Por alguns momentos, fiquei ali, estática, como se pudesse fazer rewind ao que acabara de ver e nada tivesse acontecido.
Depois, recuperei o controlo do meu corpo e da minha mente e gritei… Muito alto, mais alto até do que na quarta-feira durante o teste de Matemática. Gritei tanto que o meu grito ecoou por toda a paisagem deserta e escura. Gritei até que a minha garganta doía tanto que já nem era capaz de gritar mais. E ainda assim, gritava. Apenas não saía qualquer som.
Ajoelhei-me ao pé do Artur. Tinha-o detestado por tanto tempo… Nunca imaginara que, na verdade, tinha sentimentos por ele. Não sabia que ele sofria.
E agora tinha morrido. Por minha culpa. Puxei-o para o colo e beijei-lhe os lábios. Não sei quanto tempo estive assim, com ele. Podiam ter passado horas, mas suponho que nem uma única tenha passado.
Porque no momento seguinte, senti-o começar a respirar de novo contra a minha face. Senti o coração alegrar-se e aliviar-se dum fardo tamanho. Tinha pensado coisas do meu tio… Tantas coisas más… Mas de facto ele tinha referido dormência. Esquecera-se de falar da aparência morta.
Mas nada disso interessava, porque o Artur estava a ressuscitar. Ou antes, a acordar, porque ele nunca estivera morto de verdade.
Ele abriu os olhos escuros.
Mas eles não tinham expressão. Tal como durante todos aqueles dias em que fora indelicado comigo.
- Mas quem raio és tu? – foram as palavras que me disse, ainda deitado no meu colo.
Esta pergunta gelou-me de alto a baixo e baixo acima dez vezes antes de poder responder devidamente, ainda com a voz trémula de tanto gritar:
- A Emília, não te lembras de mim?
- Emília? Não. Porquê? Devia?
E após estas palavras, levantou-se, como que furioso, como se tivesse acordado em brasa, e sacudiu as roupas, impaciente.
- Não me lembro de como vim aqui parar.
- Não te lembras? Não te lembras como? – perguntei. Não estava a gostar nada daquilo. Deus sabe o que teria acontecido comigo se tivesse bebido aquilo, ou ao Sérgio. O meu tio ia ter tanto que explicar da próxima vez que o visse… Mas estava com um pressentimento tão terrível, que começava a desconfiar de que alguma vez o voltasse a ver, a ele ou a qualquer pessoa.
- Não me lembro. Mas olha para isto, como eu me sinto! Parece que nasci outra vez! – dizia isto com um entusiasmo que me assustava. Quem quer que fosse aquela personagem, não era o Artur consciente que eu vira há apenas minutos (ou horas?) atrás. E aquele Artur estava a deixar-me quase tão aterrorizada quanto o antídoto tinha deixado o Artur inicial. Mas eu estava-me a esforçar para esconder os meus receios. Porque pressentia que desse fingimento dependia a minha vida.
- E como qualquer recém-nascido, adivinha só, estou a morrer de fome!
Este foi o instante em que comecei a correr pela minha vida. Se o Artur me ia comer viva não era exactamente algo que ia tentar descobrir.
Uma coisa boa era que, tivesse-se o Artur transformado em o que quer que fosse, corria ao mesmo ritmo que de costume. Corria atrás de mim, tão rápido quanto um rapaz da altura dele pode correr.
Mas eu era boa a correr. Há coisas a que sou muito má. Tal como por exemplo, falar em inglês ou resolver equações de Física. Mas depois, há outras que faço muito bem. Desenhar plantas e correr são duas das minhas aptidões.
Assim, corri o mais que pude. A vida era um incentivo mais que suficiente.
Nem sei como corri tanto, mas num minuto estava de volta ao Vendredi e o Artur não estava por perto.
Parecia que tinha desaparecido outra vez.
E eu não tinha conseguido arrancar dele as respostas todas que tinha querido. Ao invés, podia-se dizer que tinha:
a) Descoberto que gostava imenso dele;
b) Descoberto que ele também gostava de mim;
c) Visto o Artur morrer;
d) Visto o Artur renascer e tornar-se um vampiro.
Ponto global da situação? Não muito bom.
Escondi-me na casa de banho e telefonei ao JP para me vir buscar. Não queria ir sozinha para casa, e parecia-me que o Artur estava bastante motivado para me comer pela ceia. Não expliquei ao JP o que acontecera. Pedi-lhe para trazer a mota.
Ele cumpriu. Ninguém nos perseguiu. Quando chegámos a casa, exigiu uma explicação. Menti-lhe, dizendo que tinha começado a pensar no que acontecera à Lilith e ficara com medo de andar sozinha. Ele pareceu ficar convencido. Deitei-me, mas não dormi. No dia seguinte havia aulas. Não sabia como as ia aguentar. Afinal de contas, agora sabia muito mais, e de alguma forma, sabia também muito menos.
Penso que peguei no sono várias vezes durante essa noite. Sonhei que o Artur me dava beijos de boa noite. Sonhei que o meu tio Júpiter era um grande rinoceronte disfarçado todos estes anos. E sonhei também que o Artur falava comigo, dizendo-me:
- Emília, acredita no que quiseres, mas eu amo-te. Apesar de tudo o que possa acontecer, de tudo o que aquela besta com o meu corpo possa querer fazer de ti, a verdade é que te amo e que houve tempo na minha vida para me aperceber disso. Esses últimos instantes contigo, de certa forma, salvaram-me a existência. Tu foste a minha vida, por uns segundos.
E eu respondia-lhe coisas bonitas. Dizia-lhe muitas coisas bonitas. Dizia-lhe para não se preocupar, que também o amava e que o ia trazer de volta. Mas ele não as aceitava e respondia-me:
- Não, Emília, não me podes salvar. Estou destinado a morrer todos os nasceres do sol e a nascer de novo ao pôr-do-sol. É como vai ser. Não lutes contra isso. Impede-me apenas de te magoar a ti e aos teus. Desculpa não te ter dito tudo o que querias saber. Não houve tempo.
E esse sonho pareceu-me, por momentos, um corolário sangrento que se viria a repetir muitas noites depois.
domingo, 15 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
E ora ali está a palavra vampiro...
ResponderEliminarBem, acho que por esta altura é já bastante evidente que desisti de não usar a palavra. Era talvez a forma mais fácil da Emília se referir ao tipo de criatura que o Artur se tornou... Em todo o caso, posso modificar se alguma vez reformular o texto. :)
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