e pôr cobro à sua prisão, para voar e ser feliz, para voar e ser livre, outra vez?
- Eu não te devia ter contado nada. Não te preocupes, daqui a nada já vou para aí. O teu tio Júpiter ficou de ir aí ver de ti. Vai ficar tudo bem, vais ver, vai ficar tudo bem.
E desligou. E de súbito, eu sabia. Tinha de fugir dali, o mais depressa possível.
Arranquei, com fúria, os fios encarnados do meu braço. Queria lá saber que sangrasse, que morresse, quem sabe, talvez tivesse sido melhor que morresse.
Mas não podia ter morrido. A Lilith precisava de mim.
E esse era talvez o único motivo pelo qual eu ainda me importava com a minha vida. O tio Júpiter não era de confiança. Não depois do antídoto. E, portanto, pela Lilith, tinha de fugir dele.
Procurei, em vão, nos armários, uma roupa qualquer que pudesse vestir. Não encontrei nenhuma. Talvez a minha roupa tivesse ido para lavar. Saí, à socapa, tentando evitar os enfermeiros no corredor, e entrei no quarto seguinte. Estava ocupado por uma senhora idosa que dormia. Vasculhei os armários e encontrei, tal como esperava, roupa de velha. Não me importei. Voltei ao meu próprio quarto e vesti a roupa. Tentei parecer despercebida.
Estava já a passar pelos seguranças quando vi o meu tio Júpiter. Escondi-me junto à família mais próxima que passava. Tinha sido por um triz.
Saí do hospital. Mal acreditava na facilidade com que saíra.
Corri pelo parque de estacionamento. Não havia forma de não repararem nas roupas estranhamente desproporcionais que trazia e como pareciam erradas na minha pessoa. Não podia, assim, correr riscos. Tinha de me manter longe do meu tio. Pelo menos, até encontrar os meus pais. Não havia forma de eu voltar a estar sozinha com o meu tio. Nunca mais na minha vida.
Ele tinha transformado o homem da minha vida num morto permanente.
Isso é suposto ser daquelas coisas que marcam e que destroem laços familiares, certo? É que se não estiver nessa lista, sugiro que se inclua.
Corri, sem ter grande destino, em direcção a casa. Deambulava pelas ruas, e toda a gente que passava por mim olhava com estranheza. Felizmente, não encontrei ninguém conhecido, ou teria morrido de vergonha.
Estava a passar junto à casa do Sérgio, quando algo me fez parar.
Teria sido ele?
Após o pensamento me ocorrer, não consegui evitar tocar na campainha. Ainda pensei em fugir, afinal a minha vestimenta não era a indicada para ir tocar à campainha do ex-namorado.
Mas afinal de contas, porque é que havia de ter sido ele? Claro que não tinha sido ele… Mas ainda assim, era-me impossível correr dali e prosseguir em direcção a casa. Talvez fosse o facto de nem sequer ter chave. E nós não guardávamos chave debaixo do tapete, ou no canteiro, ou junto a uma telha especial.
Presumo que podia ter ido para casa do André, mas até isso me parecia despropositado. Ele era tão racional… Jamais poderia explicar-lhe tudo o que vinha a acontecer e a forma curiosa como todos os acontecimentos se interligavam (ou não).
Assim, de alguma forma, vi-me ali, à espera de ouvir a voz do Sérgio.
- Sim? – disse, a voz dele, por fim.
- É a… É a Emília. Posso entrar? Eu prometo que te explico tudo depressa.
Muito provavelmente, esta não é a forma indicada de se falar com um ex-namorado, ainda para mais, um ex-namorado com que se acabou por causa de um pacote de pipocas e que, ainda por cima, tinha namorada no momento actual.
- Entra – disse ele, apenas, e em cada palavra ouvia-se um retinir de surpresa. Não me perguntou o que ali estava a fazer, o que por si só, já era de espantar. E apesar de ele parecer surpreendido, não se podia dizer que tinha parecido que ele pensasse que era estranho eu ir, assim, bater-lhe à porta.
Subi no elevador antigo, sem espelho e botões brancos com os números quase tão translúcidos como o André da minha alucinação.
Cheguei lá acima mais depressa do que esperava, ou desejava.
Mas ele já lá estava, à porta, à minha espera.
No passado, ia àquele prédio todos os dias depois das aulas. Era quase como uma segunda casa. Contudo, após o incidente do pacote de pipocas, nunca mais lá voltara, e só agora me apercebia do quão eu sentia a falta de ali ir. Aquele era um local, que por si só, gritava alegria. Era-me impossível estar ali, sem imaginar os dias em que ali entrara com a mão do Sérgio na minha. Mas era-me também impossível não imaginar o Sérgio a entrar ali de mão dada com a Loira, todos os dias depois das aulas.
A lembrança da cara e cabeleira dela fizeram-me logo desanimar e senti-me, então, esvaziada de pensamentos e explicações. Porque é que eu ali estava? Já nem sabia muito bem.
- Emília, que se passa? Como é que já saíste do hospital? E que roupas são essas?
Afinal, sempre tinha sido ele. Como é que ele me tinha encontrado? Com que forças é que ele me tinha arrancado a um vampiro e me carregara para o hospital mais próximo?
- Ah, foste tu. Muito obrigada, Sérgio. Como é que tu… Me encontraste? – inquiri, trémula, mas simultaneamente agradecida.
- Não sabias, ainda? – agora ele parecia embaraçado.
- Não. A minha mãe… Encontraram a Lilith. Tem sido um dia complicado para todos – expliquei, baralhada e confusa, como se não soubesse por onde começar.
- Encontraram-na? – senti o choque na voz dele, profundo e trágico – E o Artur, encontraram-no?
Isto eliminava as minhas dúvidas acerca do facto de ele me ter arrancado às garras do animal vampírico que me tinha atacado, para grande prazer meu. Tinha-me, então, o Artur abandonado esvaída em sangue antes de ele ter tido oportunidade de fazer o melhor do lanchinho da meia-noite que eu tinha sido para ele? Idiota. Os vampiros são todos os mesmos. Tal como os homens.
- Não, não o encontraram – se ele soubesse.
- Como está a Lilith?
- Muito mal, segundo consta. Perturbada. Ainda não tive oportunidade para a ver. É por isso que preciso da tua ajuda.
- Precisas da minha ajuda para ir ver a Lilith? Mas… Como? Não estás à espera que te leve a algum sítio longínquo, espero. Sabes que ainda não tenho carta e que não sei conduzir.
- Sim, eu sei – ou talvez não soubesse. O que é que eu estava ali a fazer, afinal? – A questão é, eu fugi do hospital.
- Tu fugiste do hospital? – repetiu ele, estupidamente, devo dizer, com o tom mais negativo e mais “Oh meu Deus, esta está completamente louca” possível.
- Sim. Ouve… A minha mãe mandou o meu tio ir ter comigo – não sabia porque raio lhe estava a contar estas coisas, mas alguma coisa tinha de dizer – e o meu tio… Não é a melhor das pessoas. Não agora, pelo menos. Não confio nele.
- Não confias nele? Poças, eu também não confio em toda a gente, e não fujo delas… Achas que o teu tio ia fazer o quê? Matar-te e usar a perda de sangue como desculpa? – Sim, na verdade era mesmo aquilo que eu pensava que podia acontecer. Ou algo pior, como eu tornar-me uma vampira à semelhança do nosso querido conterrâneo, amigo ou o que quer que ele me fosse Artur – Tu fugiste do hospital para fugir ao teu tio? Raios, já percebo onde arranjaste as roupas de circo.
- Eu não podia ficar com ele… Eu sei coisas… Ouve, Sérgio, há coisas que não te posso contar agora, coisas horríveis, sobre o meu tio, que me impedem de poder estar na mesma sala que ele, sozinha, por agora. Tenta compreender…
- Ninguém pode compreender o que não conhece, Emília. – Os olhos dele iluminaram-se e ele virou-se de costas para mim, fingindo prestar atenção a uma laranja de plástica numa taça decorativa - Ontem, por exemplo, vi-te caída no chão. Eu não sabia o que te tinha acontecido. Ainda não sei. Mas foi… - e aqui ele disse uma obscenidade para ilustrar o que sentia – Foi um dos piores momentos da minha vida. Até pior que o dia em que percebi, alguns dias depois de teres acabado comigo por causa da – outra obscenidade – do pacote de pipocas, que de facto não ias voltar atrás na tua decisão, e que não íamos voltar a estar juntos. Por amor de Deus, quem é que acaba com alguém por um pacote de pipocas?
- Eu, aparentemente – respondi, silenciosamente. Doía-me a minha ferida no pescoço, mas só agora me começava a aperceber disso.
- Exacto. Tu. Só tu. E isso não é exactamente uma coisa boa. Como vês, nem isso eu compreendi. E agora esperas que compreenda algo que nem me contas? Admite, Emília, admite que não acabaste comigo pelo pacote de pipocas, mas porque foi a primeira desculpa que arranjaste para me dizeres que já não querias estar comigo nunca mais.
Apesar de todos os acontecimentos aterrorizadores dos últimos tempos, não me parecia que estivesse a ficar menos sensível a outros tipos de dor. E neste momento, doeu-me de novo. Apesar de tudo… Da Lilith, do Artur, das alucinações e do meu tio, o Sérgio ainda tinha a capacidade de me pôr a alma a bailar nos olhos de novo.
Um dia, ela havia de se suicidar toda.
- Nunca foi uma desculpa. Queria sentir-me menos desprezada, porque andar contigo era como andar com ninguém, nalguns dos dias, mas só foi pior. Tudo o que eu queria era que me pedisses desculpa. Em vez disso, ao fim dum mês e meio começaste a andar com aquela Loira que mais parece falsa do que verdadeira… E nunca mais falaste comigo! Nunca mais te lembraste da miúda com quem tinhas gasto uns míseros meses da tua vida.
O Sérgio virou-se. Eu virei-me. Ficámos a olhar um para o outro durante alguns momentos, em silêncio, porque finalmente falávamos, porque finalmente confrontávamos os nossos motivos sem segundas intenções. Toda a ferida rebentava com a sua própria crosta para poder agora cicatrizar sem marcas e sem mais dores.
Ou pelo menos, assim esperava.
- Sabes – foi o que ele disse, ao fim dum bocado – Acabei ontem com a Cátia. Um pouco antes de te encontrar caída e ensanguentada, no chão. Se comecei a andar com ela, foi porque era a melhor forma de esconder que estava, de facto, irritado.
- Ah sim? Isso é muito bonito de se dizer agora, que acabaste com ela. Não o dirias uns meses atrás.
- Dir-to-ia sim, mas tu nunca quiseste saber!
- Achas mesmo que eu não queria saber? Eu só pensava em ti, tipo anormal, Sérgio, Sérgio, Sérgio, a martelar na minha cabeça o dia todo! Não eras capaz de me deixar em paz e de parar de me atormentar?
Nenhum de nós parecia triste agora, apenas zangados. Estávamos muito, muito, zangados um com o outro. Quase que se podiam ver, individualizadas, duas mil faíscas em ambiente aéreo entre nós.
- Achas mesmo que eu não te deixava em paz? Cada vez que te via, só me dava vontade de te agarrar e trazer comigo para casa! E quando não te via, ficava doente, como se não tivesse comido, ou respirado, quanto devia. Aos poucos, parecia que a sensação ficava mais suportável, mas a verdade é que ainda hoje, quando ouvi a tua voz, senti o meu coração começar a dançar kizomba, embora eu sempre o tenha desencorajado a tentar aulas de dança!
Ter-me-ia rido, mas não ri, porque sabia que a Lilith estava mal, internada num Hospital Psiquiátrico longe de mim, e porque o Artur estava morto algures, e porque o Artur, apesar de morto, continuava a ser uma parte indispensável da minha vida, como nenhuma outra, e porque o caminho para onde isto me estava a levar era para bem longe dele e muito mais para próximo do Sérgio. Queria eu mesmo voltar para junto do Sérgio? Queria eu mesmo deixar o Artur por si só e esquecer que ele existira, um dia, e que me amara? Que eu própria o amara? Que sonhara com ele várias noites?
- Sérgio… Eu sei o que estás a tentar fazer. O tempo não vai voltar atrás, sabes? Não vai mesmo.
Se o sorriso fosse algo que se pudesse arrancar duma cara, garanto, era o que eu tinha feito. Ele não estava a sorrir, inicialmente, mas o estado em que ele ficou depois de eu pronunciar estas palavras era semelhante ao estado em que uma paisagem fica, atrás dum vidro em dia de chuva, e em que esta escorre pelo vidro, e em que as imagens se desfazem e escorrem monstruosamente. O Sérgio parecia… Despedaçado.
Genuinamente.
E o mais estranho era, eu também. Porque um pacote de pipocas pode, afinal, ser a causa de muita infelicidade.
- Nem eu queria que voltasse – disse ele, e eu senti-me pisada e esmagada no chão. Muito esmagada. Muito pisada. De seguida, ele perguntou, como quem não tem já nada a perder – O que é que te aconteceu ontem, afinal, para teres ficado naquele rico estado?
Hesitei antes de responder. Pensei em várias respostas. Pensei em várias mentiras. Por fim, encolhi os ombros e disse-lhe:
- O meu namorado mordeu-me. Talvez devêssemos marcar um double date para apresentarmos a tua ex ao meu (acho que também lhe posso chamar assim) ex. Parecem ter muito em comum.
domingo, 15 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
this story is so cool :)
ResponderEliminarta a ficar mesmo fixe :D
agora tou curiosa pela reacção do sergio xD