Por um instante, fiquei petrificada, na cadeira, enquanto os créditos passavam e as luzes da sala se voltavam a acender. Contudo, após uns instantes retomei o controlo da minha pessoa e saí da sala. Perguntei se alguém tinha saído, se era possível sair sem eu dar por isso (como é que a Lilith podia ter saído sem eu dar conta?).
Ninguém me dava respostas satisfatórias. Podiam ter saído ou não, ninguém controlava as saídas, só as entradas. Foi então que tive uma ideia brilhante (ou não): lembrei-me de telefonar à Lilith. Telefonei-lhe, então, conseguindo marcar o número apenas à terceira tentativa, porque a pressa me traía os movimentos.
Ouvi, com familiaridade, o aterrorizador tom de espera da Lilith, que naquela situação encaixava ainda mais perfeitamente que de costume.
Tocou, várias vezes. Mas ela não atendeu.
Voltei a ligar. E, de novo, o tom personalizado da Lilith era tudo o que se ouvia. Nem um só atender.
Mas eis que, por um momento, ouço o som inconfundível do verdadeiro toque da Lilith. O telemóvel, pelo menos, não estava longe. E à medida que escutava, mais próximo me parecia o som. Até que aparece um dos funcionários do cinema com ele na mão, obviamente à procura do responsável.
- Desculpe, sou eu que estou a telefonar para esse telemóvel. Onde estava?
O funcionário pareceu confuso, um momento, antes de explicar:
- O telemóvel estava no chão, numa das filas de trás.
Um sentimento vertiginoso percorreu-me a espinha e, com urgência, marquei o número do Sérgio, que apesar de ter apagado dois anos atrás, ainda sabia de cor.
Ele atendeu ao terceiro toque.
- Sérgio, olá, é a Emília. Isto pode parecer estranho, e eu sei que é estranho, mas podes dar-me o número do Artur?
- Emília – e um tom de hesitação revelou-me que ele estava tão surpreendido como era de esperar – Sim, tenho o número dele. Espera só um instante… - e depois deu-me o número.
- Obrigada – disse, quase que numa só sílaba, antes de desligar e clicar na tecla de chamada desesperadamente. Novamente, dava sinal de chamada, mas ele não atendia. Desta vez, o telemóvel não estava na sala de cinema.
Se tivesse sido só o Artur, eu não me teria importado, mas quando a minha melhor amiga desaparece com ele, eis que o meu interesse por ele sobe a pique.
Porque aquilo não podia ser uma partida. Não era o tipo de humor da Lilith.
Foi por isso que, de seguida, corri para a casa da Lilith. A Lilith vive num segundo andar junto ao tribunal. Quando toquei à campainha, foi o pai dela que me atendeu. Parecia ensonado e vagamente irritado.
- Quem é? É meia-noite.
- Boa noite. É a Emília. A Liliana está em casa? É que estávamos no cinema e ela… de repente já lá não estava.
Uma leve pausa pareceu-me eternidades. Foi nesta altura que confirmei a minha suspeita de que ela não estava em casa.
- Não, ela ainda não veio para casa. Como dizes, ela desapareceu do cinema? Espera aí um bocado, que eu vou descer.
Aqueles três minutos em que estive à espera, cá em baixo ao frio, pensando o que teria acontecido à Lilith, foram os mais longos da minha vida. Após a ter recuperado, depois da minha alucinação, tal como ela era, e depois do alívio extremo, eis que a perdia outra vez, de debaixo do meu nariz, ou antes, do banco do lado.
Às vezes penso que não há nada que a escuridão não leve. Leva o sol, aquele sol que me tinha feito tão feliz na tarde anterior, leva os dias, os dias em que vivemos, porque tudo o que existe é o que vivemos e, agora, levava-me a Lilith, que era a única amiga minha em quem confiaria qualquer coisa. Arrependia-me de não lhe ter dito das minhas suspeitas, das assombrações, por Deus, até das alucinações.
Agora, estava sozinha, porque ela tinha desaparecido, inexplicavelmente, com o Artur, o idiota a quem tinha chamado parvo e antipático horas antes, e que de quem agora não havia uma única pista.
Como é que duas pessoas desaparecem duma sala de cinema tão pequena? A Lilith riu-se comigo o filme todo… Até… Não sei bem quando deixámos de nos rir, mas provavelmente a partir de metade, quando começámos a ficar devidamente concentradas.
Passados os tais três minutos, estavam ambos os pais da Lilith cá em baixo, vestidos ainda que despenteados, no caso da mãe da Lilith, e com um ar visivelmente preocupado. Seria de esperar que os pais de uma rapariga como a Lilith, cheia de piercings, cabelo pintado de preto sempre penteado de forma estranha e roupas na sua grande maioria negras, fossem pais pouco interessados, e que a aparência da filha apenas reflectisse o seu comportamento. Não é, de todo, o caso. Os pais da Lilith são provavelmente os pais mais presentes imagináveis, ainda que bastante permissivos na maior parte dos casos. Ainda na semana anterior tinham posto a Lilith de castigo, mas tinham-no feito por justa causa, como, de resto, faziam sempre.
- Olá, Emília – cumprimentou-me a mãe da Lilith, lívida, como se já soubesse aquilo que eu sabia – Diz-me o que aconteceu…
- A Lilith… Desapareceu. Estava no cinema e… no fim, ela já lá não estava. Ela e outro rapaz, o Artur, que estava na fila de trás…
- Artur? Quem é esse… Artur? – perguntou o pai da Lilith, visivelmente desconfiado – Achas que ela pode ter saído com esse… Artur?
- Não, não acho. Ela nem sequer gostava dele. Nós as duas tínhamos… Discutido com ele antes do filme.
- Achas que ele é, então, o responsável pelo desaparecimento da Liliana?
Por um momento, este pensamento atingiu-me como um tiro. Um tiro que não se vê de onde veio, mas que apenas nos apercebemos da dor… Por um instante, não sabemos o que aconteceu, e mais tarde, pensamos que talvez tenhamos levado um tiro.
Poderia o Artur ter feito alguma coisa à Lilith? Ele nunca tinha sido muito simpático, e já tinha provado como ele só fazia o que queria. Mas raptar a Lilith? Fazer-lhe mal? Não conseguia acreditar. Mas quais eram as alternativas?...
- Eu… Eu não sei! Só sei que desapareceram, e o telemóvel dela estava caído no chão na sala de cinema, ele também não atende… Não sei! Só sei que alguma coisa de errado se passou, e não percebo o quê!
Foi neste momento que comecei a chorar. Tentava não o fazer, mas a minha melhor amiga tinha desaparecido, e eu não sabia o que tinha acontecido com ela. Pensar que podia… Ter feito alguma coisa, salvá-la, talvez. Ter uma resposta. Precisava de uma resposta, mas provavelmente, a única pessoa que tinha uma era eu própria… E eu não a conseguia encontrar. Estaria eu novamente num momento de alucinação? A sonhar?
Não, não podia estar a sonhar. Havia muito mais pelo que sonhar que aquilo.
E nada fazia sentido! Como é que de a Loira morder o dedo do meu ex-namorado tínhamos chegado ao ponto em que a Lilith e o Artur tinham, simplesmente, desaparecido? Senti-me com tonturas, e chorava desalmadamente. A mãe da Lilith tocou-me ao de leve no ombro e disse, calmamente:
- Não te preocupes, vamos encontrá-la. A culpa não é tua.
E de algum modo, estas palavras fizeram-me ficar mais calma. Sossegaram-me em parte porque a mãe da Lilith não me tomava como culpada do desaparecimento da sua filha, o que até poderia ser compreensível. Mas em vez de me culpar, ela tentava aliviar a minha dor embora estivesse, obviamente, também ocupada a acalmar a sua.
Fomos depois, os três, para o cinema de novo. Talvez não adiantasse de nada, mas alguma coisa tinha de ser feita. Além disso, o telemóvel da Lilith ainda estava com o funcionário do cinema.
Entretanto, a minha mãe telefonou-me, preocupada, porque ainda não chegara a casa. Expliquei-lhe o que tinha acontecido, e também ela veio, com o meu pai e o JP, para ajudar a procurar a Lilith.
Pela altura em que eles chegaram, até a mãe da Lilith, calma, aparentemente, desde o início, tinha chegado ao estado em que não conseguia conter as lágrimas. Chamou-se a polícia.
Alguém se lembrou que seria uma boa ideia tentar contactar, também, os pais do Artur. Contudo, ninguém atendeu em casa.
Naquela noite, fui para casa apenas às cinco da manhã, mas não dormi nada. Não havia qualquer rasto da Lilith ou do Artur e eu não fui capaz de desfazer o nó que tinha no meu peito, embrulhado por remorsos e arrependimentos.
Às sete da manhã, o JP veio ao meu quarto e descobriu-me sentada na cama, de olhos vidrados.
- Presumi que também não tivesses conseguido dormir.
Não lhe respondi, e assim ele só disse mais uma frase antes voltar a sair do meu quarto:
- Sabes… Nunca lhe cheguei a pedir para sair comigo outra vez.
No dia seguinte, na escola, parecia que já todos sabiam do que tinha acontecido. O André veio ter comigo e perguntou-me, a medo, o que acontecera, se eram rumores ou se era verdade que a Lilith sumira.
Disse-lhe, com vontade de chorar, mas segurando as lágrimas, que era verdade.
Todos se mostraram solidários. Até o Sérgio veio ter comigo para me dizer para contar com ele para o que fosse preciso. Disse-lhe o mesmo em relação ao Artur, porque sabia que eram amigos. “Não tão próximos quanto isso”, foi o que me respondeu. Quem ouvisse tudo o que me disseram naquela manhã, pensaria que a Lilith tinha morrido, e não desaparecido.
A minha mãe telefonava à mãe da Lilith todos os dias para saber se havia novidades, e também para a apoiar. Contudo, nada se sabia. Quanto ao Artur, ainda ninguém tinha conseguido avisar os pais dele, uma vez que continuam sem atender o telefone e não se encontravam em casa.
No fim-de-semana seguinte, voltámos a ir a casa do tio Júpiter. Nessa semana não tive tanta sorte, uma vez que a minha adorável prima Matilde decidiu aparecer com a minha tia Daniela e o meu tio Marco. Não tenho nada contra os meus tios, daí que seja surpreendente que aquele casal tenha dado origem a um rebento tão demoníaco.
O meu tio Júpiter cumprimentou-nos efusivamente, tal como de costume. Almoçámos, desta vez empadão. Após o almoço, a minha mãe sentou-se à conversa com a tia Daniela e a minha prima Matilde, enquanto que o JP conversava com o meu tio Marco, sendo ambos mediados pelo meu pai.
Eu estava originalmente sentada ao lado do meu pai, do meu irmão e do meu tio Marco, mas o meu tio Júpiter chamou-me à parte, discretamente, dizendo:
- Vem, Emília, quero mostrar-te uma coisa. Era tão normal que ele me chamasse para me mostrar coisas, ou a mim ou ao JP, que nem liguei muito, excepto para notar no brilho malicioso dos olhos da minha prima Matilde que estava, obviamente, com inveja.
Segui-o para o escritório dele. Quando chegámos, ele fechou a porta e pediu-me para me sentar numa das duas cadeiras que havia na divisão.
O escritório do meu tio Júpiter é provavelmente a divisão mais caótica que se possa imaginar. Eu praticamente não conseguia passar até junto de uma das cadeiras sem pisar algum monte de papéis ou derrubar alguma coluna de livros empilhados.
Ainda assim, pisei as folhas de papel espalhadas pelo chão e sentei-me na cadeira. O meu tio não se pareceu importar com isso.
E de súbito, lembrei-me da nossa conversa da semana anterior.
- Tio, e isto é sobre a doença, certo?
- Sim, Emília, é sobre a doença. O teu pai contou-me por telefone que tu estiveste ligeiramente adoentada na quarta-feira. O que se passou?
A assumpção do meu tio atingiu-me, de repente, como um trovão. Teria eu contraído a tal doença misteriosa? Teria sido essa a causa das alucinações? Estaria o desaparecimento da Lilith e do Artur secretamente relacionado com isso?
Raios, a ciência funciona mesmo de formas misteriosas!
- Tive alucinações. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Estou infectada!
- Calma, Emília – disse o meu tio – Não sabemos se isso é verdade. Mas por via das dúvidas… Eu tenho um pré-antídoto. Toma-o hoje à noite, mas não deixes que ninguém saiba do assunto.
- Um pré-antídoto? Como? – estava confusa, muito confusa, diria até. O meu tio disse-me que estava a trabalhar no assunto. Mas dum momento para o outro ele arranjou um antídoto? Como era isso possível?
- Eu disse-te que estava a trabalhar no assunto… Agora cheguei finalmente a algumas conclusões. Verifica apenas que ninguém sabe disto.
- Sim, tio. Mas é seguro?
- Claro que sim, Emília. Achas mesmo que te daria alguma coisa que te pusesse em perigo?
Havia um brilho nos olhos do meu tio Júpiter, um brilho estranhíssimo, que eu nunca tinha visto. Não era o brilho que ele tinha nos olhos quando se ria ou contava uma piada. Eram os olhos de quem falava a sério, de quem tinha feito uma enorme descoberta que podia pôr em risco muita gente.
Seria possível? Tudo conectado por um vírus? Onde é que encaixava o desaparecimento da Lilith? Tinha ela também sido infectada? Tinha o vírus feito com que ela agisse daquela forma?
- Tio, uma pergunta. Como é que o vírus se propaga?
- Pelo sangue. Lembras-te de alguém se ter cortado ao pé de ti? Pode ser importante, para descobrirmos quem está infectado.
Por vários momentos, nada. Não me lembrava de alguém se ter cortado. Não me lembrava de ter tocado no sangue de quem quer que fosse.
- Eu… Eu não me lembro.
- Deixa estar, também é possível que tu não estejas infectada. Em todo o caso, leva o antídoto. Toma-o esta noite. Funciona melhor se for administrado antes dum período de sono, porque te pode deixar algo dormente.
Estendeu-me uma pequena garrafa com uma rolha de cortiça e um líquido turvo lá dentro. Não eram mais de dez centilitros, com certeza.
- Não sabe muito bem, mas vai fazer-te bem – garantiu o meu tio.
- Obrigada – disse, antes de irmos os dois para a sala. Consegui evitar a Matilde durante o tempo todo que durou a visita e ainda consegui perceber que ela se estava nas tintas para o desaparecimento do ex-namorado. Inclusive, ela não me dirigiu a palavra o tempo todo, limitando-se a sorrir para os meus pais e o tio Júpiter. Também não prestou qualquer atenção ao JP, e ele obviamente não se importou com isso.
Passadas umas horas, fomos para casa. Não voltei a pensar no antídoto até já serem nove da noite e estar sozinha no meu quarto, deitada na cama. Apenas nessa altura pensei verdadeiramente no significado de eu ter contraído aquele vírus. Dei voltas e voltas a todos os meus pensamentos, procurando uma forma de ter sido contaminada. Não me lembrava de ter sangrado, ou de alguém ter sangrado ao pé de mim, excepto a Lilith, na minha alucinação. Podia acreditar que não tinha sido uma alucinação ou continuar a tentar lembrar-me de qualquer outro momento em que eu tivesse entrado em contacto com o sangue de outra pessoa.
Mas não me lembrava.
Contudo, não podia simplesmente acreditar que os meus colegas tinham sido todos, por umas horas, monstros saídos numa novela de ficção científica, ou pior, saídos de A Luz Intermitente. Não tinha qualquer lógica. A menos que…
Tinha havido outro momento em que tocara o sangue de outra pessoa. Eu tinha tocado no sangue do Sérgio, naquela manhã em que nos tínhamos encontrado e em que a trela da Falbala lhe tinha reaberto a ferida que a própria namorada lhe tinha provocado na noite anterior.
E eu tinha tocado o sangue dele. Com as minhas próprias mãos esfoladas.
Agarrei na pequena garrafa e pu-la numa carteira ao acaso, que trouxe comigo para a sala. Passei pelos meus pais, que naquele dia estavam em casa cedo, uma vez que era Domingo. Disse-lhes que ia sair. Eles não protestaram, porque sabiam que eu ainda estava perturbada com o desaparecimento da Lilith. Devem ter deduzido que ia ter com o André para apoio moral, ou assim. Não fizeram muitas perguntas.
Caminhei depressa, e em cinco minutos estava no Vendredi. Não era sexta-feira, mas o bar estava apinhado como se o nome nada significasse.
Caminhei entre a multidão, procurando o Sérgio. Não havia forma de ele não estar ali. Ele saía sempre que possível, porque era quase fisicamente incapaz de passar um dia sem ali ir. O que é que lhe ia dizer? Não sabia. Mas penso que provavelmente ia simplesmente forçá-lo a beber parte do antídoto. Afinal de contas, havia mais probabilidades da doença se propagar menos depressa sendo que eu estivesse contaminada, mas com a consciência do facto que ser o Sérgio o contaminado sem de nada saber. Esse era o motivo que dava a mim própria para o que ia fazer.
Contudo, havia outro motivo que não desistia de se interpor na minha mente como uma terrível maldição.
E no momento em que reprimia esse motivo, vi o Sérgio, sem a Loira (graças aos céus), junto ao balcão.
Dirigi-me para lá, mas ao passar junto a uma reentrância escura na parede, uma mão saiu da sombra e impediu-me de prosseguir agarrando-me pelo pulso.
O meu impulso imediato foi tentar-me libertar do aberto e gritar ao imbecil que me tivesse agarrado que me largasse. Contudo, todos os gritos morreram-me na garganta quando a cara pertencente ao mesmo conjunto corporal que a mão saiu também das sombras.
- Artur.
- Emília – respondeu ele, com um deleite tremendo. Os olhos dele continuavam impenetráveis, mas os lábios curvavam-se num sorriso completo.
Ele estava a gozar comigo com todos os traços da cara.
- O que estás a fazer aqui? Onde está a Lilith? – a raiva notava-se em todo o timbre da minha voz, mas eu não queria saber. A minha melhor amiga tinha desaparecido com este mesmo rapaz que agora não me largava o pulso, mesmo quando o objectivo inicial do gesto já tinha sido cumprido. Assim, acrescentei – Larga-me o pulso.
Mas ele não obedeceu, agarrando-o ainda mais, como se me quisesse fazer parar a circulação simplesmente por premir os meus vasos sanguíneos do pulso com toda a força.
- Tudo a seu tempo. E se fôssemos até lá fora? – sugeriu, com o mesmo tom com que sugeriria “E se hoje comêssemos comida vegetariana, para variar?”.
Esqueci-me, por instantes, do Sérgio e da doença, e saí com o Artur. Tudo o que podia pensar era que só queria destruir-lhe as feições e fazê-lo sofrer, porque provavelmente ele não fazia ideia do que se estava a passar desde o desaparecimento dele e da Lilith, ou não estaria no Vendredi com todo o pacifismo, como se nada se passasse.
Porque a verdade era, algo se passava, e era algo muito, muito errado.
Mas quando chegámos cá fora, ele não parou de andar.
- Onde vamos?
- Para longe daqui e de todos.
- Para quê? Vais-me assassinar? – indaguei, com o meu tom mais sarcástico. Ele não estava a ser nada esclarecedor, e eu jamais o seguiria para lado algum, se não fosse pela Lilith. Mas ela continuava desaparecida, e eu tinha de fazer alguma coisa por ela. Assim, segui-o para o escuro e para longe de toda a gente que me pudesse salvar em caso da coisa se tornar feia. E eu sabia, a coisa ia tornar-se feia. Eu não confiava naquele Artur mais do que na minha prima ou na Loira. Na verdade, com elas eu sabia o que esperar. Do Artur, só podia esperar surpresa. Que o provassem os olhos dele que se mantinham sempre iguais, fosse qual fosse o momento.
- Não te vou assassinar, embora quando te pões com esses comentários irritantes me dê muita vontade de o fazer.
- A sério? Sentimento recíproco. E estás a ver, esses teus olhos escuros com todo o style possível, como se fosses incapaz de ter emoções e, sei lá, ser uma pessoa… São provavelmente o traço mais irritante em ti.
Ele riu-se, o que me surpreendeu. Depois de se rir, parou. Estávamos muito longe. Estava muito escuro, mas o brilho da lua era o suficiente para vermos. Os nossos olhos já se tinham adaptado à escuridão. E, assim, ele olhou directamente para mim.
- Achas mesmo que não tenho emoções? Nem agora, enquanto estou a olhar directamente para os teus olhos? Não imaginas aquilo em que estou a pensar?
E o mais curioso foi que, naquele momento, consegui ver. Consegui imaginar aquilo em que ele estava a pensar. O que vi não me assustou. Não como dantes assustava. Ele nunca fora capaz de olhar para mim ou falar comigo sem fazer notar que me desprezava. Porém, naquele instante, não era desprezo que via. Antes pelo contrário.
Vi o beijo ainda antes de ele acontecer. Contudo, não muito antes. Apenas no instante que precede qualquer tomada de decisão impetuosa, brusca, não premeditada. Porque quando os nossos olhos se conectaram, assim, foi como se ele se tornasse uma canção que bastava escutar para ouvir. Eu olhava para ele, ele olhava para mim. E eu via o que ele via. E eu vi nos olhos dele a decisão quase nem decidida no mesmo instante em que ele pensou nisso. Ou talvez estivesse apenas a ler a minha própria decisão brusca espelhada nos olhos dele. Não sei em que olhos brilhou primeiro a vontade. Sei que o beijei exactamente no mesmo instante em que ele me beijou.
Não sei porque o fiz. A verdade é que beijar o possível raptor da nossa melhor amiga, beijar um rapaz que nunca foi nada para nós que não alguém que nunca nos ligou por um instante, a não ser para ser ofensivo.
Ainda assim, havia o momento em que ele tinha contado a verdade na aula de Biologia. Havia o momento em que me oferecera um cigarro e se sentara no banco junto a mim. E depois, bem, depois haviam os sonhos.
Não foi um beijo lento e longo. Foi um beijo súbito, rápido, como se tivéssemos os dois medo de que o momento passasse sem darmos por isso, e que o momento passasse. E não durou muito. Durou apenas o suficiente para os nossos braços se agarrarem a um e a outro e, para depois, se separarem também muito depressa.
Dir-se-ia até que a quebra do beijo fora como um enorme choque eléctrico que prosseguia enquanto nos tocássemos. Então, parámos de nos tocar. Afastamo-nos pelo menos três passos um do outro.
E olhámos de novo um para o outro. Contudo, desta vez, não houve qualquer decisão em nenhum par de olhos, mas apenas uma expectativa, uma alienação assustadora. Por amor de Deus, eu vi-o olhar para mim com medo de mim! Ele, que fora sempre aquela pessoa extremamente forte, incapaz de expressar emoções…
Fui eu que quebrei aquele instante, ainda que me tenha custado imenso. Não deixei que isso notasse na minha voz.
- Onde está a Lilith?
Ele pareceu hesitante. Avançou ligeiramente na minha direcção, como que chegando à conclusão de que era seguro. Contudo, não respondeu de imediato.
- Não sei ao certo. Emília… Há alguém por detrás de tudo isto. Eu sei que tu deste conta de todos os acontecimentos estranhos que têm acontecido ultimamente.
- Sim, eu sei. Por amor de Deus, nem sei como é que a Lilith não deu por eles.
- Essa é a questão. Ela deu. Apenas não te quis preocupar, porque achava que tu também estavas a ser vítima do que quer que fosse que estivesse a acontecer, e que não tinhas percebido.
Esta informação tomou-me de surpresa. A Lilith sabia? E eu não tinha sabido que ela sabia? Teríamos, de facto, passado este tempo todo a conspirar nas costas uma da outra?
- Ela sabia?
- Ela sabia – confirmou ele – Portanto, fizeram-na desaparecer.
- Fizeram-na desaparecer? Quem? – perguntei, em chamas, como se todas as minhas perguntas tivesse, afinal, respostas.
- Não te posso dizer. Infelizmente, eu tive responsabilidade no desaparecimento da Lilith, mas se soubesse na altura o que sei agora, não o teria feito – soltou um palavrão, para ilustrar a raiva que sentia contra si mesmo – Jamais o teria feito! Eu sei que pareço um gajo parvo o tempo todo, mas eu não sou assim, Emília… Não sou… Prometo-te que eu sou um gajo decente, ainda que fume e que ande para aí a falar torto com gajas porreiras como tu e a Lilith… Meti-me nesta porcaria e nem sei como sair.
Estava a olhar para ele como se o estivesse a ver pela primeira vez. Alto, olhos escuros, cabelos castanhos pendendo-lhe para todos os lados à volta da cabeça. Um sorriso lindíssimo.
Mas agora via que ele era tão mais que isso… Naquele momento, já chorava. Ao vê-lo assim, os meus olhos começaram a gotejar também. Mas ele continuava a falar.
- E tu és tão linda… Emília, não sei como é que o anormal do Sérgio não te perseguiu como um maníaco depois de teres acabado com ele por causa de um pacote de pipocas! – nesta altura, quase pareceu rir, por entre as lágrimas – E quando me vieste agradecer por aquilo… Eu fui um anormal. Acho que estou doente. Eles chegaram-me ao cérebro…
E foi naquele momento que percebi que também ele estava infectado com o tal vírus que apenas o tio Júpiter conhecia. Apenas nele os efeitos não eram tão evidentes. A não ser que o facto de me ter beijado fosse um sintoma, o que, sinceramente, esperava que não fosse.
Não sabia quais os meus sentimentos por ele. Naquele momento, quase parecia que nem o conhecia.
Ainda assim, acendeu-se na minha mente uma lâmpada que me disse: “Não, não vais dar o antídoto ao Sérgio. Vais dá-lo ao Artur. Ele está obviamente em maior sofrimento”.
E a decisão estava tomada. Chorávamos ainda os dois quando tirei a pequena garrafa da carteira e a estendi ao Artur. Disse-lhe:
- Bebe.
Ele olhou para mim com desconfiança, por breves instantes. Via-se que ainda estava com medo.
- O que é?
- Bebe, vai fazer-te bem. Deram-mo para mim, mas penso que precisas mais dele.
Após olhar um pouco mais para a garrafa, como que tentando tomar uma decisão, ele ergueu-a. O líquido esvaziou-se lentamente, sugerindo uma consistência muito densa.
Pela careta do Artur, o antídoto devia saber mesmo muito mal.
- Agora espera que faça efeito – disse – Não sei quanto tempo é que o antídoto demora a fazer efeito…
Naquele momento, a expressão facial dele tornou-se pedra. Nunca a vira tão vívida e tão emocional. Se dantes tivera medo, agora parecia aterrorizado.
- Antídoto? Antídoto para quê? Quem te deu isto?
- O meu tio… Ele diz que todos estes acontecimentos se devem a uma doença qualquer… Ele deu-me esse remédio, disse que ia impedir que voltasse a ter alucinações.
- Tu tiveste alucinações? Emília… Estou com um sentimento muito mau acerca disto… Não me estou a sentir…
Após estas tentativas de encetar frases, ele afastou-se um pouco e tentou, em vão, deitar o líquido cá para fora.
Dentro de mim, qualquer coisa se começava a partir. E fosse o que fosse, era tão cortante como os pequenos vidros da janela que se partira sobre mim.
- Oh, Deus – disse o Artur. Depois disto, estendeu a mão para mim, como se me quisesse enlaçar, e quem sabe, beijar de novo. Mas nasceu o choque mais profundo nos olhos escuros dele e ele disse – Mataste-me.
Erguia, ainda assim a mão para a minha cara. Mas as forças não deixaram que a mão completasse o seu desígnio e ele caiu de joelhos no chão.
E depois caiu para o lado, imóvel, como se tivesse morrido.
domingo, 15 de novembro de 2009
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Porque é assim que eu estou a ir :) A verde mais escuro são os meus melhores dias. Os dias a vermelho são aqueles em que não cumpri o que devia ter escrito...
eu ja sabia!!!!!!!!
ResponderEliminaro artur e a mia tinham de ter romance, embora o capitulo acabe de forma algo mazinha para eles, mas tu resolves isso de certeza ^^
bem este ultimo momento ta mesmo mt bom :)
Olha, olha, "tu resolves isso de certeza"... xD Não sei não. Vamos ver onde é que isto vai dar...
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