Mal a reconheci, na multidão de monstros agonizantes.
O rosto pálido dela era um enorme borrão negro de pele magoada. O cabelo negro parecia empastado no topo por uma substância que se parecia invariavelmente com sangue. E não era pouca a extensão dessa grande pasta. Todo o corpo da minha melhor amiga era o de um quase-cadáver. Parecia até milagre que esta respirasse e se movesse. Deus, era um milagre que ela estivesse viva!
E para a minha mortificação, estas foram as palavras que ela disse:
- Emília, que se passou? Porque começaste a gritar no meio do teste? Eu ainda procurei, para ver se havia algum gato na sala, mas não vi nenhum.
Ela não se tinha apercebido de nada. Ninguém se apercebia de nada. Os meus colegas e professor continuavam monstruosamente metamorfoseados.
Falava, da minha fobia quanto a gatos, com naturalidade. Estava preocupada comigo. Terminara o seu teste sem de nada saber.
O André era uma história diferente. Saiu, parecendo imensamente frustrado.
- Então, que cara é essa? – perguntou a Lilith ao André, não dando conta da minha tremenda palidez e dos meus olhos vermelhos. Por Deus, como é que ela não reparava que eu mal conseguia conter os gritos de os ver assim?
- Não sei. Parecia que não conseguia responder a nada hoje. No não conseguir… Fisicamente.
Se alguma vez tive algum momento em que me apetecesse dar uma estalada na minha própria testa, foi aquele. Contudo, sentia-me até demasiado alienada para isso. Não sabia se havia de começar a chorar, à frente deles. Se havia de… lhes dizer. Eles estavam tão felizes na ignorância. E eu tão apoquentada com o conhecimento.
Continuava sem saber que fazer. Sem me controlar, desatei aos soluços, assim, à frente deles, contendo as lágrimas apenas por as engolir. Sentia-lhes o gosto, ainda que não caíssem.
Neste momento, a Lilith pareceu extremamente preocupada, ou pelo menos foi o que deduzi das feições arruinadas dela.
- Mia… Que se passa? Tu hoje estás muito mal. Que é que aconteceu? Morreu alguém? Dói-te alguma coisa?
“Sim, houve alguém que morreu. E pela tua aparência, foste tu”. Comecei a tremer desalmadamente, só para acrescentar o tremor aos soluços cada vez mais descompassados. Sentia-me a ponto de ter uma apoplexia. O que era real? O que era ciência? Não sabia. Não naquele momento. Naquele momento, acreditar na ciência era acreditar que estava louca. E eu não queria pensar nisso. Se pensasse nisso, tudo se desfazia. Se pensasse que o copo de pé alto tinha, de facto, transbordado, perdia tudo. Não sabia até que ponto me tinha, e até que ponto as minhas convicções eram a verdade.
Talvez nenhuma delas fosse a verdade.
- Eu estou… Bem – disse, por entre soluços, tremendo muito, gaguejando muito, como se os meus nervos estivessem em pleno movimento.
- Não, Mia. Tu não estás bem – e agora era o André, fantasmagórico, que me interpelava. Eu encolhia-me com os braços cruzados. Esperava poder desaparecer e acordar na minha cama, aliviada. Mas, estranhamente, o momento tardava.
- Está tudo bem! – gritava eu. Mas de segundo a segundo, mais dos meus colegas se juntavam para verificar o que estava errado comigo, porque eu chorava, porque eu agora não continha mais as lágrimas, porque eu tremia e porque eu soluçava como nunca o fizera na minha vida.
E o pior de tudo aconteceu de seguida. A Lilith, semi-morta, agora com um fio de sangue pingando-lhe do nariz, tomou-me nos braços e abraçou-me.
- Mia… Que se passa? Está tudo bem, calma, seja o que for, está tudo bem. Vai ficar tudo bem – dizia ela. Mas eu mal ouvia, porque a minha camisola clara estava a ficar suja de sangue. Sangue quente e escuro. Parecia trazer nele toda a vitalidade da Lilith. O André, transparente, parecia não saber o que fazer. Mas eu sabia que se tivesse sido ele a abraçar-me, os braços dele me teriam atravessado sem me tocar.
E isso magoava-me mais que todas as outras monstruosidades. Ali estavam os meus amigos, as pessoas de quem mais gostava no mundo, e via-os condenados a morrer e a permanecer na invisibilidade.
A Lilith destruía-se mais um bocado a cada gesto que fazia. Agora, as feridas faciais pareciam abrir-se também e chorar todo o sangue das bochechas já por si só brancas.
Os piercings dela ganhavam um brilho especial, assim contrastantes com o branco e o encarnado pastoso.
Quanto ao André, as suas feições eram apenas uma marca de água fantasiosa e sumida contra o plano de trás. Havia momentos em que mal o via.
E todos os meus outros colegas se enalteciam ainda mais nas suas recém-adquiridas características monstruosas. E procurava, algures, uma face normal, mas nem uma só, nem uma só restante, e ninguém notava, ninguém os via como eu os via.
Na minha mente, violinos eléctricos insinuavam-se, de início hesitantes, só para depois corromperem notas e notas. E as cordas quebravam-se, uma a uma, levando a minha sanidade e paz de espírito para outras paragens. Não me sentia eu própria, porque a realidade não era minha.
Reparei que o André não tinha óculos postos.
- André – perguntei por entre lágrimas e soluços – Onde estão os teus… os teus… óculos?
Esta pergunta pareceu surpreender todos os que me rodeavam. Também a Lilith se mostrou surpreendida e largou-me por instantes para me olhar para as feições, procurando nelas um pouco de sentido.
Contudo, também estes que adoptaram a minha pergunta com estranheza olharam para o André, que parecia o mais confuso de todos eles.
- Eu… Os meus óculos estão… Não os tenho postos – concluiu, após verificar com a mão que nada tinha junto aos olhos – Não sei onde os deixei. Talvez em cima da mesa, lembro-me de terem caído.
Logo ele se dirigiu para dentro da sala 34, enquanto todos me olhavam com expectativa, como se não soubessem o que esperar a seguir daquele terrível espectáculo. Mas não me podiam julgar. Como podem eles saber o que é ter a nossa turma, pior, a nossa escola convertida num freak show?
Estranhamente, após aqueles momentos de pânico, a água do copo parecia acalmar de novo. E retomei o ânimo e o sentido, se não por completo, pelo menos em grande parte.
- Lilith, eu preciso de ir para casa. Não me estou a sentir bem. Eu depois telefono-te.
- Tudo bem – respondeu ela, simplesmente, como se não fossem necessárias palavras.
- E tu… Lilith, fica bem – disse ainda, antes de virar costas com a pressa de quem corre pela vida (ou pela sanidade). Ouvi ainda, enquanto descia as escadas do átrio, a Lilith a perguntar alto “Porque não havia de ficar?” e também o André, vindo da sala, completamente em pânico:
- Não sou capaz de pegar nos meus óculos.
Ainda assim, saí da escola ao invés de os ajudar a investigar aquela atrocidade. Porque eles podiam ser os monstros, mas eu era aquela que os via tal como eles eram. E podia querer ter pena deles e tentar ajudá-los, mas naquele momento não eram eles que corriam o perigo de serem monstros. Era a minha coerência que ameaçava despenhar-se de mãos dadas com tudo o que sei do alto dum abismo cujas profundezas eram apenas nada e nada mais.
Nos corredores, enquanto saía, vi muitas outras modificações. Via palhaços malignos e outras figuras que marcam presença em pesadelos. Mas só em pesadelos. E em cada rosto via a monstruosidade potencial de cada um. Em cada rosto via-lhes o medo convertido na identidade.
Mas não era o medo deles. Aquele medo era meu e só meu. Afinal de contas, só eu é que os via, de verdade, como eles se apresentavam naquele instante.
Felizmente, nenhum deles se transformou num gato, ou provavelmente teria entrado de novo num ataque de histeria. Assim sendo, fui capaz de sair dos portões e de me dirigir para casa.
Nas ruas, todas as pessoas eram normais. Perguntei-me em silêncio se elas também veriam todos aqueles que estavam na escola como monstros. Esperei que não. Quem sabe o que sucederia se uma população escolar inteira se tornasse em monstros. Seria como um novo início da caça às bruxas.
Porém, aliviava-me por dentro que, cá fora, ainda houvesse alguém que tornasse o mundo o sítio que, em tempos, ou apenas a uma hora atrás, conhecera.
Deus, eu conhecera o nosso mundo toda a minha vida.
Talvez tivesse tudo sido um sonho. Talvez estivesse, ainda naquele momento, a dormir, num daqueles sonos profundos que parecem tão reais, tão nítidos como as histórias dos livros, tão nítidos como a silhueta de uma árvore através duma janela embaciada num dia de nevoeiro. Porque mesmo não nítida, a silhueta da árvore é real. E naquele momento, nada me parecia nítido.
Ainda assim, esperava que as minhas ilusões não fossem, afinal, reais. Embora, claro, a alternativa não me agradasse definitivamente, uma vez que provavelmente implicava o transbordar do líquido do copo alto.
Talvez ele se tenha mesmo entornado. Talvez a toalha subjacente se encharque e a mancha seja apenas as consequências derradeiras duma loucura permanente.
Talvez eu esteja louca. E talvez tenha, ainda ontem, morto duzentas pessoas de uma assentada sem ter disso qualquer memória.
Ou talvez, quem sabe, talvez aquilo que vi seja verdade.
Pesava-me sobre as sobrancelhas uma terrível dor de cabeça. Talvez fosse mesmo a pior da minha vida.
Ao chegar a casa, tentei, desesperadamente, acertar no buraco da fechadura. Entrei. Deitei-me na cama, com a almofada sobre a cabeça. Revolvi-me, contudo, e não adormecia. Levantei-me trémula, e corri para a casa de banho. Ajoelhei-me junto à sanita porque não era capaz de suster mais as pernas. Vomitei violentamente. Até o meu estômago se revoltava com a dor e com o nojo que sentia da realidade. Fiquei por momentos encostada à parede, sentindo-a fria junto à minha bochecha ferida. Passados alguns momentos, senti a urgência de vomitar de novo. Vomitei até não ter nada no estômago. Arrastei-me, de seguida, de novo para o meu quarto. Adormeci quase instantaneamente.
Ao contrário do que seria de esperar, não sonhei com monstros nem faces de conhecidos despedaçadas. Na minha cabeça, imaginei a cara do insuportável Artur.
Não era um monstro, mas apenas o mesmo rapaz que me oferecera um cigarro. Alto, como sempre, tão alto que eu só lhe dava pelos ombros, de olhos negros impenetráveis fixos num qualquer ponto distante de mim. E apesar de manter a sua expressão usual, neutra e levemente irritante, ele falava comigo.
- Estás a dar cabo de mim.
- Eu? Porquê? – notei, o choque, na minha voz. Tinha dito aquilo com um tom quase sorridente, apesar de os lábios se manterem descontraídos.
- Porque vales a pena – concluiu. No entanto, não me senti esclarecida com aquela afirmação. Presumi que era um elogio, mas confundia-me o que ele dizia.
- Valho a pena? Como assim? – perguntei, não disfarçando o nervosismo. Em sonhos, nada é disfarçável.
- Agarras-me nas mãos e não preciso de mais tabaco.
- Tabaco? – inquiri, estupidamente. Ou talvez não tão estupidamente, uma vez que o que ele estava a dizer não fazia qualquer tipo de sentido.
Sem que eu estivesse preparada para isso, ele virou os olhos para mim. Vi neles o maior ódio que alguma vez me tinham dirigido.
- Eu não quero morrer.
Recebi aquela afirmação com espanto, ou talvez uma naturalidade passiva típica dos sonhos. Mas logo me recompus e perguntei-lhe, enquanto a cara dele se desfazia no nada e a minha voz se tornava real:
- Nenhum de nós quer, pois não?
Com a cara sobre a minha, estava o JP, como que verificando se eu respirava.
- JP, mas que raio…?
- Emília, estás bem? Desculpa ter-te acordado. Disseram-me que estavas doente… Disseram-me que tinhas chorado na escola…
Teria sido a Lilith, era a pergunta que se me insurgia, apesar de tudo, apesar do sonho e das minhas visões animalescas de antes de ter adormecido.
- Que horas são? – perguntei, procurando concentrar-me em estar acordada
- Quatro da tarde – respondeu-me ele, prontamente.
Levantei-me, esperando estar já restabelecida do meu ligeiro problema de equilíbrio. Parecia-me que sim.
Só nesse momento percebi que via o meu irmão tal como ele era. Não tinha feições monstruosas nem se esvaía em sangue.
E isso só podia querer dizer uma coisa. Nada daquilo que via podia ser verdade. Eu sonhara. Alucinara, até.
- Estou bem, JP – disse, ao fim de uns segundos – Parecia que estava doente. Há bocado, mas já passou. Já passou, uma dor de cabeça muito forte. Obrigada por te preocupares comigo.
- Mia – disse o JP, chamando-me um diminutivo que nunca usara – Como querias que não me preocupasse? A Lilith foi-me chamar, quase em lágrimas…
- A Lilith? – sorri, quase esquecendo-me do que acabara de acontecer.
- Sim, a Lilith. Porquê?
- Acho que vocês os dois deviam resolver as coisas. São tão perfeitos um para o outro.
Rimo-nos juntos, enquanto o meu irmão refilava, negando. Por um lado, tinha sido uma pena que, ao deixar a Matemática para trás, o meu irmão não a estivesse a repetir com a minha turma, mas com a da minha detestável prima.
E o facto de pensar na Matilde fez-me lembrar do Artur, e do meu sonho. Que sonho estranho. Restava saber se tinha sido resultado do meu estado alucinado. E o que causara esse mesmo estado alucinado? Alguma coisa que tinha comido? Radiações a mais? Não sabia. Talvez devesse ir ao médico. Contudo, se dissesse a alguém o que tinha visto, o mais provável é que me internassem prontamente e não me deixassem voltar a sair de lá.
Por isso, não disse nada, nem sequer ao JP.
- Acho mesmo que a devias convidar para sair – sugeri.
- Sabes, a verdade é que continuo a gostar dela. Mas ela não ia querer, acho eu, não me parece que queira…
- Claro que quer – assegurei, e pensava-o, de facto. Desde que a Lilith e o meu irmão tinham deixado de namorar que ela parecia ter perdido o interesse abismal que tinha em falar de rapazes, curtir com rapazes, gozar com rapazes. Até já a apanhara a fitar o JP de forma sonhadora variadas vezes. Talvez estivesse, afinal, destinado que aqueles dois estivessem juntos.
- Isso é o que dizes. Mas eu vou… Eu vou pensar no assunto – prometeu ele, enquanto saía do meu quarto.
Naquele momento vi uma das coisas mais belas que alguma vez tinha visto.
Pela janela aberta, entrou a única coisa que anula o sentido da visão no olhar e que promove, ao invés, o tacto deste. Senti as pupilas contrair, deleitadas com a grande luz. A coisa mais bela que vi foi um raio de sol, parecendo quase de propósito para mim e para o meu espírito, vindo por entre as nuvens escuras e sombrias de Novembro, quase como que uma luz sobrenatural, mas que é enfim possível: a luz de um astro nosso que nos ilumina e inspira, que um dia nos deu a vida.
E esse astro estava a brilhar só para mim, por entre um estreito buraco no algodão saturado e sujo, por entre o ar gelado, direito à minha janela, direito aos meus olhos sonolentos.
Aquela luz aqueceu-me a alma para o resto do dia. Telefonei à Lilith e prometi-lhe que estava tudo bem comigo, telefonei também ao André, que me tinha deixado treze mensagens no telemóvel, e sentei-me à secretária, sem pressas ou medos, a fazer os trabalhos de casa. Acontecimento estranho? Sim. Sobrenatural? Nem por isso.
No dia seguinte voltei à escola, e senti-me quente por dentro, ao ver todas as caras como sempre tinham sido. E no entanto, também não aceitava que tinha enlouquecido por instantes. Eu apenas tinha tido uma alucinação momentânea. Já tinha passado. Fim da história.
Ou talvez não, uma vez que todos aqueles acontecimentos duvidosos permaneciam ainda desligados uns dos outros, tal como num filme de terror de péssima qualidade.
Podia chorar de felicidade quando vi a Lilith e o André, tal como me lembrava deles.
- Mia! Estás bem? – perguntou-me logo a Lilith. Também outros dos meus colegas de turma me perguntaram como me estava a sentir. Pareciam todos muito preocupados comigo, o que é perfeitamente compreensível, imaginando o meu estado no dia anterior.
Ainda assim, sentia-me bem-disposta, como se nada tivesse acontecido ou antes, como se me tivesse feito mais forte o choque do dia anterior.
A parte má é que era dia de Biologia e a minha prima e a Loira iam estar presentes.
Sentei-me com a Lilith na nossa carteira habitual. Falávamos d’Os Lusíadas, e de como Camões tinha menosprezado as mulheres na sua obra. Tanto eu como a Lilith éramos bastante feministas, mas isso seria já de esperar a partir do diminutivo da Lilith: Lilith foi a primeira mulher de Adão, que fugiu do Paraíso porque Adão se achava superior a ela. Isto veio a provar-se verdade, uma vez que graças à falta de personalidade de Eva, as mulheres foram submissas aos homens durante milénios. Tanto eu como a Lilith nos considerávamos descendentes de Lilith e não de Eva.
Filhas de Eva seriam, provavelmente, a Loira e a minha prima, que entraram naquele momento na sala. O Sérgio não vinha com elas, ao contrário do que seria de esperar.
Elas riram-se muito, enquanto passavam atrás de nós, como se gozassem uma qualquer piada secreta. Sentaram-se juntas e continuaram a cochichar como meninas de cinco anos divertidíssimas com as coisas mais estúpidas imagináveis.
Por um momento, senti-me gelar ao ouvir a Loira dizer “Dizem que ela estava assustadíssima. Que parecia que estava a olhar para um monte de monstros”. E depois riu-se de novo.
Seria possível que ela soubesse? Seria possível que o meu segredo tivesse sido descoberto?
Claro que não. Era impossível. Ou não? Teria sido assim tão óbvia?
Entretanto, a Matilde e a Loira continuavam aos risinhos irritantes, o que me fazia sentir mal de alto a baixo, uma vez que eu sabia qual era o assunto da conversa.
Felizmente, a stôra de Biologia fez o favor de as mandar calar.
- Escrevam, então, o sumário: A hereditariedade – mas neste momento foi interrompida pela entrada do Sérgio, que apesar de pedir desculpa, não parecia muito interessado em ser desculpado pela stôra, mas antes de olhar para o meu lugar, tendo perceber se eu estava presente, ou se eu estava bem, ou que raio se passara. Senti-me comovida, ainda que possivelmente ele só tivesse olhado por uma questão de curiosidade e não de preocupação. Espantosamente, ele não se sentou na carteira óbvia: a única disponível junto à da namorada, mas na carteira ao lado da minha, do meu lado, de forma a que houvesse apenas um corredor a separar-nos.
A stôra acabou de ditar o sumário e começou a dar a matéria. Já tinham passado quarenta minutos desde o início da aula quando alguém bateu à porta.
Era o Artur. Não parecia cansado, como estaria se tivesse vindo a correr, por vir atrasado. Contudo, parecia ligeiramente desorientado. Sentou-se, hesitantemente, ao lado do Sérgio, provavelmente porque era o lugar livre mais longe da minha prima. O Sérgio tirou a mochila dele de decima da mesa e perguntou-lhe, não baixo o suficiente para eu não ouvir:
- Então, onde andaste?
- Tive a fazer umas cenas… Umas cenas que tinha para fazer.
A frase em si era redundante e ridícula, mas a forma como o disse só fez aguçar em mim a curiosidade. Mas, aparentemente, não no Sérgio, uma vez que ele se calou e não fez mais perguntas, começando antes a contar piadas não muito discretamente, motivo pelo qual mais tarde a stôra o mandou calar e, cinco minutos depois, o ameaçou mandar para a rua como se fosse um miúdo de quinto ano e não de décimo segundo.
A própria Lilith foi ameaçada de ir para a rua por não parar de tecer comentários sarcásticos em voz alta sobre a matéria. Mas há que admitir. Metiam piada quando era ela a tecê-los.
- A propósito, queres ir hoje ao cinema ver a estreia daquele filme novo, A Luz Intermitente? É de terror, e este não tem casa nenhuma assombrada, que eu verifiquei. O diabo para as casas assombradas. São sempre casas assombradas! Não, este é sobre outra coisa qualquer. Mas queres ir ver? – indagou a Lilith, de tal forma entusiasmada que não me deixou qualquer alternativa se não dizer-lhe que sim.
Quem me dera ter-lhe dito que não.
Mas não podia saber.
Nessa noite, fomos ao centro comercial da cidade e fomos ver A Luz Intermitente na única sala do cinema, só as duas porque o André não tinha querido vir e também os outros colegas que convidáramos se tinham desculpado com o facto de no dia seguinte haver aulas. Tentei persuadir a Lilith a irmos no dia seguinte, mas ela estava determinada a ir ver a estreia.
Nós vivemos numa cidade pequena. Assim, a sala não tem mais de cinquenta lugares. Os bancos estão já todos muito gastos e não há melhor cenário para se ver um filme de terror do que aquela sala. Estávamos já sentadas quando o Artur entra na sala, completamente sozinho, e se senta na única fila atrás de nós.
- Que estás a fazer aqui? – perguntei eu, sem me conter, em simultâneo com o desligar das luzes.
- O mesmo que tu. Porquê, não posso? – o tom da voz dele era agressivo. Não percebia como é que eu sonhava com aquela avestruz-macho de altura anormal.
- Que simpático que tu és – comentou, secamente, a Lilith – Aposto que se fosse com uma daquelas meretrizes – mas ela não disse “meretrizes” – já eras todo delico-docinho, querido. Mas claro, tu és um daqueles gajos que passam os intervalos de cigarro pendurado na boca, tipo o mesmo efeito que as plumas davam aos chapéus das senhoras há uns séculos atrás, mas claro, as plumas não matavam, só os espartilhos; e depois tens sempre os teus phones pendurados só para o estilo, e de preferência com a música bem alta para toda a gente ouvir o bom gosto que tens – por esta altura, já estavam a dar os trailers – e andas sempre com esse ar incauto e de desprezo, só para depois poderes mandar bocas dessas a gajas porreiras que não te interessas em conhecer só porque não usam soutien copa C!
Há que explicar que, apesar de ser uma estreia, o cinema estava vazio. Não estava mais ninguém na sala de cinema se não nós, ou provavelmente teríamos sido expulsos, os três, ou pelo menos eles os dois, porque no fim deste enorme discurso da Lilith, o Artur, feito palhaço, só foi capaz de proferir:
- Mas que – censura – é essa agora? Deves achar que sabes tudo sobre mim, não é? Pois deixa-me dizer: tu não sabes o – censura – sobre mim! E portanto cala a boca porque a tua amiguinha é que me perguntou o que estou a fazer aqui… Ora bem, para uma pergunta parva, uma resposta a condizer!
Não gosto que a Lilith fale por mim, principalmente porque é sempre este tipo de respostas que recebo, tal como um cubo de gelo muito molhado deslizando-me pela traqueia… Engasgo-me, eventualmente, e sinto-me muito mal. Mesmo muito mal.
- Sabes uma coisa, Artur? A pergunta não é parva. O que queria perguntar é porque vinhas ao cinema sozinho. Cada vez me pareces mais parvo e antipático. Pois bem, não sei porque acabaste com a minha prima. Obviamente, merecem-se um ao outro. E nada mais.
E virei-me para a frente, porque o filme já tinha começado.
E querem saber uma coisa? De cada vez que um monstro aparecia no ecrã, ou de cada vez que alguém aparecia coberto em sangue, eu e a Lilith riamo-nos como perdidas. E nem uma só vez pensei nas alucinações do dia anterior, ou sequer no idiota que estava sentado na fila atrás.
Mas quando a última face assustadora desapareceu do ecrã, para dar lugar aos créditos finais, tudo isso voltou de rompante.
Porque quer a Lilith quer o Artur tinham desaparecido. Eu estava absolutamente sozinha na sala de cinema.
domingo, 15 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
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